Em Busca da Leveza Perdida… – parte 1

1. DIVAGAÇÕES DE UM SER HUMANO SOBRE A BUSCA DA LEVEZA PERDIDA…

Proust que me perdoe mas, nesse caso, não creio que seja o tempo… pelo menos agora! Se trata mesmo da leveza. Aquilo que nos sensibiliza, transforma e conduz a se integrar e fazer parte da Natureza! 

Pensando no que escreveria no fim do ano passado para celebrar quatro anos do NuncaseSabe, nem pestanejei: resolvi que falaria sobre as coisas que me aconteceram em 2018 e que me foram preciosas, não importando as razões, nem a ordem (puxa vida, logo ela, que junto com os trocadilhos me perseguem de modo implacável desde a infância…)! Ninguém merece!

Pronto. Achei o fio da meada. Vai ficar fácil então contar algumas histórias. Na verdade, devo reconhecer que a inspiração (o fio dessa meada), adveio da beleza, do astral e da leveza de um certo casamento, que compareci em novembro passado, numa praia deserta de Trancoso, na Bahia… Vocês conhecem Trancoso?

Ah, a Bahia, sempre ela… Me levando e trazendo… Parece coisa de Orixá mesmo…

Me faz lembrar uma  brincadeira de infância que gostava muito: iô-iô. Pois sempre que penso na Bahia, me remeto a um iô-iô quase mágico, que me diverte, controla e faz levar a vida, pois cada vez que estico a linha – me distanciando das origens – o movimento de volta é certo, preciso, como a arte de navegar, diriam o poeta Fernando Pessoa e meu amigo velejador Aleixo Belov. Não estou em boas companhias?

Então, pendurado nesse fio invisível – tecido quiçá alhures – em território sagrado dos Deuses e da Natureza quero acreditar, que protegido e desconhecido por nós mortais, tenho a sensação que sigo meu próprio rumo (destino), acreditando piamente que tenho um… Será?

Adoramos dar nomes para aquilo que ignoramos, pensando que talvez assim o pesado véu da escuridão, não caia tão inteiro sobre nossas descobertas(!!!) e pasmas cabeças… Não é verdade?

Vale contar uma história: me lembro muito bem (como é bom ter memória), da primeira vez que tomei a decisão de “ir embora” da Bahia, para longe, para as terras do sem-fim… Eram terras vermelhas de um sertão distante – desconhecidas por mim – deste imenso Brasil…

Nem posso dizer que comecei com o pé direito pois a decisão de partir, buscar novo caminho, não tinha sido daquelas tomadas com tranquilidade. Foi assim, uma “migração” profissional quase  forçada, há cerca de quarenta anos, cujos motivos agora não vem ao caso… Fui.

Daí logo ao chegar às terras sertanejas, não deu outra. Fui logo acometido por um banzo, uma saudade, um sentimento forte de ovelha desgarrada, acompanhado de uma certa estranheza e não pertencimento. Uma verdadeira angústia. Um negócio muito estranho de sentir.

Junte tudo isso – como fez o destino – e rapidamente tomei consciência do iô-iô a que me referia quando era criança e já estava fazendo sem querer o movimento de volta – o refluxo -, em tempo recorde.

Nos companheiros que lá deixei, ficou uma enorme perplexidade no ar… Uma pergunta do tipo “por que será que ele não se “adaptou” aqui? Nosso empreendimento (uma das maiores hidrelétricas em construção no Brasil, na fronteira de Goiás com Minas Gerais) é tão grandioso e bonito e esse engenheiro baiano metido a besta, (que usa umas batas coloridas) vai embora assim, do nada? Como se tivesse recebido um chamado dos Orixás lá deles… Sei não! Esse pessoal da Bahia é muito esquisito!”… Foi essa surpreendente e inexplicável impressão, que deixei pelas bandas da cidade de Itumbiara, Goiás em pleno “planalto central do país”, fazendo coro – sem saber – com o que já prenunciava Caetano Veloso, “apontando seu nariz contra os chapadões” em sua “Tropicália“. Coisas de baianos mesmo!

Pois bem, o retorno inexorável à Bahia, me trouxe uma sensação indescritível de enorme alívio. Algo assim como “aqui é o meu lugar”… Essa beira de cais, beira de mangue, beira de mar, podia até ser algo – sem eira nem beira – mas, era um sentimento real. Eu pertencia aqui… E pertencia pelas beiras… Sim, movimento suave, circular, de contorno, quase espiral… O meu sentir e, quem sabe o meu devir, pertenciam à Bahia… Concluí então: deve ser mesmo coisa de Orixá! Se não entende, pelo menos respeite!

Aí lembrei da música “Quem vem pra beira do mar” de Dorival Caymmi e tudo se encaixou. A explicação estava perfeita. Aceitei. Simples de dar dó! Vejam vocês se não é verdade:

“Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar, ai
Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar”

Portanto, ao me dar conta do movimentado iô-iô que passou a ser a  minha vida, relaxei. “Sabia” que a cada avanço, corresponderia um retorno, não importando a distância nem o tempo da passada… Coisas de engenheiro.

Nessa espiral – agora caymmica – fui praticando esse experimentar, com passadas de raio móvel cada vez mais longo, somadas com espaços de tempo cada vez mais dilatados…  Dá para entender ou, estou viajando legal na maionese?

Tem sido assim desde que me reconheço nesse movimento quase pendular, desde os anos 70, quando cheguei a Salvador para o pré-vestibular… Olha, é um tal de “vou ali mas, volto já”, não declarado por absolutamente desnecessário.

Assim, fui explorando, tateando, comparecendo, vivendo – levando, trazendo, atravessando – , conhecendo partes desse Brasil e do resto do mundo… referências estendidas, levadas por uma imensa curiosidade trazida desde a infância, de buscar o novo, o desconhecido e nele, de uma certa forma se inserir, ficar um tempo, mesmo que não permanentemente… Olha que andei por um bocado de lugares e países… cheguei a viver mesmo em alguns… estava aprendendo o significado da pedagogia da presença e não sabia!

Aí aprendi outra coisa. A impermanência da travessia, que os budistas tanto falam talvez com um outro sentido… Vi que na verdade, quando gostamos de alguém ou de algum lugar, os carregamos dentro de nós, sem precisar estar lá. Sacou?

Moro no Rio de Janeiro há muitos anos mas, sinto que a Bahia reside em mim, desde sempre e eternamente… Coisa de Orixá não é mesmo?

 2. CENAS DE UM CASAMENTO

Mas, tudo isso que escrevi acima era apenas uma introdução. Só queria mesmo era falar do casamento de Joana e Frank. Ela uma baiana legítima nascida na cidade do Salvador e minha filha mais velha. Ele, um americano também autêntico. Moram na Califórnia há algum tempo. Planejaram tudo à distância e nos mínimos detalhes. O resultado foi maravilhoso para quem lá esteve. Coisa bonita mesmo de saber e ver, pois não é algo tão comum assim. Além do próprio casamento a impressão é que ao invés de receber, os noivos quiseram dar um presente para os presentes (não avisei que os malditos trocadilhos me perseguem?).

Conseguiram, pois boa parte dos convidados, nem o Brasil conhecia. Imagine um casamento numa praia paradisíaca, em Trancoso na Bahia! Teimaram que queriam e fizeram acontecer. Não teve quem não se deslumbrasse com aquele cenário alto astral de paraíso perdido no meio dos trópicos! Céu e mar azuis. Dia ensolarado, belíssimo de verão. Parecia mesmo coisa de sonho e cinema! Sorte deles e nossa.

Claro que o casamento nada teve de convencional. Não tinha padre, nem vela, nem juiz de paz. O casal convidou um amigo para fazer “a celebração” e contar um pouco das histórias de vida dos noivos e sobretudo de seu encontro que resultou naquele casamento. O Leo Paranaguá, um paulista amigo dos noivos, nos encantou com suas palavras bonitas, metáforas, visões do significado do Amor e de quando duas pessoas embarcam nessa viagem…

A Natureza de Trancoso fez o resto, inclusive e principalmente Yemanjá, já que pediram licença para usar seus domínios. A “celebração” ocorreu literalmente à beira mar, com direito a lambidas das águas exatamente na área do casamento, na areia da praia. Assim foi feito.

Como num passe de mágica, apesar da maré enchente, a deusa das águas – claro, sempre presente ainda mais na Bahia – se conteve e deixou para invadir com suas águas transparentes o espaço que a ela pertence, logo após o encerramento da “celebração”. Coisas de Orixás mesmo…

Claro que como pai da noiva, me emocionei! Era minha segunda filha casando. Ainda tem mais uma, a caçula, que não é brincadeira. Aí será outro casamento, outro papo, outra emoção. Haja coração!

Tentar explicar o encanto daquele momento é missão que jamais me arriscaria. Mas, como aquela magia envolveu a todos que lá estavam, vou deixar por conta das imagens do fotógrafo Bruno Stuckert (http://www.bstuckert.com/) de Brasília, que foi um verdadeiro artista em registrar as cenas do casamento. Confiram vocês mesmos:

São ou não são cenas de um casamento para Bergman nenhum botar defeito?

Nem preciso contar que a festa rolou até altas madrugadas, numa noite de lua cheia, para completar o encanto de Jô & Frank em Trancoso. Quem lá esteve jamais esquecerá!

O post não acabou. Continua na parte 2, que será postado nos próximos dias, contando a exibição do filme Olhos Negros com Marcello Mastroianni e, as aulas livres de filosofia no Rio de Janeiro, de um outro baiano retado, Auterives Maciel Júnior, encerrando o balanço de 2018 e dando as boas vindas a 2019, que tá começando.

Beto Benjamin

 

 

9 comentários em “Em Busca da Leveza Perdida… – parte 1

  1. “À sombra das Bahias em flor” é este seu primeiro capitulo do primeiro volume das regressões axé-proustinas. E olha que a Bahia é grande… Mas pelo visto, seu amor é maior ainda… Senta a pena sem pena que os trocadilhos à Lingua pertencem, mas a memória somente em nós reside.

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  2. Muito inspirador! Me identifiquei bastante nessa referência ao iô-iô! Voltar às origens é sem duvida uma carga de energia para continuar avançando… Já espero pela parte II!

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  3. Bonito pensar na “impermanência da travessia”. E que ela, a travessia, continue oferecendo instantes tão plenos quanto os narrados por aqui. Que cenário des lum bran te.

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