As viagens de Teté! – parte 2

Resistir é preciso! Viver não é preciso!

Vamos continuar nossa viagem com Teté?

Creio que acompanhá-la, mesmo à distância, em suas aventuras pelo mundo, é um bom antídoto para esses tempos esquisitos de pandemia. Não é mesmo?
Então, vamos incluir essa segunda parte da entrevista no nosso cardápio de resistência! 

Beto Benjamin: Conte sobre o blog de viagens que você criou? Foi assim: “Vou fazer um blog! Criar um negócio! Dedicar minha vida a isso!” ?

Teté: Não foi assim não! Comecei o blog quando morava em Chipre. Amigos e familiares mandavam e-mails perguntando como estava minha vida, o que eu fazia, como era o lugar… Naquela época e-mail era “the thing“. Agora todo mundo só quer saber de Instagram, WhatsApp e Zoom… 

Tendo todo esse interesse como incentivo, decidi criar o blog para contar minha vida de expatriada, morando em Chipre. Esse lugar que ninguém tinha ouvido falar…

Não tinha nenhuma pretensão de fazer da atividade, um trabalho. Tampouco viver disso. Era para ser simplesmente um blog pessoal falando sobre a vida em Chipre. Contando sobre as idiossincrasias da ilha, do povo, do país. Enfim, descrevendo como era morar ali. Falar também sobre as viagens que fazia dentro e fora de Chipre.

Comecei a relatar minhas viagens de um ponto de vista muito pessoal. Claro, fazia também simultaneamente meus devaneios, minhas viagens internas… Foi assim, despretensiosamente, que comecei o blog. No momento ele ficou meio enferrujado e está sendo refeito. Em breve será relançado.

Morreu! Vai renascer outra coisa!

Só fui me dedicar a trabalhar com viagens a partir de 2014 quando fiz a volta ao mundo e decidi que não queria mais trabalhar em marketing.

Ter passado mais de ano viajando por trinta países me causou uma grande chacoalhada. Tanto dentro quanto fora de mim. Não conseguiria continuar fazendo Marketing pois sentia que tinha muito para mudar na minha vida profissionalmente.

Viajar sempre foi uma grande paixão. Achava verdadeiramente que tinha um certo conteúdo para ofertar às pessoas. Comecei a trabalhar em uma agência de viagens. Assim o assunto “viagens” entrou em minha vida profissional.

Beto Benjamin: O blog foi batizado com que nome?

Teté: “Escapismo genuíno“.  Era meu auto-reconhecimento de que vivia escapando de várias maneiras: físicas e mentais,  através das viagens: internas e externas. E “genuíno”, porque eram escapadas baseadas em fatos reais. Tá bom? Risos…

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Irã

Beto BenjaminComo planejou essa viagem? Que roteiro escolheu? O que ela te mostrou sobre o mundo, as pessoas,  os países que visitou e sobretudo sobre você? 

Teté: Sonhava em fazê-la desde que terminei a faculdade em 2005. Só fui realizá-la em 2013. Desde 2005 comecei a pensar e economizar dinheiro. Foram sete anos pensando, até que em 2013 eu tinha saído de um trabalho. Falei para o meu ex-marido: “Olha, não temos filho. Estamos numa transição profissional, a hora da viagem é agora”. Juntamos uma graninha. Naquela época o dólar valia dois reais e pouco. Já dava para ir. Ele topou.

O roteiro foi traçado tendo algumas coisas em mente: começar por um lugar de custo alto e fora da zona de conforto. Escolhemos  a África. Depois, seguir circundando o globo. Compramos uma passagem chamada “around the world ticket” e uma de suas regras era:

sempre seguir numa direção: leste ou oeste.

Não podia mudar a direção. Além disso, queríamos evitar lugares muito frios, para que a mala pudesse ser a menor possível. Eu preferia países mais quentes, no entanto teria que passar um ano com uma mala de vinte e três quilos, no máximo. Não podia passar disso pois os voos internos tinham esse limite. Hoje o limite baixou para vinte.

Começamos pela África, em seguida Oriente Médio. De lá, passamos brevemente pela Europa. Rapidinho mesmo. Em seguida fomos para a Ásia onde ficamos bastante tempo. Depois Oceania, Austrália e Nova Zelândia.

Seguimos pela Califórnia, México e Cuba. Voltei ao Brasil e continuei mais um pouco para o Peru e Equador. A lista de países é longa. Na África fui para Moçambique, Namíbia, Zâmbia, Zimbábue, Quênia e Tanzânia. Na Europa, apenas Espanha e Holanda. No Oriente Médio: Emirados Árabes, Jordânia, Amã e Líbano.

Beto Benjamin: Opa, alto lá Teté! Respira fundo. Líbano! Minhas origens são de lá! Meu avô era cristão maronita e emigrou fugindo dos conflitos religiosos!

Teté: O Líbano é um país maravilhoso, Beto! Adorei! Voltarei. Na Ásia fomos à Tailândia, Laos, Cambodja, Myanmar, Vietnã, Singapura, Malásia e Indonésia.

Beto Benjamin: Vamos conversar um pouco sobre a África? O que despertou sua atenção no continente africano com aquela diversidade de países, climas, culturas? 

Teté:  A África é enorme, plural, diversificada. Vejo que as pessoas tem uma tendência de generalizar a África.

“Quero ir para a África”! Que África? A África é gigante.

São diferentes religiões, paisagens, climas. Tem de tudo: florestas, desertos, rios, clima tropical, clima árido, minorias étnicas. Não dá para colocar tudo dentro da mesma caixinha.

E ainda tem a África do Norte. Outro departamento. Vai além disso. Hoje que trabalho com viagens, parte do meu trabalho é “educar” meus clientes. Nessa viagem, em alguns momentos eu sentia uma conexão forte com a Bahia.

Uma vez em Moçambique tinha uma minoria étnica numa praia, fazendo uma celebração religiosa que parecia com candomblé. Eu estava na praia e senti uma sincronia muito forte com a Bahia. Eles dançavam, cantavam e faziam oferendas. Foi mesmo uma sensação de cordão umbilical com a Bahia. Senti com muita intensidade. Talvez pela colonização portuguesa, o idioma, algumas coisas similares…

A África do Sul é diferente. Uma África super fácil: cheia de infra-estrutura, mais européia, ocidentalizada. Tipo uma Disneylandia. Até o safari não é tão selvagem. Comidas e bebidas tipo Europa, até porque a passagem dos franceses e holandeses deixaram isso. Se você chega no interior da África do Sul é quase como se estivesse na Europa. Uma grande região vinícola, apesar da pluralidade étnica e cultural.

Bem distinto da Namíbia, que já é um safari diferente porque já tem outros animais, no meio do deserto. Lugares alaranjados com outro visual que parece outro planeta. Dunas a perder de vista. Paisagens desérticas.

Na Quênia e Tanzânia tive uma experiência com a tribo Massai bem interessante. Queria muito conhecê-los de perto. Quando cheguei a Nairóbi, busquei uma tribo massai. Eu estava numa pousadinha e o cozinheiro falou: “Olha, eu tenho um parente massai. Você pode ir!””

Fui! E foi uma roubada!

No sentido perrengue. Foi terrível pois acabei indo para um lugar ermo, assim no meio do nada. Veja que poderia ter acontecido deles roubarem meu rim ou, me esquartejarem que ninguém ia tomar conhecimento. Gustavo também estava comigo mas, ambos corremos os mesmos riscos.

Nada como ser destemida aos trinta anos!

Porém penso que quando você não tem medo, emite boas vibrações que acabam lhe protegendo. Dormimos numa oca com várias famílias. Imagine a higiene para nossos padrões? As mulheres cozinham lá dentro. Elas tem que comer separadas dos homens. Dentro da oca tinha “aquele” cheiro de comida, fumaça e para completar havia uma colônia de baratas na cobertura!

Dormimos numa caminha de palha e quando olho para cima era aquela maravilha:

Um céu pleno de baratas! Passei a noite em claro, quase não dormi.

Eu oscilava entre deitar um pouco para fugir do frio pois estávamos no pé do Kilimanjaro, numa certa altitude, muito próximos da fronteira com a Tanzânia. De noite a temperatura caía bastante. Do lado de fora fazia muito frio. Dentro tinha a fumaça que ardia meus olhos, cheiro de “humanidade” e… baratas! Durma-se com um “barulho desses”!

Beto Benjamin: Quer dizer que ao invés de um céu de estrelas nesse “resort”, você tinha um céu de baratas! Surreal não?

Teté: Sim. Era isso mesmo embora lá fora o céu de estrelas era muito lindo. Estávamos num lugar muito longíquo. Tinha também o som das vacas. Esquartejaram uma cabra para comermos. Vimos os guerreiros mais jovens beberem o sangue dela. Pegaram o cérebro da cabra e misturaram com um líquido pois o cérebro tem muita proteína. Cozinharam a carne da cabra ali na nossa frente. Foi interessante ver aquilo tudo.

Um deles falava inglês e ia traduzindo. Eu fazia todo tipo de pergunta: como eles viviam, como cozinhavam, como escovavam os dentes, como caçavam… Mas foi esse perrengue. No dia seguinte, sem banho e com uma crosta de poeira regressamos, exaustos, a Nairóbi. Foi uma experiência inesquecível pois não queria estar num hotel como turista. Eu queria conhecer os Massais. Conheci!

Teve essa coisa do dinheiro também. Tivemos que pagar a cabra. Tudo bem. Aí vimos que alguns tinham celular – daqueles modelos antigos – que escondiam para não nos mostrar que “não eram guerreiros autênticos”.

Se vê claramente o que o turismo vai criando de mudanças. Essa é uma preocupação que tenho. Como o turismo massivo influencia os lugares. Como fazer um turismo sustentável? O que significa isso? É uma inquietação minha.

Beto Benjamin: Teté, você conseguiu mudar a famosa frase baiana: “pegar um cabra” para “pagar uma cabra“!

Teté: Risos. Tá vendo, quanta coisa a gente faz sem saber! Teve esse perrengue mesmo mas, valeu a pena…

Beto Benjamin: Pouca gente pode dizer que dormiu numa oca com os Massais! Desde que fui apresentado a Franz Kafka eu não conseguiria dormir com um céu desses! Risos

Teté: Na verdade foram as baratas que se compadeceram de mim pois ficaram lá em cima mesmo! Não desceram não…

Beto Benjamin: Que mais você viu na África?

Teté: Cada por do sol mais incrível que o outro, paisagens belíssimas e inesquecíveis, simplicidade, pessoas muito interessantes. Tenho até umas anotações de diálogos bem profundos. Sinto que a Mama Africa tem essa energia de onde tudo começou, ancestralidade, sabedoria milenar, uma energia primitiva, profunda, com saberes antigos. Tudo isso está junto. Tem apelido, tem conflito, tem natureza. Tem essa energia primitiva mas, muito potente. 

Beto Benjamin: Compare Ásia com África. Quais são as distinções, principalmente falando de gente?

Teté: Vamos então para o Oriente Médio, que é outra cultura. Ali, na península arábica também tem várias diferenças. Por exemplo os Emirados Árabes com aquela coisa artificial mas, dá para se divertir pois tem vida cultural, museus, restaurantes.

O Líbano eu já conhecia. Estava indo pela segunda vez. Fui bem recebida porque a família de tia Solange é libanesa. Fui muito bem acolhida pela família. É um país que mexe com qualquer pessoa. Por ser um país pequeno tem muita diversidade. Tem conflito mas, também tem  paz entre as comunidades.

Fui à apresentação de um coral em Beirute onde estavam pessoas de várias origens, religiões e crenças. Uma coisa linda. Muito marcante. Na primeira visita pude ir em algumas cidades e em outras não, devido aos conflitos. Na segunda vez, a mesma coisa. 

O Líbano tem suas surpresas!

A gastronomia por exemplo, não precisa nem falar. Para mim uma das melhores comidas do mundo. Tem os tesouros em Baalbeque que são ruínas cuja grandiosidade eu compararia com as da Grécia. As pessoas não tem necessariamente essa imagem sobre o Líbano. Baalbeque é uma Acrópole para mim.

Pude ver muitas histórias lindas. Visitei projetos na fronteira com a Síria. Uma pessoa me levou para conhecer um projeto num acampamento de refugiados, crianças. Vi essa diferença em vários lugares: uma vinícola, um restaurante. Ali trabalhavam um cristão, um armênio, uma pluralidade de religiões com todos vivendo em paz. Vi muita irmandade no Líbano. Linda mesmo.

É um país onde muita coisa acontece politicamente. Tem a violência, o conflito mas tem também esse outro lado. Um caldeirão com tudo dentro: conflito, paz, ódio, amor… Claro que isso existe no mundo todo mas ali, naquele país minúsculo dá a impressão que tudo é efervescente.

No Líbano não me senti insegura do ponto de vista físico hora nenhuma!

Também não fui em lugares considerados inseguros. Lembro que na primeira vez eu não fui para Tripoli. Fui para Baalbeque. Na segunda vez, fui para Baalbeque e não fui para Tripoli, que fica perto da fronteira. Essa família libanesa cuidou muito bem de mim. Ter a oportunidade de ser recebido por pessoas locais faz toda a diferença.

A Jordânia foi uma grande surpresa. O povo de Omã foi muito hospitaleiro, muito simpático. Lugares e cidades lindas, uma mistura de praia com montanha. Fiquei hospedada na casa de uma família local. Tenho uma amiga que é de lá e fiquei na casa dos pais dela.

Conheci um pouco sobre os muçulmanos sunitas. Quando fui ao Irã dois anos atrás e voltei a Omã, pude ver e viver a diferença entre sunitas e xiitas na mesma viagem.

Beto Benjamin: Como assim. Pode explicar essa diferença?

Teté: Os xiitas são taxados como radicais. Aqui no Brasil a turma fala assim:

“fulana está fazendo uma dieta muito restrita, xiita”! Na verdade deveria dizer: “está sendo sunita”.

Os xiitas não são tão radicais ou ortodoxos assim. Estive no Irã, de maioria xiita e, percebi algumas coisas. Como por exemplo, havia muito mais gente visitando os mausoléus – dos poetas – do que rezando nas mesquitas… Fiquei com a impressão que os iranianos são muito mais ligados em poesia, do que em orações do Alcorão.

Beto Benjamin: O Sufismo veio de lá não foi?

Teté: Sim. O sufismo se originou lá. A cidade de Qom no Irã é o epicentro do Sufismo, que representa a corrente  mística do islamismo. Muito conhecida devido a Rumi, um poeta filósofo que tem obras lindíssimas e frase belíssimas. Para mim esta corrente mística do Islã tem as mensagens mais lindas.

O aparato político tem esse radicalismo. O povo não!

Claro, existe toda uma questão histórica que os levou até lá. Do Irã, voltei para Omã! Alguns anos depois ao visitar novamente essa família de amigos, passeávamos de carro e vi a mãe da minha amiga lendo o Alcorão dentro do carro. Reza-se cinco vezes por dia. Não pode comer isso, nem aquilo. Os sunitas são muito mais radicais. Cheios de regras. É assim em todo o país.

Beto Benjamin: E a questão da mulher como fica?

Teté: No Irã, por lei, a mulher tem cobrir o cabelo. Não precisa cobrir o rosto. Há um mito aqui: muita gente pensa que as iranianas usam burca. Não usam. Burca cobre o rosto. Elas usam roupas até modestas. Usam o chador ou hijab para cobrir o cabelo mas, não o rosto.

As sunitas tem de tudo um pouco. Dependendo do país. Elas cobrem majoritariamente o corpo todo e deixam o rosto de fora.

Culturalmente os iranianos não são árabes. São persas. Bem diferente. Não dá para comparar com a Jordânia nem com os países vizinhos. É outra cultura e eles fazem questão de falar e se orgulhar disso. Embora tenham a mesma religião.

Do Oriente Médio fomos para a Ásia onde ficamos por seis meses. A Ásia é completamente diferente!

Continua no próximo post!

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