Os navegadores do nome

Eles partiram sem índice logo após o primeiro eclipse.
Atravessaram a duração das águas
cobertos com o frio quente da aventura.
Vestidos apenas de universo
habitaram o avesso do abrigo
– ainda assim, dormiram como santos.

Eles partiram antes da invenção do estilo.
Procuravam arranjos perfeitos de palavras,
tecidos grávidos de sentido.
Não temiam o grito do infinito.
Tambor de guerra, tremor de terra, nada os estremecia.
Tinham coragem de artista.

Muito antes do descobrimento da história, eles partiram.
Abandonaram mulheres, panelas e fogueiras,
meninos pedindo colo e caminho.
Surdos a súplicas,
cegos como morcegos,
foram em busca do nome que habita o ovo e o velho,
a sombra da espada e o espelho.

Eles partiram antes do nascimento de Dante,
antes do enterro de Homero.
Paladinos do destino e da palavra,
navegaram em busca do nome que habita o Homem.

(Partiram também em grandes levas no século XIX,
quando a humanidade se despedia do silêncio
e gestava o próximo ancestral.)

Eles partiram hoje de manhã.
Eu os vi de minha janela,
me deu um troço, uma certeza,
e eu parti com eles.

O poema acima foi escrito por meu amigo José Enrique Barreiro e faz parte de “O Mapa do Acaso”. Jornalista, poeta de boa cepa, de finíssima sensibilidade, dono da Versal Editores, baiano e exilado – como eu – no Rio de Janeiro há décadas, é casado com a artista plástica Elisa Galeffi e são meus vizinhos no Alto Leblon.
O casal foi frequentador assíduo dos saraus que promovi cerca de 20 anos atrás quando, entre um gole e outro, também nos tornávamos paladinos das palavras e partíamos muitas vezes na madrugada…
Sua poética está publicada em vários livros dentre os quais: O Mapa do Acaso, Declaração de Amor, Quem adivinha o que é?
Nesses pandêmicos tempos, melhor buscar refúgio na Arte pois a realidade tá f…
Como diria Lorca: “Zé, é um dos meus!”

Beto Benjamin

11 comentários em “Os navegadores do nome

  1. Grande Zé, ótimo poema, não conhecia essa sua arte. Obrigada Roberto por nos brindar com a poesia em tempos tão difíceis. A arte, em especial a prosa literária e a música têm sido o meu refúgio nessa pandemia e nesse pandemônio brasileiro que estamos vivendo. Um abraço saudoso em vocês dois. 🌻✊🏽YARA

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  2. Dormir como os santos é a sina de todos os que se abandonam ao inédito. Excelente. É ofício do poeta representar em palavras tudo aquilo que as pessoas não alcançam, tampouco ele, justo porque parte sempre das palavras para nelas ter seu destino: ouróboros que nunca chega a dragão. “Me deu um troço, uma certeza” é quase Cesário Bandeira, mas ninguém está aqui para intertextualidades (Deus me livre!), mas porque do Alto para o Baixo Leblon – e os de quaisquer cepa-cidades – só há um destino: o Mar! Quiçá, a duração das águas (Pontos só deixou na secretária eletrônica uma mensagem em ondas…)…

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  3. Queria mais, o poema me levou para outro lugar e outro tempo, outra dimensāo, bravo Zé Henrique! Um beijo tambem para Beto enquanto espetamos mais perolas do Nunca se sabe

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