Vera Gertel – Se alonga e solta o verbo!

Vera Gertel é uma de minhas colegas há muitos anos, na turma de alongamento com o Jean-Marie, na Sauer Danças, no Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Discreta, tranquila mas sempre presente, é uma das “queridinhas” do nosso mestre.

Sempre escutei do Jean: “Olha essa menina aí na sua frente, veja como ela está fazendo… olha que beleza de movimento, que perfeição!…” Por isso mesmo sempre prestei a atenção nessa “menina”. Detalhe: Vera tem 79 anos! Esbanja vitalidade e “joie de vivre“! Um exemplo para todos nós…

Não podia imaginar a vida interessante que ela teve como grande atriz, militante e jornalista. Muito menos que tivesse escrito um livro, quase uma auto-biografia: “Um gosto amargo de bala“. Relato de suas memórias que repassa o Brasil político, artístico, cultural e principalmente episódios da esquerda brasileira de 1930 a 1970 com os principais personagens que compunham o mundo em que ela vivia. Surpreendente, não é?

Filha de pais comunistas, deveria ter sido chamada de Anéli – homenagem da mãe à frente política Aliança Libertadora Nacional (ANL). Pode? Por sorte, o pai, temendo complicações futuras, a registrou como Vera GertelNem por isso deixou de ser uma ativa militante do Partido Comunista Brasileiro, durante muito tempo.

Formou no final da década de 50, com os atores e camaradas Oduvaldo Vianna Filho – que seria também seu marido  (1936-1974) – e Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) o Teatro Paulista do Estudante que em seguida viria a se juntar ao Teatro Arena.

Aos 20 anos de idade, com Oduvaldo Vianna teve seu único filho batizado de Vinícius, homenagem ao poeta e amigo. Casou-se mais duas vezes: com o compositor Carlos Lyra e com o jornalista Jânio de Freitas.

No teatro, tanto em São Paulo quanto no Rio, teve papéis de destaque e muito reconhecimento de público e da crítica. Na peça “Eles Não Usam Black-tie” teve sua interpretação elogiadíssima pelo então temido crítico Paulo Francis. Outro momento importante foi em 1968, quando sua atuação na peça “O Jardim das Cerejeiras” obteve o reconhecimento e aplauso de outro crítico de renome, Yan Michalski.

Vera conheceu, contracenou e conviveu com figuras importantes do cenário artístico brasileiro como: Augusto Boal, Chico de Assis, Zé Renato, Araci Balabanian, Miriam Mehler, Eugênio Kusnet,  Leila  Abramo, Milton Gonçalves, Flavio Migliaccio, Henrique Cesar, Celeste Lima, Nelson Xavier, Riva Nimitz, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Vinícius de Moraes, Nara Leão, entre tantos. Muitos deles, personagens marcantes de seu livro de memórias.

Um belo dia perguntei se ela não queria dar uma entrevista para o NuncaseSabe. Topou na hora e no meio de uma tremenda barulheira, com entrada e saída de gente da Sauer Danças, Vera se permitiu deslizar suavemente impressões sobre a vida e o tempo, sem poupar opiniões.

A seguir, a entrevista de Vera Gertel.

Beto Benjamin (B.B.): Vera, por que você faz alongamento com o Jean-Marie?

Vera Gertel: Esse trabalho me torna ativa, ágil na minha idade. A medida que eu envelheço, quero me sentir com saúde. Esse trabalho tem muito a ver com saúde. Eu tenho bursite mas, não me incomoda tanto. Apenas na hora do exercício porque eu tenho que forçar os ombros, mas à medida que eu ganho musculatura a bursite me incomoda muito menos. Nessa aula, o que muita gente não sabe é que ela dá musculatura, nos alongando. A idade traz alguns problemas evidentemente. A aula do Jean-Marie, que é muito cuidadosa e que frequento há mais de doze anos,  combate isso.

B.B.: Como descobriu o Jean-Marie?

Vera: Foi uma recomendação. Eu fazia musculação mas não gostava. Aquela repetição dez, vinte, cem vezes. Aquilo me matava de tédio! Não é o caso nas aulas de Jean-Marie. No máximo ele repete um movimento três, quatro vezes. Logo está pulando para outro, mais duas, mais três, mais quatro vezes. O movimento muda o tempo todo e isso não nos deixa cair no tédio. A aula dele é como a vida: cheia de acontecimentos inesperados.

B.B.: Você disse que tem que idade?

Vera: Eu não disse, mas já que perguntou, tenho 79 anos.

B.B.: É notável lhe ver com essa disposição. É um grande estímulo para todos nós!

Vera: A vida sedentária não é normal. Não é para os animais e não é para o ser humano. Tem que mexer o físico. Seja como for. Tem que estar em movimento.

B.B.: Que significado você daria para o tempo?

Vera: Agora que estou aposentada, a minha vida nunca foi tão boa! Não penso que seja digno ter que trabalhar para viver, para sobreviver, para comer. Embora seja uma obrigação. Nunca achei que o trabalho dignifique o homem. O ócio dignifica mais. É mais criativo. O trabalho é sempre por “encomenda”. A maioria das pessoas é empregada, faz trabalho sob “encomenda”.

B.B.: O livro que você escreveu “Um gosto amargo de bala“. Qual o gosto dele hoje? images-3

Vera: O livro é um desabafo. Pela vida difícil que um país como o Brasil oferece para as pessoas. O brasileiro não merecia o país que tem, os governos que tem, as ditaduras que tem. O Brasil tem um povo muito trabalhador e obediente. Esse povo merecia um país melhor. Não gosto de viver num lugar onde a maioria do povo vive na pobreza. Em que as oportunidades não são as mesmas. Um país onde existe uma elite – da qual eu faço parte como classe média – que tem oportunidade de estudar, de crescer na vida, enquanto convivemos com gente que não tem as mesmas oportunidades. Que nasce pobre e vai morrer pobre por falta delas…

B.B.: Compare o Brasil de hoje com o da sua juventude?

Vera: A maior parte de minha juventude vivi os governos democráticos, como o de Juscelino Kubitscheck e de Jango Goulart. A partir daí, o golpe militar cortou o sonho de nossa juventude. O Brasil estava se descobrindo no final da década de 50. Estava descobrindo uma personalidade e uma identidade próprias. Foram os anos em que apareceram o Cinema-Novo, a Bossa Nova, o Teatro Novo brasileiro com peças nacionais, os museus de arte… Tudo isso nasceu nessa época e acho que esse movimento de busca de uma identidade foi cortado a partir de 64 com o golpe militar. Nenhum país merece uma ditadura. A democracia, que nunca é perfeita em lugar nenhum, é melhor. Não se inventou nada melhor, até hoje – que a democracia – para os povos viverem. Você ainda pode votar. Escolher seus políticos. Mesmo que escolha mal, pode ver que errou depois e, corrigir. Pode se manifestar. Numa ditadura não tem nada disso. A ditadura militar cortou o meu sonho de juventude que era um sonho artístico…

B.B.:  O Brasil se desencontrou?

Vera: Só vou pensar que o Brasil se encontrou verdadeiramente quando o povo deixar de ser pobre e miserável. Quando se tiver mais justiça social. Quando não tivermos mais uma elite extremamente poderosa, que manda no país, enquanto noventa e nove por cento do povo está “ferrado”. Aí ele se encontrou. Para mim, é uma busca. Não se pode desistir dessa procura.

B.B.: Que lembranças tem do tempo como atriz?

Vera Gertel em diversas passagens como atriz (Fotos arquivo Vera Gertel)

Vera: Fui atriz, mais ou menos, por acaso. Gostei muito dessa época. O teatro para mim tinha um objetivo. Era um teatro que fazia as pessoas pensarem. O teatro lançava ideias para a plateia. Fazia a plateia pensar. Era um teatro mais criativo. Pensar é criar.

B.B.: Está escrito no seu livro que você nasceu de pai e mãe comunistas. Parece ter sido uma carga pesada para você. Foi?

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Vera: É uma carga pesada. Porém pesa ainda mais, se você discordar de pai e mãe… (risos). Não foi o meu caso! Eu entendia e aceitava perfeitamente aquilo. Agora é um peso porque a coisa mais importante para um comunista é a justiça social. Não é propriamente o que está perto dele. É um sonho, um ideal que ele tenta alcançar.

Pesou o fato, por exemplo, de meus pais acharem que a antiga União Soviética era um paraíso, quando na verdade, não era. Isso pesou não apenas para mim. Para eles também. Descobriram que não era bem isso. Foi uma desilusão. Era uma utopia que continua sendo até hoje. Aquele sonho marxista de uma igualdade social, foi desvirtuado, não aconteceu. O que houve na verdade, foi uma ditadura e infelizmente por causa de Stálin que era uma personalidade doentia, sanguinária. Muita gente morreu na antiga União Soviética.

B.B.: Como criou seu filho?

Vera: Criei meu filho com liberdade de pensamento. Por exemplo, ele é filho de santo, gosta de candomblé. Sem nenhum preconceito. Mais livre politicamente. Ele pode pensar por ele mesmo. Aprendi uma lição.

B.B.: No livro você faz relatos de viagens à Europa. Que impressões ficaram?

Vera: Me espantei pelo fato de países capitalistas como França, Inglaterra etc. terem uma igualdade social maior do que os países socialistas que visitei. Nos países socialistas se tinha uma elite menor mas era uma elite burocrática que pertencia ao partido. Partido único, o que para mim já era um erro. O resto do povo, mesmo que não passasse fome, que tivesse onde morar, cuidados médicos, educação etc. ainda assim, era muito pobre.

Fiquei espantada com Praga, capital da Checoslováquia. O país era muito industrializado até a Segunda Guerra Mundial. Foi ocupada pelos nazistas e quando visitei o país muito após a guerra vi que não era tão industrializado assim. Não tinha os principais produtos de consumo para vender. Isso me espantou muito. Tudo era muito pobre! Na verdade  o que aconteceu foi que as indústrias checas foram desviadas e utilizadas para fabricar o armamento pesado que a União Soviética precisava. As indústrias não estavam sendo utilizadas para o progresso do próprio país. Claro, existiam produtos para vender no comércio mas faltava muita coisa. Isso penso ser um erro da economia socialista, a carência das coisas. O Estado escolhe o que será ou não produzido!

B. B.: Veja só a guinada que a China deu para resolver esse problema!

Vera: Sem dúvida. Imagina a população da China reclamando dos bens que necessita. Que não queria andar a vida toda de bicicleta… Então na China de hoje temos é um capitalismo de Estado.

B.B.: O ambiente cultural do Brasil de hoje é muito diferente do seu tempo?images-2

Vera: Entrou na moda – aliás, é um negócio altamente rentável – chamado entretenimento, que se confunde com cultura. Não é cultura. Ele está dominando. O teatro brasileiro está sendo dominado por um tipo de musical cópia da Broadway. Acho que tem lugar para tudo mas, esse teatro está matando…

Essa lei Rouanet tinha que ser aperfeiçoada. Quando se busca patrocínio para um espetáculo só consegue se for para montar um musical que seja rentável. Você não consegue patrocínio se montar uma peça cultural, montar um Chekhov, Strindberg porque não se sabe se será rentável ou não. A cultura não tem a obrigação de ser rentável. Certas atividades culturais deveriam ser patrocinadas pelo Estado. Talvez não integralmente mas, pelo menos uma parte.

Na minha época de teatro a gente vivia de bilheteria mas, vivia também de prêmios, ou seja, as melhores peças ganhavam vários prêmios. Tinha o Prêmio Saci, que era privado. Tinha o Prêmio dos Críticos do Estado, que era do estado. Tinha prêmio da Prefeitura que era do município. Esse dinheiro servia para a produção do espetáculo que por sua vez, vivia de bilheteria. O problema era que tínhamos nove sessões por semana. Uma única folga que era na segunda feira. Uma verdadeira pauleira. De terça a domingo, como duas sessões na quinta e tinha público. Lotava nos fins de semana.

B.B.: Você morou também em São Paulo. Como compara com o Rio?download-2

Vera: Completamente diferente. O Rio é uma cidade mais criativa, mais solta, mais democrática. Até  porque no Rio a gente mora entre as favelas. A gente está mais em contato com a realidade do povo brasileiro. Está na nossa cara. São Paulo não tem isso. As favelas estão na periferia. O paulista não vê a miséria, não vê a pobreza.

Mas, não é só isso. Eu estranhei muito quando vim para o Rio. O paulista, de certa forma é mais eficiente porém menos criativo. Eu acho. O paulista é mais enquadrado na ordem pública. O carioca é mais baiano… (risos). Mais solto. Não tem tanta obrigação assim de te servir quando você pede uma coisa. Ele vai te servir mas, no tempo e na vontade dele. Tem isso. De certa forma isso é bom. Também acho que o carioca trabalha mais que o paulista e ganha menos. Sempre foi assim…

B.B.: Sobre o que você falaria se tivesse que escrever outro livro?images-6

Vera: Eu tenho o bicho do jornalismo. Para mim fazer ficção deve ser muito difícil. Talvez eu escolhesse outro enfoque. Não sei. Alguma coisa que tivesse a ver com o real, com o que acontece.. Eu gostaria mesmo era que o brasileiro lesse mais. A leitura é tão libertadora. Se as pessoas tivessem o hábito de ler, elas descobririam o tanto de lazer que a literatura traz. Ela oferece muito mais do que o cinema, a televisão, o teatro mas, muito mais. Você viaja na leitura. Vive mundos completamente diferentes do seu. A leitura se estende demais. Ela se amplia. Pode-se ler a qualquer hora do dia ou da noite. Em qualquer lugar. Pode fazer o que você quiser. Ela se expande e traz muito mais conhecimento. O conhecimento também é libertador…

5 comentários em “Vera Gertel – Se alonga e solta o verbo!

  1. É sempre bom “ouvir” pessoas como a Vera, cujos pensamentos demonstraram uma alegria de viver e uma juventude aos 79… Se tivermos sorte, disciplina e coragem, chegaremos lá.

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  2. A vida dela é o livro mais interessante e que ainda está sendo escrito com sabedoria e Graça….
    Que seja abençoada por todos os Deuses…

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  3. História viva! Sobre deslizar suavemente impressões sobre vida e tempo. Instigante matéria, pois ativa as reflexões no próprio leitor. Transportou a aura da conversa. Não poderia render algo diferente, sendo essas figuras pessoas inteligentes, interessantes, abertas e sensíveis na comunhão de um bom bate-papo! Parabéns ao Nunca se Sabe!

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  4. O socialismo e o comunismo são lindos e maravilhosos até os líderes chegarem ao poder e serem contaminados pelo pior de todos os males humanos, a GANÂNCIA !
    Sobre o brasileiro ler mais … como pode ? As grandes livrarias, Saraiva e Cultura, por exemplo e experiência pessoal, aqui em Salvador, são pessimamente gerenciadas, “mordem e engolem” 50% do valor do livro.
    Gostei muito de algumas de suas respostas ao nosso querido amigo Benjamin.
    Vera, continue exercitando-se física e mentalmente pois a vida é agora.

    Paz e Saúde.

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