Vejam as boas surpresas que a vida nos apresenta!

Há algumas semanas, ia passando por acaso, por uma dessas indefectíveis lojas da Apple (que design bonito para uma loja de hardware não é?) na Union Square, cidade de San Francisco, num dia desse verão americano (um frio do cacete, de acordo com nossos padrões tropicais!), quando escutei o som de música e uma voz imponente – aparentemente ao vivo – vindo do andar de cima.

Não dava para deixar de conferir: abandonei rapidamente o piso inferior deixando a Apple e seus nerds (funcionários e clientes, evidentemente). Dei de cara com um belíssimo show, num salão descolado, com cenário digno de um filme tipo Blade Runner! A diva cantante era a Anja Kotar. Que visual e voz!

Ridley Scott que me perdoe a lembrança mas a Apple caprichou nesse espaço e na proposta. Receber num espaço despojado e imponente, talentos que circulam no mundo musical americano! E quer saber? De graça! É um presente para os frequentadores e mordedores (ou mordidos) da Apple! NuncaseSabe!

Vejam a seguir o vídeo da Anja Kotar que nasceu em Liubliana na Eslovênia. Compositora, cantora e estilista! Aos 21 anos de idade.  Musa do pop americano nos últimos tempos!

Mandando ver com seu repertório rebelde e sensível, sem dúvida surpreendente para alguém tão jovem, a guria (como dizem os gaúchos), aos 15 anos emigrou com toda a sua família para San José na California, onde passou sua adolescência. Buscava seguir sua vocação musical e teve o apoio da família para uma decisão tão importante.

Estudou música clássica no seu país de origem e se destacou num concurso nacional na televisão chamado Slovenia X Faktor tendo sido escolhida a melhor cantora. Debutou como compositora e cantora pop no cenário americano com o álbum NOMAD, realizado com o apoio de “crowdfunding”. Aperfeiçoou seus dotes musicais no prestigioso Berklee College of Music e revelou um gosto especial para a moda com destaque para vestuário e jóias. É proprietária de uma loja online.

Acompanhada de apenas uma guitarra, pude testemunhar suas qualidades como cantora-compositora-estilista nessa performance na loja da Apple. Enquanto desfilava sua potente e bela voz pelo ambiente, um projetor mostrava seus modelitos num telão valorizado pela qualidade da projeção. Impossível não se deslumbrar e ficar fã!

Suas músicas nesse primeiro álbum NOMAD falam das dificuldades da vida de imigrante e adolescente nos Estados Unidos mostrando toda a rebeldia e inconformidade natural desses tempos. A garota promete e certamente merece atenção de quem gosta de pop music.

Curtam as fotos e o pequeno “snippett” (não conhece?!) dessa performance que tive a sorte de assistir:

 

 

 

 

 

Gostaram? Eu também!

Beto Benjamin

Confira mais dessa promissora artista em seus canais oficiais:

Site Oficial:  www.anjakotar.com
Instagram:
@anja.kotar
Spotify com seu novo álbum NOMAD (2017): 

 

O poeta e os espelhos!

Vejam no que pode dar uma conversa!

Comentei dia desses com meu amigo e poeta Érico Braga, que havia escrito um poema sobre a gravidade e, que o próximo seria sobre o espelho, já que a sala onde o primeiro se inspirou contém espelhos. Muitos espelhos…

Fui logo “vendo” imagens partidas e outras lembranças de coisas – nem tão justamente repartidas – pela vida: o eu, o nós, as idas e vindas, os amores, o final da partida (ah! a Croácia!) e a partida final (o xadrez do Bergman com a Morte)… Risos… Haja imagens, partidas ou não!

Foi exatamente com um riso – meio que zombeteiro, meio que de menino travesso – pronto para aprontar mais uma estripulia (poética, diga-se de passagem) que Érico me olhou e “enxergou” os meus espelhos…

Sacanamente – como era de se esperar e do seu feitio – me mandou essa pérola que vai abaixo, com dedicatória e tudo. Disse também que:

“este não é o seu poema do espelho, tampouco o meu poema do seu espelho, ou, ainda, sobre o espelho meu, espelho meu, tem alguém mais poeta do que eu.”

 

E ainda arrematou:

“Fiquei a remoer-me com aquilo que te escrevi sobre os lugares comuns dos espelhos partidos (e a música beijo partido e os retratos rasgados ao meio) e fiquei a pensar se ainda é possível fazer poemas sobre o tema e como fazê-los.”

 

Portanto, tenham cuidado quando comentarem alguma coisa com um amigo. Redobrem-nos, se esse amigo for poeta… Se além de amigo e poeta, for também sacana, não tem jeito! Relaxe e vá se olhar no espelho! Foi o que fiz!

Beto Benjamin

ANTIPOÉTICA SOBRE ESPELHOS E EIDÉTICAS  

                                                         para Benjamin  

Ninguém está quando estamos sozinhos
 e a imagem, aquela, que me percebeu, 
    soube não a ausência do meu próprio eu,
            senão, porém, a presença cínica do espelho
 repartido por um ridículo 
  passe-partout que já se perdeu
    [que mão – menor que a do destino – 
    teria tido a audácia de ferir, sem nem tocá-las,
    a minha própria imagem 
    e semelhançazinha?!…]

Tivesse existido – eu – a assistir ou assistido a ou em ou por ou a ter
 aquela sala, diante de um vidro
 de argentado níquel,
           adivinhando o porquê de um peão otário
 ter colocado a fita frágil 
só para impressionar um moço
  de modo inútil e, daí, fictício;
e porque, eu sei, tem tudo a ver comigo
           mesmo, não tendo estado, havido,
       em, ou aquela sala, ou em momento algum,
 em minha própria vida, sequestrada desde o início;
insisti-me (como agora me insisto),
            em ver-me em dois, e só porque
           dois é melhor que zero,
                     (embora deste mais se me adivinhe);
assim, agora, dividido, posso dividir o zero fráctil 
  pelo infinito – e esta matemática vindicta
     muito se me admira e conforta, como deveria,
                               o Ser que, se, quase, não se suporta,
                       quer e sempre quer – e repetido – 
o querer. 

Pudesse eu ser Poeta (como a bilionada de singularíssimos
  que se auto-confortam em roda
        e se aventuram ao mínimo, acariciando-se ao máximo),
              dividir-me-ia em fraturas-metáforas e figuras e versos 
  de coisas íntimas; 
porém, a minha engenharia é metafísica
 e muito mais propícia e esperta do que qualquer
        poética 
do escrever. 

Pudesse ter testado a fenomenologia
     intrínseca de me ver na sala do espelho 
    em pelo e recortado pela crepe  
      anódina e ilegítima, teria sido, eu, o poeta
                   que este mundo havia parido,
 só para o embevecer;
    mas, como lá não estive, e nunca estarei, 
não sou-o, e nem o se Rei,
  assim, como qual – e o tal-, não tenho sido,
      nem inteiro, 
tampouco, repartido…

Minhas faces têm frente e verso, como toda vulgaridade
 da matéria-e-espírito  – qual se fosse jornalística-e- 
literária –, mas, ainda assim, não cabem
em um reflexo de lados, ambos,
 mefistofélicos,
      pois que por demais
 arbitrários

Nunca existiu, por cá, conflito, pois sempre fui o fraco
    que deixava assumir 
o destemido,
      e este simpatético princípio garantiu-me
                            feitos e afetos
                      sem nunca ter-me vendido
              (ou, mesmo, me obrigado
                             a qualquer fato)

Nunca houve em vida a morte, pois tudo era a serviço
 (e não um jogo de cartas)
          de parte a parte, e irrestrito – espécie de green card pelo qual 
     as linhas conduziam, sem delimitar espaços,
                  nem mesmo agora,
              que estou a morrer
                     por uma imagem
               que – eu sei – é minha
só por Ser.

Nunca houve tais divisórias (e como as queria!); e
    queria muito que esta fosse 
              a verdade, mas a verdade é uma simplória, 
          plena de alfândegas e vizinhos e retalhos de geografias com  
     coisas não inacreditáveis
                        em línguas
                    traduzíveis…

Por isso, retorno – como um covarde – a essa “tracejada” infame
      e inadequada; esta linha tão trágica  que jamais
                repartiu a fotografia
                   da minha mágoa,
             mas fosse ela, própria,  
                               que a desenhasse
                   de fragmento a pixel
              sem levantar o lápis 
      num só rabisco abstrato.

Retorno, solícito, e jamais humilde,
    para o fanquisque do carrasco
                            essa linha pontilhada
                       no cangote do novilho – rastro de teclado
                  fazendo meu desenho retrato 
                               com uma faca de lacre
                             que não o ferisse,
                       mas o fechasse… 

Assim é que e para, só, justificar-me
                        ante o discurso de uma página
                  de vidro, 
                                    faço-me saber que posso, talvez, também, 
             rachá-la, agora mesmo, fácil,            
          sem desespero ou com o álibi dos desesperados,
      – mas geneticamente grato 
pela imagem emprestada -,
                        bastando, para isso, 
  tanto em texto quanto em sílica,
só atirar, pra frente, um ponto

ou inventar,
 pra sempre, 

    um traço –



Morro Azul (Paulo de Frontin – RJ), 06_07_2018

Monique Kessous – Aqui tem!…

Moniquekessouscd

Olhe só a beleza da composição pictórica dessa capa de álbum, com ilustração de Francisco Freitas.

“Dentro de mim cabe o mundo” é o show que a cantora e compositora carioca Monique Kessous batizou para apresentar seu último CD – o terceiro, que leva o mesmo nome – e está rodando o Brasil.

Fui assistí-la em Ipanema e me encantei! Carioca, bela e com um lindo sorriso faz um show divertido – às vezes engraçado, principalmente quando conversa com o público.

No show pude apreciar sua vivacidade, as composições diversificadas, sua ligação com o Aqui e Agora, a atualidade das canções que apresenta.

moniquekessous3

O Mundo Não Cabe Nela?   Foto: Mariana Lemos

Descomplicada e multi-instrumentista, a artista diverte o público numa sessão onde não se nota o tempo passar. Ao contrário: “poxa, já está acabando?” é a pergunta que se faz! E ainda bota o público literalmente na roda… Os músicos que a acompanham não deixam por menos!

Ao chegar em casa não pude deixar de mergulhar em sua discografia e escrever este post em sua homenagem.

Encontrei muitas pérolas no caminho, e trago algumas para vocês: Aqui tem é uma delas… Abre o novo CD e você pode ouví-la no Spotify abaixo…

Olha só o que a Monique faz na companhia do impagável Ney Matogrosso, em letra com parceria de Chico César!

Quer aprender a cantar com ela?
Cante junto ao Lyric Video abaixo:

 

E que tal essa balada, Volte para Mim?

Confira abaixo as pérolas que Monique compôs para seu mais recente álbum :

Acompanhe o dia a dia da Artista em seu Instagram Oficial:

https://www.instagram.com/moniquekessous/

ou visite seu site:

https://www.moniquekessous.com.br

Bon Voyage,

Beto Benjamin

 

Gravidade

                                       Somos alguns, poucos-muitos
                                       salão amplo – luzes e espelhos
                                       corpos em movimento – olhares descomprometidos                         
                                       juntos – diferentes razões, mesmo propósito.
                                       Mestre e método – com eles
                                       nunca perguntamos direito para onde…
                                       Vamos!

Com algum esforço                                         Captura de Tela 2018-05-10 às 18.20.00.png
obedeço

–  logo eu, a desobediência em Pessoa!
Objeto mas, ainda assim, sigo o comando:
ergo vagarosamente – um braço:
O do abraço!
Sei que desafio tua força de atração;
temeroso – espero reação

teimoso, penso:
quanto custará
rebelde 
movimento?

                          o braço erguido
demasiado pesar

                          como notícia de morte inesperada!

O resto do corpo – grudado ao chão…

desgastado, de escuras tábuas…
sofridas por infinitas passadas de descalços lúdicos pés
Olho de soslaio, vejo o corpo inerte
contemplo a mão estendida
que consigo arrasta
 prolongado pulso-braço-ombro…
quase tudo!

                                                        Com suave deslocamento, tento o                                                                                                                         indizível…
                                                                               juntos – arroubo e atrevimento
                                                                               blasfemo e arredio
                                                                               busco quem sabe…
                                                                               Deus!

Sem pestanejar, executo mestras ordens:
sim sinhô!
                                                                                         Nossos corpos 

                                                                                         de tanto se erguerem
                                                                                                    relutando
                                                                                  cansam, balbuciam, estremecem!
                                                                                                     ensaiam
                                                                                ondulantes movimentos – se sucedem!
                                                                                                serpentes mágicas
                                                                                                     dançam!
                                                                                 bailarinos invisíveis de piano-melodias
divagam!
                                                                                                                         Devagar, com pesar, impressão e esmero
                                                                           braços erguidos, avançam esculpindo o ar…
                                                                                                     Não re-sis-tem!

Sombras e luzesCaptura de Tela 2018-05-10 às 18.26.30 1
primitivos gestuais
lembranças kármicas,
de escuras e invernais cavernas
coletiva – abissal procura,
ofegantes transpiram
em preto e branco…
Se tu me queres rastejando,
Sibilinamente replico…                   

Abatidos prostrados membros,
acusando o golpe
retrocedem…
Mãos escancaradas se apoiam no chão-tablado!
Corpos se elevam – estranhos impulsos te provocam – in-sis-tem!
Submissos cérebros, transmissores sinápticos de ordens e da vontade.
Formas, espaços-tempos, ventres, umbigos, seios: inspiram, suspiram
quase piram…

                                                    Nesse instante vida vibra, lateja, aquece, sofre, sua
                                                    esdrúxula apoteose de belos troncos nus – feitos para uns
                                                    formas nem tão perfeitas – feitas para outros
                                                    entre si diálogos-mudos, murmuram incompreensíveis                                                                                      filosofias estoicas.
                                                     Parecem contemplar Platão
que surtado 
do fundo de sua caverna,
cospe seu discurso-ódio pelo

                                                                                                 Artista-Poeta!

                                                                                             De repente não se sabe donde,
                                                                                             ecoa a gargalhada
                                                                                             sinistro som, solfejo puro, ópera                                                                                                     inacabada.

Atrasado, já perdoado e interrompendo tudo – chega um Hiato…
que entra direto,
na dança incontida – descontrolado!

                                                                       Me carregam, indesejado – no meio do nada.
                                                                                             Flutuo sem peso – nem massa…
                                                                                                                Arquejo…
                                                                                    me vejo – me ergo todo por completo
                                                                                          meneio, apenas a cabeça…
e tateio os quatro cantos

                                                                                          das paredes mentirosas deste mundo
                                                                                                                 não deixo barato!
                                                                                                                 Atento a tudo
                                                                                                                 nada vejo,Captura de Tela 2018-05-10 às 18.30.06
                                       a tudo escuto
Dou-me conta enfim:

                  não é corpo meu                                                          que ali está!
                  Surpreso levanto atônitos olhos.
                  Não era mesmo!
Quem se atrevia?

                   Perplexo e admirado, de susto                               tomado reconheci: uma alma,
juro que não sabia!

                                                                     Impressionado com surpreendente inversão
                                                                     vi que o erguer do braço fisicamente
                                                                                              não correspondia…
                                                                                              era pura ilusão:

“Corpo, metáfora do tempo…”
entendo o que dizes
potestade das forças naturais…
magneto invisível e ultrajante
que tudo aprisiona e limita…

Amor? não poderás ser, jamais!
Rio
e ciente de teus poderes, estou!
                                                                          Mas, se desejas mesmo demolir meu esforço
                                                                          – eloquente e assombrada criatura –
                                                                          por que sussurras bajuladora, ao meu ouvido:
                                                                          “Deixe que Eu faço tudo
                                                                           meu poder é real e invisível
                                                                           bobo, não percebes?
                                                                           larga teu peso solto
                                                                           deixa
que eu resolvo”


Ao redor, busco as pessoas
                     donde surgiu infame fala?
                     silêncio…
                     sem resposta,
só me resta
viajar fundo
para dentro, de mim!

Contudo, num golpe rápido, devolvo e brado:

Captura de Tela 2018-05-10 às 18.32.57
“Recuso tua proposta vã.
vai-te daqui…
ninguém te quer…”

Lembro bem oh! Majestade
não faz tanto tempo assim…
há apenas alguns anos-luz viajando tranquilo por esse universo infinito…
percorrendo o belo cosmos, embalado por tua universal constante,
lá pela altura de Andrômeda, dei de cara com uma estrela errante…
                                                                    Era uma Supernova
                                                                    estava irreconhecível.
                                                                    Quase chorou!
                                                                    Que cena! já pensou?
queixou-se amargamente de ti e da tua cúmplice ação
de estrela de primeira grandeza, graças à tua torpeza,
                                                                  foi reduzida a estrela-anã!

Ora preciosa Rainha,
sei que zelas muito por tuas amizades:
portanto, fiques atenta para o que a teu respeito pensa
Isaac Newton, nosso matemático e teu cupincha…
Tu que tanto lhe deves o nome e a fama,
saibas que ele já decidiu rever seus cálculos, modificar tua equação.
Comovido com o drama da recém-nascida estrela – a Supernova,
quer arrancar de vez tua máscara vilã!
Indeciso ainda, não sabe quem cai primeiro:
se ele mesmo, tua constante ou a maçã!

Sei que ignoras solenemente meus impulsos!
Sei que sarcasticamente não dás a mínima,
para minhas tentativas de enfrentando, te abolir.

Já que impotente nesta luta sou
quero te propor um pacto, outro mister:

                                                Manténs as estrelas no céu
                                                para que não caiam de uma só vez
                                                sobre minha atormentada cabeça…

                                                                           e, por favor, insistas com a lua, 
                                                para que permaneça lá em cima, bem distante
                                                assim, na Terra os poetas não precisam morrer mais!

                                                                           Por fim, um último pedido:
                                                        contenhas com tua força bruta
                                                        os astros nas suas respectivas órbitas:
                                                                           ordem, ordem no universo!

                                                                            compreendes, Majestade?
                                                         não é pouco o que tens a fazer…
                                                         e se não atenderes meus pedidos
me vingarei duplamente pois
enfrentarás sozinha
a ira de Aguirres deuses

e de baianos Orixás!”

 …………………………………………………………………………………………………………………………….                      
Aqui de volta ao mundo-chão, a matéria-corpo refuga, recusa, tergiversa,

                         corre atrás
                         do pensamento
se esgueira – balança
                         chove, sopra, vento e eu!

Me amarra – me prende

                                              nessa cota-plano-zero rasteira – vil
                                              tua companhia sedutora – opressora
                                              me mantém imóvel – orbitando
                                              o buraco negro do meu umbigo!

Assim me dou por satisfeito…

fa0777adc9cbf06362f2d0100e0c8185

                                               Aprisionado, meu corpo se nega
                                               maldito destino aceitar

                                                Minha alma em protesto aberto e solto
                                                desafiando e zombando de ti Gravidade,
                                                voa…

                                                Beto Benjamin

Dedicado aos colegas de Alongamento da turma de Jean-Marie Dubrul na Sauer Danças – RJ

 

Mayra Andrade! Você já conhecia essa menina?

Nascida em Cuba, seu padrasto era um diplomata do Cabo Verde e desde cedo se empolgou pela música. Cresceu no Senegal, Angola, Alemanha e no Cabo Verde onde estreou em 2002. Não parou mais… Apaixonada pela música brasileira (adora Caetano Veloso!) dá um show de bola cantando nossas músicas sem sotaque, cheia de força e com um charme especial que a vida lhe deu! Atualmente vive em Paris e seu repertório inclui canções em português, francês, inglês, espanhol e crioulo (língua nativa do seu querido país Cabo Verde)!

Para quem não se lembra, Cabo Verde é um arquipélago com dez ilhas, ex-colônia portuguesa situada a 570 km da costa Ocidental da África e na música notabilizou-se por ser o país de Cesária Évora,  a maior cantora cabo-verdiana cuja fama é reconhecida mundialmente. Apesar de se situar mais acima do Brasil, Cabo Verde na verdade parece – de sua distância africana – contemplar eternamente o nordeste brasileiro. Precisa dizer mais alguma coisa?

Falam que Mayra é a nova Cesária Évora. Vai chegando de mansinho, como quem não quer nada e pá! Rosto muito expressivo e forte, sua presença é marcante e sua figura se impõe na hora. Quando canta então não sobra para mais ninguém. Veja só o dueto que ela faz com um cantor francês no vídeo abaixo!

Como o seu país, o trabalho musical de Mayra já é um arquipélago de idiomas e ritmos!

Viajando e vivendo entre tantos oceanos, senhora do World Music e de tantos outros ritmos musicais, Mayra Andrade já gravou quatro CD´s: “Navega”,”Stória, Stória”, “Studio 105” e “Lovelly Difficult”. Ganhou prêmios importantes em vários festivais e concursos mundo afora… Ela não é brincadeira! Por isso separei para nosso deleite, três vídeos mostrando uma infinitésima parte de seu já oceânico trabalho musical.

Confira o show que Mayra dá nesse dueto com o cantor Benjamin Biolay! Ela cantando em legítimo português do Brasil (sem sotaque) e ele, em francês! Olha só a música que ela escolheu! Para Chico nenhum botar defeito!…

Escolhi ainda outra canção, “Dispidida”, do compositor cabo-verdiano já falecido Orlando Pantera onde Mayra canta em crioulo (sua língua natal) acompanhada de músicos de sua terra Jon Luz, Sérgio Figueira e Jair Pina. Aprecie a beleza de ritmos e acompanhamentos!

Esse vídeo faz parte de um documentário sobre Mayra intitulado Kontinuasom.

E para finalizar o post, veja só a interpretação que ela dá à belíssima composição nordestina “Lamento Sertanejo” de Gilberto Gil, com os acompanhamentos dos craques Hamilton de Holanda e Yamandu Costa. Dispensa comentários, não é?

De arrepiar!

Salve, Salve, Mayra de Andrade e viva o Cabo Verde!

Beto Benjamin

Notas:

  • Quem tiver interesse em conhecer melhor seu trabalho clique em:
    www.mayra-andrade.com
  • Confira o último álbum de Mayra, de 2013, Lovely Difficult

Bahia, o Carnaval (e eu…)

Em tempos de Carnaval e em especial do Carnaval de Salvador, que participo há décadas (quem não conhece não faz ideia da festa que é!), escolhi uma música do cantor e compositor Saulo Fernandes, lançada em 2013 chamada Raiz de Todo Bem, para representar meu sentimento de estar todos os anos no Carnaval dessa cidade africana e ao mesmo tempo prestar uma homenagem à terra onde nasci, a Bahia.

A primeira vez que escutei essa música foi na voz do menino Mika, nosso querido vizinho do Boulevard das temporadas de verão na ilha de Itaparica. Nas serenatas na porta de casa, ele sempre aparecia e cantava Raiz de Todo Bem, com seu jeito de moleque e uma harmonia incrível para sua idade… Marcou. Gravei na memória. Sua cadência e ritmo de reggae surpreendentes ecoavam como um hino. Pelo menos para mim, Mika a tornou inesquecível… África iô iô…

Essa canção também me fez recordar que parte de meus ancestrais veio para cá tangido pela fé. Vieram de terras distantes do Oriente Médio diretamente para a Bahia, outro lugar de muita luz, encantamento e fé. Me fez lembrar ainda, das caravanas de camelos de desertos imensos e longínquos, dos relatos de meu avô árabe quando era criança. Pois é com essa origem – de um lugar também misterioso, povoado de sonhos e surpresas – que me vejo, trazido a esta África, quiçá por uma combinação improvável de eventos históricos, que haja alinhamento de planetas para explicar! Assim, aqui nasci…

Logo eu – poeira das estrelas – fiel e único depositário da minha própria existência! Já que fui escolhido pela loteria do universo para nascer e se tornar (estrear diriam Caetano e Gil com as bençãos de Betânia e Gal) parte dessa baianidade nagô, saúdo o Benin e, dispenso qualquer tentativa de explicação – esotérica ou não – para o GPS do meu nascimento. Simplesmente aceitei!

A fé, o santo, os escravos, o caboclo, o candomblé!

África sou eu!

A pipoca dos trios, a maniçoba, o Boca do Inferno, Jorge Amado, os mestres Bimba e Pastinha, a saída do Ilê no Curuzu, o Olodum e seus tambores, o Araketu, o som arrasador do trio dos Novos Baianos, a guitarra impetuosa de Pepeu e Baby, a menina que ainda dança; o trio Armandinho, Dodô e Osmar com Vavá Furquim fazendo o som e eu de contra-regra; o trio de Daniella Mercury, Luiz Caldas e seu fricote, Moraes Moreira, o desfile das “bonecas” e o encontro dos trios no alvorecer das quartas -feiras de cinzas na Praça Castro Alves, o trio Tapajós, o bloco do Jacu, os Internacionais, a banda Eva, Ricardo Chaves, Saulo Fernandes, Ivete San Gallo, o Asa de Águia, o Camaleão, a Timbalada, o arrastão e os Zárabes de Brown, o Chiclete com Banana, Bell Marques, os Filhos de Gandhi, os Apaches do Tororó, os bailes do Bahiano de Tênis, o acarajé e o abará, o sarapatel, a moqueca de camarão de Dadá, o vatapá, o xinxin de galinha, a carne do sol, o caruru de Cosme, Damião e Doum, o filé do Juarez, as festas de largo, as baianas e a lavagem do Bomfim, a procissão de Odoyá,  as festas imperdíveis de Licia Fábio, o terreiro do Gantois, a bata que aprendi a usar com Guilherme Hippie, a gangue de Aratu, os ensaios de Carlinhos Brown no Candyall Gheto Square e no Museu do Ritmo, os atabaques… enfim, a Bahia! A fé no Senhor do Bonfim… Oxalá!

Tudo isso era apenas para apresentar a música de Saulo, com os negros versos de Somos a Bahia declamados por Aloisio Menezes, na introdução do vídeo abaixo!
Digam se não dá vontade também de gritar:

Baiano sou eu!
Somos nós!

Beto Benjamin

Raiz de Todo Bem

Salvador, Bahia
Território africano
Baiano sou eu, é você, somos nós
Uma voz, um tambor

 

Oxente
‘Cê num’ tá vendo que a gente é nordeste?
Cabra da peste
Sai daí batucador
Quem foi seu mestre?

Capoeira

 

Se plante
Lá vem rasteira
Pé de ladeira

Preciso da fé no Senhor do Bonfim
Pra mim, pra você, pra mim

 

Um chinelo de couro, uma bata
Uma benção, mais cinquenta centavos de som
Aumenta o som!

 

Africa Iô iô
Salvador, meu amor
A raiz de todo bem, de tanta fé
Do canto Candomblé

 

África Iô iô
Salvador, meu amor
A raiz de todo bem, de tanta fé
Do canto Candomblé