Bahia, o Carnaval (e eu…)

Em tempos de Carnaval e em especial do Carnaval de Salvador, que participo há décadas (quem não conhece não faz ideia da festa que é!), escolhi uma música do cantor e compositor Saulo Fernandes, lançada em 2013 chamada Raiz de Todo Bem, para representar meu sentimento de estar todos os anos no Carnaval dessa cidade africana e ao mesmo tempo prestar uma homenagem à terra onde nasci, a Bahia.

A primeira vez que escutei essa música foi na voz do menino Mika, nosso querido vizinho do Boulevard das temporadas de verão na ilha de Itaparica. Nas serenatas na porta de casa, ele sempre aparecia e cantava Raiz de Todo Bem, com seu jeito de moleque e uma harmonia incrível para sua idade… Marcou. Gravei na memória. Sua cadência e ritmo de reggae surpreendentes ecoavam como um hino. Pelo menos para mim, Mika a tornou inesquecível… África iô iô…

Essa canção também me fez recordar que parte de meus ancestrais veio para cá tangido pela fé. Vieram de terras distantes do Oriente Médio diretamente para a Bahia, outro lugar de muita luz, encantamento e fé. Me fez lembrar ainda, das caravanas de camelos de desertos imensos e longínquos, dos relatos de meu avô árabe quando era criança. Pois é com essa origem – de um lugar também misterioso, povoado de sonhos e surpresas – que me vejo, trazido a esta África, quiçá por uma combinação improvável de eventos históricos, que haja alinhamento de planetas para explicar! Assim, aqui nasci…

Logo eu – poeira das estrelas – fiel e único depositário da minha própria existência! Já que fui escolhido pela loteria do universo para nascer e se tornar (estrear diriam Caetano e Gil com as bençãos de Betânia e Gal) parte dessa baianidade nagô, saúdo o Benin e, dispenso qualquer tentativa de explicação – esotérica ou não – para o GPS do meu nascimento. Simplesmente aceitei!

A fé, o santo, os escravos, o caboclo, o candomblé!

África sou eu!

A pipoca dos trios, a maniçoba, o Boca do Inferno, Jorge Amado, os mestres Bimba e Pastinha, a saída do Ilê no Curuzu, o Olodum e seus tambores, o Araketu, o som arrasador do trio dos Novos Baianos, a guitarra impetuosa de Pepeu e Baby, a menina que ainda dança; o trio Armandinho, Dodô e Osmar com Vavá Furquim fazendo o som e eu de contra-regra; o trio de Daniella Mercury, Luiz Caldas e seu fricote, Moraes Moreira, o desfile das “bonecas” e o encontro dos trios no alvorecer das quartas -feiras de cinzas na Praça Castro Alves, o trio Tapajós, o bloco do Jacu, os Internacionais, a banda Eva, Ricardo Chaves, Saulo Fernandes, Ivete San Gallo, o Asa de Águia, o Camaleão, a Timbalada, o arrastão e os Zárabes de Brown, o Chiclete com Banana, Bell Marques, os Filhos de Gandhi, os Apaches do Tororó, os bailes do Bahiano de Tênis, o acarajé e o abará, o sarapatel, a moqueca de camarão de Dadá, o vatapá, o xinxin de galinha, a carne do sol, o caruru de Cosme, Damião e Doum, o filé do Juarez, as festas de largo, as baianas e a lavagem do Bomfim, a procissão de Odoyá,  as festas imperdíveis de Licia Fábio, o terreiro do Gantois, a bata que aprendi a usar com Guilherme Hippie, a gangue de Aratu, os ensaios de Carlinhos Brown no Candyall Gheto Square e no Museu do Ritmo, os atabaques… enfim, a Bahia! A fé no Senhor do Bonfim… Oxalá!

Tudo isso era apenas para apresentar a música de Saulo, com os negros versos de Somos a Bahia declamados por Aloisio Menezes, na introdução do vídeo abaixo!
Digam se não dá vontade também de gritar:

Baiano sou eu!
Somos nós!

Beto Benjamin

Raiz de Todo Bem

Salvador, Bahia
Território africano
Baiano sou eu, é você, somos nós
Uma voz, um tambor

 

Oxente
‘Cê num’ tá vendo que a gente é nordeste?
Cabra da peste
Sai daí batucador
Quem foi seu mestre?

Capoeira

 

Se plante
Lá vem rasteira
Pé de ladeira

Preciso da fé no Senhor do Bonfim
Pra mim, pra você, pra mim

 

Um chinelo de couro, uma bata
Uma benção, mais cinquenta centavos de som
Aumenta o som!

 

Africa Iô iô
Salvador, meu amor
A raiz de todo bem, de tanta fé
Do canto Candomblé

 

África Iô iô
Salvador, meu amor
A raiz de todo bem, de tanta fé
Do canto Candomblé

 

 

14 comentários em “Bahia, o Carnaval (e eu…)

  1. Se alguém me pedisse para desenhar um baiano…..
    Como não sei desenhar…..
    Mostraria a sua fotografia.
    Poucos interpretam o sentimento de ser baiano como você o faz!
    Parabéns!

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  2. Que espetácul, Beto!
    Quanta riqueza de palavras e emoções!
    Eu que amo tanto viver nessa terra posso dizer que Ser Baiano é também um estado de espírito!

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  3. Quem morou 20 anos na terrinha Tb tirou o bilhete premiado, Tb precisa da fé no Senhor do Bonfim , precisa não ! está tatuada na alma , vai comigo para onde eu for . O seu texto … uma poesia , senti os cheiros , vi as cores , revivi os melhores momentos dos meus 20 e poucos anos . O seu texto é navalha na carne , uma explosão de emoções com direito a lágrimas dificiis de ser contidas . Se não fosse assim , não seria vc …. não seriam os fim de tarde em Itaparica… não seria as festas da amada Licia …. não seria a Bahia . Tks

    Curtido por 1 pessoa

  4. Sim, “Baiano é você”, mas termino essa leitura com o sentimento de que Baianos somos todos nós! Antes de ouvir a música, só mesmo de ler a letra da música, já sinto o toque dos tambores.
    Seu GPS de nascimento vem da Terra Oficial do Ritmo.
    Escritas empáticas que criam molduras de espelho para todos se enxergarem: É assim que me sinto no Nunca se Sabe! Esse espaço é raiz de muito Bem e Fé.
    Parabéns!!
    Peter

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  5. Meu Caro Benjamin;
    Te admiro tanto que chega a ser um princípio de inveja dessa sua capacidade em observar tantos aspectos nessa nossa festa mundana… e querida, claro!!!
    Me sinto vazio dessa sua qualidade de ver tantos e tão lindos aspectos ai… sinto muito mas sou um perfeito incapaz.
    O que não impede minha sincera admiração por que tem olhares tão mais capazes que os meus.
    Abração…. Siga adiante, você tem futuro!!!

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  6. Meu caro Edu, normalmente esse é um espaço para a livre manifestação dos leitores do NuncaseSabe, sem maiores intervenções do escriba que vos fala. Entretanto casos de injustiça não podem passar batidos. É exatamente o seu caso.

    Seu comentário neste post, a exemplo de outros que vc fez anteriormente aqui no NuncaseSabe, demonstra a clareza e a sensibilidade que vc carrega consigo, junto a tantas outras qualidades, que eu, testemunha ocular da sua história de vida, colega e amigo de tantos anos de trabalho conjunto, não poderia deixar de registrar. Sua fala direta, argúcia, inteligência, inquietude, profundidade, coragem e uma certa dose de teimosia o levaram a ganhar de nós o carinhoso apelido de Peão com Futuro! O primeiro do Brasil. Está aí a gangue de Aratu, citada neste post que não deixa mentir.

    Concluindo meu protesto sobre seu comentário, não lhe faltam capacidade para observar. Vc vai além. Observa e ainda tem tempo para comentar. Tempo esse que tanta gente sente falta e vai continuar sentindo. Lembro ainda que até nos conjuntos vazios, que aprendemos na Lógica Matemática, constatamos que eles estão cheios de nada, até serem preenchidos. Isso vc tem feito muito bem!

    Um grande abraço carinhoso e agradecido…

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  7. Parabéns primo, expressou a alma, o coração e sentimento desse nosso estado maravilho, nunca se sabe mesmo a capacidade de um escritor e poeta.
    Mandou exelentemente ótimo.
    Abs

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  8. Amigo, Roberto mis felicitaciones por esa inspiración de interpretar, y de darnos a conocer tan bello estado brasileño. un abrazo desde México!!!!!.

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  9. Que bello texto, Beto! Eu tambem tenho a bainidade na alma, que aqui, do outro lado do mundo, se expressa através da musica… mas nao posso esquecer de quantas farras baianas e carnavalescas fiz com vc quando vivia ai e sei o quanto vc é completo e exemplo integral da baianidade nago… desculpe a falta de acentos no meu comentario, o computador aqui da Italia nao conhece o dende .-))

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  10. Sensacional Beto!
    Texto maravilhoso, música deliciosa, beleza pura.
    Você nos trouxe coisas mágicas da nossa terra, vividas e algumas, pelo tempo, já esquecidas.
    Para se ler atropelando as palavras.
    Obrigado

    Grande abraço

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  11. Prezadíssimo Amigo Benjamin,
    Há alguns anos, bem finalzinho de tarde, eu e Teresa saímos da Barra pulando alegre e descontraidamente atrás de um trio e sempre bem relembramos. Convidaram o Gil para subir no trio e o levaram, também cantando, até o hotel onde ele estava, em Ondina. Lendo o que você positivamente bem descreveu, sobre música baiana com rítimos e letras, alegremente viajei no tempo.

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