Você teria um amigo alemão durante a II Guerra Mundial? Pois Charlie Brown, um piloto americano teve! – Parte Final

CONTINUAÇÃO DO POST ANTERIOR

A pesada aeronave teve sua velocidade reduzida após perder um dos motores. O outro rateava enlouquecidamente pois fora atingido. A fuselagem estava irreconhecível, toda esburacada pelos tiros recebidos. Com isso, o B-17 foi ficando para trás da formação protetora dos demais bombardeiros, que tendo sobrevivido aos ataques, iniciavam a difícil viagem de regresso às suas bases na Inglaterra.

Os caças amigos tiveram que regressar mais cedo devido à sua limitada autonomia de vôo, bem como aos fortes ventos contrários, que enfrentariam no retorno à Inglaterra, o que aumentava o consumo do combustível dos caças. Era a meteorologia que, além de não ajudar, contribuía para deixá-los sem cobertura aérea, à mercê dos inimigos.

Não havia muito o que fazer. Aos poucos observaram os demais bombardeiros desaparecerem no horizonte, abandonando-os à própria sorte. O The Pub se arrastava literalmente pelos céus do norte da Alemanha mas, não estava sozinho. Tinha como parceiro de infortúnio a companhia de outro B-17, também severamente danificado, vítima das baterias alemãs.

O solitário par relutava em entregar os pontos e teimava em voar juntos – como se merecessem a propriedade daquele pedaço de céu inimigo na Alemanha. Viam claramente o sonho de chegar à costa inglesa – mesmo que aos pedaços – se desvanecer, pelas circunstâncias e pelo acaso.

Estavam condenados e os caças alemães, que pairavam no alto como verdadeiros abutres metálicos, apreciando aquela cena se aproximaram rapidamente do par de bombardeiros – como uma matilha faminta prestes a estraçalhar sua presa – para completar o serviço. Era a vingança dos alemães pelo golpe mortal que acabavam de sofrer.

Olho por olho, dente por dente…

Somente a habilidade, sangue-frio e o instinto de sobrevivência do piloto Charlie ainda conseguiam manter seu B-17 bastante avariado sacolejando no ar (viram a foto no alto?), numa desesperada tentativa de fuga do inferno que foi o ataque à fábrica de caças em Bremen.

Confirmando o mau presságio, o avião que lhe fazia companhia logo teve sua trajetória interrompida pelos tiros certeiros das baterias antiaéreas combinados com os dos caças alemães Focke-Wulf 190 que o acossavam sem piedade. De repente, ele desapareceu explodindo dentro de uma nuvem, não dando tempo para os tripulantes saltarem…

Certo de que estava no lugar e na hora errados, o piloto Charlie Brown não hesitou diante dos aviões inimigos que se aproximavam. Tomou uma decisão radical para enfrentar o primeiro ataque vindo de dois dos oito caças, que pairavam acima do seu avião disputando a honra de abatê-lo.

Charlie fez uma manobra solerte, corajosa e arriscada com seu avião. Mudou bruscamente a direção do bombardeiro usando toda a potência dos motores que ainda tinha. Virou seu avião e mirou os dois aviões inimigos de frente, invertendo as posições – nem que fosse por um breve instante – de caça e de caçador. Me perdoem o infame trocadilho numa hora dessas…

Vocês podem imaginar essa cena e a surpresa dos pilotos alemães diante de tanta audácia e desaforo?

Pegos de surpresa com o tamanho do atrevimento do piloto americano, um dos caças alemães disparou o quanto pode suas metralhadoras atingindo a fuselagem mas, sem conseguir nocautear o infeliz bombardeiro, pois a manobra repentina feita por Charlie reduziu a área a ser alvejada. Funcionou. Escaparam da primeira investida alemã. Foi um golpe de sorte e destemor.

Àquela altura do jogo, ponto para os americanos…

Animados pela proeza e valentia do seu comandante, com a extraordinária e primorosa manobra, os artilheiros americanos que não estavam feridos ou mortos, tiveram a sua vez. Dispararam suas metralhadoras com vontade contra o segundo caça, pondo-o fora de combate. Mais um ponto para os americanos…

A tripulação queria mostrar claramente aos alemães que ia vender caro suas vidas.

Um terceiro caça mirou o nariz do B-17 e disparou acertando parte da estrutura do avião. Como não dispôs de muito tempo para atirar devido as “loucas” manobras do piloto americano foi pego em cheio pelo artilheiro que se localizava no nariz avariado do bombardeiro. Pronto. Se livraram de mais um. A briga estava começando a ficar menos desigual para ânimo dos americanos.

Aí aconteceu o pior. Os tiros dos caças alemães acertaram os controles de mais um motor – o terceiro, que funcionava congelado à meia potência – e o desditoso B-17 àquela altura contava com apenas dois motores. “Não tinha jeito. Era o fim mesmo, estávamos perto do desastre completo”, pensavam os tripulantes no meio da batalha aérea.

Para tornar a situação ainda mais dramática, o que se sucedeu foi simplesmente tenebroso para a tripulação do avião: apenas três das onze metralhadoras do B-17 estavam funcionando. As demais estavam fora de combate, congeladas por um problema que ocorreu devido a um erro no óleo de lubrificação antes de partirem para o ataque. Claro, a verdadeira razão só viria a ser descoberta mais tarde. Naquele momento, para o The Pub, era mesmo The End… Uma briga desigual, desgraçadamente perdida nos céus invernais da Alemanha.

Um problema dessa magnitude com as metralhadoras era algo impensável a essa altura do campeonato. Só restava mesmo entregar as almas a Deus…

Os alemães por sua vez queriam dar o troco e varrer de seus céus o que ficou para trás dos atacantes. Se aproveitaram da fragilidade da situação dos americanos e atacaram o B-17 e sua tripulação destemida com tudo o que dispunham.

No comando da aeronave americana Charlie se defendia com todas as forças que tinha, respondendo às investidas dos caças inimigos com manobras radicais de zigue-zague, súbitas mudanças de altitude e direção. As tentativas de defesa e as manobras evasivas foram surtindo efeito a cada ataque dos caças alemães, diminuindo a ferocidade e minimizando a efetividade de suas investidas. Evidente que os pilotos alemães estavam completamente perplexos e admirados com as piruetas malucas do piloto do B-17 lutando desesperadamente pela sobrevivência.

Estavam numa guerra mas sabiam reconhecer a bravura, mesmo a de um inimigo.

O avião semi-destruído resistia mas o mesmo não se podia dizer de sua tripulação de dez combatentes. Ecky, um dos artilheiros, foi morto no seu posto crivado de balas que continuavam chovendo em grande quantidade atingindo o corpo do avião e a tripulação. Cinco outros tripulantes foram feridos, alguns com gravidade.

O bombardeiro, violentamente atacado, voava por pura teimosia e instinto do piloto. Um dos projéteis que atingiram a cabine, ricocheteou na estrutura e, foi se alojar na omoplata esquerda do Charlie, destruindo antes todo o sistema de oxigênio que os tripulantes usavam para respirar.

Tá ansioso como eu fiquei e gostaria de ver o fim da agonia dos tripulantes do B-17? Espere só para ver o que aconteceu …

Como se não bastasse tudo o que tinha acontecido até agora, ao fazer mais uma de suas manobras violentas para vender caro sua destruição, o bombardeiro com os controles e sistema de comunicação quase que totalmente destroçados, mergulhou em direção à terra despencando velozmente em espiral baixando de 30 mil pés para 22, 20, 18 mil… e foi descendo 16 mil pés, 14, 12. Ao atingir 10 mil pés o B-17 embicou de cabeça em linha reta…

Caiam vertiginosamente para se despedaçar no gelado solo alemão… Agora seria mesmo o fim…

Foi quando o imprevisível mais uma vez ocorreu. Com a entrada de oxigênio no avião devida à baixa altitude Charlieque havia desmaiado com o mergulho da aeronave, recuperou a consciência a tempo de acionar o que ainda restava dos flaps (parte móvel nas asas para aumentar a sustentação da aeronave) interrompendo lenta e gradativamente a tragédia anunciada, quando o avião estava a menos de um quilômetro de se espatifar no solo! Não é uma história fantástica?

Pois é, acredite se quiser. O piloto americano conseguiu evitar que o avião se espatifasse no solo matando todos os sobreviventes. Recuperou, com muito esforço, um pouco de altitude e seguiu voando “aos trancos e barrancos” pouco acima da copa das árvores dos campos alemães… Parecia cena de cinema… Quase todos a bordo recuperaram a consciência e voltaram à vida… Não tinham morrido mas, o terrível pesadelo ainda não havia acabado!

Eis que na linha do horizonte, atrás do bombardeiro surge um pontinho negro que vai se se aproximando velozmente. A tripulação ao perceber o que era, não quis acreditar no que via. Esfregaram os olhos pensando que era uma miragem. Não era!

Os corações bateram mais acelerados: o pontinho negro era um Messerschmidt JV 109, o temido caça alemão cuja fábrica tinham acabado de bombardear. “A ficha” demorou a cair. Sonharam que estavam livres dos pesadelos mas, eles não os abandonavam. Vinham em sua direção na forma de um caça JV 209. Com o sistema de comunicação destruído, os tripulantes não puderam nem comunicar ao seu piloto a ameaça fatal que se aproximava.

Certamente depois de tudo o que passaram, não eram  merecedores de um castigo daqueles… Concorda? Claro que sim!

O que ninguém sabia é que quem estava no comando do caça alemão era Franz Stigler, um ás da força aérea alemã. Participara da batalha sobre Bremen. Estava num aeródromo próximo reabastecendo e rearmando seu caça, quando viu a queda livre do B-17 e seu surpreendente movimento de recuperação.

Também não acreditava no que estava vendo. Ao ver o bombardeiro americano salvar-se do choque com o solo, decidiu ir atrás. Decolou velozmente com seu caça com a intenção de dar o tiro de misericórdia no marrento B-17.

Franz Stigler, um dos maiores ases da Luftwaffe, tinha participado de mais de 500 missões de combate aéreo ao longo da Segunda Guerra Mundial e seria um dos 1.200 pilotos de caça da Alemanha sobreviventes dos 28 mil pilotos que combateram. Era um craque da aviação alemã. Tinha sido instrutor de pilotos, lutado na África e na Itália e derrubado 29 aviões nos combates. Com 30 seria agraciado com a Cruz de Cavaleiro da Luftwaffe.

 

23688792_1SZ.jpgJá sei! Você pensou que eu fosse lhe contar toda a história, não foi? Pois pode “tirar o cavalinho da chuva”! Você achou mesmo que eu faria um “spoiler” do livro e lhe contaria tudo, assim sem mais nem menos e, ainda, de graça? Errou feio.

Você também deve estar achando que a história acaba com a chegada de Franz Stigler e seu JV 109 armado até os dentes para dar o tiro de misericórdia no B-17! E pronto!

Não! A história começa exatamente aí!

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Por tudo isso, recomendo adquirir “O Amigo Alemão” (se clicar no nome do livro vai direto para um site de vendas e saiba que não recebo nenhuma comissão) escrito por Adam Makos e Larry Alexander.

Esse livro levou oito anos para ser escrito – tamanha a pesquisa que os autores fizeram. Foi publicado recentemente no Brasil pela editora Geração, traduzido do original inglês “A Higher Call“.

Boa leitura e curtam o amigo alemão. Eu não só curti, como tirei o chapéu…

Beto Benjamin

 

2 comentários em “Você teria um amigo alemão durante a II Guerra Mundial? Pois Charlie Brown, um piloto americano teve! – Parte Final

  1. Dr. Roberto Benjamin, Você tem que contar a história até o fim, nem que seja como os antigos seriados ou as atuais novelas.
    Gostaria de ouvir o restante contado ou melhor escrito por você.
    Parabéns e forte abraço.

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  2. Caro Samuel, fui advertido que não devo fazer “spoiler”! Levei seis meses para descobrir o que era! Por isso não posso contar tudo e ainda poderia ser processado pelos autores do livro. Vai sair mais barato para nós dois vc comprar o livro mesmo!

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