O menino que carregava água na peneiraTenho um livro sobre águas e meninos. A mãe disse que carregar água na peneira A mãe disse que era o mesmo O menino era ligado em despropósitos. A mãe reparou que o menino Com o tempo aquele menino Com o tempo descobriu que No escrever o menino viu O menino aprendeu a usar as palavras. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. A mãe reparava o menino com ternura. Você vai encher os vazios O poeta e o poema acima me foram apresentados por Joana Benjamin, uma de minhas queridas filhas! Beto Benjamin Manoel de Barros, poeta mato-grossense nasceu em 1916 e viveu 97 anos. Dele se diz que era o Guimarães Rosa da poesia ou, que Guimarães Rosa era o Manoel de Barros da prosa. Escreveu muito. Foram vários livros e colecionou mais de uma dezena de prêmios. Foi um poeta brasileiro do século XX, da geração de 45 mas, sua poesia se situa nas cercanias das vanguardas européias e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Recebeu dois prêmios Jabutis. Nos meios literários é o mais aclamado poeta brasileiro da contemporaneidade. Seu livro mais conhecido é o “Livro sobre Nada”. Dele dizia a crítica Berta Waldman: “a eleição da pobreza, dos objetos que não tem valor de troca, dos homens desligados da produção (loucos, andarilhos, vagabundos, idiotas de estrada), formam um conjunto residual que é a sobra da sociedade capitalista; o que ela põe de lado, o poeta incorpora, trocando os sinais”.
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Você acredita que esse engenheiro baiano, nascido na Ucrânia, construiu um barco com 11 m de comprimento – o Três Marias – , no quintal de sua casa em Salvador e se lançou ao mar, em 16 de março de 1980, numa aventura que durou quatorze meses, percorreu 26 mil milhas náuticas e visitou dezessete portos, sozinho?
Pois bem, Aleixo Belov foi o primeiro velejador brasileiro a completar uma volta ao mundo em solitário, num barco à vela, numa época em que não existia o GPS (Sistema de Posicionamento Global) para navegação. Ele se valeu da navegação astronômica, usando o sextante, se orientando de dia pelo sol e à noite pelos astros. Como se vê não era uma aventura para qualquer um…
Navegar é preciso!
Sua primeira volta ao mundo precisou de muito planejamento, organização, experiência mas, sobretudo coragem. Ele mesmo conta que a viagem foi cheia de emoções e muitos riscos. Ao regressar a Salvador 14 meses depois, Aleixo recebeu um Diploma da Marinha brasileira e escreveu A Volta ao Mundo em Solitário, seu primeiro livro, contando com detalhes essa aventura pelos mares do mundo.
Tendo apreciado a viagem de barco por tantos portos e mares e, se saído muito bem dessa primeira expedição, Aleixo ainda deu mais duas voltas ao mundo em solitário: uma em 1986 e outra em 2000 que ele descreve nos seus livros. E não parou quieto.
Em 2010 surpreendeu novamente, realizando um novo sonho: construiu outro barco, desta vez de aço – o veleiro-escola Fraternidade -, bem maior que o primeiro e, lá se foi para mais uma volta ao mundo, desta vez levando a bordo jovens brasileiros, selecionados num concurso nacional, para ensinar-lhes a arte da navegação e o gosto pelo mar.
Aleixo partiu para sua primeira viagem como engenheiro e velejador. Voltou escritor. Foram ao todo seis livros, até agora, narrando suas aventuras, reflexões, encontros, visitas e sobretudo seu diálogo interior, na busca de entender o sentido da vida e seus limites.
Sua última façanha foi em 2013 quando, zarpando mais uma vez de sua amada Salvador, fez uma viagem de cinco meses à Antártida – a bordo do Fraternidade – acompanhado por nove tripulantes. Uma aventura e tanto, com travessias perigosas e paisagens incríveis daquele mundo gelado, misterioso, belo e pouco conhecido.
Esta é sua história e de suas viagens mas, antes de embarcarmos, gostaria de contar como o conheci. Falar sobre sua personalidade e sua maneira de ver e de levar a vida. Contar como nos tornamos amigos e mostrar sua importância na minha formação como jovem engenheiro.
O “professor” de portos
Nos conhecemos no início de 1976, numa sala de aula do curso de engenharia civil, da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. Era meu último semestre e ele, o professor de Portos.
Olha só a figura do professor!!
No primeiro dia de aula chegou de calça jeans desbotada, camisa quadriculada, sapatos mocassins, bolsa enorme e surrada a tiracolo, corpo atlético, pele bem branca – denunciando sua origem estrangeira – certamente curtida pelo sol da Bahia. Era a antítese de um professor!
Para completar o personagem, tinha longos cabelos louros, barba grande, olhos azuis e perscrutadores, falava de maneira mansa e cadenciada, com um inconfundível sotaque baiano…
“Pelo arriar das malas, chegou mostrando quem era. Lembrava mesmo um homem do mar. Passava a impressão de estar sempre contemplando um horizonte invisível e distante.”
Foi o que pensei com meus botões, ao me levantar para receber o mestre Aleixo Belov!
Sem que eu me desse conta, estava nascendo ali – de forma despretensiosa e por acaso – uma amizade que resistiu ao tempo, aos ventos, às viagens, às “brigas”, aos percalços da vida e que está prestes a completar quarenta anos.
Tampouco eu conseguiria imaginar que trinta e três anos depois desse encontro, eu serviria ao estado da Bahia como Secretário Extraordinário da Indústria Naval e Portuária! Nesse cargo, caberia a mim lidar com os mesmos portos que estudei, quando fui aluno do Aleixo. Foi mais uma dessas surpresas que a vida nos reserva!
Já no primeiro dia de aula, ele foi logo avisando:
“Na minha matéria, assiste a aula quem quer. Não faço chamada e nem questão da presença de ninguém. E tem mais: não reprovo no fim do curso.
Quem reprova é a vida, quando vocês saírem daqui para enfrentar o mundo!”…
Não deu outra: as aulas de portos eram sempre as mais disputadas e frequentadas. Ninguém faltava. A matéria era atraente, a didática cativante e ele – com sua maneira singular – sempre trazia questões portuárias interessantes para discutir.
O curso terminou com uma uma aula prática, no canteiro de obras do Consórcio franco-brasileiro Mendes Júnior-Campenon Bernard, na Baía de Aratu, no Recôncavo Baiano, onde Aleixo comandava a construção de plataformas de concreto para a Petrobras.
Lá chegamos de barco e Aleixo nos deu uma verdadeira aula sobre o empreendimento! Me lembro da nossa surpresa – como estudantes – ao constatar a existência de uma grande e complexa obra de engenharia bem perto, quase no nosso nariz, que pouca gente da Bahia conhecia.
O destino ainda tinha reservado mais uma para mim: um dia – não tão distante daquela visita – eu trabalharia ali também, na qualidade de colega do então ilustre mestre de portos, Aleixo Belov!
Curso concluído, me formei. Aleixo seguiu sua vida, como professor e gerente de construção das plataformas e eu, a minha, de engenheiro recém-formado, buscando um lugar ao sol.
O projeto das Plataformas
As plataformas de concreto eram construídas num canteiro de obras na Bahia, rebocadas e instaladas no litoral do nordeste brasileiro e se destinavam à perfuração e produção de petróleo num projeto pioneiro e tecnologicamente muito avançado para o Brasil daquela época, meados dos anos setenta.

Eu de boné branco, Aleixo e Guilherme Hippie – num de seus exóticos trajes baianos na saída do Fraternidade em 2010.
Um colega de turma que trabalhava no projeto, levou meu currículo para Guilherme Azevedo, o “engenheiro hippie” que me contratou como seu assistente. Ele ganhou esse apelido pelos exuberantes trajes baianos que costumava e continua a usar. Veja na fotografia ao lado.
Reza a lenda que Guilherme, um dia, teve uma reunião com Dr. Norberto Odebrecht, fundador da Organização que leva seu sobrenome, conhecida por todos e onde mais tarde eu viria a trabalhar. Guilherme entrou na sala com uma vistosa bata colorida e seu inseparável tamanco fazendo toc, toc, toc, toc… Eis que dr. Norberto ao levantar os olhos e ver aquela cena teria dito: “Mas, Guilherme, você veio de tamanco?” Prontamente, sem perder a viagem nem o rebolado, Guilherme respondeu: “Desculpe dr. Norberto. O senhor não gostou dos meus tamancos? Espere um pouco!” Saiu da sala, retirou os tamancos e voltou. ” Pronto dr. Norberto. Problema resolvido. Vamos em frente?” e fez a reunião descalço… Coisas assim, só na Bahia!
Graças a essa contratação, voltei ao convívio com meu ex-professor e dessa vez como aprendiz, pois o trabalho da engenharia, era apoiar a construção das plataformas. Na obra, meus líderes eram Guilherme e Aleixo. Uma dupla do barulho pois eram amigos de longas datas.
A obra era uma verdadeira escola, pela quantidade de disciplinas envolvidas, pelas características de projeto estrangeiro com profissionais de vários países e pelos aspectos de engenharia que tinham que ser considerados. Rodava dia e noite, sem parar, com quase três mil operários no pico da construção. Era um senhor desafio.
Aleixo era um leão para trabalhar. Seu estilo singular. Sua liderança impressionante.
Comandava três mil peões na obra e uma equipe de mais de duas dezenas de engenheiros e técnicos, brasileiros e estrangeiros de várias nacionalidades. Uma verdadeira Babel…
E olha que lá era apenas uma torre!
Eu, aprendiz de… Engenheiro
O Aleixo era dono de uma maneira irreverente, franca e direta de se relacionar com as pessoas. Do peão ao diretor geral do Consórcio, ele não “dava mole” e nem “deixava por menos”. Suas “diretas” surpreendiam e desconcertavam sem a menor cerimônia. Era uma verdadeira metralhadora-giratória. Gostava de testar e confrontar as pessoas o tempo inteiro! Fui testemunha – e “vítima” – incontáveis vezes, da sua então famosa “dialética”… Era seu jeito de ser. Quem quisesse enfrentá-lo, que se preparasse. O bicho não brincava em serviço.
Foi assim nessa luta que fui aprendendo e crescendo. O trabalho no canteiro não era sala de aula. Era muito diferente. O convívio intenso. Os desafios permanentes. Levei um tempo para me adaptar. Trabalhando no apoio, era “brindado” com frequência por seus questionamentos, demandas, gozações ou “chamadas”.
Quase sempre eu saí das “brigas”, menor do que entrei… [risos]
Apesar de tudo, eu não desistia.
No dia-a-dia, o Aleixo e suas “tiradas”, me deixavam pensativo e ao mesmo tempo admirado. Naquele ambiente, ninguém agia ou falava como ele. Paulatinamente, meu estranhamento e reação, foram cedendo lugar à admiração e respeito, que foram se ampliando com a convivência e o passar do tempo.
Os embates foram incontáveis contudo, fomos capazes de criar as condições para conversar também sobre: a vida, o ser, escolhas, viagens, ideologias, educação, cultura, filosofias, livros, escritores, poetas, desafios, casamentos, divórcios, famílias, filhos, sonhos, erros, acertos, riqueza, pobreza, problemas políticos e sociais do Brasil e de outros países etc. A conversa rolava sobre tudo e sobre todos. A amizade foi se forjando e se firmando, quem sabe, nessas discussões sem fim…
Agora, que pela primeira vez estou escrevendo sobre esses tempos – parte importante da minha história de vida – confesso que carrego no meu coração, uma eterna gratidão à dupla: Guilherme-Aleixo. Esse post, também representa um reconhecimento e uma homenagem a eles.
Do Guilherme, posso dizer, entre outras coisas, que herdei um jeito baiano de olhar para as pessoas, as situações e os problemas, achando que sempre se encontra uma solução.
Com Aleixo, aprendi a não ter medo. Nem do desconhecido! Parece pretensão e talvez fosse mesmo, pois dentro de mais algum tempo, seria eu a me jogar – não num mar de água, nem pilotando um barco – mas, no mar da vida, comandando os meus próprios sonhos.
O episódio de meu “batismo” no mar
Vou contar um episódio, ocorrido durante a viagem da Bahia ao Ceará, para a instalação de uma das plataformas. Depois de dez dias de viagem, bateu uma saudade da minha namorada na época e, resolvi pedir a Aleixo, para ir à terra, telefonar, pois naquele tempo, não havia celular e nem telefone a bordo. A plataforma estava instalada a alguns quilômetros do litoral.
O Aleixo disse: “muito bem, você quer ir em terra? Vá. Tem um helicóptero saindo da plataforma daqui a pouco. Você pega uma carona e vai até o posto telefônico em Guamaré. Faz sua ligação e volta amanhã, cedinho, no barco dos marinheiros que vem para cá.
Veja que coisa boa: carona de helicóptero na ida e, passeio de barco, na volta. Tudo de graça!”
E riu. Nem desconfiei que estava entrando numa fria.
Entrei no helicóptero feliz da vida e fui telefonar. A viagem foi rápida e tranquila. Saltei num campo de futebol em Guamaré e fui imediatamente para o posto telefônico. Liguei para Salvador e, para minha tristeza a namorada não estava. Me ferrei. Viagem perdida!
O posto fechou. “Botei a viola no saco”, conformado. Comi uma moqueca com os colegas de trabalho que ficavam na vila, dormi um pouco até ser acordado pelos marinheiros, por volta das três horas da manhã. Era hora de pegar o barco de volta para a plataforma.
Ali começou a minha “tragédia”. O barco era pequeno e aquele mar imenso e batido. Parecia uma casca de noz, balançando sem parar, de um lado para outro. O vento soprava forte. Não estava de brincadeira. E eu ali no meio daquela zorra…
Logo me dei conta do “passeio” que Aleixo se referia. Não demorou muito comecei a passar mal, para diversão dos pescadores que riam, ao ver um “marinheiro de primeira viagem”. Fiquei branco, amarelo e vomitei tudo o que podia e, o que não podia. Com o tempo, o enjoo só piorava. À medida que íamos avançando, mar adentro, o barco balançava ainda mais. Os marinheiros me indicaram um beliche para deitar e foi o que fiz. Eu deitado e o mundo girando em minha volta. Juro que desejei ter forças para me jogar no mar e, acabar com aquele sofrimento! Não tive.
Depois de mais de oito horas de enjoo e sofrimento, finalmente avistei a plataforma. A esperança de chegar foi restabelecida. Demorou mas, chegamos. Ao ser içado para bordo, adivinhe quem estava me esperando, com um sorriso maroto na cara? O “filho-da-puta” do Aleixo Belov, que me saudou:
“Viu seu moleque? Você agora foi “batizado”. Fez sua primeira viagem de barco. Entrou para o rol dos homens do mar!!!”
Aquele era o meu “amigo” Aleixo Belov e naquele dia fui batizado mesmo! Fim da história!
A volta ao mundo, a chegada e a revelação de um segredo
Enquanto trabalhava nas plataformas, construía seu barco. Depois de construído o Três Marias, muito planejamento e preparação, chegou o grande dia da partida de Aleixo para a primeira volta ao mundo. Era 16 de março de 1980.
Me lembro como se fosse hoje. Ele marcou a saída para as oito horas da manhã. Cedo para um domingo. Cheguei atrasado mas, ainda a tempo, de dar um adeus de longe. Ele não notou, pois já estava envolvido com as manobras, para levar o barco para fora do cais. Olhei e pensei:
Lá se foi o meu amigo, em busca de realizar o seu sonho…
Fiquei ali no cais do porto, contemplando com tristeza sua partida e me lembrando das nossas conversas, durante os anos de convivência. Lembrando, também, que quando indaguei por que ele queria fazer uma viagem ao redor do mundo em solitário, respondeu:
Viver não é preciso!
“Quero ir conhecer os meus limites. Não sei se volto vivo. Se voltar, você saberá…”
Acrescentou, que quando estava sozinho no mar, era invadido por um sentimento de harmonia, paz e tranquilidade, que não tinha em terra. Dizia, que as pessoas interferiam, atrapalhavam, criavam muitos ruídos e embotavam o raciocínio. Preferia a solidão, pois assim, se reencontrava com suas questões mais fundamentais.
Aleixo Belov se foi! Nós ficamos! A vida continuou. Ele ao mar e nós em terra…
O tempo foi passando. Recebi notícias esparsas durante sua viagem. Eventualmente aparecia alguma reportagem no jornal A Tarde. Até que, quatorze meses depois, veio o dia da chegada. A cena continua viva na minha memória, assim como a da partida. São coisas marcantes e dão a impressão que aconteceram ontem.

1) Dimitri Belov, o pai de Aleixo 2) O abraço do amigo e o segredo revelado 3) O abraço do povo baiano
Eu estava lá na chegada, como muitos amigos, familiares dele e curiosos, para assistir o espetáculo. Na Bahia, o que não vira festa não tem a menor importância. Banda da Marinha perfilada, tocando o Cisne Branco no mesmo cais de onde ele saiu quatorze meses atrás, no II Distrito Naval defronte o Elevador Lacerda em Salvador. Era festa! Uma grande festa. Como só os baianos sabem fazer.
Lá estavam Guilherme, Osmar Macedo – inventor do trio elétrico – Petronio, Goes, Grilo, Diro, familiares, alunos, colegas etc. Aleixo nem bem atracou o barco, deu um grito de vitória e um salto para terra. Abraçou os amigos, um por um. Foi aquela alegria.
Quando chegou a minha vez, além do abraço, me confidenciou algo que guardo comigo até hoje:
“Escute bem meu camarada: Naquele canteiro de obras das plataformas, você – apesar de jovem e inexperiente – era o único que tinha a ousadia e a coragem de me enfrentar.
Toda vez que lhe dava uma porrada, você titubeava, caía mas se levantava. Reagia. Voltava para a briga… Lá no meu íntimo, eu me alegrava, pois sabia o que estava fazendo. Ficava feliz por lhe ver lutar, resistir, enfrentar.
Eu era um adversário mais forte e poderoso porém, você não se acovardava. Lutava.
Eu não podia lhe dizer isso naquela época. Esperei e guardei esse segredo o tempo todo. Agora que voltei, estou lhe revelando… É seu!”
Esse diálogo, de pé-de-ouvido, mostrado na foto acima, ocorreu logo após eu receber o abraço do meu amigo Aleixo Belov na chegada da sua primeira volta a o mundo.
Agora que vocês sabem quem é Aleixo Belov, vamos aguardar o próximo post com sua entrevista.
Beto Benjamin
Notas:
- As fotografias deste post foram feitas por Nilton Souza, Leonardo Pappini e por mim mesmo.
- Sextante: instrumento de navegação inventado em 1757 por Campbell, um oficial da marinha inglesa e aperfeiçoado 20 anos depois por Godfrey, um vidraceiro americano da Filadélfia],
Próximo post: A entrevista com Aleixo Belov – O navegador solitário
O Diretor chinês Zhang Yang dá um banho de humanismo com o filme O Ciclo da Vida, conduzindo-nos de forma didática e magistral pelos meandros tragicômicos de um grupo de velhos, que – desejando ou não – acaba abandonado numa Casa de Repouso para viver o tempo que ainda lhes resta de vida.
A partir de um enredo simples – a participação de um grupo de idosos num concurso de esquetes em um programa de televisão numa cidade distante – Zhang nos faz percorrer um labirinto de sentimentos e reflexões à medida que vemos desenrolar os fatos, as questões, os dramas e as dores, as dificuldades do dia-a-dia, as cumplicidades entre os amigos e os problemas individuais.
Impossível – com o desenrolar da narrativa – não olhar para dentro de si mesmo, estendendo esse olhar aos familiares e amigos próximos, nos questionarmos sobre como estamos lidando com a inexorável chegada da velhice. Tema ainda tabu para muita gente.
Há quem ache o filme muito “americanizado”, se comparado com filmes anteriores do Diretor. Há, inclusive, insinuações de que ele fez esse filme para “ganhar dinheiro” pois ali tudo é “muito previsível e pouco chinês”. Bom, opinião é direito de cada um. Fica, então, a seu critério avaliar a película como original, autoral ou pasteurizada…
Os atores – todos em idades bem avançadas – dão um show de interpretação. Quem sabe, até, porque estivessem interpretando a si próprios. Volta e meia, somos surpreendidos por cenas e interpretações de extrema beleza, simplicidade e, sobretudo, emoção.
Grande Zhang! A China agora no cinema ainda vai dar muito o que falar! Dirigiu anteriormente os seguintes filmes: Spicy Love Soup, Banhos, Abandono do Sucesso, Flores do Amanhã, A Caminho de Casa e Caravana da Amizade.
Gostei e me emocionei. Só falta vocês…
Abaixo, o trailer do filme.
Beto Benjamin
Ouçam o que este jovem cantor havaiano literalmente peso pesado mas, de voz suave foi capaz de fazer com dois clássicos da música americana, gravados por cantores famosos no mundo inteiro. O cantor e compositor Israel Kamakawiwo’ole tocava um instrumento musical chamado ukulele, com quatro cordas e formato de violão.
Enquanto viveu usou sua música para defender os direitos dos nativos e a independência do Havaí, hoje parte dos Estados Unidos. Devido à obesidade mórbida chegou a pesar 343 kg e teve uma vida muito curta. Morreu em 1997 aos 38 anos e deixou canções inesquecíveis.
Fazendo um contraponto e aproveitando a canção What a Wonderful World, incluí um vídeo do famoso trompetista e cantor americano Louis Armstrong com seu vozeirão rascante e profundo, simpatia e sorrisos inigualáveis, numa interpretação impressionante. De tirar o fôlego. Confiram vocês!
Beto Benjamin
https://www.youtube.com/watch?v=CWzrABouyeE&list=RDCWzrABouyeE&index=1
Vejam o que o Charles Trenet, um dos maiores cantores e compositores franceses faz com esta composição dele próprio chamada La Mer!
Trenet brilhou no cenário musical mundial entre 1930 e 1950 embora sua carreira tenha se estendido até os anos 90. Teve esta canção gravada por Bobby Darin nos início dos 60 e por George Benson em meados de 80. Esta é sua canção mais famosa fora da França e teve mais de 400 versões gravadas em todo o mundo.
Para vocês curtirem, os vídeos com as versões de Trenet no original e Benson em versão inglesa Beyond the Sea com seu “swing jazzístico” imperdível em gravações ao vivo.
Beto Benjamin
Na qualidade de frequentador, de uns anos para cá, do Boulevard na ilha de Itaparica – bem como assíduo penetra das festas de aniversário do saudoso João Ubaldo Ribeiro – decidi me aventurar a garimpar a falta que ele faz aos seus amigos que sempre estão pela ilha, e olhem só a última parte do que registrei: entrevista com um de seus personagens mais famosos: Zeca Harfursh vulgo Zecamunista.
Devo dizer que fiquei impressionado de início, e depois profundamente tocado com o carinho, a admiração e a amizade que os entrevistados devotam a João Ubaldo. Não me surpreendeu entretanto, pois tratam-se de relações construídas há muitas décadas, que foram nutridas com os encontros de sempre que eles souberam cultivar, demonstrando que nem a distância nem o tempo são capazes de apagar – sequer diminuir – amizades verdadeiras e desinteressadas como essas.
A todos eles e ao nosso João Ubaldo Ribeiro – que anteontem completou um ano de morto – meu respeito, admiração e reverência.
Beto Benjamin
Parte da extensa obra do autor
B.B. (Beto Benjamin): Zeca, você é o último dos amigos de João que entrevistei. O que você tem a contar da sua amizade com João Ubaldo e como surgiu o famoso personagem Zecamunista?

Zeca e João fazendo um trato
Zecamunista: João Ubaldo e eu nos conhecemos em 1958. Comecei a namorar em 62/63 com uma amiga de Bilõ que era namorada dele. Saíamos muito juntos para “matinées” entre outras coisas. Eu tinha 22/23 anos. Era outra Bahia bem diferente dessa de hoje. Qualquer um podia andar sem medo de dia ou de noite. Podia ir a todo canto sem ser incomodado por ninguém. Hoje não dá né?
Depois de deixar as namoradas em casa – porque tinha aquele horário 22 horas, “menina de família” e principalmente a minha cujo pai tinha sido Secretário de Estado da Segurança – partíamos para a “gandaia”.
Íamos para aqueles inferninhos tipo XK Bar ali na Vitória. Tomávamos Cuba Libre, a bebida que nosso bolso alcançava naquela época. Já viu: estudante, grana curta, pegávamos as “garotas” para dançar… Todo estudante era metido a esquerdista, era uma obrigação naquele tempo. Tinha que ser! João sempre foi direitista, um “conservadorzinho” enrustido. Cada um de nós sabia exatamente em que lado estava o outro. Nos respeitávamos mutuamente e ele sabia que eu era atuante mesmo. Me candidatei à presidente do Diretório Acadêmico de Arquitetura e perdi. Foi exatamente em 1963, um ano antes da famigerada “Revolução Redentora de 1964”.
João e eu saíamos muito juntos enquanto solteiros. Posteriormente ele se casou com a primeira mulher – Bilô – que era nossa amiga. Eu e minha namorada Valdete íamos muito ao apartamento deles na Rua Oito de Dezembro na Graça. Batíamos papo, bebíamos cerveja, whisky nacional, ouvíamos música noite adentro. Ele tinha o mesmo sorriso dos últimos tempos. Sempre sorrindo. Raríssimas vezes vi João Ubaldo fechar a cara. Só duas vezes e em Itaparica, por causa de gente que o assediava enquanto ele queria tranquilidade. Curtimos muito nossa amizade. Um dia, intempestivamente, ele se separou da primeira mulher. Ela me contou uma história e ele me contou outra. Evidentemente as histórias eram completamente diferentes. Nunca questionei nenhum dos dois. Ouvia um, ouvia o outro e ficava calado. Nunca tomei partido.
Depois ele foi para Portugal e para os Estados Unidos. Aí nos afastamos. Em Portugal conheceu sua segunda mulher. Depois voltou para o Brasil e aí foi a minha vez de viajar. Me embrenhei pela Amazonia. Fui trabalhar como fiscal de obras da Ceplac [órgão criado pelo governo federal para cuidar da recuperação da lavoura cacaueira com sede em Itabuna-Bahia] na Amazonia e passei mais de quinze anos fora da Bahia.
Um belo dia em 1979 já de volta à Bahia estava numa churrascaria na Pituba em Salvador – pouco antes de Glauber Rocha morrer – e eis que chega João Ubaldo com sua nova esposa. Sentamos juntos e começamos a bater papo. Lá pelas tantas ele perguntou:
“Você continua comunista?”
Respondi: “Não só continuo como fundei o Partido Comunista em Itabuna!”
Ele riu muito… Eu disse: “Pois é, continuo!”
Depois disso morei em Brasília até 1985 quando retornei para Salvador. Minha mulher morreu nesse ano. Enquanto eu morava em Brasília ele estava fazendo a versão para o inglês de Viva o Povo Brasileiro. Ele mesmo escreveu a versão. O jornal O Globo tinha dado a ele de presente um computador potente para a época, com editor de texto e tudo. Daqueles que escrevia com letras grandes e resolução horrorosa. Ele trabalhava diariamente na Biblioteca em Itaparica de 5 às 9 horas da manhã. Depois ia para o Bar do Negão na Praça da Igreja e ficávamos bebendo até a hora do almoço.
No veraneio de 1986 após a morte de minha mulher foi que ele fez a primeira crônica me chamando de Zeca mesmo. Aproveitou minhas viagens para a Amazônia. Escreveu que fui comprar um cadarço, sumi e reapareci tempos depois em Rondônia. Houve uma história verdadeira, parecida com isso, mas se passou em Ilhéus.
Eu realmente saí um dia para comprar um cadarço e só reapareci dois dias depois. Foi um escândalo na cidade!
Ele aproveitou o ocorrido e introduziu a Amazônia como pano de fundo.

Batendo papo no quintal
A história de Zecamunista foi nos anos noventa e tantos, dois mil, por aí assim… Nem lembro direito quando escreveu a primeira crônica falando de Zecamunista. Ele era cronista d’O Globo desde 1986. Mandou fazer uma “charge” minha montado num camelo. Aproveitou o pessoal do jornal que desenhava e botou um camelo devido a minha origem libanesa. Ainda não tinha usado a alcunha de Zecamunista. Ele era também amigo de dois irmãos meus: Luciano que já morreu que ele chamava de Kibe Frito e Sérgio Harfush. Neste ele nunca botou apelido. Depois ele sumiu por um bom tempo. Foi quando assumiu a Academia Brasileira de Letras.
B.B.: Teve um história sua com ele sobre um blazer?
Zecamunista: Teve sim. Lembro que em 1986 ele foi com Jorge Amado para os Estados Unidos representar o Brasil na abertura da Assembléia da ONU.
Chegou para mim em Itaparica e disse: “O que é que eu faço, Zeca? Eu não tenho paletó! Como é que eu vou para a ONU?”
Respondi: “Calma João, eu tenho dois blazers.
– Mando buscar em Salvador e você testa os dois.
– Não lhe dou um terno porque com essa sua barriga não vai caber mas, num blazer tudo bem.”
Foi com meu blazer para Nova Iorque. Aí falou a seguinte frase com aquela voz retumbante e gargalhou:
“Zeca, você não vai aparecer na ONU mas, seu blazer vai! Vai ficar famoso!”
Depois surgiu o nome dele como candidato à Academia Brasileira de Letras lançado por Jorge Amado. Era o padrinho dele na Academia. Um padrinho forte para a porra!
B.B.: E a história do carro com alto-falante que você mandou botar na sede da Coelba [distribuidora de energia elétrica no estado da Bahia] em Itabuna?
Zecamunista: Eu tinha me mudado para Itabuna. Deixei meus filhos com minha mãe em Salvador e fui para assumir a agência da Coelba por indicação do Sindicato dos Eletricitários do Estado da Bahia. Entretanto, o Waldir PIres, nosso governador na época, botou minha indicação na mesa e nunca dava o despacho final. Com isso o pessoal ligado a Antonio Carlos Magalhães (ACM) continuava ocupando os cargos no segundo e terceiro escalões. O governador não se mexia. Acionei o Partido Comunista Brasileiro ao qual eu era afiliado na época. Fui a Brasília procurar o deputado federal João Santana. Não adiantou. Não moveu uma palha.
Aí decidi botar um carro com alto-falante na rua com o jingle da campanha do Waldir Pires que era “A Bahia vai mudar”…. Botei mesmo!
Botei o carro na porta da Coelba em Itabuna. A maior parte da Diretoria da Coelba em Salvador era do PC do B, gente com quem nunca me dei muito bem. Mandaram me chamar em Salvador: “Zeca, pelo amor de Deus, tira esse carro de lá!” Perguntei: “Tirar por que? Que mudança de governo é essa? Já se passaram seis meses e vocês ainda estão deixando um cara desses lá! Sempre foram contra nós!” Ouvi em troca: “Quinta feira ele sai”. Liguei para o Diretório e voltei para Itabuna. Efetivamente na quinta feira tiraram o representante do grupo de ACM e o carro de som saiu… Indicaram provisoriamente um primo da mulher de Waldir Pires que era funcionário da Coelba. Menos mal…
Tudo bem. Fiquei tranquilo. Voltei pra Salvador meio ressabiado com o Governador: Não por ele não ter indicado o meu nome; muito mais porque foi preciso toda essa pressão para retirar um representante do grupo de ACM! Foi Fernando “Cuma”, prefeito de Itabuna quem falou para o Waldir Pires:
“Eu não quero esse comunista aqui na Coelba”.
Ficou definido que eu não iria. Foi o prefeito quem escolheu todas as pessoas para ocupar os cargos estaduais em Itabuna, por incrível que pareça no Governo Waldir Pires! Ninguém mais do que ele! Aí você já viu para onde iria esse governo que terminou tragicamente… Uma tristeza…
Rapaz, fiz campanha para Waldir Pires, fiz miséria… Tirei dinheiro do meu bolso e comprei carro para a campanha em Itabuna. Comprei uma caminhonete que nunca voltou para mim. Comprei e doei ao partido para trabalhar por Waldir Pires achando que íamos derrotar ACM. Uma vitória histórica e depois foi aquela loucura… Waldir entrou naquela canoa furada de vice do Ulysses Guimarães… Pode?
B.B.: Como foram os dois episódios em que João Ubaldo perdeu o humor e fez cara feia?

Fumando no hospital. Pode?
Zecamunista: No último aniversario dele em 2014 ele estava insuportável. Irreconhecível. Intolerante com todo mundo. Um dia, dei-lhe um esporro mas, dei-lhe mesmo. Eu estava em casa e por volta das cinco horas da tarde ele ligou: “Vá para o Bar do Espanha porque estou indo para lá agora tomar um whisky.” Ele voltou a beber whisky. Fazia anos que não bebia. Tomava sempre um chopp lá no Rio de Janeiro com a turma que ele tinha no Tio Sam. Nesse dia, fomos para o Bar do Espanha. Tava cheio de gente. Ai chega um sobrinho meu filho de Sergio, com um amigo. Rapaz, João estava encostado na parede e eu perto. Não tinha mais nenhum banco na mesa. O camarada chegou, abraçou João Ubaldo e disse: “Serginho, bata uma foto aqui”… Pronto foi o suficiente. O João fechou a cara e virou de costas para a câmera. Serginho “pá”: bateu. Quando viu o resultado disse: “Deleta essa foto”…
Aí João se mancou. Caiu a ficha. Viu a cagada que tinha feito. Ficou chateado mas, a merda “tava” feita.
A outra demonstração de intolerância foi com um grupo de japoneses. Eu estava com ele debaixo daquele oitizeiro lá na Praça da Quitanda, sentado no Bar do Negão antes do almoço. De vez em quando eu ia lá no Espanha e pegava whisky para ele. Não vende whisky no Negão. Só cerveja e cachaça. No tempo que ele era pobre, era Old Eight. Depois não, assentou o rabo na grana e aí era whisky de boa qualidade. Quando voltei, olhei para ele e perguntei: “O que houve?” Ele disse: “Estou sentindo que aquela tropa de japoneses, está tirando fotos e vai se aproximar.” Daqui a pouco tornou a falar: “Estão vindo para cá!” Aí fechou a cara de novo. Eu falei: “Joao, agora queira ou não queira você é conhecido nacional e internacionalmente. Pare com isso e receba bem o pessoal.” Dessa vez felizmente ele aceitou. Aí uma japonesa se aproximou e trouxe um livro dele para autografar. Ele autografou, mas com a cara fechada. O pessoal foi embora. Aí eu disse para ele: “Você está cansado! Que porra é essa rapaz?” Ele retrucou: “Eu não tenho mais paciência…” Eu respondi na lata:
“Então não venha para praça pública. Fique em casa e beba lá.” Mas, tudo isso era passageiro. Ele não era assim…
B.B.: É verdade que ele dizia que ia morrer aos 73 anos?
Um dia em Itaparica debaixo das mangueiras onde a gente se reunia todas as noites e fazia também umas outras coisas, estávamos batendo papo e ele falou: “Eu não vou passar de 73″… Eu disse: “Rapaz, que conversa maluca é essa? Ficou louco?”. “Vou morrer com a mesma idade de meu pai e de meu avô!!!”. “Rapaz, que negócio é esse? Está agora dando uma de adivinho, pitonisa? Que porra é essa?” Ele estava realmente com algumas crises de falta de ar por causa do cigarro. “Zeca, eu não consigo largar essa miséria… Larguei a bebida!” Eu ri muito… “Largou a bebida!!! Hum”…. “Mas o cigarro eu não consigo.” Cigarro é difícil. Cigarro é cruel. Ele estava num nervoso danado e repetiu isso duas vezes em duas noites diferentes. Que conversa mais esquisita rapaz… Maluca. Ele estava assim…
Ele botou na cabeça que ia morrer com a mesma idade que morreram o pai e o avô dele: 73 anos. E morreu!
Tanto que quando no dia 18 de julho, às 6 horas da manhã o telefone tocou em casa atendi falando: “Não me diga que é que o que estou pensando?” Ela disse: “É pior”. “É mesmo? Como foi que aconteceu?” Berenice me disse que ele teve um edema e puff… Lá se foi meu melhor amigo… Liguei para Sérgio meu irmão e perguntei se ele queria ir pro Rio comigo. Pegamos o avião e fomos juntos para o Rio. João Ubaldo foi enterrado no dia seguinte pois estavam aguardando a outra filha dele com a portuguesa, que morava na Alemanha.
B.B.: Ele curtia muito os amigos? Gostava de estar com vocês?

Com a filha de Zeca, Tati
Zecamunista: Gostava sim. Adorava… Ave-Maria! Curtia muito estar e falar com os amigos… A gente ficava mais de duas, três horas no Skype conversando maluquice. Teve um dia que eu disse: “Rapaz, parece até que nós estamos namorando”… Toda vez que ele viajava ligava via Skype. Comprou uma câmera para o computador: Dizia: “Olha como eu estou bonito aqui na Alemanha!”. Eu respondia: “Rapaz, cuidado com esse negócio de câmera. Diga a sua mulher Berenice que ela está aparecendo aí atrás…”
Berenice nem ligou… Uma mulher extraordinária. Só ela para aguentar o João Ubaldo e suas presepadas.
Eles se conheceram no Rio Grande do Norte. Foi uma paixão à primeira vista. Fulminante. Ela era casada com Henfil e me disse:
“Zeca, quando eu conheci este homem, me apaixonei por ele e ele por mim.”
“Berenice, para aguentar este homem trinta anos só você mesmo! Também ela administrava tudo. João não assinava um cheque. Era ela quem fazia tudo. Ele não pagava uma conta, nem sabia quanto tinha no banco. Não sabia porra nenhuma!
Ele queria voltar para Itaparica. Não voltou depois que os filhos cresceram, porque Berenice tinha o consultório dela no Rio. Era psicóloga e gostava da profissão. Então ela disse: “Para Itaparica eu não volto mais. Vai ficar no Rio aqui comigo.” Ele estava louco querendo morar novamente em Itaparica.
Da turma do Rio tinha um amigo dele que era uma grande figura: Capitão Schutz. Um gaúcho, piloto de avião, ex-comandante da Varig. O pai era alemão. Gente boa pra porra! João me falava sobre essa turma pelo Skype. Um dia ele me convidou para vir ao Rio conhecer os amigos dele. João dizia: “Zeca, eles pensam que você não existe”… Então peguei o avião e fui pro Rio para conhecer a turma dele. Foi o maior sucesso. Estavam curiosos para conhecer o Zecamunista, criado pelo amigo deles. Fui várias vezes ao Rio ficar com ele e com os amigos. Saía daqui sexta feira e voltava na segunda. Toda a turma dele gostava de mim. Tinha um restaurante junto ao Tio Sam e quando as pessoas sabiam que eu estava lá, vinham para conhecer o personagem. Perguntavam: “quem é Zecamunista aqui?” Os amigos apontavam: “É esse aqui”. Fiquei um personagem famoso também naquelas bandas…
B.B.: Zeca devo dizer que eu apreciava muito as crônicas que João Ubaldo escrevia aos domingos n’O Globo. Me lembro bem que no meio daqueles editoriais pesados sobre a situação política, econômica e social do Brasil estava a crônica dele. Aquela coisa leve, hilária e gostosa de ler. Muita gozação utilizando personagens da Ilha de Itaparica e apresentando a Humanidade de uma maneira caricata e gozadora, que só ele era capaz de fazer…

Com Berenice
Zecamunista: De vez em quando ele escrevia umas coisas e se metia em cada enrascada! Eu dizia: “Tá dando uma de cientista político?” Porque ele estava “metendo o pau” no Lula. Era impressionante, vou te contar. Quem teve a sorte de conhecer João Ubaldo como eu conheci? Só andava sorrindo. Achava graça de tudo e era um grande gozador. O mau humor dele era uma coisa passageira, de minutos. Naquela época não tinha dinheiro coitado, ganhava o certinho com as crônicas d’O Globo. Dos livros ele dizia que não recebia dinheiro nenhum. As viagens eram patrocinadas. Os alemães patrocinaram várias viagens à Alemanha assim como os franceses. Geralmente as editoras dos livros dele também patrocinavam as viagens. Depois ele ganhou o prêmio Jabuti. Passou a ganhar bem e recebeu um prêmio de cem mil reais. Dizia: “Tô rico, tô rico”… Posteriormente ganhou o Prêmio da Língua Portuguesa. Parece que foram cem mil euros. Falava: “Estou rico prá porra”. Já morando no Rio de Janeiro.
“Zeca, nunca mais fui na Academia. O jeton está ótimo: mil reais!” “Rapaz, você tá enjeitando mil reais de jeton para não fazer nada?”. “Zeca, não tenho saco para ir para a Academia”. Isso foi em meados dos anos 90. Ele foi para o Rio, morou no apartamento que era de Caetano Veloso e depois o comprou com o dinheiro que os editores lhe adiantaram.
B.B.: Como foi a história de você vestir o fardão da Academia Brasileira de Letras de João Ubaldo?
Zecamunista: Um dia chegamos na casa dele já cheios de whisky, eu e ele. Ele mostrou o fardão da Academia. Não resisti. Disse para ele: tenho que vestir esse fardão. Vesti e minha namorada fez uma foto. Cheguei em Itabuna e mostrei a fotografia para os todos os meus amigos. Só que eu tinha um amigo que era um grande sacana. Você deve ter conhecido: Manoel Leal. Jornalista do “A Região”. Você acredita que ele me aprontou uma? Pegou minha foto vestido com o fardão de João Ubaldo da Academia Brasileira de Letras e publicou no jornal dele! Rapaz, que confusão. Foi um vexame… Fiquei doente ao ver a foto publicada. Liguei para o Manoel: “Olha, você roubou essa foto e publicou. Fez sacanagem comigo das grandes”. Meu consolo é que o jornal é provinciano, não sai de Itabuna. Me acalmei pensando que o assunto não ia sair dali…
Vesti o fardão de João Ubaldo que Jorge Amado deu a ele de presente.
Quando eu contei para ele o que tinha acontecido em Itabuna com a foto do fardão ele falou:
Rapaz, você ficou maluco?
Eu não podia fazer mais nada. Tava publicado.
B.B.: E a Academia Brasileira de Letras e também a da Bahia?
Zecamunista: Ele falava que quando ia às sessões na Academia tinha a Nélida Piñon que era muito amiga. Ele dizia que quando queria contar as maluquices dele na Academia, contava para ela e davam muita risada.
Quando João morreu, no velório foi lida pelo vice-presidente uma nota da Academia Brasileira de Letras que achei fraquíssima. Para mim, a Academia não demonstrou o reconhecimento da dimensão que ele tinha para a cultura brasileira. E sabe por que? João era muito ausente na Academia…
Para ele ser reconhecido e entrar na Academia de Letras da Bahia demorou um tempão! Foi só em 2012. Pode um negócio desses? Ele guardou uma mágoa muito grande disso. Entrou na Academia Brasileira de Letras em 1994 e na Bahia somente em 2012… Êta Bahia…

O beijo do amigo
B.B.: Você sente muita saudade dele?
Zecamunista: Sem dúvida. Deixou muita saudade. Esse ano eu estava olhando as fotos dos últimos veraneios em Itaparica. Me bateu uma saudade da porra dele!
Nesse verão fui para Itaparica apenas para ver Berenice. Fomos tomar cerveja no Bar do Negão.
Posso concluir dizendo que Itaparica perdeu 90% da graça para mim.
Agora que meu amigo João Ubaldo se foi, não tem mais ninguém para bater papo…
Nunca se Sabe 



