Os navegadores do nome

Eles partiram sem índice logo após o primeiro eclipse.
Atravessaram a duração das águas
cobertos com o frio quente da aventura.
Vestidos apenas de universo
habitaram o avesso do abrigo
– ainda assim, dormiram como santos.

Eles partiram antes da invenção do estilo.
Procuravam arranjos perfeitos de palavras,
tecidos grávidos de sentido.
Não temiam o grito do infinito.
Tambor de guerra, tremor de terra, nada os estremecia.
Tinham coragem de artista.

Muito antes do descobrimento da história, eles partiram.
Abandonaram mulheres, panelas e fogueiras,
meninos pedindo colo e caminho.
Surdos a súplicas,
cegos como morcegos,
foram em busca do nome que habita o ovo e o velho,
a sombra da espada e o espelho.

Eles partiram antes do nascimento de Dante,
antes do enterro de Homero.
Paladinos do destino e da palavra,
navegaram em busca do nome que habita o Homem.

(Partiram também em grandes levas no século XIX,
quando a humanidade se despedia do silêncio
e gestava o próximo ancestral.)

Eles partiram hoje de manhã.
Eu os vi de minha janela,
me deu um troço, uma certeza,
e eu parti com eles.

O poema acima foi escrito por meu amigo José Enrique Barreiro e faz parte de “O Mapa do Acaso”. Jornalista, poeta de boa cepa, de finíssima sensibilidade, dono da Versal Editores, baiano e exilado – como eu – no Rio de Janeiro há décadas, é casado com a artista plástica Elisa Galeffi e são meus vizinhos no Alto Leblon.
O casal foi frequentador assíduo dos saraus que promovi cerca de 20 anos atrás quando, entre um gole e outro, também nos tornávamos paladinos das palavras e partíamos muitas vezes na madrugada…
Sua poética está publicada em vários livros dentre os quais: O Mapa do Acaso, Declaração de Amor, Quem adivinha o que é?
Nesses pandêmicos tempos, melhor buscar refúgio na Arte pois a realidade tá f…
Como diria Lorca: “Zé, é um dos meus!”

Beto Benjamin


Concluindo a trilogia sobre as viagens de Teté e lembrando que no último post ela tinha passado pela África, Oriente Médio e partia para a Ásia!. Vamos lá então…

Teté: A Ásia é outro mundo. Completamente diferente. Plural. Cada país tem sua cultura mas, pode ser vista através do budismo que em alguns países é um fator determinante para a formação de sua cultura e forma de ver a vida…

O Butão por exemplo. Penso que se não fosse pelo budismo, não teria se tornado o país que é. O Butão tem a Felicidade Interna Bruta (FIB). É “carbon neutral country“. Tem um projeto de sustentabilidade super arrojado. Claro, é um país pequeno com uma população também pequena mas, a forma de ver a vida não existiria sem o budismo. Não se trata apenas de acordar, meditar, acender um incenso… É o todo. Eles são coletivistas e não individualistas. A Natureza no Butão tem um papel importantíssimo.

Aí você vai ao Cambodja, país que sofreu um dos piores genocídios da humanidade e vê pessoas simples, compartilhando o pouco que tem. Então o budismo tem um papel importante em como ver e viver a vida. A Ásia me marcou muito: cresci e aprendi bastante.

Lá comecei a me conectar mais com a meditação. Já praticava Yoga mas lá,  me aprofundei. Comecei a ir mais fundo em auto-conhecimento. O próprio estudo do budismo também. A Ásia mudou minha vida, posso dizer. Completamente. Acendeu coisas dentro de mim que jamais serão apagadas. Tem certos ensinamentos que você aprende e leva consigo o resto da vida. Assim, você dá um passo para a frente e não consegue mais retroceder.

A Ásia teve um papel transformador na minha vida…

Cenas das viagens

Beto Benjamin: Iluminação mesmo, Teté?

Teté: (Risos…) Não. Ainda não. Quem sabe em alguma próxima encarnação…

Beto Benjamin: Opa! Olha você transpira isso… Dá para sentir a vibração na sua narrativa. Suas palavras são acompanhadas por uma energia. Seu olhar mostra claramente as viagens realizadas. Eu por exemplo, me vejo sinto acompanhando suas viagens, inclusive e principalmente a interior. Por que não falar dessa maneira num mundo tão perdido?

Pelo visto, entramos num desvio monumental ao valorizar as coisas materiais em detrimento do crescimento e evolução como seres humanos. Estamos no meio de uma pandemia, completamente à deriva no mundo inteiro. Estou falando da Humanidade sim. Falando de nós. Apesar de toda a nossa ciência e tecnologia posta  à prova, parece não estarmos conseguindo obter as respostas que precisamos. Continuamos tateando no escuro, sem saber para onde vamos… Então, acho sim muito próprio falar de transformação nessa conversa.

Teté: Aprendi duas grandes lições – que venho praticando também – mas, ali bateu firme: a primeira:

tudo que acontece comigo é responsabilidade minha. Mas, tudo mesmo! Absolutamente tudo!

A palavra é responsabilidade e não culpa. Pois a culpa está muito atrelada a religião. A segunda: me conectei muito na Ásia com a questão da impermanência. Buda dizia sobre a origem do sofrimento que as coisas passam, as situações passam, o tempo passa e não aceitamos essas mudanças. Querwmoa ficar lá. Presos naquilo. Isso gera sofrimento.

Esse entendimento profundo pode fazer uma grande diferença. Sabemos racionalmente – mas não emocionalmente ou inconscientemente – ser tudo transitório. Tudo é impermanente. Ficaram essas duas grandes sementinhas dentro de mim. Foram germinando nos seis meses passados na Ásia. Foram tantos os países budistas visitados…

Beto Benjamin: Grandes descobertas Teté! Parabéns! Isso é o cuidar de si. Até para cuidar do outro  precisamos primeiro cuidar de si. Não é?

Teté: Sim. Também tem a auto-responsabilidade. Acontece comigo. De alguma forma, em algum nível eu criei essa situação. Não sei exatamente como mas,  tenho a sensação que as sementinhas realmente foram germinando, nascendo um brotinho aqui e ali e fui regando… Ia saindo uma plantinha aqui e ali e, fui regando. Não foi um instante. Foi ao longo do tempo e com a graça de Deus. Esse processo já vinha acontecendo de 2014 para cá. São conceitos cuja renovação é fundamental fazer internamente todos os dias. Diariamente temos que relembrá-los.

Beto Benjamin: Como uma prática da vida, onde não existe certo nem errado mas apenas as escolhas que fazemos? Os bons encontros. A filosofia fala muito disso. Fazer na nossa vida bons encontros e remover dela aquilo que não está nos servindo mais ou já faz parte de um passado difícil de abandonar. Facilmente ficamos aprisionados àquela “bola de ferro”, como se tivéssemos a obrigação de arrastar aquele peso pelo resto da vida. Não temos!

Quando nos livramos de um peso, nos libertamos. Embora na maioria das vezes seja difícil ter consciência disso e mais ainda, ter a coragem para dar esse passo. Entretanto, somente quando o fazemos é que constatamos: se perdeu o que não se tinha. Não era mais nosso. Não nos pertencia mais e não sabíamos!

Teté: Sim. Concordo plenamente.

Beto Benjamin: Após essa viagem pela Asia o que você fez?

Teté: Fui trabalhar numa agência de viagens como consultora. Elaborando roteiros de viagens de luxo e operando na linha de frente com clientes. Montando roteiros, logística. Mudando roteiros, mudando logística. Trabalhando com operadores de viagens no mundo inteiro.

Beto Benjamin: As pessoas que lhe procuravam na agência de viagem buscavam que tipo de aventura? Estavam buscando fugir daqueles roteiros turísticos “feijão com arroz”?

Teté: Tinha de tudo. Para mim o exótico não é o Marrocos, nem o Egito. Vendia e ainda vendo sudeste asiático, Grécia, Turquia, Marrocos. Mas a maioria era para a Europa, Estados Unidos, América do Sul. Alguns clientes eram mais abertos a experiências diferenciadas. Outros queriam ver sítios arqueológicos, monumentos, comer, beber, comprar e roteiros de viagens de luxos. Então eram poucos os realmente aventureiros. Bom, ao menos já estavam no universo das viagens…

Cenas das viagens

Beto Benjamin: Vamos falar um pouco do Brasil? Lembro que foi numa dessas viagens que você sugeriu que nos conhecemos. Lembra? Foi em Bonito no Mato Grosso do Sul. Adorei o lugar e a hospedagem. Qual sua opinião sobre o Brasil comparado com o resto do mundo para viagens, para aventuras, para o desbravamento, para o desconhecido, para o exótico?

Teté: Conhecia muito pouco do Brasil até voltar a morar aqui em 2014. Quando morei em Florianópolis conheci um pouco do sul. Entre as idas e vindas de férias conheci um pouco do nordeste. Chegou a um ponto em que aquilo me incomodou muito. Por que conheço mais fora do Brasil do que dentro? Senti um desejo e uma urgência de conhecer e valorizar o que era nosso…

Acho até que muitos dos problemas que temos no Brasil é por desconhecer e não valorizar o nosso país, a nossa cultura e o nosso povo. Enfim tem muitas razões para explicar esse desconhecimento. Tem um pouco a questão de ter sido um país colonizado. Tem m também a questão do histórico de que tudo que é lá de fora é melhor do que o que temos aqui dentro. Produtos, idéias, mídias, conteúdos… Acho que já passou da hora de acabar esse preconceito, essa crença coletiva. 

Por isso tive o desejo e a urgência de conhecer o Brasil. Me dediquei com afinco a essa tarefa nos últimos anos. Visitei a Amazônia, Pantanal, Bonito, Lençóis Maranhenses. Já conhecia a Chapada Diamantina e outras verdadeiras joias que o Brasil tem. Para mim

o Brasil é o país naturalmente mais lindo do mundo!

Dotado de uma riqueza cultural maravilhosa, plural. Que se compara com outros países sim. Com uma India, uma China, que são civilizações antiquíssimas. O próprio Irã. Porém penso que a beleza natural do Brasil é incomparável. Digo com orgulho que é o país naturalmente mais atraente que conheço.

Destaque para os Lençóis Maranhenses, um dos lugares mais encantadores que visitei. Incrível. Tá no topo de minha lista. Nosso povo. É um problema e ao mesmo tempo uma solução. Temos uma criatividade, um empreendendorismo, uma riqueza.Temos uma sabedoria também milenar devido à fusão de culturas que conseguimos reunir aqui.

Resumindo não é só beleza natural, quando junta nossa comida, com povo, com manifestação cultural, arte, dança, música, prosa, poesia, enfim tudo o que nos compõe com país. Não tem comparação. Para mim o Brasil está no topo. É difícil comparar. Acredito até que toda essa situação da pandemia é um grande convite para a gente tentar entender e valorizar mais o que é nosso.

Beto Benjamin: Comente sobre o que viu e sentiu na Amazônia?

Teté: Fui duas vezes à Amazônia. É muito especial mesmo. Uma vez fui ao Acre conhecer a tribo dos ashanincas que são descendentes dos incas. Vivem lá nas profundezas do Acre a alguns quilômetros da fronteira com o Peru. Fiquei hospedada com a tribo, dormindo em rede e tomando banho em rio. O banheiro era o mato. Essa vivência foi uma das experiências mais incríveis que já tive.

Olhar para o céu estrelado e ver aquela Via Láctea; ver a forma dos ashanincas viverem em comunidade; sua arte nas vestimentas e nos objetos, nas miçangas; o viver em comunidade; a natureza exuberante;

O pensar sempre no todo e não apenas no indivíduo!

Ano passado fui a Manaus e ao Parque Nacional de Anavilhanas. Já era o Rio Negro. O Rio Amazonas tem mosquito. O Negro não tem devido ao pH da água. Mesmo ficando num hotel bacana eu pude ver os botos que não tinha visto em outra ocasião. Ver o nascer do sol numa canoa no meio do Rio Negro. Nadar naquela vastidão. Nossa. Inesquecível…

Tem alguns “micos” também. A gente pensa que vai ver um monte de bichos.Você não os vê. Eles ficam escondidos.Tem as comunidades ribeirinhas. Muito interessante conhecer como eles vivem, os cultivos, como tudo chega lá. Pegar uma chuva torrencial no meio do Rio Negro. Surpreendente!

A Amazonia é um tesouro do nosso país! Espetacular!

É um lugar muito especial. Mas, muito mesmo.

Beto Benjamin: O que te atraiu tanto nos Lençóis Maranhenses?

Teté: A geografia única. O lugar é imenso. Do tamanho do estado de São Paulo. Isso só o Parque Nacional, com dunas a perder de vista. A cor da areia é muito clara, fina, não fica quente. Pode andar descalço que não queima o pé. Tem as lagoas de água cristalina entre uma duna e outra. Que paisagem!

Já visitei alguns desertos que não tem essas lagoas no meio. A vastidão, a beleza, o contraste das dunas brancas com água cristalina azul-turquesa, ou meia esmeralda, azul-cobalto. Pode tomar banho pois a água é limpa. Pode andar naquela imensidão o tempo inteiro e não tem noção da dimensão.

Somente quando você sobrevoa dá para ter idéia de tamanho. Tudo isso constitui uma geografia única que para mim é o destaque. Não vi nada parecido nas minhas viagens pelo mundo.

Sempre falo que todo ser humano deveria um dia visitar um deserto porque é uma experiência que nos torna mais humildes!

Ali dá para sentir verdadeiramente a grandeza e a potência da Natureza. A gente se sente um grãozinho de areia no meio daquilo. Um nada. Então diante daquela imponência da Natureza se tem a exata dimensão de nossa pequenez como seres humanos.

Beto Benjamin: Você conheceu o deserto do Atacama no Chile?

Teté: Sim. Visitei. É um deserto muito seco. Isso me incomodou um pouco. Tinha que me cuidar bastante com a hidratação interna e externa. Nariz, lábio e pele sofrem muito lá. Tudo resseca. Portanto é uma região que exige muito auto-cuidado mas é muito interessante.Tem uma expressão em inglês que para mim traduz bem o Atacama: “otherworldly“. Outro mundo. Realmente é… Parece que não está neste mundo!

Beto Benjamin: Voltando ao Brasil, o que você achou da Chapada Diamantina?

Teté: Amei subir aquelas montanhas, as trilhas, o Morro do Pai Inácio. A Natureza “raw”Crua mesmo. Selvagem. Você vai subindo e pensa que não aguenta mais. Aí você sente que tem mais energia ainda e sobe e chega num lugar. Encontra uma cachoeira, uma piscina natural. Lá parece que todo o esforço é bem recompensado.

Beto Benjamin: Você é praieira? Quais você mais admira no Brasil?

Teté: Para mim não tem nada igual ao sul da Bahia. Não necessariamente pela cor da água, aquela coisa idílica pois Fernando de Noronha tem esse lugar. Até porque lá em Noronha você está nadando e de repente do nada surge uma tartaruga, um golfinho ou mesmo um tubarãozinho do seu lado… Não tem igual a Noronha…

Contudo tem a cultura do sul baiano. Sei que estou sendo totalmente “biased”. Mas é isso mesmo.

Não tem nada igual a energia que emana lá na Bahia!

Entra o pacote da baianidade, da comida, frutas. A praia está contida nesse pacote. Não é a praia de cartão postal propriamente. Até tem alguns lugares que poderia ser. Mas, não é só por isso que falo de sul da Bahia. É pelo pacote completo que inclui o povo e seu inseparável cordão umbilical com a África. Tudo junto e misturado… (risos).

Beto Benjamin: E as festas populares? Como o Carnaval. Você viu algo parecido no mundo?

Teté: Igual a Carnaval não. Mas já tive em lugares que tinham pequenas manifestações culturais. Festas para cultuar algum deus, algum santo. No Irã, era aniversário de um poeta. Tinha bastante iraniano no mausoléu. Na India, tinha um dia dedicado a um deus hindu em Pushkar. Vi muitas pessoas andando. No Nepal, estava num vilarejo fazendo uma trilha e tinha uma manifestação cultural que não vou lembrar o que celebravam mas, era uma vilarejo com uma procissãozinha.

Nada que pudesse se comparar com nosso Carnaval.

Cenas das viagens

Beto Benjamin: Qual o nome de seu blog atualmente?

Teté: Então, o blog está em manutenção. Deve voltar em breve com o título Escapismo. Na verdade ele sempre será Escapismo Genuíno mas, como é um nome longo, sempre me refiro a ele falando a primeira palavra. Preferi manter o Escapismo mesmo.

Beto Benjamin: Teté, na qualidade de colega blogueiro posso lhe afirmar que é um nome bacana. Tem um belo significado e ainda permite que cada um dê a interpretação que desejar… 

Teté: Obrigada. O conteúdo será mantido só que reformulado. Terá matéria falando de viagens sejam roteiros num país ou o que fazer numa cidade. Dentro de Viagens terá um guia de cidades. Uma cidade como Nova Iorque, Paris ou Beirute, terá uma matéria sobre o que fazer lá, principais pontos. Acrescento sempre coisinhas fora do óbvio. Até porque o óbvio todo mundo conhece.

Em cidades grandes expando um pouco mais pois são lugares que justificam indicar as livrarias e os cafés que adoro. Na parte de cultura indico livros, filmes, documentários, conteúdos sobre algum país que gosto de consultar antes de viajar. Tento sempre antes de ir para um país ler um livro, ver um documentário ou filme.

Tem uma parte que fala de hotelaria pois existem alguns hotéis bem interessantes que oferecem experiências diferenciadas, únicas. Gosto de citar por se tratar de hotéis de luxo que dá acesso a experiências que dificilmente você faria sozinho. Tem também uma sessão de devaneios, que são os escapismos internos. São os meus textos, sobre minhas inquietações e provocações…

Beto Benjamin: Hum, isso me interessa. Que coisas você gosta de devanear mais?

Teté: Devaneios tipo “por que viajar”, como desmitifiquei a fé, de onde vem a necessidade humana de explorar, conhecer, coisas dessa natureza. O que aprendi num diálogo com um taxista em Maputo que me provocou reflexões que não vou esquecer jamais. Coisas do gênero…

Questões humanas, que não tem começo nem fim…

Falo de amor, fé, dinheiro, propósito, espiritualidade, religião. Questões que não tem ponto final. Tem o que o sinto, o que aprendi, o que mudou, o que ficou como está. Enfim, uma jornada de vida inteira…

Beto Benjamin: Que conselhos você daria para quem queira se aventurar pelo mundo, como você fez?

Teté: Primeiro, lembrar que o mundo é mundo mais “bom” do que “ruim”. No sentido do bem. Venho constatando sempre isso. Também lembro que era muito mais destemida. Talvez com a idade se começa a criar alguns receios. Quer dizer, digo isso porém o ano passado fui ao Paquistão… (risos). Senti mais aindaaas consequências do que falei.

O medo nos protege de muitas coisas! Também não é para convidá-lo para tomar um cafézinho e deixar que ele se estabeleça. Toma o café e tchau… Vá embora!

O medo é um sentimento legítimo que não merece ser estrangulado! 

Tem muito mais coisas boas acontecendo no mundo do que ruins. Acho isso. Então é um motor, um combustível que junto com a curiosidade nos conduz a experiências inesperadas que podemos aproveitar mais. Sempre digo que muita coisa boa acontece quando ficamos fora da zona de conforto. Tudo bem que não precisa dormir numa oca com baratas no teto, como fiz na África. Argh!

Mas, se abrir um pouco, sair daquela rotina, daquele roteiro preparado que se sabe o que fazer em cada momento.

Deixar espaço para o não saber.

Permitir encontrar algo novo enquanto buscava outra coisa. Não ter tudo dentro da caixinha, tudo ajeitado, tudo arrumado. Fazer isso com disposição, permissão interna para ficar fora da zona de conforto. Acrescente a isso, acreditar que o mundo é “mais bom” do que “ruim”…

Essas três coisas viram verdadeiras molas propulsoras. Assim você estará sempre aberto para conversar com as pessoas. Qualquer pessoa. Criar elos que podem ser de cinco minutos, trinta minutos. Não importa o tempo. Aí vai descobrir que somos mais parecidos uns com os outros do que pensamos. Vai reconhecer a nossa humanidade. Vai se reconhecer…

Claro que se come diferente, se fala diferente mas, no fundo todos querem ser amados, ser felizes.

Essas similaridades se tornam muito mais evidentes. Tem um peso muito maior. Essa abertura para conhecer o outro também lhe permite ampliar a sua compreensão.

Cito um exemplo: estava num aeroporto nos Estados Unidos e uma conhecida me falou que tinha um certo desconforto com pessoas árabes. Isso foi pós 11 de Setembro. Me lembro que pensei, senti e falei: “Tenho amigos árabes que não tem nada a ver com essa imagem que você está fazendo”. Esse preconceito não os representa de modo algum. Não pode ser generalizada.

Tinha mesmo um amigo sírio, que fez o programa da ONG ao qual me referi  em post anterior e sei que tem pessoas como ele, dessa religião, dessa cultura, desse país que são pessoas maravilhosas. Então aquela idéia generalizada e pré-concebida desaparece, se desintegra para mim. Sei que a gente acaba julgando mas se verdadeiramente nos dispusermos a conhecer o outro, isso pode nos aproximar e dissolver os preconceitos. Acho que estamos precisando desse tipo de atitude. De um modo geral!

Beto Benjamin: E a pandemia? Como tem sido para você?

Teté: Tem sido uma grande faxina mental, física. Uma oportunidade de limpeza – de dentro para fora e de fora para dentro – de pensamentos, de memórias. Fisicamente também. Se livrar de coisas que não uso mais. Uma oportunidade para avaliação daquilo que dou conta e do que não dou. O que não gostaria de abrir mão. O que gostaria de me livrar. Um convite também para dar uma desacelerada na vida.

Claro que estamos todos contaminados com o “inseto” da produtividade.

Isso é uma construção de séculos que carregamos nas costas, principalmente no Ocidente e que vamos precisar despedir de uma certa forma. Por exemplo eu paro e me pergunto: “Bom, já fiz ginástica, yoga, já meditei, já trabalhei. Mas, eu tenho que ler um livro, um artigo saber o que está acontecendo no mundo. Agora o que eu tenho mais que fazer?”.

Então sinto que desacelerar sem culpa é um grande exercício. Mas isso se aplica a nós, privilegiados que temos segurança, barriga cheia, e necessidades primárias atendidas. Um privilégio. Além das faxinas internas e externas ainda temos que considerar a conexão entre todos.

Porque essa pandemia afetou todos os seres humanos no planeta. Todos sem exceção. Então por mais clichê que seja aquela frase  “somos todos um”, “estamos todos juntos”.

Eu sou você e você faz parte de mim. A sua dor também é minha dor. Não existe um ser humano que não tenha sido afetado. Então a conexão é um grande aprendizado!

Concluindo finalmente a peregrinação de Pedro e Luiz pelos Caminhos de Santiago.

Beto Benjamin: Faz frio no Capão? Fez frio na caminhada?

Pedro Gordilho: Olha devo pegar uns doze graus na semana que vem, no Capão. No caminho de Santiago, cheguei a pegar temperatura de zero grau. Também durante a caminhada, teve um dia que bateu os trinta e cinco graus! Muito quente mesmo.

Beto Benjamin: Vocês estavam bem agasalhados?

Pedro Gordilho: Um casaco impermeável fino. Não fui preparado para frio não. Tanto é que no primeiro dia fiquei com medo. Levei uma luva que não resolveu muita coisa…

Beto Benjamin: Se fizesse a caminhada novamente o que teria mudado nos preparativos?

Pedro Gordilho: Levaria metade das coisas que levei! Levei quatro camisas UV, duas calças-bermuda, uma bermuda, uma bota, uma sandália Papeete, lanterna, um monte de bagulhinho, saco de dormir, toalha de alta absorção, boné…

Hoje levaria apenas duas camisas, duas cuecas. O negócio é ir alternando o uso na medida da necessidade. Não há vaidade. Sujou, lava, espera secar e usa no dia seguinte. Minha bota furou mas, deu para o gasto. Ajudou muito na descida protegendo os dedos dos impactos. O tênis por ser mais flexível não oferece uma boa proteção para os dedos. São pequenos detalhes que fazem uma grande diferença. Também a sandália Papeete foi muito útil.

Assim! Quando eu chegava num lugar tirava a bota e calçava a sandália até o dia seguinte. Conseguia dessa forma descansar o pé. Em um determinado momento, meu pé me incomodou e não foi pouco. O dedo mindinho formou um calo. Com o atrito criou uma bolha, começou a doer. Eu não conseguia pisar direito.. Doía, doía, doía… E agora, como vou fazer?

No dia seguinte, piorou. Resolvi então andar de sandália. Meias e sandália. Meias por causa do frio. Andei três dias dessa forma e o pé ficou zerado. Eu também me baseava em um livro durante a caminhada. Ele descrevia a topografia dos trechos da viagem. Ajudou muito pois não se andava tão às cegas.

Nunca falei isso para ninguém! Estou falando aqui para você hoje: Penso seriamente na possibilidade de fazer novamente o caminho de Santiago.

Não sei quando! Se daqui a cinco ou seis anos mas, vou fazer “esse negócio” de novo.

Cenas do Caminho de Santiago

Beto Benjamin: Veja: alguém só faz uma afirmação dessa quando a conclusão do que foi feito é a melhor possível. Dá vontade de repetir a dose. Você só quer repetir aquilo que você gosta, que você ama, por alguma razão. Não é?

Pedro Gordilho: Sim. Concordo plenamente.

Beto Benjamin: Que recado você daria para as pessoas que queiram fazer o que você fez?

Pedro Gordilho: Façam o caminho! Só fazendo, vocês entenderão o que estou falando. Meu coração sabe o que me motivou. Eu sinceramente não sei. Não tem palavras capazes de descrever as coisas que senti durante a caminhada.

Beto Benjamin: Sei do que você está falando. Parece mesmo que ao longo de nossa trajetória como seres humanos vamos nos distanciando da nossa verdadeira essência. Quando deveria ser o contrário não é? E uma experiência dessa natureza parece ter o poder de nos mostrar esse caminho de volta, restaurar esse sentir que não tem nada de racionalidade, nem de entendimento, muito menos de explicações. Desejamos compreender todas as coisas que nos acontecem. Buscar uma razão para tudo. Aí entra o sentir, que dispensa qualquer explicação. Torna as explicações desnecessárias, superficiais, supérfluas.

Pedro Gordilho: É exatamente isso Benjamin. Olha, tenho que agradecer muito à minha mulher pois me fez ver diferente. Ela com sua sensibilidade de mulher me fez enxergar coisas sobre a vida, que eu não teria conseguido se dependesse apenas da minha. A sensibilidade dela acho até um pouco exagerada (risos). Eu não teria criado coragem para fazer essa caminhada, sem ouvir as suas visões sobre a vida, sobre as pessoas, enfim ter participado de alguns trabalhos de grupo com ela. Levou grupos de pessoas para o Capão. Eu via aquelas conversas, a princípio um negócio estranho. Eu pensava que isso não combina nada comigo. Hoje entendo muito mais do que entendia antes. A minha terapia também ajudou também, pois me permitiu uma certa dose de auto-conhecimento.

Cenas do Caminho de Santiago

Beto Benjamin: Essa peregrinação me fez lembrar agora de Gurdjieff. George Ivanovich Gurdjieff. Ele também foi um grande peregrino no final do século dezenove, começo do século vinte.. Nasceu pelas bandas da Armênia, filho de pai religioso, frequentou a escola militar. Naquele tempo aquela área era zona de influência da Rússia czarista. Desde cedo ele se interessou por buscar a Verdade. Queria saber onde estava a Verdade. Passou algumas dezenas de anos procurando a tal Verdade. Peregrinou pelo Oriente Médio, andou na Índia, Egito, Irã e Tibete. Andou por toda aquela região.

Em cada monastério que chegava e passava algum tempo, descobria que ali se guardava uma parte do Conhecimento. Mas, não era um conhecimento como entendemos o conhecimento hoje. Era um conhecimento que se originava nos antepassados e era transferido “boca a boca” de geração para geração.

Gurdjieff foi juntando tudo o que apreendeu pelo caminho até que chegou a Revolução Russa comandada pelos bolcheviques. Houve a guerra civil e ele atravessou uma parte da Rússia a pé, com um bando de pessoas que o seguiam, tendo chegado a Constantinopla – agora Istambul – e de lá conseguiu chegar à França. O fato é que em Paris, onde se estabeleceu, passou a influenciar outras pessoas com sua filosofia de vida, criada a partir dessas peregrinações.

Sua filosofia era baseada na constatação de que o Homem vive a vida inteira baseada num estado de “dormência”. Como se não estivesse acordado para as coisas que eram verdadeiramente importantes. Então seu método serviria para “despertar” as pessoas dessa “sonolência”. Ele não acreditava muito em coisas escritas. Só acreditava em coisas praticadas. Ele dava aulas práticas para seus seguidores.

Essa nova filosofia despertou o interesse de alguns ricaços ingleses, franceses e de outras nacionalidades que viviam na Europa. Então Gurdjieff com o apoio financeiro de alguns seguidores alugou um castelo nos arredores de Paris, em Fontainableau e lá se estabeleceu com seus seguidores. Criou essa “escola” com o objetivo de desenvolver sua filosofia. Um dos seus frequentadores mais ilustres era um psicólogo de nome Ouspensky que anotava todos os ensinamentos de Gurdjieff pois tinha uma memória extraordinária.

O próprio Gurdjieff escreveu apenas três livros ao longo de toda a sua trajetória. Um deles chamado Encontros com Homens Notáveis, que depois virou um filme. Ali ele conta os principais homens notáveis que ele conheceu ao longo de suas peregrinações. Depois escreveu Cartas de Belzebu a seu Neto e Em Busca do Ser – O Quarto Caminho.

O notável é que sobre sua filosofia quem melhor escreveu não foi ele. Foi Ouspensky, principalmente em seu “Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido”. Olha só o título do livro do cara! Ali estavam registradas as aulas que o Gurdjieff ministrava. Veja que nesse livro ele mostra a associação entre as escalas musicais, a matemática e a astronomia. Olha só o tamanho da “viagem” do Gurdjieff.

Estou falando isso porque fui apresentado ao trabalho de Gurdjieff por acaso ao assistir no Cine Maria Bethânia em Salvador ao filme “Encontros com Homens Notáveis”. Mais tarde descobri que morava em Salvador um discípulo do Gurdijeff que tinha estudado com ele na França.Tentei encontrá-lo mas percebi que não seria uma coisa fácil. O cara era “protegido” e não estava acessível com facilidade. Insisti na tentativa de encontrá-lo e em pouco tempo fui transferido para trabalhar nos Estados Unidos.

Esse encontro nunca aconteceu!

Pedro Gordilho: Pois é Benjamin. Que história interessante a do Gurdjieff. Vou querer saber mais sobre esse “peregrino”! Vamos marcar um dia para irmos ao Capão? Você vai conhecer meu cantinho lá. Um lugar muito especial. A casa que construí lá tem um nome: “Canto dos Ventos”. Lá venta muito e é onde o vento faz a curva! As árvores sacodem.

Me encantava no Capão quando eu ficava numa pousada, ouvir o vento vindo nas árvores. Foi daí que surgiu a idéia de batizar a casa. Você acredita que a casa ganhou três prêmios de arquitetura? Se você colocar no Google “Cantos dos Ventos” vai ver. O arquiteto que a projetou foi um amigo meu de ascendência portuguesa chamado Joaquim Gonçalves, de Salvador.

Tem uma casa vizinha chamada “Casa do Bomba” de propriedade do André Sampaio, meu amigo e cliente. Um dia ele chegou e disse: “Pedrinho, venha almoçar lá em casa”. Fui. Rapaz, fui presenteado nesse dia. Eu não tinha nenhuma pretensão de fazer casa nenhuma. Quando entrei e vi a casa, fiquei maravilhado. Essa casa tinha ganho o prêmio de arquitetura do ano anterior. Projetada por um arquiteto de nome Sotero. Cara novo.

Nesse dia choveu muito. Após a chuva do morro Branco – que fica na frente de nossas casas – a água descia em cachoeiras de cada fenda existente. Um espetáculo maravilhoso. Inesquecível. Eu não sabia mais para onde olhar. Daí a pouco baixou do morro foi uma cachoeira “de nuvens”. Formou aquele mar de nuvens. Fomos para o terraço da casa dele apreciar aquele espetáculo.

Estávamos acima das nuvens. Aquele mar branco. A mulher do André começou a dançar ballet pois é bailarina. Uma coisa de sonho. Então tomei a decisão:

quero um negócio desses para mim também!

Saí da casa dele e comecei a procurar um terreno nas proximidades. Achei, comprei e fiz minha casa. Essa casa tem três anos que foi construída.

A casa do Pedro no Capão e o Morro Branco!

Beto Benjamin: Pedro, Spinoza disse que Deus era a Natureza. E nós somos parte dela.

Pedro Gordilho: Rapaz, ele disse tudo o que penso. Estou com Spinoza e não abro!

Posso lhe garantir que senti Deus naquela Natureza…

Resistir é preciso! Viver não é preciso!

Vamos continuar nossa viagem com Teté?

Creio que acompanhá-la, mesmo à distância, em suas aventuras pelo mundo, é um bom antídoto para esses tempos esquisitos de pandemia. Não é mesmo?
Então, vamos incluir essa segunda parte da entrevista no nosso cardápio de resistência! 

Beto Benjamin: Conte sobre o blog de viagens que você criou? Foi assim: “Vou fazer um blog! Criar um negócio! Dedicar minha vida a isso!” ?

Teté: Não foi assim não! Comecei o blog quando morava em Chipre. Amigos e familiares mandavam e-mails perguntando como estava minha vida, o que eu fazia, como era o lugar… Naquela época e-mail era “the thing“. Agora todo mundo só quer saber de Instagram, WhatsApp e Zoom… 

Tendo todo esse interesse como incentivo, decidi criar o blog para contar minha vida de expatriada, morando em Chipre. Esse lugar que ninguém tinha ouvido falar…

Não tinha nenhuma pretensão de fazer da atividade, um trabalho. Tampouco viver disso. Era para ser simplesmente um blog pessoal falando sobre a vida em Chipre. Contando sobre as idiossincrasias da ilha, do povo, do país. Enfim, descrevendo como era morar ali. Falar também sobre as viagens que fazia dentro e fora de Chipre.

Comecei a relatar minhas viagens de um ponto de vista muito pessoal. Claro, fazia também simultaneamente meus devaneios, minhas viagens internas… Foi assim, despretensiosamente, que comecei o blog. No momento ele ficou meio enferrujado e está sendo refeito. Em breve será relançado.

Morreu! Vai renascer outra coisa!

Só fui me dedicar a trabalhar com viagens a partir de 2014 quando fiz a volta ao mundo e decidi que não queria mais trabalhar em marketing.

Ter passado mais de ano viajando por trinta países me causou uma grande chacoalhada. Tanto dentro quanto fora de mim. Não conseguiria continuar fazendo Marketing pois sentia que tinha muito para mudar na minha vida profissionalmente.

Viajar sempre foi uma grande paixão. Achava verdadeiramente que tinha um certo conteúdo para ofertar às pessoas. Comecei a trabalhar em uma agência de viagens. Assim o assunto “viagens” entrou em minha vida profissional.

Beto Benjamin: O blog foi batizado com que nome?

Teté: “Escapismo genuíno“.  Era meu auto-reconhecimento de que vivia escapando de várias maneiras: físicas e mentais,  através das viagens: internas e externas. E “genuíno”, porque eram escapadas baseadas em fatos reais. Tá bom? Risos…

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Irã

Beto BenjaminComo planejou essa viagem? Que roteiro escolheu? O que ela te mostrou sobre o mundo, as pessoas,  os países que visitou e sobretudo sobre você? 

Teté: Sonhava em fazê-la desde que terminei a faculdade em 2005. Só fui realizá-la em 2013. Desde 2005 comecei a pensar e economizar dinheiro. Foram sete anos pensando, até que em 2013 eu tinha saído de um trabalho. Falei para o meu ex-marido: “Olha, não temos filho. Estamos numa transição profissional, a hora da viagem é agora”. Juntamos uma graninha. Naquela época o dólar valia dois reais e pouco. Já dava para ir. Ele topou.

O roteiro foi traçado tendo algumas coisas em mente: começar por um lugar de custo alto e fora da zona de conforto. Escolhemos  a África. Depois, seguir circundando o globo. Compramos uma passagem chamada “around the world ticket” e uma de suas regras era:

sempre seguir numa direção: leste ou oeste.

Não podia mudar a direção. Além disso, queríamos evitar lugares muito frios, para que a mala pudesse ser a menor possível. Eu preferia países mais quentes, no entanto teria que passar um ano com uma mala de vinte e três quilos, no máximo. Não podia passar disso pois os voos internos tinham esse limite. Hoje o limite baixou para vinte.

Começamos pela África, em seguida Oriente Médio. De lá, passamos brevemente pela Europa. Rapidinho mesmo. Em seguida fomos para a Ásia onde ficamos bastante tempo. Depois Oceania, Austrália e Nova Zelândia.

Seguimos pela Califórnia, México e Cuba. Voltei ao Brasil e continuei mais um pouco para o Peru e Equador. A lista de países é longa. Na África fui para Moçambique, Namíbia, Zâmbia, Zimbábue, Quênia e Tanzânia. Na Europa, apenas Espanha e Holanda. No Oriente Médio: Emirados Árabes, Jordânia, Amã e Líbano.

Beto Benjamin: Opa, alto lá Teté! Respira fundo. Líbano! Minhas origens são de lá! Meu avô era cristão maronita e emigrou fugindo dos conflitos religiosos!

Teté: O Líbano é um país maravilhoso, Beto! Adorei! Voltarei. Na Ásia fomos à Tailândia, Laos, Cambodja, Myanmar, Vietnã, Singapura, Malásia e Indonésia.

Beto Benjamin: Vamos conversar um pouco sobre a África? O que despertou sua atenção no continente africano com aquela diversidade de países, climas, culturas? 

Teté:  A África é enorme, plural, diversificada. Vejo que as pessoas tem uma tendência de generalizar a África.

“Quero ir para a África”! Que África? A África é gigante.

São diferentes religiões, paisagens, climas. Tem de tudo: florestas, desertos, rios, clima tropical, clima árido, minorias étnicas. Não dá para colocar tudo dentro da mesma caixinha.

E ainda tem a África do Norte. Outro departamento. Vai além disso. Hoje que trabalho com viagens, parte do meu trabalho é “educar” meus clientes. Nessa viagem, em alguns momentos eu sentia uma conexão forte com a Bahia.

Uma vez em Moçambique tinha uma minoria étnica numa praia, fazendo uma celebração religiosa que parecia com candomblé. Eu estava na praia e senti uma sincronia muito forte com a Bahia. Eles dançavam, cantavam e faziam oferendas. Foi mesmo uma sensação de cordão umbilical com a Bahia. Senti com muita intensidade. Talvez pela colonização portuguesa, o idioma, algumas coisas similares…

A África do Sul é diferente. Uma África super fácil: cheia de infra-estrutura, mais européia, ocidentalizada. Tipo uma Disneylandia. Até o safari não é tão selvagem. Comidas e bebidas tipo Europa, até porque a passagem dos franceses e holandeses deixaram isso. Se você chega no interior da África do Sul é quase como se estivesse na Europa. Uma grande região vinícola, apesar da pluralidade étnica e cultural.

Bem distinto da Namíbia, que já é um safari diferente porque já tem outros animais, no meio do deserto. Lugares alaranjados com outro visual que parece outro planeta. Dunas a perder de vista. Paisagens desérticas.

Na Quênia e Tanzânia tive uma experiência com a tribo Massai bem interessante. Queria muito conhecê-los de perto. Quando cheguei a Nairóbi, busquei uma tribo massai. Eu estava numa pousadinha e o cozinheiro falou: “Olha, eu tenho um parente massai. Você pode ir!””

Fui! E foi uma roubada!

No sentido perrengue. Foi terrível pois acabei indo para um lugar ermo, assim no meio do nada. Veja que poderia ter acontecido deles roubarem meu rim ou, me esquartejarem que ninguém ia tomar conhecimento. Gustavo também estava comigo mas, ambos corremos os mesmos riscos.

Nada como ser destemida aos trinta anos!

Porém penso que quando você não tem medo, emite boas vibrações que acabam lhe protegendo. Dormimos numa oca com várias famílias. Imagine a higiene para nossos padrões? As mulheres cozinham lá dentro. Elas tem que comer separadas dos homens. Dentro da oca tinha “aquele” cheiro de comida, fumaça e para completar havia uma colônia de baratas na cobertura!

Dormimos numa caminha de palha e quando olho para cima era aquela maravilha:

Um céu pleno de baratas! Passei a noite em claro, quase não dormi.

Eu oscilava entre deitar um pouco para fugir do frio pois estávamos no pé do Kilimanjaro, numa certa altitude, muito próximos da fronteira com a Tanzânia. De noite a temperatura caía bastante. Do lado de fora fazia muito frio. Dentro tinha a fumaça que ardia meus olhos, cheiro de “humanidade” e… baratas! Durma-se com um “barulho desses”!

Beto Benjamin: Quer dizer que ao invés de um céu de estrelas nesse “resort”, você tinha um céu de baratas! Surreal não?

Teté: Sim. Era isso mesmo embora lá fora o céu de estrelas era muito lindo. Estávamos num lugar muito longíquo. Tinha também o som das vacas. Esquartejaram uma cabra para comermos. Vimos os guerreiros mais jovens beberem o sangue dela. Pegaram o cérebro da cabra e misturaram com um líquido pois o cérebro tem muita proteína. Cozinharam a carne da cabra ali na nossa frente. Foi interessante ver aquilo tudo.

Um deles falava inglês e ia traduzindo. Eu fazia todo tipo de pergunta: como eles viviam, como cozinhavam, como escovavam os dentes, como caçavam… Mas foi esse perrengue. No dia seguinte, sem banho e com uma crosta de poeira regressamos, exaustos, a Nairóbi. Foi uma experiência inesquecível pois não queria estar num hotel como turista. Eu queria conhecer os Massais. Conheci!

Teve essa coisa do dinheiro também. Tivemos que pagar a cabra. Tudo bem. Aí vimos que alguns tinham celular – daqueles modelos antigos – que escondiam para não nos mostrar que “não eram guerreiros autênticos”.

Se vê claramente o que o turismo vai criando de mudanças. Essa é uma preocupação que tenho. Como o turismo massivo influencia os lugares. Como fazer um turismo sustentável? O que significa isso? É uma inquietação minha.

Beto Benjamin: Teté, você conseguiu mudar a famosa frase baiana: “pegar um cabra” para “pagar uma cabra“!

Teté: Risos. Tá vendo, quanta coisa a gente faz sem saber! Teve esse perrengue mesmo mas, valeu a pena…

Beto Benjamin: Pouca gente pode dizer que dormiu numa oca com os Massais! Desde que fui apresentado a Franz Kafka eu não conseguiria dormir com um céu desses! Risos

Teté: Na verdade foram as baratas que se compadeceram de mim pois ficaram lá em cima mesmo! Não desceram não…

Beto Benjamin: Que mais você viu na África?

Teté: Cada por do sol mais incrível que o outro, paisagens belíssimas e inesquecíveis, simplicidade, pessoas muito interessantes. Tenho até umas anotações de diálogos bem profundos. Sinto que a Mama Africa tem essa energia de onde tudo começou, ancestralidade, sabedoria milenar, uma energia primitiva, profunda, com saberes antigos. Tudo isso está junto. Tem apelido, tem conflito, tem natureza. Tem essa energia primitiva mas, muito potente. 

Beto Benjamin: Compare Ásia com África. Quais são as distinções, principalmente falando de gente?

Teté: Vamos então para o Oriente Médio, que é outra cultura. Ali, na península arábica também tem várias diferenças. Por exemplo os Emirados Árabes com aquela coisa artificial mas, dá para se divertir pois tem vida cultural, museus, restaurantes.

O Líbano eu já conhecia. Estava indo pela segunda vez. Fui bem recebida porque a família de tia Solange é libanesa. Fui muito bem acolhida pela família. É um país que mexe com qualquer pessoa. Por ser um país pequeno tem muita diversidade. Tem conflito mas, também tem  paz entre as comunidades.

Fui à apresentação de um coral em Beirute onde estavam pessoas de várias origens, religiões e crenças. Uma coisa linda. Muito marcante. Na primeira visita pude ir em algumas cidades e em outras não, devido aos conflitos. Na segunda vez, a mesma coisa. 

O Líbano tem suas surpresas!

A gastronomia por exemplo, não precisa nem falar. Para mim uma das melhores comidas do mundo. Tem os tesouros em Baalbeque que são ruínas cuja grandiosidade eu compararia com as da Grécia. As pessoas não tem necessariamente essa imagem sobre o Líbano. Baalbeque é uma Acrópole para mim.

Pude ver muitas histórias lindas. Visitei projetos na fronteira com a Síria. Uma pessoa me levou para conhecer um projeto num acampamento de refugiados, crianças. Vi essa diferença em vários lugares: uma vinícola, um restaurante. Ali trabalhavam um cristão, um armênio, uma pluralidade de religiões com todos vivendo em paz. Vi muita irmandade no Líbano. Linda mesmo.

É um país onde muita coisa acontece politicamente. Tem a violência, o conflito mas tem também esse outro lado. Um caldeirão com tudo dentro: conflito, paz, ódio, amor… Claro que isso existe no mundo todo mas ali, naquele país minúsculo dá a impressão que tudo é efervescente.

No Líbano não me senti insegura do ponto de vista físico hora nenhuma!

Também não fui em lugares considerados inseguros. Lembro que na primeira vez eu não fui para Tripoli. Fui para Baalbeque. Na segunda vez, fui para Baalbeque e não fui para Tripoli, que fica perto da fronteira. Essa família libanesa cuidou muito bem de mim. Ter a oportunidade de ser recebido por pessoas locais faz toda a diferença.

A Jordânia foi uma grande surpresa. O povo de Omã foi muito hospitaleiro, muito simpático. Lugares e cidades lindas, uma mistura de praia com montanha. Fiquei hospedada na casa de uma família local. Tenho uma amiga que é de lá e fiquei na casa dos pais dela.

Conheci um pouco sobre os muçulmanos sunitas. Quando fui ao Irã dois anos atrás e voltei a Omã, pude ver e viver a diferença entre sunitas e xiitas na mesma viagem.

Beto Benjamin: Como assim. Pode explicar essa diferença?

Teté: Os xiitas são taxados como radicais. Aqui no Brasil a turma fala assim:

“fulana está fazendo uma dieta muito restrita, xiita”! Na verdade deveria dizer: “está sendo sunita”.

Os xiitas não são tão radicais ou ortodoxos assim. Estive no Irã, de maioria xiita e, percebi algumas coisas. Como por exemplo, havia muito mais gente visitando os mausoléus – dos poetas – do que rezando nas mesquitas… Fiquei com a impressão que os iranianos são muito mais ligados em poesia, do que em orações do Alcorão.

Beto Benjamin: O Sufismo veio de lá não foi?

Teté: Sim. O sufismo se originou lá. A cidade de Qom no Irã é o epicentro do Sufismo, que representa a corrente  mística do islamismo. Muito conhecida devido a Rumi, um poeta filósofo que tem obras lindíssimas e frase belíssimas. Para mim esta corrente mística do Islã tem as mensagens mais lindas.

O aparato político tem esse radicalismo. O povo não!

Claro, existe toda uma questão histórica que os levou até lá. Do Irã, voltei para Omã! Alguns anos depois ao visitar novamente essa família de amigos, passeávamos de carro e vi a mãe da minha amiga lendo o Alcorão dentro do carro. Reza-se cinco vezes por dia. Não pode comer isso, nem aquilo. Os sunitas são muito mais radicais. Cheios de regras. É assim em todo o país.

Beto Benjamin: E a questão da mulher como fica?

Teté: No Irã, por lei, a mulher tem cobrir o cabelo. Não precisa cobrir o rosto. Há um mito aqui: muita gente pensa que as iranianas usam burca. Não usam. Burca cobre o rosto. Elas usam roupas até modestas. Usam o chador ou hijab para cobrir o cabelo mas, não o rosto.

As sunitas tem de tudo um pouco. Dependendo do país. Elas cobrem majoritariamente o corpo todo e deixam o rosto de fora.

Culturalmente os iranianos não são árabes. São persas. Bem diferente. Não dá para comparar com a Jordânia nem com os países vizinhos. É outra cultura e eles fazem questão de falar e se orgulhar disso. Embora tenham a mesma religião.

Do Oriente Médio fomos para a Ásia onde ficamos por seis meses. A Ásia é completamente diferente!

Continua no próximo post!

Retomando a entrevista com Pedro Gordilho, este é o terceiro post sobre sua aventura pela França e Espanha, seguindo um dos Caminhos de Santiago.

Beto Benjamin: O que achou da história do monge budista que acabei de contar?

Pedro Gordilho: Rapaz, essa metáfora lembrou que eu estava realmente fazendo duas viagens. Ambas importantes. Me fez recordar que nelas passávamos horas tagarelando. Jogando conversa fora. Falando pelos cotovelos. Falávamos de uma coisa, de outras; de uma pessoa, de outras – mas, também tinha dias que não dávamos uma palavra. Silêncio obsequioso absoluto. Nada para ninguém. Sem assunto. Cada um na sua (viagem)! Tá vendo aí? O monge de Bangcoc estava mesmo certo quando deu aquele toque para você e o Fernando Barbosa. Imagino a cara dos dois escutando os ensinamentos budistas… Corajoso esse monge! (risos)…

Durante os novecentos quilômetros da caminhada às vezes, apenas um queria ficar em silêncio! Acontecia mais comigo. Eu possuía no meu iPhone um arquivo com mantras. Então, ligava meu celular e ficava horas caminhando, escutando baixinho as músicas. Luiz, companheiro de jornada, percebendo meu desejo de permanecer só, dava uns passos à frente, se adiantava e ia fazendo o seu caminho. Eu ficava na minha!

Em outras ocasiões, ele não queria conversa! Naturalmente, eu retribuía. Era uma demonstração de verdadeira consideração e respeito entre nós. Essencial numa aventura assim.

Essa liberdade de ser – sem ter que se incomodar com o outro – foi a primeira vez que experimentei na vida!

Estou casado há trinta e quatro anos. Mas, vivo com Ana há quarenta. Comecei a vida muito cedo. A gente cria uma gaiola imaginária e acaba vivendo dentro dela. Tendo que dar mil satisfações a uns e outros, se esquecendo quase que completamente da sua individualidade. Ela existe, é importante e deve ser respeitada.

Nascemos sós e vamos morrer sós mas, esquecemos disso o tempo todo…

Beto Benjamin: Que figuras encontraram nessa caminhada?

Pedro Gordilho: Ah, teve uma interessante: um gaúcho. Caminhamos uns três dias com esse cara. Alternando os encontros. Ora ele estava à frente, ora éramos nós. Nesse passa-passa, nos cruzamos pelo menos umas três vezes. Ele tinha sido lutador de MMA. Muito engraçado. Gente boa. A história dele foi assim: Para fazer o caminho de Santiago, ele partiu de León. Não começou em Saint-Jean-Pied-de-Port como nós que fizemos o caminho “francês”.

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A Compostelana

Que cidadezinha linda! Uma graça! Partindo de lá é o caminho mais tradicional: Saint-Jean-Pied-de-Port/Santiago de Compostela. Se quiser,  pode estender a caminhada um pouco mais e em três dias chegar a Finistere. Veja, tem caminhos para todos os gostos, partindo de todos os lugares. As pessoas escolhem o que for mais conveniente. A Igreja reconhece, oferecendo a compostelana, àqueles que tiverem percorrido pelo menos cem dos últimos quilômetros. Muita gente faz a caminhada somente para obter esse documento. Ficam satisfeitos com ele.

 

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O Certifcado

Cada cabeça um mundo. Entretanto, a Igreja também emite outro documento muito mais completo chamado o certificado, que discrimina de onde você partiu, onde chegou e a distância percorrida. Estou compartilhando fotos dos dois documentos para você ilustrar o post. Esses documentos viram verdadeiros troféus nas mãos dos peregrinos. Diplomas reconhecidos e valorizados. Eu trouxe os meus!

 

Voltando ao gaúcho. Ele disse que morava em Barcelona mas que era proprietário de um bar na Inglaterra! Olha só que confusão! Foi logo nos contando a história de como conheceu sua atual mulher: uma inglesa. Disse que chegou à Inglaterra onde foi tentar a vida e trabalhou de tudo que é jeito e em todo tipo de coisa. Era um faz-tudo. Contando, ele era engraçado. Nos fez rir muito com essa história da mulher. No final concluímos que ele

certamente era um cara “meio torto”… Bem prá lá disso! Era todo torto mesmo!

O nome do gaúcho também é Luiz como o meu companheiro de peregrinação. Vamos deixar para lá o sobrenome… Vai que ele, lutador de MMA depois de ler o NuncaseSabe resolve me pegar! Melhor esquecer completamente o sobrenome. Assim ficamos mais seguros…(risos).

Disse que um dia conheceu a moça que depois seria sua mulher. Na conversa, disse-lhe que queria ficar morando mesmo na Inglaterra. A inglesa escutou aquilo e respondeu: “Não tem problema. A gente casa e você fica aqui!”. Surpreso com a reação e proposta dela Luiz falou: “Espera aí. Nem nos conhecemos direito. Não somos nem namorados.” Ela não se abalou e retrucou: “E daí? Qual o seu problema? Casar? É só assinar um papel e você fica com a cidadania”. Simples assim. Não só prometeu, como cumpriu. Estão casados até hoje! Pode? Esse é o gaúcho Luiz.

Confidenciou ainda que de vez quando tinha uns “arranca-rabos” com ela. Aconteceu mais um e sabe o que ele fez? Passou em casa, pegou a mochila, não disse aonde ia e se mandou: veio fazer o caminho de Santiago. Não se despediu dela nem dos filhos, nem disse para onde ia nem por quanto tempo. Estava ali conosco, contando essa história com a cara mais descarada do mundo e rindo…

Pois bem, depois de andarmos quase que no mesmo ritmo por um bom tempo e nos cruzarmos diversas vezes durante o caminho, notamos que ele começou a acelerar o passo e se adiantar. “Por que Luiz está tão apressado agora,” pensamos…

Chegou a Santiago de Compostela uma semana antes de nós. Ficava mandando fotos, vídeos fazendo gozação. “Fui mais rápido que vocês! Estou aqui, viu Pedrão? Aí deixou escapar: “Estou doido para voltar para casa.”

Ah! Era isso… Tava explicado porque acelerou tanto… Deve ter batido  saudade da esposa que ele brigou. Pronto, lá se foi o Luiz, lutador de MMA fazer as pazes com ela… Não consigo  imaginar a cena! (risos).

Cenas do Caminho de Santiago

Conhecemos também dois paulistas. Gente boa demais. Percorremos um bom trecho juntos. Eram pai e filho. Pelo que vimos uma bela relação entre os dois. O rapaz tinha uns vinte e seis anos e o pai da minha idade, uns sessenta anos. O filho morava fora do Brasil. Combinaram de se encontrar e fazer o caminho de Santiago juntos. Ambos possuíam uma grande qualidade: eram agregadores. Onde estavam faziam amizade, se enturmavam logo. Quando chegávamos numa praça num povoado qualquer e avistávamos uma mesa grande, tínhamos certeza que os dois estavam lá. Contando suas histórias, divertindo gente e se divertindo…

Teve também outro peregrino interessante:

fazia o caminho de Santiago descalço! Rapaz! Não era coisa para qualquer um!

Descalço mesmo consegue imaginar o que é isso? Não me aproximei tanto dele. Porém, sempre nos batíamos pelo caminho. Chegávamos nos lugares e daí a pouco, ele também chegava. Sempre descalço. Andava no seu ritmo mais devagar com os pés no chão, mas chegava. Dia seguinte saíamos cedinho, cruzávamos com ele, ultrapassámos e seguíamos adiante. Não sei como conseguia pisar no meio de tantas pedras e continuar caminhando daquela forma. Mancava dos dois pés. Usava dois cajados. Não conseguia pisar direito. Mas foi seguindo… Devia ser promessa mesmo. Puro sacrifício…

Teve uma hora que, com pena, tive vontade de oferecer uma sandália para ele mas, me contive. Tinha certeza que ele não aceitaria!

Havia todo tipo de gente no caminho. Gente nova, gente velha, gente gorda, gente magra. gente bonita, gente feia. Havia mulheres que pesavam cento e cinquenta quilos. Não estou inventando não. Caminhando. Quadris enormes, aquelas coxas. Como era que suportava a caminhada eu não fazia a menor idéia. Chegavam quatro horas depois da gente mas, chegavam.

Beto Benjamin: Acho que é por isso que esse caminho é tão bem compactado como vi em algumas fotos que você mostrou! (Risos).

Pedro Gordilho: É possível mesmo. Havia também os estrangeiros. Todos tentando viver essa experiência de olhar para dentro de si próprio. Buscando auto-conhecimento. Como todo mundo. Não fui com esse propósito claro. Sabia que ia acontecer mas não fui com a intenção. Foi consequência.

Beto Benjamin: E as paisagens?

Pedro Gordilho: Lugares lindos. Pode acreditar. Às vezes eu olhava do alto de uma montanha, via aquele vale e lá no fundo, no horizonte, uma coisa meia azulada de tão longe. Era a meta a ser alcançada. Você sentia que chegaria tão distante. E não era apenas chegar. Sentia que iria ultrapassar aquela distância. Iria além. Isso servia como uma grande motivação. Quem não se motivaria a caminhar com um incentivo desses?

A caminhada prosseguia: subia, descia, andava no plano. Sabia que tinha que subir um morro enorme. Previamente se estudava a topografia do caminho. Daí a pouco começava a descer o morro e tinha a sensação que estava fazendo tudo dobrado. Muito doido…

Além de subir, ainda tenho que descer. Mas isso não desanimava ninguém. Ao contrário. Dava forças para prosseguir. Subia o morro. Chegava lá em cima, no cume e estava um frio danado. A camisa e a cara encharcadas de suor. Camisa gelada. Pois bem enxugava no próprio corpo. Daqui a pouco, suava novamente. Ia, ia… Paisagens indescritíveis. Céu azul todo o tempo. Só tivemos um dia de chuva e assim mesmo no último trecho. O resto foi céu completamente azul. Um espetáculo. Lindo, lindo. Não posso esquecer.

Muitos riachos, muitas fontes no caminho. Enchia a garrafa de água e caminhava. Centenas, milhares de pessoas caminhando. Sou capaz de arriscar pelo que vi, que se fosse possível fazer uma foto dos peregrinos em qualquer instante, se veriam pelo menos três mil pessoas caminhando. A qualquer hora. Talvez mais.

Em Santiago devem chegar todos os dias pelo menos mil peregrinos. Todos os dias. Refletindo você se pergunta enquanto caminha: “quantas pessoas devem ter passado por esse chão que estou pisando agora?”

Beto Benjamin: Que pensamentos lhe passavam pela cabeça na caminhada?

Pedro Gordilho: Pensamentos de contemplação. Daquilo que via e vivia. Olhei muito para dentro. Sou religioso também.

Ficou muito nítido para mim quem sou de verdade. Minha essência. Ali vi com clareza pois aqui, nessa vida corrida que se leva, não dá para perceber!

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Credencial de Peregrino

Fiz uma coisa nos últimos dez dias do meu caminho. Dediquei cada dia para cada pessoa que me era muito próxima. Cada pessoa ou grupo de pessoas. Um dia dediquei para meus filhos. Fui conversando silenciosamente com cada um. Primeiro fazia uma retrospectiva da nossa vida. Cada minuto, cada momento. O momento que ele foi desejado, gerado.

Foram tantas as dificuldades que passamos. Os impasses que já tivemos e no final eu terminava “zerado”. Ou seja. Perdoado. Eu dizia: A partir de hoje você está perdoado e eu também por qualquer coisas que tenhamos feito um ao outro. Fiz isso com minha mãe, com meu pai, com minha mulher, com meus filhos, com meus cunhados, com meus irmãos, com cada um deles. E claro, comigo mesmo.  Foi muito bacana. Zerei a conta.

Beto Benjamin: Como foi a reação deles, ao tomar conhecimento desse seu gesto?

Pedro Gordilho: Não houve reação. Não contei para ninguém! Quem sabe disso agora é você. Nem Luiz, que estava comigo, sabia.

Beto Benjamin: Sobre o que você e Luiz conversavam?

Pedro Gordilho: Tudo. Brincávamos. Esculhambávamos. Luiz foi um excelente companheiro de viagem. Conversas de amigos. Falávamos de tudo e de todos. Luiz tinha trabalhado na Dow Química por mais de trinta anos. Se aposentou quando era diretor da Dow para a América Latina. Fez um projeto de vida e disse: “Chega de trabalho. Não quero mais!”.

Imagine meu privilégio de passar trinta dias, caminhando, com um companheiro desse quilate.

Cenas do Caminho de Santiago

Beto Benjamin: Que comiam e bebiam os peregrinos no caminho?

Pedro Gordilho: Ih rapaz. Era vinho todo dia. No mínimo uma garrafa para cada diariamente. O menu do peregrino, inclui uma garrafa de vinho. Pau! Era para começar. O menu do peregrino é uma delícia. Estou até desconfiado que alguns dos peregrinos gostavam mais dessa parte. Como nós. (Risos).

Quando entramos na Galícia, comemos polvo todo dia “mermão”. Você não faz idéia do que é comer polvo na Galícia. Coisa muito séria ali. PQP! Até pizza de polvo comemos.

Estávamos andando um dia. Era tarde. Paramos num boteco para comer. Tínhamos fome. Sabíamos que ia ficar pesado terminar a caminhada de barriga cheia. A senhora do boteco disse: “Tenho somente pizza. De polvo”. Fiz foto para mostrar aos incrédulos. Traçamos a pizza de polvo e terminamos a caminhada aos trancos e barrancos aquele dia.

De outra vez comemos um hamburger de polvo. Acredita? Galícia, decore esse nome. Lugar de comida gostosa. Tudo. Não somente polvo. Carnes. Tudo delicioso.

O menu do peregrino dá muitas opções de pratos como entrada: tortilla, salada, paella, caldo galego. O segundo prato normalmente era carne, frango e outras opções. Aí ainda tinha a Sobremesa. Tudo muito bom. Por mais que o menu do peregrino fosse uma refeição básica, era muita comida de verdade.

Beto Benjamin: Como os peregrinos eram vistos pela população?

Pedro Gordilho: Extremamente respeitados. O peregrino tem toda uma história. Aquela coisa religiosa. Católica. Tradição. Muitos lugares dependem economicamente dos peregrinos para sobreviver. Reconhecimento, cumprimento. A população sempre lhe diz na sua passagem:

“Buon camino! Buon camino”!

É a saudação oficial. Não apenas entre os peregrinos. Também da população que vive nos vilarejos e cidades ao longo caminho. Muito bacana!

Beto Benjamin: Havia alguma cerimônia especial para peregrinos nas igrejas que vocês passavam?

Pedro Gordilho: Claro que sim. Devo ter assistido pelo menos umas dez missas nessa caminhada. Não tinha muito o que fazer além de caminhar. Vamos para a missa! Em alguns lugares havia a benção dos peregrinos. Um negócio lindo! Acabava a missa, o padre reunia os peregrinos que estavam na igreja. Chamava-os para a frente do altar, liberando as pessoas locais e fazia a benção.

Teve um que falou em dez idiomas. O padre perguntava de onde vinha cada pessoa. Vínhamos de todos os lugares: Brasil, China, Japão, Holanda, Itália, França, Bélgica, Estados Unidos, Inglaterra… Enfim, de muitos países. Ele então dava seu recado dizendo como era importante cada um de nós estar ali e desejando um caminho de conhecimento, de paz. Mensagens tocantes.

Igrejas lindas! Me assombrei com a beleza delas. Pensava que tínhamos belas igrejas em Salvador. A nossa igreja de São Francisco – que é reconhecidamente uma das mais lindas e ricas – se compara lá  na Espanha com igrejas de povoados com quinhentos habitantes. Difícil acreditar no que se está vendo! Conhece a catedral de Santiago de Compostela? Pois de repente, você se depara com uma igreja que tem um “pé direito” (altura) de trinta metros.

Altares belíssimos. Suntuosos. Impressionante se deparar com o poder que a Igreja exercia – e ainda exerce – sobre as  pessoas. Ouro e prata em abundância. Provavelmente levados daqui. A ostentação de poder está ali. Não dá para descrever, nem  imaginar. Tem que conferir. Altares com vinte e cinco metros de altura, tudo em ouro. Acredita?  Centenas de imagens de santos atrás do altar… Um luxo só!

A igreja de Santiago tem um incensário. Uma obra de arte. Quando tem cerimonias importantes eles utilizam aquele equipamento com três metros de diâmetro. Fica pendurado com uma corda com um moitão. Aquele conjunto sobe. Eles começam a balançar. Cruza a igreja inteira balançando.  Veja no YouTube. As pessoas devem morrer de medo daquilo se soltar, desabar e cair em cima de alguém. É morte certa!

Fiz uma descoberta interessante. A razão de usarem incenso antigamente nas igrejas: para disfarçar o mau cheiro das pessoas. Apesar de tudo, é lindo. Me falaram então sobre um filme  chamado “The way” (O Caminho). Assisti no YouTube.

Luiz se “apagava” cedo. Dava sete horas da noite e já estava recolhido. Tinha que apagar todas as luzes. Ele botava um pano na cabeça e adormecia. Ninguém podia se mexer. Normalmente eu dormia mais tarde. Pensava: “Puta que pariu! O que vou ficar fazendo aqui sozinho?” Então pegava meu iPhone e assistia filmes.

Recomendo ver “O Caminho” pois retrata fielmente como é uma peregrinação. Está tudo ali. Toda a simplicidade da caminhada. Você lembra da história do filme? As pessoas vivendo suas experiências em busca de si próprias…

Me fez lembrar da Chapada Diamantina, na Bahia. Do Capão, onde tenho uma casa e mais precisamente do Vale do Paty. Parece um pouco com o caminho de Santiago. Sobe o morro, anda sobre uma planície e chega num lugar.

Você acha o Capão bonito? Pois o Paty é muito mais! É lindo. Você dorme na casa de “não-sei-quenzinho” num quarto coletivo com o chão de terra batida. Eu já dormi. Experiência boa. Muito bacana. Se não fez, recomento.

Tome nota. No próximo São João vou para o Capão subir o morro defronte a minha casa. Sempre que me sentava na varanda, apreciando a paisagem, olhava para ele e dizia:

“Ainda vou subir você um dia, seu Morro!”.

Um vizinho meu amigo, já subiu. O morro tem quinhentos metros de altura. Sempre me perguntei se teria coragem para subir? No caminho de Santiago fui a mais de mil e quinhentos metros de altura. Portanto, subir esse morro agora é um tapa. Está marcado: dia vinte de junho vou subir o Morro Branco. Ele é lindo visto de qualquer lugar. Da minha casa o visual é extraordinário. Muito contemplativo. Totalmente zen!

Beto Benjamin: Pedro me lembro bem do Capão. Um vale com montanhas em volta e a Natureza. Linda e exuberante como ela é. Não precisa de mais nada! Não é?

Cenas do Caminho de Santiago

Pedro Gordilho: Sim e ainda tem muitas pessoas bacanas vivendo lá. Não apenas os nativos mas, pessoas do mundo inteiro que escolheram aquele lugar para viver por algum tempo ou definitivamente. Encontrei gente bem educada. “Na delas”. Ninguém quer saber do seu sobrenome. Zero violência. Lugar que não tem polícia, não tem bandido. Se você precisar de polícia não vá para lá. Se pode dormir com portas e janelas abertas. Faz frio. Muito frio para os padrões brasileiros… Um paraíso na Terra!

Final da entrevista no próximo post

 

Aproveitando o embalo da peregrinação do Pedro Gordilho no Caminho da Santiago, das coisas que ouvi do monge budista em Bangcoc na Tailândia muito tempo atrás e as viagens que essa pandemia – querendo ou não – nos convida a fazer nos dias de hoje, fico muito à vontade para “viajar” com uma jovem destemida, pelos quatro cantos deste mundo. Ainda bem que é deste mundo… Estão todos convidados a viajar conosco!

Adriana Lacerda, (Teté) a entrevistada da vez é jovem, bela, alegre, antenada, “rápida no gatilho”, versada e boa de conversa, iluminada, sorriso aberto, olhos brilhantes, cheia de vida, franca e direta, daquelas que não levam desaforo prá casa. Entende?

Teté fala com o entusiamo de uma adolescente descobrindo a vida!

Descreve situações e peripécias – sozinha ou acompanhada – com aquela sutileza dengosa característica dos baianos que sem percebermos, nos transportam para as descobertas, novidades, paradas, encontros, reencontros, desencontros, surpresas, mistérios e dramas do ser humano que parece o mesmo, independente de gênero, país, raça, credo, lugar onde habita ou transita. Eu adorei as histórias de Teté! Fiquei com pena do Gulliver…

Antes de apresentar a entrevista, aproveito para responder a uma curiosidade do próprio Pedro Gordilho  – cuja caminhada ainda está sendo contada aqui no NuncaseSabe. Foram publicados dois posts. Pedro indagou: “Por quê escrevo contando as histórias dos “outros”, quando podia estar falando de si próprio?” Como tem sido a tônica nos tempos atuais.

Minha resposta se inspirou nas palavras  do cineasta Federico Fellini (1920-1993) – de quem sou fã de carteirinha – ao se referir ao amigo e Diretor de Cinema Rosselini de quem era assistente:

“Nunca seria capaz de converter-me em Diretor mas, trabalhando com Rosselini descobri algo que me impressionou fortemente. Humildade na atitude diante do mesmo da vida. Sem presunção, sem dizer estou contando minhas fantasias, minhas histórias. Não. Estou tratando de contar o que vi e depois uma fé imensa no humano. Na matéria plástica em si mesma. O que mais me impressionou e finalmente me abriu os olhos foi descobrir

essa comunhão que se cria, de quando em quando, entre você e um rosto. Entre você e um objeto.

Compreendi que ser um diretor e fazer filmes podia encher a minha vida. Não podia pedir mais. Aquilo podia me oferecer tantas possibilidades. Ser tão fascinante, tão comovedor. Algo que me justificasse e me ajudasse a encontrar um significado…”

Essas palavras expressam bem meu sentir e minha alegria ao garimpar, descobrir, convencer a falar (raramente), entrevistar, contar ou ajudar a contar as histórias dos outros…

Com lembranças assim na memória e na bagagem, ficou bem mais fácil, no meio dessa pandemia, sentar com Teté  sem máscaras – ela de lá, eu de cá – usando o Facetime, ouvir histórias das inúmeras viagens que ela fez por diversos países de todos os continentes, vivenciando experiências incríveis por todos os cantos desse planeta, que reconheçamos, não é tão pequeno assim.

E ainda por cima, Teté é filha de meu querido amigo e companheiro, de longas datas e muitas aventuras, José Caetano Lacerda. Não precisa de mais apresentações, não é?

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Lençóis Maranhenses, Brasil

Beto Benjamin: De onde sacou essa de sair por aí, viajando pelo mundo?

Teté: Está diretamente atrelada à minha história de vida. Ainda bebê aos onze meses de idade saímos de Salvador, Bahia e fomos morar no Peru. Minha primeira infância foi toda em Lima: aprendi a falar, a andar. Acho que isso ficou registrado no meu “sistema” como minha primeira experiência. Não só viajar, morar fora mas explorar outras culturas. Isso me acompanha desde sempre.

Minha mãe conta uma história curiosa: demorei a falar. Ela até me levou em psicóloga, pedagoga. Mas quando comecei a falar, já falava espanhol, português e um pouco de inglês. Ela percebeu que eu queria falar o idioma certo com a pessoa certa: espanhol com minha babá peruana, português com ela e inglês – algumas palavras – com minha irmã mais velha Mariana que ia para uma escolinha de inglês.

Essa salada toda saiu de vez e quando falei já foram três idiomas… Espanhol e português saíram ao mesmo tempo. Até brinco dizendo que metade da minha alma é peruana. Dizem que os primeiros sete anos de uma criança tem aquele efeito esponja, que ela absorve tudo. Morei no Peru sete anos e meio.

Beto Benjamin: Exemplo de como o acaso entra em nossas vidas sem pedir licença nem sabermos as consequências, não é? Seu pai foi transferido para o Peru, levou toda a família e isso influenciou toda a sua vida.

Teté: Totalmente. Por conta disso fui estudar numa escola britânica em Lima. Aprendi inglês e certamente tudo isso influenciou o resto de minha vida. Há alguns anos descobri o termo “cross-cultural“, que designa crianças de culturas que se cruzam pois tinha a cultura brasileira dentro de casa e a peruana fora. Acrescente ainda a cultura escolar, primeiro britânica e depois a americana. Uma verdadeira geléia geral. Foi assim, até completar oito anos de idade, quando saí do Peru.

Beto Benjamin: Que lembranças ficaram dessa época?

Teté: Tenho memórias maravilhosas apesar de que meus pais eram preocupados com nossa segurança. Era época do Sendero Luminoso, grupo terrorista que estava muito ativo no Peru.

Beto Benjamin: Teté, eu estava em Lima na semana que as forças de segurança do Peru prenderam o Rafael Guzman, líder do Sendero. Me lembro bem das blitzes policiais constantes nas ruas de Lima, de dia e de noite!

Teté: Chegamos ao Peru em 1984 e minha mãe conta uma história. Disse que um dia me escondi dentro de casa. Brincadeira de criança. Passei horas escondida. Minha mãe já estava para ter um troço. Naquele tempo em Lima. E eu sumida. Imagine: Sendero Luminoso, carros-bomba, o diabo a quatro.

Quando finalmente apareci – deixando meu esconderijo – minha mãe disse ter tido duplo sentimento: alívio por um lado e vontade de me dar uma surra por outro. Ela dizia: “Você não tem noção do que está acontecendo?” Claro! Não tinha mesmo, eu era criança. Então me lembro que o pano de fundo era esse cenário político do terrorismo.

Me lembro que moramos em algumas casas. Hoje que moro em apartamento lembro como era bacana morar em casa. Tinha animais de estimação: um cachorro. Tivemos alguns cachorros mas, teve uma época que tivemos um bode, como bicho de estimação!

Beto Benjamin: Mas Teté. Um bode?

Teté: É isso mesmo! Um bode!

Foi assim: eu adorava acompanhar minha mãe quando ela ia fazer compras na feira aos sábados. Para mim a feira era uma coisa fantástica. Aquele colorido de frutas, verduras, batatas. Vozes, gritos, gente. Eu adorava… Achava aquilo o máximo.

Um dia fomos juntas e tinha um bode à venda. Ia ser abatido. Minha mãe olhou para o bode imaginando a cena e ficou com pena. Decidiu comprar e disse ao vendedor: Vou levar o bode para casa e nos perguntou, se eu e minha irmã Mariana, a ajudaríamos a cuidar do animal. Concordamos na hora.

Compramos uma mamadeira para ele e virou nosso bicho de estimação. Mais um. Na verdade era um cabritinho. Ainda tinha o umbigo. Levamos para casa e ele fazia companhia ao cachorro. Acho até que ele pensava que fosse um cachorro também. Foi crescendo e virou bode de verdade. Com chifre e tudo. O nome dele era Arnaldo…

Tenho muitas memórias pois convivíamos com muita gente amiga naquela época. O pessoal da Odebrecht, onde meu pai trabalhava. Os filhos dos amigos de meu pai eram quase que “primos” de tanta intimidade. Recordo bem dos finais de semana na casa de um, na casa de outro. Muitos churrascos, festas de Halloween. Celebrávamos o Sete de Setembro. Era tudo muito alegre…

Ótimas recordações. Lembranças gostosas, sim. Adorava minha escola. Ah, ainda tínhamos dois coelhos em casa. Um meu, um de Mariana.

Outra história engraçada: um dia, coloquei o coelho dentro da minha lancheira e levei para a escola. Claro, ele quase morreu sufocado mas, escapou. Quando cheguei em casa de volta, novamente dentro da lancheira, ele estava quase desfalecido mas, sobreviveu. (Risos).

Clicando nas fotos saberá o país

Beto Benjamin: Quando saíram do Peru foram para onde? Como foram essas mudanças para você?

Teté: Saímos do Peru para os Estados Unidos. Fomo morar em Maryland por uns  dois anos. De lá voltamos para o Brasil, para Salvador. Ficávamos nós três em Salvador e meu pai já estava na ponte aérea Rio-Brasília-Salvador. Trabalhando.

Aos quinze anos voltei – para estudar – aos Estados Unidos. Fui para um colégio interno em Connecticut. Passei um ano lá e terminei o ginásio em Salvador, na Escola Americana. Cheguei a prestar vestibular na Unifacs em Salvador mas, não me adaptei. Aî já não era mais a minha realidade. Achava tudo muito estranho.

No ano seguinte como fui aceita numa universidade americana: George Washington University em Washington DC. Cursei quatro anos. Depois morei em Miami onde permaneci por quase dois anos. Em seguida, fui para Valência na Espanha, onde fiquei cerca de um ano e meio.

Fui para Chipre onde passei um ano e pouco. Posteriormente voltei para o Brasil onde fiquei um tempo no Rio de Janeiro e depois dois anos e meio em Florianópolis. Voltei para o Rio e em 2013 fiz uma viagem de volta ao mundo por treze meses. Percorri trinta países.

Beto Benjamin: Ufa. Cansei só de ouvir… Você nasceu com sebo nas canelas? Que conta dessa passagem pelos Estados Unidos?

Teté: Foi uma experiência diferente. Saí de uma escola privada britânica de elite em Lima e fui morar num subúrbio de Maryland, onde estudei numa escola pública, muito boa. A razão de ter escolhido aquele bairro foi porque ele tinha uma das melhores escolas da região mas, era “white-suburbian” dos Estados Unidos.

Na minha sala de aula tinham poucos estrangeiros. Eu e uma chinesa adotada ainda bebê, que não falava chinês. Era americana com feições chinesas. Tinha também um paquistanês. Éramos apenas três estrangeiros. Os demais americanos. Eu era olhada de maneira diferente pois meu sotaque era britânico. Fui americanizando meu sotaque para conviver. O lugar que vivíamos era aquela coisa americana mesmo: uma casinha atrás da outra, bonitinha, com jardim na porta. Lembro dos invernos, escorregando na neve em frente da casa. O lugar era super-bonito, super-tranquilo. Mas, na escola era bem diferente.

Também pudera. Não tínhamos os laços de amizade que fizemos no Peru. Era recomeçar do zero. Foi difícil fazer amizade, entrar nesse mundo. Ser aceita. Entretanto, foi um momento forte de núcleo familiar. É o que acabou sendo para nós. Americano é assim. Muito mais difícil de pertencer a vários grupos sociais como no Brasil e na América Latina. As relações ficam mais restritas. Apesar das dificuldades, foi uma experiência pessoal e familiar muito enriquecedora.

Tenho boas lembranças da casa, das brincadeiras. No quintal apareceu um dia um veado pulando no meio daquela floresta linda. Um lugar super-tranquilo. Imagina. Mariana com dez anos de idade e eu com oito. Íamos a pé para a escola e era super-seguro.

Tinha todo esse lado interessante. Era bem pertinho de Washington DC. Cidade com uma vasta riqueza cultural. Foi  um recomeço difícil para nós mas, com muitos ganhos.

Depois dos Estados Unidos, voltei para o Brasil.

Beto Benjamin: E a viagem para morar na Espanha? Como ocorreu?

Teté: Fui para a Espanha já adulta. Mais ou menos após um ano de formada. Conheci meu ex-marido quando trabalhávamos na mesma empresa em Miam. Surgiu uma oportunidade para ele ir trabalhar na Espanha. Fui junto. Lá, decidi fazer uma pós-graduação em Marketing. Trabalhei com mídia, na verdade. Era uma agência de planejamento de mídia em Valência.

Adorei a cidade. Respira arquitetura: muitas obras de Calatrava. Uma coisa icônica. Uma cidade grande e pequena ao mesmo tempo. Grande, para atender às necessidades sociais, culturais, fazer minha pós-graduação mas, não tão grande quanto Madrid… Nem tão turística e movimentada como Barcelona… Acho que foi um meio do caminho para morar. Visitar e morar são bem diferentes. Conhecia Barcelona. Já tinha passado uns oito meses estudando lá.

Hoje percebo a diferença com muita clareza. Vi o outro lado de morar. Adorei mas, é morando que se vê o mau humor do espanhol e outras diferenças. Eu vinha dos Estados Unidos, onde se vai num supermercado e se compra tudo ali. Na Espanha, pelo menos naquela época, até existiam os super mercados mas, eram pequenos.

Claro, em Valência tinha um ou outro Carrefour – que é grande – mas, culturalmente na Espanha onde vivi se comprava pão na padaria, carne na loja de carne, outras compras na mercearia. No mercado se compram produtos de limpeza porem tem que lembrar que a geladeira em casa é pequena. O apartamento  também é pequeno. Exatamente o oposto dos Estados Unidos.

Saí de um lugar onde tudo era grande, para seu contrário. Coisas da vida!

Adorei isso: pegar meu carrinho de compras e ir em dois ou três lugares diferentes, para adquirir o que precisava para a semana. Não podia ser mais do que isso. Não cabia. Nem na casa, muito menos na geladeira. Porém isso tem uma beleza. Você acaba conhecendo os vendedores. Se apresenta. Fala com eles. Estabelece uma relação. Tem seu charme.

Não é tão prático como o sistema americano mas tem um lado de viver em comunidade, cumprimentar e conversar com as pessoas, levar a vida em outro ritmo.

Eu aprendi isso lá e foi muito gostoso. A beleza da diferença. Quando você mora, não tem jeito. Tem que abraçar a diferença.

Bem, depois de Valência veio Chipre…

Beto Benjamin: Chipre? Menina, o que você perdeu lá?

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Chipre

Teté: (Risos). Calma, as viagens estão só começando. Fui, mais uma vez, graças ao trabalho de Gustavo, meu ex-marido. Um dia ele disse: “Surgiu uma oportunidade de trabalho em Chipre”. Eu disse : “Ótimo. Tenho uma amiga cipriota”. Ele falou: “Como? Uma amiga em Chipre?”. Respondi que tinha, pois havia feito um trabalho voluntário em 2006, viajando por alguns países e conheci uma garota que era de lá. Não conhecia o país contudo, conhecia uma pessoa de lá. Fomos…

Chipre é uma ilha dividida: parte grega, parte turca. Super interessante. Fui morar num vilarejo. Nenhuma cidade lá era muito grande. Eu fiquei com a mesma sensação de recomeçar novamente.

Moramos em Larnaca, que era uma das maiores cidades de lá. A capital é Nicosia. Junto com Limassol, formavam as três maiores cidades do país. Tem muita história. Tem tudo que tem na Grécia e na Turquia porém, numa escala menor. Chipre tem templos, construções e arquiteturas como as da Grécia antiga, com sítios históricos, praias lindas.

Mas, tudo provinciano com um povo super fechado. Conheci pessoas através do meu trabalho. Eram muito fechadas. Talvez por ter sido colônia britânica. Percebi ainda que ilhas em geral tem culturas muito fechadas. Cultura de ilha é coisa de “nós”. Quem sabe até para se proteger. Não são nada abertos. Isso é uma coisa que eu saquei.

Foi outra experiência de vida. Beirava a xenofobia. Sei que é uma palavra forte mas, era por aí mesmo… Povo fechado. Até meio carrancudo. Isso apesar de ter histórias lindas, de pessoas bacanas que se conhecem num vilarejo, num supermercado, num restaurante, numa feira, enfim em qualquer lugar. Mas a tendência é eles serem mais fechados.

Visitei diversos vilarejos no interior de Chipre. Alguns deles com poucas pessoas, cinquenta, cem pessoas vivendo ali. Uma verdadeira viagem no tempo. Parecia até um universo paralelo porque existe uma fronteira. A ilha é de fato dividida. O lado turco de Chipre nem é reconhecido como país pela ONU. Parece mas, não é outro país.

Culturas completamente distintas. Sair da Grécia e entrar na Turquia. A religião, a comida, as feições das pessoas… Tudo diferente. Se vêem mesquitas no lado turco. Então para mim, valeu como experiência de vida. Muito aprendizado. Até brinco com as pessoas e digo ser a única pessoa, que morou em Chipre, que você vai conhecer. Muita curiosidade para voltar lá.

Nunca mais voltei!

Continua no próximo post

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