Aleixo Belov – O navegador solitário – Entrevista – Parte 2

Esta é a continuação da entrevista de Aleixo Belov postada em 10.11.2015, que pode ser conferida aqui.

B.B.: Mas Aleixo, acabou por que?

Aleixo Belov: Aquele rio que eu tomei banho com o pessoal não consegui mais localizar. Depois descobri porquê. Bali passou de trezentos mil para três milhões de habitantes em pouco tempo, saturando e poluindo tudo.

O rio de água cristalina passou  a ser de água barrenta, cinzenta com uma espuma asquerosa, por cima. Por essa razão eu não o estava encontrando mais. Um cenário horrível. O rio simplesmente virou esgoto.

Ninguém mais tomava banho nu – nem no porto, nem em lugar algum – e não se dava mais a mão para você segurar meia hora. Por fim, todas as portas se trancavam porque a ilha estava cheia de ladrões…

Se você descobrir um lugar que é um paraíso, não conte prá ninguém… Para não acontecer o mesmo que aconteceu com Bali!

B.B.: E a travessia do Oceano Índico? Como foi feita?

Aleixo Belov: Eu resolvi que ia mesmo. Decidi que não esperaria a passagem da estação dos ciclones e atravessaria o oceano…

Ou você tem estrela ou não adianta viver. Para que?

Você tem que ter estrela. Eu vou atravessar sim e chegando lá em Cape Town vou ligar para os amigos. Pronto. Decidido peguei meu barco e saí sozinho de Bali…

Quatro dias depois bateu um temporal tão forte que o barco não conseguia avançar de jeito nenhum. Evidente que eu não queria andar para trás porque seria uma vergonha. Não conseguir avançar contra aquele temporal mesmo reduzindo as velas, lutando dia e noite foi um desespero. Até que aquela idéia de telefonar para os meus amigos, me abandonou completamente.

Fiquei foi “lenhado”, porque dentro de mim moravam duas pessoas:

Um – que era cuidadoso, avaliava tudo, só agia quando tinha certeza e um outro, que só faltava  voar… Achava que podia tudo, não tinha medo de nada. Era aquele negócio, aquela energia…

Foi esse – que não tinha medo de nada – que me empurrou para sair na estação dos ciclones. Quatro dias depois, quando o “pau comeu”, o filho da puta me abandonou e chegou o outro.

Eu fiquei “lenhado”[gentil expressão do dialeto baiano que significa fod#@*…]. Mas fiz toda a força que tinha que fazer para não sucumbir. Peguei um ciclone mas, não peguei num lugar forte não. Ele passou distante e senti só uma “rebordozazinha”. Não naufraguei, não aconteceu nada, sofri “como o quê” mas, não parei. Não voltei. Continuei seguindo – com um medo retado – mas botando o barco para andar. E “vamo que vamo”.

O trecho por onde passava o maior número de ciclones durou cerca de dez dias. Nesse trecho, botei o barco para andar rápido dia e noite… Sem diminuir a velocidade: Pan, pan, pan….

Levei cinquenta e nove dias de Bali para Cape Town, seis mil milhas bem suadas.

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Veleiro Fraternidade na Baía de Todos os Santos em Salvador – Bahia

Cheguei em Cape Town com uma energia, uma coisa, um carisma. Liguei para todos os meus amigos no Brasil. Agora vem a parte boa. Apareceu uma mulher linda – uma verdadeira deusa – chamada Barbara. Descobri que ela tinha um caso com um cara de lá – um motoqueiro – que era comandante de barco também. Com tudo aquilo que cheguei, tendo atravessado a estação de ciclones, cinquenta e nove dias sem ver um ser humano, sem pisar em terra, minha energia sucumbiu a Barbara. Não podia ser diferente.

Rapaz, passei noites maravilhosas com ela. Eu não lembro a idade que ela tinha. Era jovem mas, não era adolescente. Tinha os seios de virgem. Me lembro que ela me convidou para sair. Fomos jantar. Quando terminou, ela disse:

“Se você quiser, você pode dormir aqui na minha casa desde que você se comporte bem”.

Respondi na hora: “Mas é claro. É comigo mesmo”.

Nos deitamos: ela de “calçolinha” e eu de cueca. Veja a cena: os dois deitados, bem comportados. De repente, quase pega fogo nos lençóis. Rapaz, foi uma trepada daquelas… Ave-Maria. E não foi uma só não. Naquele tempo…

Foi muito bom, ter atravessado o Índico nessa estação. Ter conseguido levar essa energia com garra até o fim. Em Cape Town fiquei amante de Barbara por um tempo. Amei assim, até dizer chega… Depois partir rumo ao Brasil, meu destino…

B.B.: E o que fez depois que chegou?

Aleixo Belov: Tinha projetado naquela época a carreira naval da Corema, que era para fazer tudo debaixo d’água com vigas pré-moldadas  e emendadas. Fazer concreto submerso emendando as vigas debaixo d’água com estacas. Tinha feito o projeto o pessoal fez a parte em seco e não tinha quem fizesse a parte dentro d’água. Eu tinha idealizado o processo.

_R0C7062 por Nilton Souza

Obras da Belov

Já foi obra da Belov Engenharia. Eu tinha saído da Mendes Júnior e estava desempregado. Fundei a Belov Engenharia e fiz a carreira naval da Corema que ficou uma maravilha.

Publiquei um livro, “Uma Viagem em Solitário” contando as aventuras da primeira volta ao mundo. Já ia dar a segunda mas, uma coisa conspirou contra mim. Eu tinha ganho um bom dinheiro e não tinha patrimônio. Resolvi fazer uma casa no Horto Florestal em Salvador. Isso me fez adiar a viagem por mais seis anos. Construí uma casa de três pavimentos. Ficou porreta. Depois, fui dar a segunda volta ao mundo. Ainda teve a terceira, já com os filhos do segundo casamento crescidos.

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Primeiro livro

Mais tarde fui dar a quarta volta ao mundo onde levei comigo jovens brasileiros. Treinei vinte e seis jovens, gente do Brasil todo. Eu tinha preferência a pessoas desconhecidas. Queria dar esse presente aos jovens, não aos conhecidos.

 

Nessa viagem, curti muito pouco o mar pois passei muito mais tempo treinando a rapaziada e evitando que eles sofressem um acidente, alguma coisa. Posso afirmar que treinei vinte e seis jovens – garotos e garotas -, dei a volta ao mundo com eles e ninguém se acidentou. Não se perdeu nem uma unha!

A viagem foi pelo Caribe. Atravessei o Panamá, passei pelo Oceano Pacifico todo, norte da Australia, Papua, Nova Guinea – naqueles arrecifes – cheguei em Bali com eles novamente.

Foram quatro equipes de jovens divididas para dar a volta ao mundo. Depois fui para Sri Lanka, India onde me juntei a um rally pois ia passar pela costa da Somália, que estava infestada por piratas.

Os piratas chegaram a pegar outros barcos que estavam próximos da gente mas não nos apanharam. Estive em Omã, no Yemen, onde o “pau tá comendo” agora e naquele tempo estava cheio de buracos nos edifícios da cidade. O governo disse que não era para tapar os buracos. Para ninguém se esquecer da “revolução”.

A “revolução” lá foi muito simples. O governo tinha uma grande oposição e um dia, disse que ia dividir o poder com a oposição.

O presidente do Yemen chamou todo mundo da oposição para uma reunião num teatro onde ele ia discutir as coisas e apaziguar tudo. Claro que o presidente não foi. Mandou os tanques. Matou todos os opositores.

É assim que se faz “política” no Yemen. Naquela região do planeta onde o sangue ferve, mesmo à meia noite, quando o tempo está bem frio.

Na hora de passar em frente à Somália no barco foram apenas eu, um marinheiro que participou da construção do barco e uma moça que embarcou em Bali. Taís. Era baiana  mas estava na Austrália. Disse que nunca tinha andado de barco. Já tinha dado apenas um passeiozinho e não entendia nada de mar.

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Veleiro Fraternidade singrando os mares

Nós três atravessamos a costa da Somália, nos arriscamos a ser apanhados pelos piratas. Imagina se eu enchesse o barco de alunos? Saí com doze alunos, depois diminuí para dez. Nesse trecho era eu e mais dois apenas. Atravessamos, deu certo.

Subimos o Mar Vermelho, estivemos no Sudão novamente, visitamos o deserto, todas aquelas coisas maravilhosas por lá. Depois fomos para o Egito. Paramos em Port Said, Suez, Ismailia e em outros portos. Uma corrupção só. Todo porto queria  arrancar nosso dinheiro. O Egito era uma coisa horrível nesse ascpecto. Apesar das pirâmides, do deserto… Quiseram me vender uma Coca-Cola, no deserto, por vinte dólares! Uma Coca! Não comprei.

Disse ao comerciante-ladrão:”Essa Coca Cola vai ser sua”.

De lá fomos para o sul da Turquia, para Fenich e lá entrei nos Dardanellos e coisa e fui parar em Istambul Lá visitei o Grande Bazar mais uma vez pois já conhecia. Me adiantei, entrei no mar Negro e subi até o norte. Cheguei a Odessa na Ucrania, o lugar onde tinha nascido.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Enfrentando as tempestades

Levei alunos para a Ucrania. Fui muito bem recebido, inclusive porque tinha contactado a Embaixada Russa no Brasil, me recomendaram e tal, ajudaram em tudo. Peguei oito horas de trem até Karkov e uma hora e meia de ônibus cheguei em Merefa onde eu nasci e moravam meus parentes. Visitei meus parentes todos. Era uma festa cada dia. Levei uma aluna para filmar e fotografar eu com os parentes todos. Depois os parentes vieram visitar o barco.

Na volta não parei em Istambul de novo porque queriam me cobrar 350 euros só para fazer a saída do país. Na subida, eu passei só na Turquia apesar de passar por tantas ilhas gregas porque quando muda de país é tanta documentação, muitos pagamentos que tem que apresentar. É complicado. Na volta só passei pelas ilhas gregas. Em Lesbos, nas ilhas das lésbicas, visitei várias praias de nudismo, andei pelado naquelas águas geladas, horrível comparadas com o Brasil, com a Bahia. Brasil é muito grande. Aqui a água é morninha, uma maravilha.

De lá fui para Creta de novo. Andei por dentro das ilhas gregas e fui me embora. Parei em Siracusa na Italia, depois parei na Espanha. Ai completei com nova tripulação que passou nas Canárias e ai para o Brasil terminei a quarta volta.

Treinei 26 pessoas. Eu curti menos porque fiquei o tempo todo preocupado com as pessoas. Eu não fui dar aula de como velejar, isso aí aprende na Bahia. Eu fui ensinar a andar pelo mar. Como fazer isso, como fazer aquilo. Foi bom porque eu queria fazer isso.

Dar esse presente à juventude brasileira mas eu curti muito menos do que as viagens solitárias pois eram eu e o mar. Um amor, um namoro sem testemunhas.

Sozinho você fica com os instintos à flor da pele.

Você presta atenção à tudo, a qualquer movimento, a qualquer mudança, sempre preocupado com tudo. Você tem que estar atento para os sinais, que a natureza dará para que você possa se antecipar aos elementos, aos problemas.

IMG_1951 por Nilton Souza

O Fraternidade e sua tripulação

Então na viagem com os alunos essa coisa ficou enfraquecida mas foi bom porque eu queria fazer isso. Aconteceu uma coisa inesperada, porque a Marinha reconheceu esse meu esforço e o meu projeto educacional e essa idéia foi parar na Presidencia da Republica e eu ganhei duas medalhas e o título Cavaleiro do Merito Naval. Nunca esperei isso. Aceitei. Não sou orgulhoso. Tanto as medalhas quanto os diplomas.

B.B: Como foi a viagem à Antartica?

Aleixo Belov: Fiquei aqui trabalhando um pouco e por último fui à Antártica. Eu não disse que ia para a Antártica. Disse que ia para o sul. Primeiro porque eu estava trabalhando muito, nem ajeitei o barco. Saí para a Antartica assim como quem não quer ir muito longe… O barco era o Fraternidade.

Já tinha dado a volta ao mundo com os alunos. Já estava com um barco grande, de setenta pés (21,5 m) mas não preparei muita coisa. Eu tinha muita dúvida sobre esse ano: se ia, se não ia, se ia, se não ia… até que um amigo meu disse:

“Você está esperando ter um enfarte para ir?”

Ai, me “retei” e fui. Foi esse amigo quem decidiu por mim.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Rumo à Antártica em 2014

Aí peguei uma pequena tripulação aqui em Salvador para ir descendo. Na realidade a viagem para a Antartica seria a partir de Ushuaia no sul da Argentina. As pessoas que iam comigo para a Antartica iam embarcar em Ushuaia. Fomos.

Veja o que aconteceu: as velas que usei na quarta volta ao mundo estavam queimadas pelo sol e eu não tinha percebido. Achei que ainda estavam boas. Quando cheguei em Ilha Bela as velas tinham começado a se desmanchar. Olha, foi muito bom isso ter acontecido nesse trecho. Se isso não tivesse acontecido – e as velas estavam meio estragadas  – elas podiam “abrir o bico” lá no sul onde o “pau come”. Felizmente para nós abriram o bico ainda por aqui.

Deu tempo para consertar pois ao chegar a Ilha Bela, procurei ver onde podiam fazer novas velas rapidamente. A empresa North Safe podia fazer na Argentina mas estavam com muita encomenda. Surgiu então a North Safe de Cape Town. Podiam fazer rapidamente e eu preferia pois lá tem muito vento. Se você tiver que encomendar mastro, vela etc. faça num lugar que tem vento. Então fiz a encomenda e quando cheguei no Uruguai elas já estavam me aguardando. Fiz a troca e desci para o sul da Argentina.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Aleixo e os compatriotas da Base da Ucrânia na Antartica

No caminho peguei uns tempinhos duros. Enfrentamos uns ventinhos e umas ondas que quando passavam pelo barco estremecia tudo. Parecia que a onda não estava aceitando a intromissão do barco. Ele dificultava a propagação da onda. O barco resistia. Era bom. Então, fomos em frente.

Atravessei e cheguei na Terra do Fogo. Dali dobrei à direita e entrei para Ushuaia pelo Canal de Beagle, onde Darwin fez as suas viagens. Lá desembarquei uma parte da tripulação, que foi substituída por outra, que incluía meu filho Alexei. De lá saímos, eu e mais nove. Fomos para a Antartica, passando pelo famoso Cabo Horn. Não o vimos na ida, só na volta.

                                                   Paisagens da Antartica

Antigamente para ir à Antartica em barco de madeira, velas de algodão era preciso um tipo de homem que hoje não existe mais.

Já não se fazem mais homens como antigamente.

Eles não tinham previsão de tempo. O tempo que viesse tinha que ser enfrentado. Resistiam e sobreviviam ou sucumbiam. Agora, não se viaja mais assim. Lá mesmo em Ushuaia tinha trinta a quarenta barcos enormes, levando turistas para a Antartica. As pessoas pensam que ir para a Antartica é como ir para o fim do mundo. Não é assim não. Tem que dominar certos conhecimentos.

Mas, você tem que esperar a janela de bom tempo. Esperar passar o temporal. Quando ele está passando, você sai, atravessa e chega na Antartica. Uma vez lá, se navega por dentro dos canais, entre as geleiras. Portanto, não tem onda. Tem vento, gelo, iceberg.

O barco amassou bastante batendo em gelos menores. Iceberg não morde ninguém. Anda devagar – pois não tem comandante – e vai guiado pelas forças da natureza, vento e correnteza. Ele se desloca mas, o barco é muito mais rápido para contornar. Fazer isso e aquilo… agora o gelo – os pequenos – tem lugar que está tão coalhado que tem que sair empurrando “a zorra toda” para poder passar.

O pior mesmo foi a travessia do canal de Drake que é justamente considerada a zona mais tempestuosa do mundo. O Pacífico Norte,  quero ir talvez no ano que vem se tiver saúde e disposição Talvez vá para o Alasca pois naquela região também o pau come bastante.

A entrevista com Aleixo Belov finaliza no próximo post

  1. As fotos desse post foram feitas por Leonardo Pappini, Nilton Souza, Hélio Viana e Juracy Villas Boas.

5 comentários em “Aleixo Belov – O navegador solitário – Entrevista – Parte 2

  1. Adorando! Tive oportunidade de embarcar no Fraternidade em Bali e chegar a Bahia passando pela Ucrânia! Muitas histórias! Foi, sem dúvida, a experiência mais marcante da minha vida! Parabéns pela entrevista! Obrigada por compartilhar, Tais Bemfca

    Curtido por 1 pessoa

    • Pois é Taís. Que bom que vc e outros tiveram essa oportunidade. Imagino que deve ter sido uma grande aventura não é? Fica o exemplo de Aleixo para que outras pessoas se interessem pelo mar e partam sózinhos ou acompanhados para realizar seus sonhos…

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