Três anos do Nunca se Sabe!

Como sempre faço desde a criação do NuncaseSabe, quando chega dezembro é hora de uma reflexão sobre os posts publicados, bem como sempre surge uma certa curiosidade sobre aqueles que virão… Uma espécie de balanço para “tomar pé” do que aconteceu e sobretudo do que ainda está para acontecer… Posts são uma espécie de “filhos metafóricos” que se põem no mundo. É curioso e interessante acompanhar suas trajetórias no tempo e no espaço. Coisa de pai e filho, entende?… Embora tenha afirmado que, no caso do NuncaseSabe, “esses filhos pródigos” não me pertencem! Uma vez postados, se tornam independentes, criaturas da vida e do mundo (dos leitores é claro!)…

Fica para mim uma espécie de sentimento, numa comparação – quase blasfema – com a maneira que viemos ao mundo: os posts se assemelham a filhos na hora do parto… No momento em que são publicados – como filhos saltitantes dos ventres de suas mães – respiram tomando o impulso inicial da vida e, literalmente berrando, nascem. Adquirem seu próprio momentum. Assumem sua existência. Não precisam ser amamentados, nem cuidados… Se estabelecem por conta própria. Nem lhe dão mais satisfação (com o perdão do trocadilho…)

Seguem caminhos difíceis de prever e, revelam uma certa vocação para chamar a atenção dos outros. Pretensiosos, os posts, sem querer, parecem nos olhar do alto, solertes e, “fazerem promessas” quando estreiam: seus pontos riscam o ar com percursos mirabolantes – muitas vezes impossíveis – traçando no espaço retas, curvas, círculos, parábolas, hipérboles, elipses e, até superfícies de revolução. Inimagináveis. Ambiciosos sugerem, simulam, dissimulam, surpreendem, atraem, registram e confirmam suas efêmeras existências, na leitura que os leitores eventualmente fazem. Depois se aquietam. Cumpriram seus papéis.

Tendo sido morador do Alto das Pombas, vizinho da Dadá e de Dick Ogburn, no tempo de estudante universitário em Salvador, não poderia deixar de reconhecer que esse comportamento vaidoso dos posts remete literalmente às pombas, se não me falha a memória, do poema de Raimundo Correia, lido na adolescência:

As Pombas

Vai-se a primeira pomba despertada… 
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas 
De pombas vão-se dos pombais, apenas 
Raia sanguínea e fresca a madrugada… 

E à tarde, quando a rígida nortada 
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas, 
Ruflando as asas, sacudindo as penas, 
Voltam todas em bando e em revoada… 

Também dos corações onde abotoam, 
Os sonhos, um por um, céleres voam, 
Como voam as pombas dos pombais; 

No azul da adolescência as asas soltam, 
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam, 
E eles aos corações não voltam mais… 

Metáfora parnasiana do porto seguro de um lar qualquer? Se arrisca a um palpite ou a uma interpretação? O eterno retorno às origens – das pombas – mas, não dos sonhos? Sacou? Os posts – pombas sem asas – como elas, teimam no seu existir, a ir e vir… Firmes, impassíveis, assentados como rochas no mar oceano permanecem perenes e silentes no formato em preto e branco e, às vezes, até mesmo a cores… Sempre ali… No NuncaseSabe, ora pombas!

Embora tenha prometido que esse site não seria objeto do umbigo, não deixa de ser surpreendente que ao refletir sobre os posts, seja acometido por uma sensação que desconhecia existir. Não tinha noção de que escrever para o NuncaseSabe poderia trazer uma inesperada revelação: me vejo, em cada post publicado sobre os Outros e, vejo os Outros em cada coisa que escrevo, ou seja em mim“É que Narciso acha feio o que não é espelho…”  Chama o Caetano Veloso ai!… Ou não!

Por conseguinte, tenho dúvidas se estou sendo fiel à minha promessa. Parece não importar. Como se isso fosse parte do aprendizado. Do existir. Vejo agora – mais claro que antes – que quando escrevemos sobre os Outros, estamos falando e revelando, também e inconscientemente, algo sobre nós. Querendo ou não… Talvez seja da condição humana. Consciente ou não. Não vejo mal nisso, nem sinto algum incômodo. Ao contrário.

Para mim esses posts aparentam registros de cenas… Narrativas… Constatação e viagem – psicanalítica ou não – quiçá, sobre facetas dos nossos incontáveis eus. Conhecidos ou não. Vislumbres de certas emoções, flashes de memórias (guardadas, deletadas ou esquecidas), verdadeiros sonhos, filigranas imponderáveis de nossas angústias, anseios, medos, desejos e de tudo o mais que nos reside e acompanha, nessa grande aventura do viver. Sobrevivem no texto, na linguagem, na descrição, no palavreado. Enfim, existem certamente sem noção no post nosso (de cada dia, dia após dia…”) ou do Outro! Quem sabe?

Nesse espaço do NuncaseSabe continuo cada vez mais, buscando a leveza, a suavidade, a beleza, a sonoridade, a sutileza, o alvorecer das palavras já que – aprendiz de feiticeiro – aqui uso a linguagem como instrumento da comunicação. O encontro e o reencontro. Porém além do palavreado tenho buscado nos posts o visual, o lúdico, o musical e sobretudo permitir que sentimentos aflorem, se desdobrem e revelem por si só seus vigores e originalidades (quando existirem genuinamente).

Sigo solitário as estrelas do céu. Como andarilho sem destino e sem pressa – quase senhor do meu tempo – , à procura do extraordinário. Cada vez mais convicto, de que ele está próximo, nos arredores, na nossa frente. Diante dos olhos, que nem sempre veem. Está invariavelmente no comum, no trivial, na simplicidade, naqueles e naquilo que nos cercam.

Nas minhas andanças – literárias ou não – constato que buscar não significa necessariamente caminhar longe. Na maioria das vezes basta o olhar. Aqui mais uma vez recorro ao mestre Jean-Marie Dubrul. Além de ter tomado emprestado o nome de batismo do site de suas repetidas declarações – ao acompanhar o movimento dos seus alunos – nas aulas de alongamento, quando ele dizia: “Calma. Devagar. Não se trata de esforço. Isso aqui não é terapia. Não ultrapasse seus limites… Nunca se sabe!” Pois bem, mais adiante ele completava, alertando que o olhar precede tudo. “Basta seguir o olhar. Ele vem primeiro”... O movimento começa pelo olhar.

Aplicando sua máxima tenho me deparado com pessoas, coisas e fatos extraordinários. Graças ao olhar, que faz ver e distinguir. Captar enfim. O olhar, de acordo com o Jean-Marie, é questão de escolha. Fiz a minha! E não me arrependi.

Enfim vou procurar o sonho nos posts de 2018. Os meus e de quem for encontrando no caminho… Já será um bom começo. Sem eles e sem a curiosidade ainda estaríamos nas cavernas… Transeunte do mundo vou continuar celebrando a vida e trazendo para cá aqueles que a festejam… O vasto mundo e suas celebrações infinitas. Independem de nacionalidades, cor, raça ou credo. O sonho faz parte da humanidade, que com o tempo vai passando mas suas celebrações vão ficando. Vou continuar dispondo de tempo para esse projeto, faiscando e garimpando aqui e alhures pessoas e acontecimentos, verdadeiras pedras preciosas para conhecimento e satisfação do espírito. Sonho, essa coisa inquieta que nos move…

 

 

Por último, como escrevo este post da Bahia, mais precisamente de Salvador, quero registrar que aqui a luminosidade radiante é de outra natureza. De outro mundo. É para valer… O céu é de um azul celestial. Talvez mesmo coisa de Senhor do Bonfim e dos Orixás! Que eles nos protejam e que levemos a luz – e o amor – que cada um de nós traz consigo, para diminuir, nem que seja por um infinitésimo, a escuridão que ainda reina por aí!

Feliz Ano Novo!

Axé Baba!

Beto Benjamin

p.s.: Foto de capa do post – Praia de Imbassaí – Bahia por Frank Wooten
As demais são da ilha de Itaparica: o por-do-sol e o nascer da lua

12 comentários em “Três anos do Nunca se Sabe!

  1. Robertão, não conhecia esse lado lítero-poético do engenheiro. Como você mesmo definiu….. Nunca se Sabe…..
    Forte e Carinhoso Abraço e um Excelente 2018, para você, Andrea e Family.
    Adalberto
    PS. A primeira foto do por do sol me lembra nossa Itaparica.

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  2. Caro Adalberto, esse lado trago da infância e adolescência em Itabuna e estava guardado… As duas fotos são de Itaparica mesmo: uma tirada de Salvador e outra da própria nossa querida Itaparica. Por sinal não lhe vi lá mas vi sua filha e os amigos… Feliz Ano Novo e que nos vejamos!
    Agradeço a mensagem carinhosa do amigo!

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  3. Meu Caro Benjamin;
    O que foi isso? Como classificar sua família reflexão de ano novo e aniversário. Chamá-la de “post” é como que banalizar seu conteúdo… Sugiro colocá-la na categoria de “tratados”, no grupo dos escritos dedicados ao ser humano tratando de seu lado luminoso. Isso, nesses nossos tempos onde o lado oposto tem se destacado…
    Louvável!!!

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    • Meu caro Edu, Fico feliz de poder tocar o espírito de Pessoas como você. Em que pese sua avaliação muito luminosa sobre a reflexão que fiz, lembro-lhe que não passa de uma reflexão sobre o momento que vivemos como Pessoa. Espero continuar sendo merecedor de sua leitura e quando possível dos seus argutos e precisos comentários. Navegar é preciso. Viver… Grande abraço!

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  4. Caro Benjamin, fiquei surpreso, mas feliz por conhecer esse seu lado sensível. Sempre achei que a melhor maneira de conhecer uma pessoa é através de seus “hobbies”, através de suas atividades não remuneradas, pois é ali que a pessoa traz sua alma, seu verdadeiro ser.
    Vou ler com calma os outros posts.
    Um abraço.
    Gutman

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  5. Beto, considero um deleite poder fazer as leituras dos seus filhos “posts”. De repente, Nunca se sabe, nos vemos neles também!
    Um grande abraço,
    Lorene

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  6. Roberto, gosto muito da imagem dos escritos como “filhos metafóricos”. Somos feitos daquilo que lemos, assistimos, das trocas e encontros com que a vida nos brinda…
    Que bonito esse seu espaço. Muito axé em 2018 e por favor siga produzindo cada vez mais!

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  7. Henrique Paim
    07 de Janeiro de 2018

    Parabéns, não poderia deixar de parabenizá-lo pela visão distinta e surpreendente da vida.

    “Muitos não aprendem com o tempo e continuam vestidos com armaduras que incomodam os movimentos do corpo e até aprisionam a alma e o pensamento, sempre sobre os olhares vigilantes do rito e da marcha que sugam as nossas vidas, afinal, tudo segue o padrão da não reflexão. Porém, o tempo não espera, o pensamento é livre e a poesia é vida”.

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  8. Amigo Roberto,

    Parabéns pelo seu momento de vida externado nestas reflexões e tiradas poéticas. Tradução de objetivos alcançados e leveza de espírito.
    Abraço

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