Eu era bem criança, Eu bem me lembro…

Por Beto Benjamin.
Dedicado às minhas filhas Joana, Gabriela e Carolina.
Dedicado a Josué de Castro.

            Vinham todos os dias, quase,
            eu era bem criança, lembro,
pois passavam devagar, na minha frente,
segurando sempre um caixão, pequeno,
revestido todo de azul bem claro.
            assim da cor do céu que o verão veste,
era a procissão dos anjos não celestes
(e ainda não sabia quanto era triste)

             Não eram muitos…
Meninos e meninas, maioria.
Enfileirados, cheios de poeira
Carregavam velas e: Ave-Maria!
             Ave, Ave, Ave-Maria!
             Ave, Ave, Ave-Maria!
Enchiam as ruas nossas do bairro
Seus rostos puro suor, todos molhados
Suas aparências inocentes e tristes,
Eram eles de verdade
                          pobres coitados…

Não entendia bem o significado,
Mas parava para ver a procissão passar:
Olhava, ouvia, via, ouvia e olhava –
Eu era bem criança, e eu bem me lembro
que aquela cena me paralisava,
             comovia
             e me extasiava…

Infantes carregando – esforço e zelo –
o corpo inocente, inerte, em pelo
           
de outra infância arrebatada
Ainda menor que a caixa finda
que lhe cabia. Andavam, pés no chão,
poucos adultos ao seu redor…
Pai? Mãe da criança? Q
uem saberia…
             era cena de dar dó

Eu era bem criança, eu bem me lembro
das sujas ruas, da lama das ladeiras, de esgotos mis
da triste urbe de Itabuna, minha
do bairro pobre e meu da Mangabinha,
             onde eu sabia ouvindo
             quando ela vinha

De longe escutava, vindo, a cantoria,
me 
preparando, todo, para assistir.
mãe no braço, não deixava-a desistir,
eu era bem criança, eu bem me lembro,
mão estendida, não a permitindo sair
enquanto a procissão não terminasse,
até que a fila dos infantes embora fosse e
a cantoria não se pudesse mais ouvir…

Só em tempo mais tardio saberia
que as razões têm tempo de existir;
lembro, bem criança, que o tal lamento,
era um rio terno e vago eterno em mim,
espetáculo triste a assistir:
azul caixão suspenso, preso no tempo…
Eu era bem criança, não esqueci

Daquela procissão chinfrim, ainda os revejo
não muitos, magros, quase esqueléticos,
roupas surradas, desbotadas, ali, eram,
quem sabe, um retrato desse país enfim
Não sabia nem poderia ter tento e
entender os porquês, mas eu bem me lembro
era vida e morte severina sim

Perguntei a minha mãe, um certo dia:
“o que era aquilo, que eu tanto via e não
cansava nunca de assistir”…. Com ar
cansado duro e suspirando respondeu:
             “É a procissão dos anjinhos, filho
             Era criança pequena. Morreu
             Foi para o céu, logo que nasceu”

No meu raciocínio puro não cabia
uma viagem tão rápida assim no escuro
e tal qual a minha mãe me dizia.
Espantado, como só crianças ficam,
me perguntava: “Se era para ser rápido”,
Lembro, era criança, “por que nascia?…”
“Não compreendo…” E não compreendia…
“Deus chamava!”, e abismado me sentia
tão incompleto e inacabado,
como aquele que partia

Pensava com os botões de infante vivo,
Olhando enviesado para esse deus
tão bem falado.
“Se ao mundo não era para vir,
por que a mandava?”
Por tanto tempo guardada “na barriga
da mãe, voltava assim que nascia?…”
             “Que viagem estranha essa!…”
             “Que mal chegou, e já se ia!…”

Eu era bem criança, eu bem me lembro,
A trabalheira, no cemitério, era,
sem fim. Sepultado um anjinho,
chegava outro pelo mesmo caminho
Trabalho insano, esse, dos coveiros:
abrir e fechar de cova, o dia inteiro
como sempre que me faço este relato

De que morriam? Quem sabe?
Foi “de fome. De doenças”,
a minha aflita mãe dizia
Ou foi um tal “Papai do Céu chamou!”,
feito um clássico quadro anônimo
de um país que seria o meu, um dia

Eu era bem criança, era o meu tempo,
vivo, passaram mortos, muitos, sem fim…
Hoje já não sou criança, mas bem me lembro,
pois carrego aquela procissão em mim.

9 comentários em “Eu era bem criança, Eu bem me lembro…

  1. Beto, maravilhoso texto.
    Quanta poesia!
    Lembrei-me da infância em Pirangi, tão igual quanto, convivendo dessa mesma miserabilidade do nosso tempo. “Eu era pequeno e bem me lembro” Felizmente temos hoje uma redução significativa das taxas de mortalidade infantil.
    Também pudera!

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  2. Profundo, intenso e legítimo. Nada como a história que tiramos do baú do tempo, do fundo dos sentimentos, e que belo é poder revisitá-la e vestí-la de poética. Mais que poesia, é a força da arte. Parabéns e abraços!

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  3. Carrego aquela procissao em mim.
    Meus olhos tambem estavam ali.
    Anjos que endemoniavam a minha mente, atormentava a minha alma inocente, e me perguntava; para onde se vão,? a resposta era o “Ceu, “mas eu so via um caixão.
    Assim como vocè poeta, estremecia de dor e afliçao querendo explicaçao.
    Ali em Itabuna no bairro pobre vivia a mesma agonia do seu coração.

    Querido, Belissima poesia !
    Me enche de alegria sentir a a sua pureza, grandeza e amor a vida.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Cara. Lí e certamente vou reler muitas vezes, pois destes meus 64 já vividos, precisamos dessas lembranças, poesia cadenciada, permeada de tanto sentimento que nos faça compreender que cada fato, no imaginário mesclado com a realidade de seu tempo, possa valorizar e trabalhar para que a infância dos que hoje a vivem sejam melhores, mais dignas e com mais perspectiva de futuro que as daquele tempo. Abraços do amigo Wilson.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Sim meu caro Wilson. Nada como a pedagogia da presença com sua força, significados e transformações! Impossível não se lembrar de Josué de Castro e da sua Geografia da Fome ensinando ao mundo as coisas que batiam em nossas caras todos os dias da vida! Certamente eram épocas difíceis, disfarçadas, esgarçadas, com um rio de merda correndo no coração da nossa cidade… Já estava tudo contaminado e não nos dávamos conta. Apenas olhávamos inconformados para o céu, esperando o que Deus nos prometeu… E prometeu coisa melhor…! Axé!

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