Aleixo Belov – O navegador solitário – Entrevista – final

Antes de finalizar a entrevista de Aleixo Belov dando continuidade ao post de 31.12.2015 – abordando, nesse final, a sua viagem à Antártica – confiram abaixo a pérola musical que Juracy Villas-Boas, amigo e sócio de Aleixo, garimpou e enviou para o Nunca se Sabe!

Se Aleixo tinha o desafio de enfrentar num veleiro os mares do mundo – com sua imensidão, mistérios, tempestades, forças e surpresas – vejam o “desafilho” musical que o saudoso amigo Osmar Macedo – baiano criador do Trio Elétrico – propôs a  Armandinho seu filho e herdeiro musical .

Comprovando o ditado popular que “filho de peixe, peixinho é”, Osmar juntou o “útero” ao agradável homenageando seu amigo Aleixo, que acabava de chegar ao Rio da primeira volta ao mundo – e a todos nós – com uma farra elétrica memorável com solos imperdíveis produzidos pelas cordas de seus bandolins mágicos.

Confiram, tomem fôlego e vamos ao final da entrevista do navegador, agora não tão solitário assim…

 

B.B.: Falando da Antártica, foi emocionante a travessia do Canal de Drake ?

Aleixo Belov: Atravessei o canal de Drake numa “janela” de tempo razoável. Três dias e um pouquinho. O pior foi último dia, quando apareceu uma neblina na chegada e, eu não sabia o que fazer.

Tinha duas opções: seguir mantendo a velocidade – mesmo sem enxergar o que estava na frente arriscando a bater num icebergue – para não pegar a próxima frente fria porque lá a cada dois dias, dois dias e meio, três dias chega uma frente fria. Ou diminuir a velocidade do barco por causa da neblina e dos icebergues, se arriscando a pegar a próxima frente fria.

Chamei o pessoal e perguntei: “o que é que vocês acham?” Mantemos o rumo prestando bem atenção para descobrir se vem  icebergues? (sabendo que só se enxergava 50/60 metros à frente; além, não se enxergava mais nada…), contando ainda com a ajuda de dois radares ligados com duas escalas  diferentes…Como eu nunca tinha visto gelo no radar, não sabia como ele se apresentaria mas, dizem que aparece.

Decidimos manter a velocidade. A gente “olha bem”… Tinha uma pessoa fora, observando, naquele frio “retado”. Uma outra pessoa olhando simultaneamente os dois radares e uma terceira pessoa  observando tudo. Fizemos o revezamento: olhando, olhando, olhando…

Conseguimos avançar, reduzindo muito pouco a velocidade e assim chegamos à Antarctica. Foi um dia inteiro pegando essa neblina terrível e surpresa. Quando chegamos, apareceu um vento que espantou a neblina…

O precipício foi  muito importante porque eu tinha que entrar num canal estreito e o GPS acusava uma diferença de três quartos de milha de erro. Uma milha equivale a 1850 metros e o canal só tinha 200 metros de largura onde eu ia entrar.

Entrei no visual e quando ancorei no mar o GPS dizia que eu estava ancorado em terra!…

A conclusão é que existem diferenças entre as cartas digitais e a realidade. Em certos locais essa diferença é grande. Enfim, chegamos à Antártica. Quem ia reclamar? Foi uma beleza, uma verdadeira farra. Todo mundo subiu as montanhas de gelo, escorregou daqui e dali, uma festa…

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

A Antártica e seus icebergues

B.B.: O que você sentiu ao ver aquela paisagem branca e gelada da Antarctica?

Aleixo Belov: Ah! Foi lindo! Aquelas montanhas imensas, aquele negócio cheio de gelo. A paisagem toda branca. Todo mundo eufórico. Saltamos em terra…

Agora, como é que se ancora na Antartica? Só pode parar num lugar raso. Se parar num lugar fundo, vem um icebergue, passa por cima de você e te leva.

Um icebergue pesa duzentas/quinhentas toneladas, quem sabe?… Se ele vier, lhe carrega para o oceano e acabou. “Zé fini…”

Então, joga-se a âncora, passam-se os cabos amarrados nas pedras em terra e puxa-se a popa do barco, até ele ficar no raso numa profundidade de cerca de três metros. É assim… Qual a vantagem? Simples: um icebergue fica quase todo dentro d’água – só um quinto dele fica fora -. Então ele “cala” muito.

Os icebergues grandes encalham antes e não conseguem lhe “morder”. Entendeu? Já os pequenos, não metem medo. Não fazem nada.

Foi isso que fizemos. No primeiro dia não fomos em terra porque chegamos tarde. Todo mundo esgotado pelo esforço da travessia. Precisávamos mesmo era descansar…

IMG_0702 por Juracy Villas Boas ∏

Fazendo o reconhecimento do “terreno”

B.B.: Espere um pouco… Não apareceu nem um icebergue na chegada de vocês?

Aleixo Belov: Apareceram só na chegada. Antes, não. Mas, poderia existir. Os icebergues vão longe. Dependem da correnteza, do vento… No outro dia cedo, fomos para terra. Subimos aquelas montanhas e nos deliciamos.

Eu avisava o pessoal:

“Cuidado que tem lugar em que o gelo racha. Chama-se “crevasse” em francês. Tem gente que cai, depois vem a neve fofa, por cima cobre e ninguém percebe.”

Você passa, cai numa brecha, lá embaixo. Se arrebenta todo e não tem como sair. Tem que tomar muito cuidado por onde anda.

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Crevasse

Geralmente quem anda nesses lugares se amarra numa corda. Cinco ou seis pessoas juntas a uma certa distância um do outro. Se um cair, os outros seguram e tiram. Mas se cair aí, pode quebrar braço, perna etc. Enfim se lascar todo…

Conosco deu tudo certo. Depois cheguei em Melcke. Passeamos bastante por lá. No dia seguinte, subimos as montanhas e no terceiro dia fomos andando para um novo lugar. Fomos para Cuverville. Ventou muito nesse dia. Caiu muita neve. Teve neblina de novo mas, já estávamos dentro dos canais. Não tinha onda. Ia devagarzinho. Chegamos na segunda locação. Lá tinha muito pinguim.

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“O que será que esses caras vieram fazer aqui?”

Na primeira não tinha tanto pinguim mas, na segunda era só o que tinha. Ficamos muito “invocados” de ver como sofremos tanto com o frio. Isso apesar de ter trazido roupas especiais: gorros, capotes, casacos, meias de lã e botas revestidas com feltro de lã. Estávamos muito bem protegidos, com óculos desses de esquiador, de ampla visão. Tudo cobertinho…

Lá fora os pinguins não “estavam nem aí”. Nós é que invadimos o território deles porque na realidade eles estão em casa. Você precisava ver aquela cena:

Os pinguins andando descalços sobre a neve e o gelo, sem reclamar nada!

Em seguida, saímos de Cuverville e logo pegamos um canal entre as ilhas, icebergues, isso e aquilo e depois fomos a Port Lockroy. Lá, tem uma casas de madeira que são os museus que vendem livros sobre a região da Antártica. Comprei bastante: dez ou onze livros. Vende camisa, souvenir. É inglês,  um posto pequeno.

Foi lá que eu encontrei com o Skip Novak, o grande velejador – mundialmente famoso – que já era meu amigo. Visitei o barco dele antes – quando estava fabricando o meu – para pegar algumas ideias. Ele foi a bordo e mostrei onde apliquei as coisas que ele tinha me ensinado. Foi muito interessante. Ficamos um pouquinho…

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Meu amigo Skip Novak

De lá fomos mais para o sul. Eu queria ir para base ucraniana de Vernardsky no sul da Antártica não somente porque eu tinha nascido na Ucrânia. Na realidade, todo mundo que passa lá visita a base ucraniana. É um lugar interessante mas, o canalzinho estreito com curvas e um bocado de pedras. É raso e complicado chegar lá. Um verdadeiro caracol. Se faz um arrodeio retado.

Eu tinha tomado aula de como ir pra base porque a carta náutica não mostra direito. Tem apenas umas indicações. Pela carta você não chega. Tem que obter conhecimento local. Eu já tinha tomado aula com Oleg, com o cara de outro barco, o Pomorange.  Você chega em Ushuaia antes, eles tem esses desenhos feito a mão desses pequenos portos, com todos os lugares rasos bons de parar. O cara me deu um “pen-drive” que tinha mais de cem fotos desses desenhos feitos à mão, rascunhos. Claro que não são desenhos perfeitos mas dão uma boa indicação. Então, copiei tudo.

Lá também existia um australiano que já tinha ido seis vezes à base ucraniana. Ele levava turistas para lá. Pois bem o cara me deu mais uma aulazinha. Me explicou como é que tinha que fazer para não encalhar.

Me “mandei” um dia de manhã cedo. Fui na frente mas, encontrei muito gelo. Tinha lugar que para passar era um dificuldade. Tinha que empurrar o gelo, evitar isso e aquilo. Arrecifes, pedras mal cartografadas. Tinha que ir com muito cuidado mesmo.

Veja só o que aconteceu. O australiano saiu muito tempo depois de mim. Quando eu estava chegando no arquipélago daquelas ilhas – chama-se Ilhas Argentinas – onde fica a base ucraniana ele já vinha me alcançando. Eu reduzi a velocidade. Deixei ele ir na frente e decidi seguí-lo. Ele que já conhece tudo. Vai lá!

Pois ele foi na frente e encalhou. O barco dele era de fibra de vidro e não tinha quilha retrátil. O meu tem. Meu barco tem 2,30 m de calado, quando eu arreio a quilha fica com 5,30 m. Se eu encalho não acontece nada. Levanto a quilha e saio do encalhe. Mole.

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“Lá vem o icebergue! Pega que é seu Alan!…”

Ele encalhou feio! Rapaz, botou força no motor para sair do encalhe, “fumaçou” tudo e o barco não saía. Então devagar me aproximei dele e encalhei também mas, sem medo nenhum porque tinha a quilha retrátil e já ia passar o cabo de reboque, quando ele conseguiu se soltar. Não precisou de ajuda.

Deixei meu barco encalhado, peguei o caíque com o motor de popa e fui até a base ucraniana. Voltei pois era apenas para tomar conhecimento do caminho. O australiano chegou na frente e escolheu o melhor lugar para ancorar.

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“Eles nem sabem por que estou rindo!”

Os canais não são apertados mas, são muitos. Tem muito lugar para ancorar mas, ele escolheu o melhor lugar para ficar. Eu escolhi um lugar menos bom mas perto dele também. Amarrei o barco em duas pedras em terra, joguei a âncora e tal. Só que o barco dele era de fibra. Ele deu azar pois essa área tinha muitos icebergues. Não eram icebergues grandes mas, para um barco de fibra era complicado. Pois, os icebergues foram todos para cima dele.

Teve um que enganchou na minha corrente e eu comecei a empurrá-lo. Peguei o motor de popa, encostando e acelerando. Ele não quis sair mas, de repentes, ele escapuliu da minha corrente e foi para cima do barco do australiano. Eu gritei:

“Alan, um presente para você.”

Rapaz, o cara ficou “retado” comigo. Enquanto eu estava me divertindo porque o icebergue não era grande e ia para cima dele. Ele então pegou vários cabos e amarrou o icebergue numas pedras. Para ele ficar quieto ali. Eu nao sabia que se amarrava icebergue. Pois ele amarrou. Amarrou numa pedra, numa posição tal que quando ele tesou o cabo, como a correnteza não era muito grande, o icebergue  se acomodou e dormiu ali do lado dele sem incomodá-lo. Vivendo e aprendendo.

Falei pelo rádio em russo com os ucranianos. Eles marcaram a data para visitar a base. Não marcaram para ir naquele dia não. Marcaram para ir dois dias depois. Eu pensei que era alguma coisa especial mas na realidade tinha oito barcos na região. Todos foram convidados para ir no mesmo dia. Eu fui lá, falei russo com todo mundo. Traduzi para a minha tripulação toda.

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Com os “camaradas” ucranianos

Eles fabricam e vendem vodca na base. Para nós e minha tripulação a vodca foi de graça. Teve gente que bebeu vodca até dizer chega… Eu comprei um bocado de souvenir numa lojinha deles. Conversei, fiz fotos…

Eles falaram que faziam pesquisas na base: do buraco de ozônio, das bactérias, das plantas, dos animais, do vento, do tempo, de tudo enfim. Falou que essa base antigamente era inglesa e foi vendida por um euro para os ucranianos, com a condição de que toda pesquisa que eles fizessem seria do mundo, não apenas deles. Foi muito interessante.

Eles marcaram para depois do expediente a visita a todos os barcos. Encontramos com todo o pessoal que foi visitar a base. A turma do barco australiano, todo mundo estava lá. Na volta, era de noite mas, lá não escurece no verão. Apenas fica mais claro e menos claro. Se enxerga tudo. Estava ventando muito e eu não tinha condição de chegar ao barco. A duras penas consegui chegar no meu barco. Dormimos abraçados com os icebergues mas, não eram grande. Dormimos no meio daquele gelo todo.

No outro dia soltamos os cabos em terra e fomos embora. O australiano teve que sair dali.

IMG_1790 por Juracy Villas Boas ∏.jpg

“Com esses caras por perto, melhor tomar conta do filhote!”

Eu já tinha visitado quatro locais na Antártica. Aí a previsão do tempo era abrir uma nova janela para atravessar o Drake de volta. Eu resolvi ir embora. Eu saí da base ucraniana até Ushuaia sem escala. Mas, não foi Ushuaia só não. Na verdade fui até a primeira ilha no Chile.

Eu parei em quatro lugares na Antártica. Eu podia voltar um pedacinho, mas rapaz eu peguei o barco e “sentei a porra”. Saí velejando por aqueles canais, contornando icebergues, tudo. Peguei um vento na cara com dois motores acelerando na toda para fazer um nó de velocidade, um nó e meio. E olhe lá.

Com a maior dificuldade para avançar mas, não tinha maiores riscos porque os icebergues a gente via. Se o motor falhasse ai seria complicado. Fui até um lugar onde dava para mudar o rumo e o vento deixaria de ser na cara. Por isso o barco não avançava. Então melhorou. Atravessei o Drake direto – sem escalas – e passei ao lado do cabo Horn. Fizemos umas fotos e parei em Toro.

LIGIA com Centollas

Ligia com as centolas

B.B.: E o banquete das centolas?

Aleixo Belov: Apareceu um barco de pesca com esses caranguejos querendo trocar por whisky. Não carrego whisky no barco mas, tenho chocolate, leite em pó etc. No meu  barco não entra cachaça. Eles toparam. Deram seis centolas e em troca, dei a eles um bocado de conserva, chocolate. Fiz um escambo.

Então comemos as centolas. Um caranguejo com um metro de comprimento. Veja na foto a Ligia segurando na ponta do caranguejo entre uma perna e outra. Veja o tamanho do bicho! É muito gostoso.

Parei também em Porto Williams, que era outro porto no Chile. E por último, em Ushuaia onde a tripulação voltou para Salvador porém dois deles, que foram comigo, ficaram. Era meu pessoal mesmo. Com esses, voltei para Salvador.

Apareceram mais três que só queriam fazer cinco dias de viagem. Queriam parar aqui, parar ali, saltar porque as mulheres iam reclamar. Disse para mim mesmo:

“os caras vem para o meu barco e ainda querem fazer o meu roteiro, onde eu tenho que parar?… Filhos da puta…”

Peguei o barco e sai de Ushuaia – sem escalas – até Angra dos Reis. Dezessete dias. “Matei” os caras. Depois vim para a Bahia. Acabou a viagem. Foi ótimo!

Paisagens e amigos para recordar

B. B.: Após tantas viagens, ver tanta coisa e tanta gente, o que você tem a dizer sobre a vida?

Ninguém vive de passado. Se vive do presente. Tem gente que não vive o presente pensando muito no futuro e lembrando do passado. Na realidade a vida é o presente. A vida é assim: você cresce, cresce e depois entra em decadência.

Eu me lembro que era um jovem forte. Hoje, não tenho mais a força que tinha. Estou motorizando os guinchos do barco pois não tenho mais a força para “bater aquelas catracas”. Eu não tenho mais o equilíbrio. Era um gato. Hoje eu caio com facilidade. Era forte, bonito, conquistava as mulheres com uma facilidade retada. Agora não conquisto mais.

Então a vida é assim: você sobe e desce em vários aspectos. Intelectualmente acho que estou bem porque apesar de estar relendo todos os filósofos que li nos meus vinte, vinte e cinco anos, a memória já não é a mesma.

Só dá para ler filosofia quando se está bem. Se está com um problema é como se um mata-borrão tivesse encharcado tudo. Não absorve. É preciso ter paz para poder pensar…

Se não se tem paz, não se consegue planejar.
As coisas boas e bonitas da vida perdem sentido.
Você não sabe para onde vai.
Fica perdido!

É preciso haver uma certa harmonia entre o sentimento e a realidade.
Entre a vida, o amor, a amizade e os ódios que acontecem…

Não é uma coisa simples não!…

Nota: As fotos desta entrevista foram feitas por Leonardo Papini, Juracy Villas-Boas e Nilton Souza.

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