Você teria um amigo alemão durante a II Guerra Mundial? Pois Charlie Brown, um piloto americano, teve! – parte 1

Se você não gosta de histórias de guerras, aconselho a parar por aqui e esperar pelo próximo post do NuncaseSabe, pois o que vem a seguir é um relato da minha perplexidade e admiração por um surpreendente e improvável “encontro”, se me permitem a licença poética, para contar o ocorrido num combate aéreo nos céus da Alemanha devastada, em meio a Segunda Grande Guerra. Esse fato ficou vergonhosamente ocultado da História tanto pelos americanos quanto pelos alemães durante décadas. Você descobrirá porquê.

A guerra, pelo menos eu penso, é um dos mais notáveis – senão o mais – atos de estupidez do Homem na face da Terra. Tem sido companheira inseparável da trajetória da humanidade, desde o princípio de sua existência até os dias de hoje. Devido a isso, é inacreditável que durante uma batalha, possa ocorrer um gesto de humanidade, contradizendo toda a lógica imoral, perversa e desprovida de sentido de uma guerra. Qualquer que seja ela…

Que o diga John Lennon com sua bela, pacífica e inesquecível canção “Imagine” !

Quem diria que o cenário da mais devastadora das guerras até hoje – NuncaseSabe o dia de amanhã! – seria o palco de um estranho episódio entre dois pilotos de aviões de combate, onde um gesto de cavalheirismo, grandeza e compaixão de um deles pudesse ocorrer e mudar o destino do outro e de outras pessoas!

Pois foi exatamente isso que aconteceu, naquela gélida manhã de 20 de dezembro de 1943, um cinzento dia de inverno na Europa conflagrada pelo loucura e ambição de Adolf Hitler; de uma parte considerável do povo alemão; e da ajuda dada pelas condições humilhantes e estapafúrdias impostas à Alemanha no tratado de Versalhes pelas potências vencedoras, quando do final da Primeira Guerra Mundial.

Essa história começa na Inglaterra, onde estava sediado um dos Grupos de Bombardeiros da Força Aérea Americana, que tinha a missão de por em prática, o plano idealizado por Churchill: atacar a Alemanha dia e noite, não dando sossego aos nazistas. Durante a noite atacavam os britânicos e durante o dia, os americanos, num revezamento implacável, destruidor e eficaz.

Naquele dia, o comando conjunto aliado decidiu fazer um ataque maciço contra uma importante fábrica de aviões caças, que se situava nos arredores da cidade de Bremen, no norte da Alemanha. Para realizar o ataque partiriam da Inglaterra 475 aviões bombardeiros B-17 mais conhecidos como Fortalezas Voadoras e B-24, transportando cada um três toneladas de mortíferas bombas. O alvo não podia ser mais significativo: precisavam atingir a espinha dorsal do poderio bélico alemão.

Tripulação do The Pub

Posso até imaginar o que pensavam e sentiam, antes de partir para mais uma batalha, aqueles jovens americanos que deixaram suas vidas e seu país para trás e foram enfrentar, em terras estrangeiras e distantes, um inimigo poderoso e sua moderna máquina de guerra.

A Alemanha, com sua “guerra-relâmpago”, tinha invadido a partir de setembro de 1939 vários países, ocupando quase toda a Europa em poucos meses de guerra. Apenas Inglaterra e União Soviética resistiam, a duras penas, às ambições de domínio e expansionismo dos alemães. Os pilotos americanos e suas tripulações sabiam que estavam servindo à mais perigosa das armas, a força aérea, e que dificilmente sairiam com vida daquela guerra.

O medo de morrer era real. Companhia inseparável de todos eles.

Tinham na memória a tragédia recém-acontecida com companheiros, quando em 14 de outubro daquele ano, dia conhecido como Quinta-Feira Negra, a Força Aérea Americana perdeu 60 aviões bombardeiros – 600 homens – em um único ataque, sobre a cidade de Schweinfurt também na Alemanha. Não dava para esquecer tamanha desgraça. Principalmente porque antes de partirem para o ataque a Bremen, foram alertados de que a defesa antiaérea daquela cidade era composta pelos artilheiros de elite do exército alemão.

Um mau sinal para os americanos.

Para protegê-los durante a missão contavam com a escolta de centenas de caças P-30 Lightining, P-47 Thunderbolt e os novos P-51 Mustangs que os acompanhariam tanto na ida à Alemanha, quanto na volta para a Inglaterra. Numa batalha aérea os caças devem manter os inimigos longe da formação de aviões bombardeiros, dando condições para que estes sigam até o alvo e atinjam seus objetivos, despejando as bombas que transportam.

 

B-17_100bomb_group

Formação de B-17s

Parece até que eu estava lá naquele dia… Os bombardeiros decolaram um por um da base envolta em névoa às 7:30 da manhã. Subiram em espiral nos céus da Inglaterra para compor a formação de ataque. Representavam uma força aérea poderosa que o inimigo haveria de temer. Vindo também de outras bases espalhadas por toda Inglaterra, o céu de repente ficou coalhado pelos 475 bombardeiros voando juntos de um horizonte a outro, para onde quer que se olhasse. Essa visão reforçou a confiança dos pilotos americanos e suas tripulações de que iam aplicar um golpe mortal no inimigo. Eles que se preparassem.

article-2245472-166DF0C7000005DC-89_306x423No comando de um bombardeiro B-17 estava o jovem piloto Charlie Brown, de apenas 21 anos,  que com mais nove homens completavam a tripulação da aeronave carinhosamente chamada por eles de The Pub.

Além do piloto, co-piloto e navegador, os demais tripulantes eram artilheiros bem treinados com suas pesadas e mortais metralhadoras, distribuídos em pontos estratégicos da fuselagem do avião. Precisavam se defender dos ataques dos caças inimigos.

Era um verdadeiro jogo de vida e morte.

Voavam a 9 mil metros de altitude. A viagem de três horas e meia até próximo de Bremen transcorreu sem sobressaltos para os bombardeiros americanos. Mas eles sabiam que estavam sendo vigiados pelos radares inimigos desde a partida da Inglaterra e certamente seriam atacados a qualquer momento, numa reação dos alemães para impedir que cumprissem sua missão.

E foi exatamente isso o que aconteceu. Quando estavam a 48 quilômetros, ou seja, a dez minutos do alvo, começou a batalha. Os radares alemães acompanharam a invasão de seu espaço aéreo, monitorando a formação dos bombardeiros, seus caças protetores, velocidade, altitude, rumo e deram início às “boas vindas” aos americanos. Era uma combinação de fogo das baterias antiaéreas com a entrada em ação das centenas de caças alemães da temida Luftwaffe.

O inferno nos céus estava apenas começando…

A visão do piloto americano no comando do The Pub era que o céu em toda a sua volta estava “vibrando”, ponteado com súbitos, incontáveis e gigantescos clarões multi-coloridos. Verdadeiras bolas de fogo. Explosões ensurdecedoras encheram os céus de Bremen com suas nuvens pretas de fumaça oleosa oriundas dos canhões da artilharia alemã em terra. Eram as baterias anti-aéreas alvejando os bombardeiros americanos.

O B-17  pilotado por Charlie Brown balançou atingido por uma grande explosão bem no nariz do avião. Os controles do avião afrouxaram das mãos do piloto por um instante, enquanto ele via outro bombardeiro amigo ser atingido à sua frente. O avião se recuperou do golpe mas, com o enorme buraco aberto no nariz, a gélida ventania fez a temperatura dentro da aeronave cair repentinamente para 24 graus abaixo de zero!

Um dos quatro motores foi atingido. Começou a soltar fumaça e  então foi desligado pelo piloto para evitar que explodisse. O B-17 ainda contava com outros três motores. Apesar da barragem de fogo dos alemães e do avião danificado não abandonaram a missão. Seguiram em frente.

Mais adiante, quando estavam a apenas um minuto do lançamento das bombas, um projétil alemão vindo de terra atravessou a asa sem explodir, deixando outro buraco enorme na aeronave. Pra sorte deles, não tinha atingido o depósito de combustíveis. Embora severamente avariados, não desistiram da luta. Queriam chegar a Bremen a qualquer custo.

Outro clarão, outra explosão e outro motor começou a “enlouquecer” acelerando sem controle. Um dos tripulantes gritou pelo rádio de bordo: “A asa vai rachar!”. Não rachou. No meio de toda essa confusão e explosões que não cessavam, o piloto lutava desesperadamente pra manter o controle do avião e não abandonar o rumo. Do lado de fora o inferno só piorava. Pipocavam novos projéteis ao redor do bombardeiro…

Sabiam que não escapariam com vida.

Debaixo do implacável fogo anti-aéreo e sem ter sido ainda alcançados pelos caças inimigos, tinham conseguido chegar à fábrica de aviões alemães em Bremen. Isso por si só já seria um feito memorável. Agora era hora de estabilizar o avião e lançar as bombas. Foi o que fizeram, com muito esforço.

O bombardeador do The Pub, Andy, abriu a porta do compartimento e soltou as doze bombas de 226 quilos cada sobre a fábrica de caças alemã. A missão estava cumprida. O avião, aliviado repentinamente de três toneladas de peso, se elevou subitamente e o artilheiro que ficava sob a fuselagem observou as bombas explodindo lá embaixo.

 

Cenas de batalha aérea

Bombas lançadas, missão cumprida! Agora começava a etapa mais difícil: voltar para casa com o avião em frangalhos. Logo o comandante percebeu que seria missão quase impossível… 

CONTINUA no próximo post…
Beto Benjamin

 

 

 

2 comentários em “Você teria um amigo alemão durante a II Guerra Mundial? Pois Charlie Brown, um piloto americano, teve! – parte 1

  1. Pera lá, isso está parecendo aqueles seriados da década de 60 que passavam na TV Itapoã e deixavam a gente na expectativa até o dia seguinte Não vale.

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  2. Grandessíssimo, li, e não foi à toa que você lançou no quatro de julho menos um dia(rs)!… Ficou muito bom no quesito “série da Netflix”. Se você não tivesse me dado o spoiler por telefone, estaria ardendo de curiosidade… Tenho uma ou duas coisitas a comentar, faço por telefone.Estou te devendo uma ligada, mas eu andei chapado por conta do treino de sábado (quando eu fico aqui final de semana eu faço um ‘treino de exaustão’ no Sábado, no dojo de laranjeiras). E como estou entrando de férias, tenho que deixar tudo andando aqui na Cátedra (hoje eu vou até meia-noite). Te ligo daqui.Grande abraço do seu PP (Poeta Procrastinador)

    Curtido por 1 pessoa

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