Também, João Ubaldo, com uns amigos desses… nem Itaparica aguenta! Bate-papo com amigos do escritor – Parte 1

Na qualidade de frequentador, de uns anos para cá, do Boulevard na ilha de Itaparica – bem como assíduo penetra das festas de aniversário do saudoso João Ubaldo Ribeiro – decidi me aventurar a garimpar a falta que ele faz aos seus amigos que sempre estão pela ilha, e olhem só a primeira parte do que registrei!
Devo dizer que fiquei impressionado de início e depois profundamente tocado com o carinho, a admiração e a amizade que os entrevistados devotam a João Ubaldo. Não me surpreendeu entretanto, pois tratam-se de relações construídas há muitas décadas, que foram nutridas com os encontros de sempre que eles souberam cultivar, demonstrando que nem a distância nem o tempo são capazes de apagar – sequer de diminuir – amizades verdadeiras e desinteressadas como essas.
A todos eles e ao nosso João Ubaldo, meu respeito, admiração e reverência.

Beto Benjamin

João Ubaldo Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica – Bahia – em 23/01/1941 e faleceu aos 73 anos no Rio de Janeiro em 18/07/2014. Escritor, jornalista e roteirista escreveu diversos romances dentre os quais destacam-se: “Sargento Getúlio”, “Viva o Povo Brasileiro”, “A Casa dos Budas Ditosos” e o “Sorriso do Lagarto”. Viveu bom tempo nos Estados Unidos, Portugal e Alemanha. Foi membro da Academia de Letras da Bahia e da Academia Brasileira de Letras. Suas crônicas dominicais publicada n’O Globo e outros jornais eram imperdíveis, primando pelo humor e ironia. Usava os personagens da sua adorada Ilha de Itaparica – reais ou fictícios – como metáforas e pano de fundo para as críticas sociais, ao poder e as mazelas do Brasil.

Na Ilha de Itaparica colecionou diversos amigos inseparáveis ao longo do tempo. Dentre eles objeto dessa entrevista: Jacob Branco, Toinho Sabacu, os irmãos Sérgio e Zeca Harfush – este último inspirou o famoso Zecamunista, personagem criado por João Ubaldo Ribeiro. 

Parte da extensa obra de João Ubaldo.

Essa conversa de botequim ocorreu num sábado do verão de fevereiro de 2015, no Mercado do Peixe na iIha de Itaparica, graças aos “bons serviços” do patrício Sérgio Harfush – libanês de ascendência como eu – que mediou o encontro desses amigos de João Ubaldo Ribeiro moradores ou frequentadores da ilha, dentre os quais ele se inclui, para conversarmos sobre o amigo escritor, sua existência, amizades, crônicas, obras, casos e gozações, mas sobretudo a falta que ele faz aos seus amigos da Ilha.

Como não poderia deixar de ser, o papo ocorreu na mais completa desordem e barulheira, sentados em torno de uma mesa regada por cervejas bem geladas às oito horas da matina de um sábado calorento no Mercado do Peixe da aprazível ilha. Participaram, além do “promoter” Sérgio Harfush, Jacob Branco e Toinho Sabacu. Zecamunista, por estar ausente da ilha naquele instante, foi entrevistado posteriormente.

O bate-papo contou também com as súbitas, inesperadas e sempre surpreendentes aparições de três amigos – estes meus – Fred Carvalho, Yadir Vianna e Zé Caneta, que deram seus pitacos e goles durante o convescote e se escafederam pela ilha do mesmo modo sutil que apareceram.

Confira a transcrição da conversa.

Minha primeira pergunta foi a Jacob Branco, sobre quem João Ubaldo declarou certa vez em crônica que “Se tivesse anel no dedo, botaria num chinelo muitos desses advogadecos mal-acabados que por aí abundam” [crônica “Visão Pragmática da Problemática”]

Beto Benjamin (B.B.): Quando e como começou a amizade entre você e João Ubaldo?

Jacob Branco: A minha amizade com João Ubaldo teve início nos idos de 1958, durante a Copa do Mundo de Futebol, que o Brasil acabou ganhando na Suécia. Apesar da diferença de idade – ele era nove anos mais velho – João Ubaldo despertou minha curiosidade por seu humor, alegria e inteligência. Ele era muito parecido com seu primo Luiz Eduardo, inteligente e intelectual… João Ubaldo era um cara muito além das pessoas daquela época.

Digo isso hoje porque depois – de uns trinta anos pra cá – João Ubaldo dizia que não suportava mais, que detestava intelectual!…

A conversa que ele gostava mesmo era com o povo da ilha. Com o povo desse mercado aqui, o Mercado Municipal Santa Luzia – o mercado do peixe – e também com os frequentadores do bar do Espanha. Existem histórias engraçadas:

Jacob passeia sua exuberância no Santa Luzia

Há uns dois anos nos cruzamos caminhando aqui na ilha. Ele vinha para o cais e eu voltava… Minutos depois invertemos as posições: Ele ia e eu vinha.  Parou e me perguntou: “Você tá fazendo o quê?” respondi: “Nada”. “Vamos tomar uma cervejinha?…” Paramos no bar do Magno e ao lado estavam um amigo meu e minha companheira conversando. Resolvi convidar os dois para se juntarem a nós: “Gente, vamos sentar ali, bater um papo com João Ubaldo?” A reação não foi nada boa: “Ah. Vou não… Essas conversas com João Ubaldo… Não sei não!” Eu nem pestanejei. Dei um “chega prá lá” de verdade nos dois, na hora:

“Porra, vocês estão pensando o que? Vocês estão por fora! O papo com João Ubaldo é pura esculhambação, só putaria… Viu?!”

É o que ele gostava de falar… Estava na praia dele… Morria de rir… Era muita gozação… Contava as histórias acontecidas com ele tanto no Brasil como no exterior…

O “cara” da Academia Acrópole “se achando”

Uma história que João gostava de contar era que lá na Bahia [B.B: como os baianos carinhosamente chamam Salvador] na década de 60/70 existia a Academia Acrópole na Praça da Sé, famosa pela halterofilia. Ele contava que um dos alunos quando terminava o treino ia para frente do espelho e começava a dar uma de Narciso: Pá pá rá pá pá pá. Todo “invocado” ficava ali um tempão no espelho se exibindo. Mostrando e conferindo os músculos.

Toda vez era assim. Terminava o treino e o “metido” ia para a frente do espelho e lá ficava “se achando”, pensando que era Apolo. Até que um dia o cara chegou, treinou e foi embora sem a presepada de sempre. Todo mundo na Academia estranhou. Então João Ubaldo disse que foi lá junto dele e perguntou: “O que houve?” Por que ele parou de fazer aqueles troços – assim, assado – defronte do espelho? O cara olhou prá ele e respondeu: “Vou contar a verdade. A história é a seguinte: eu namorava uma menina no bairro de Roma mas, eu morava no Alto do Papagaio. O que aconteceu é que fui visitar a menina em Roma um dia e a “turma” de lá me deu tanta porrada que eu perdi o interesse pela namorada e pela presepada…” 

Ao não menos famoso Toinho Sabacu, referido por João como “Filósofo estóico com acentuadas influências de Sêneca” [crônica “A Ilha na Vanguarda”], perguntei o seguinte:

B.B.:  Toinho, se João Ubaldo estivesse aqui, o que você diria pra ele?

Toinho Sabacu e Sérgio Harfush, parte da agradável conversa

Os amigos Toinho Sabacu e Sérgio Harfush

Toinho Sabacu: Rapaz é muito difícil dizer, viu? Normalmente a gente contava piada, batia papo, falava sobre a vida da ilha. Quando estava no Rio ele me ligava para se informar, saber dos acontecimentos, das pessoas mais próximas. Queria saber quem tinha morrido, esse tipo de coisa… Queria sempre que eu contasse as novidades. Tudo o que aparecia na ilha, eu contava pra ele. Eu era seu “informante” [X-9 Itaparicano]. Mesmo morando no Rio de Janeiro queria saber tudo da vida de Itaparica: do bom e do ruim. Então era assim: quando falecia um amigo nosso eu ligava para ele e dizia:

– “Alô João Ubaldo. Faleceu “fulano de tal””…
Ele respondia: “É mesmo rapaz?”
– “É!”.
– “Puxa vida! Quer dizer que esse ano já não vou ver mais meu amigo aí?”
Eu respondia: “É. Infelizmente não, porque de repente ele partiu a mil… Não esperou pra ver você… A “catraca” pegou ele no caminho…” [A singular “teoria da catraca”, criada por Toinho Sabacu, está devidamente explicada na crônica “Considerações Iatrofilosóficas”. Veja no final do post].

João Ubaldo passeando na ilha de Itaparica

João Ubaldo curtindo a ilha

João Ubaldo costumava sair cedo de casa em Itaparica. Geralmente cinco e meia, seis horas da manhã. Ele vinha aqui pra feira. Como eu morava perto, quando ele passava eu o acompanhava. Vínhamos para o mercado e ficávamos aqui até umas sete horas da manhã mais ou menos batendo papo. Quando chegava essa hora ele dizia:

“Toinho, vamos embora tomar nosso remédio para pressão. Está na hora.”

Eu o acompanhava empurrando a bicicleta. Umas duas reportagens que foram feitas com ele me flagraram com a tal bicicleta. Ia pra casa. Dizia que ia tomar um cafézinho, comer um cuscuz: Ele era chegado mesmo a um cuscuz.

Todo ano ele vinha para Itaparica. Era sagrado. Ele avisava antes, com uma semana de antecedência. Mandava dizer o dia e horário que ia chegar, até o horário do voo. Fui por vários anos buscar ele em Salvador com o amigo em comum, Beto Atlântico – que saiu daqui do bar há pouco tempo. A gente pegava ele no aeroporto e trazia de lancha aqui para Itaparica.

Agora, respondendo à sua pergunta, hoje a gente sente muita saudade dele. É verdade. Muita mesmo. Ele já fazia parte do cenário…

B.B.: O que vocês conversavam?

Toinho Sambacu: Papo normal… Eu contava piada… Casos que aconteceram comigo… Ele contava os seus casos, suas piadas… As coisas que aconteciam também no Rio com os amigos dele de lá. Outras vezes eu ia na casa dele por volta de seis ou sete horas da noite. Ficava batendo papo com a família toda reunida debaixo da mangueira e lá pelas nove, nove e meia, vinha embora.

À vontade na ilha

Dar risada, bater papo era o dia-a-dia dele aqui na ilha. Não queria saber de botar uma camisa. Para desagradá-lo bastava dizer que ele tinha que ir a Salvador por qualquer razão, para resolver qualquer coisa. Ou então, que precisava fazer alguma coisa que ele tivesse obrigação de vestir uma calça, algo assim.

Era simples. “Cadê a sandália de dedo?”. Usava a bermuda sem camisa. Desligado total. Nunca vi uma pessoa tão simples assim. Nunca vi uma pessoa tão boa, tão humilde como João Ubaldo Ribeiro.

João Ubaldo faz muita falta sim. Tem muita gente por aí que não tendo o posto que ele tinha, não chegava nem perto do que ele foi e, se pudesse, não pisava nem no chão…  “É ou não é, meus amigos?”

Ele não tinha disso. Falava com todo mundo. Era um cara atencioso. Se estivesse aqui conosco – ou em qualquer outro lugar – e alguém chegasse e pedisse para tirar uma foto? Atendia na hora. Era com ele mesmo. Não diferenciava classe. Então João Ubaldo me cativava por seu jeitão e simplicidade. Por que um acadêmico, um imortal, a bater papo com a gente? Não é qualquer um que dava espaço pra isso. Que topava isso. Ele tinha prazer de estar com o povo amigo. Amigos como esse aí (aponta para Sergio Harfush), como Xepa, Bartola. Ele era assim.

Bar do Negão

Bar e Restaurante do Negão

Por exemplo: Ele “tava” almoçando ali no Restaurante de Negão com sua família. Chegava um pessoal de fora que o via e dizia:
– “Olha ali o João Ubaldo.
– “É?”
– “Será que ele vai se aborrecer se a gente se aproximar da mesa ali?”
Ele conhecia as pessoas. Dizia:
– “Pode chegar. Bom dia, boa tarde”.
– “Será que dá pra tirar uma fotografia?” 

Abraçava a pessoa ali na mesa mesmo. Ele parava de almoçar pra tirar fotografia, de bom gosto…

Uma pessoa dessa não existe…

As entrevistas continuam nos próximos posts. Até lá!

Ps.1: Toinho Sabacu é autor da Teoria da Catraca: “morrer é fácil : difícil é passar pela Catraca.”. Leia a hilária crônica “Considerações Iatrofilosóficas”, de João Ubaldo, clicando aqui.

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