Retomando a entrevista com Pedro Gordilho, este é o terceiro post sobre sua aventura pela França e Espanha, seguindo um dos Caminhos de Santiago.

Beto Benjamin: O que achou da história do monge budista que acabei de contar?

Pedro Gordilho: Rapaz, essa metáfora lembrou que eu estava realmente fazendo duas viagens. Ambas importantes. Me fez recordar que nelas passávamos horas tagarelando. Jogando conversa fora. Falando pelos cotovelos. Falávamos de uma coisa, de outras; de uma pessoa, de outras – mas, também tinha dias que não dávamos uma palavra. Silêncio obsequioso absoluto. Nada para ninguém. Sem assunto. Cada um na sua (viagem)! Tá vendo aí? O monge de Bangcoc estava mesmo certo quando deu aquele toque para você e o Fernando Barbosa. Imagino a cara dos dois escutando os ensinamentos budistas… Corajoso esse monge! (risos)…

Durante os novecentos quilômetros da caminhada às vezes, apenas um queria ficar em silêncio! Acontecia mais comigo. Eu possuía no meu iPhone um arquivo com mantras. Então, ligava meu celular e ficava horas caminhando, escutando baixinho as músicas. Luiz, companheiro de jornada, percebendo meu desejo de permanecer só, dava uns passos à frente, se adiantava e ia fazendo o seu caminho. Eu ficava na minha!

Em outras ocasiões, ele não queria conversa! Naturalmente, eu retribuía. Era uma demonstração de verdadeira consideração e respeito entre nós. Essencial numa aventura assim.

Essa liberdade de ser – sem ter que se incomodar com o outro – foi a primeira vez que experimentei na vida!

Estou casado há trinta e quatro anos. Mas, vivo com Ana há quarenta. Comecei a vida muito cedo. A gente cria uma gaiola imaginária e acaba vivendo dentro dela. Tendo que dar mil satisfações a uns e outros, se esquecendo quase que completamente da sua individualidade. Ela existe, é importante e deve ser respeitada.

Nascemos sós e vamos morrer sós mas, esquecemos disso o tempo todo…

Beto Benjamin: Que figuras encontraram nessa caminhada?

Pedro Gordilho: Ah, teve uma interessante: um gaúcho. Caminhamos uns três dias com esse cara. Alternando os encontros. Ora ele estava à frente, ora éramos nós. Nesse passa-passa, nos cruzamos pelo menos umas três vezes. Ele tinha sido lutador de MMA. Muito engraçado. Gente boa. A história dele foi assim: Para fazer o caminho de Santiago, ele partiu de León. Não começou em Saint-Jean-Pied-de-Port como nós que fizemos o caminho “francês”.

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A Compostelana

Que cidadezinha linda! Uma graça! Partindo de lá é o caminho mais tradicional: Saint-Jean-Pied-de-Port/Santiago de Compostela. Se quiser,  pode estender a caminhada um pouco mais e em três dias chegar a Finistere. Veja, tem caminhos para todos os gostos, partindo de todos os lugares. As pessoas escolhem o que for mais conveniente. A Igreja reconhece, oferecendo a compostelana, àqueles que tiverem percorrido pelo menos cem dos últimos quilômetros. Muita gente faz a caminhada somente para obter esse documento. Ficam satisfeitos com ele.

 

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O Certifcado

Cada cabeça um mundo. Entretanto, a Igreja também emite outro documento muito mais completo chamado o certificado, que discrimina de onde você partiu, onde chegou e a distância percorrida. Estou compartilhando fotos dos dois documentos para você ilustrar o post. Esses documentos viram verdadeiros troféus nas mãos dos peregrinos. Diplomas reconhecidos e valorizados. Eu trouxe os meus!

 

Voltando ao gaúcho. Ele disse que morava em Barcelona mas que era proprietário de um bar na Inglaterra! Olha só que confusão! Foi logo nos contando a história de como conheceu sua atual mulher: uma inglesa. Disse que chegou à Inglaterra onde foi tentar a vida e trabalhou de tudo que é jeito e em todo tipo de coisa. Era um faz-tudo. Contando, ele era engraçado. Nos fez rir muito com essa história da mulher. No final concluímos que ele

certamente era um cara “meio torto”… Bem prá lá disso! Era todo torto mesmo!

O nome do gaúcho também é Luiz como o meu companheiro de peregrinação. Vamos deixar para lá o sobrenome… Vai que ele, lutador de MMA depois de ler o NuncaseSabe resolve me pegar! Melhor esquecer completamente o sobrenome. Assim ficamos mais seguros…(risos).

Disse que um dia conheceu a moça que depois seria sua mulher. Na conversa, disse-lhe que queria ficar morando mesmo na Inglaterra. A inglesa escutou aquilo e respondeu: “Não tem problema. A gente casa e você fica aqui!”. Surpreso com a reação e proposta dela Luiz falou: “Espera aí. Nem nos conhecemos direito. Não somos nem namorados.” Ela não se abalou e retrucou: “E daí? Qual o seu problema? Casar? É só assinar um papel e você fica com a cidadania”. Simples assim. Não só prometeu, como cumpriu. Estão casados até hoje! Pode? Esse é o gaúcho Luiz.

Confidenciou ainda que de vez quando tinha uns “arranca-rabos” com ela. Aconteceu mais um e sabe o que ele fez? Passou em casa, pegou a mochila, não disse aonde ia e se mandou: veio fazer o caminho de Santiago. Não se despediu dela nem dos filhos, nem disse para onde ia nem por quanto tempo. Estava ali conosco, contando essa história com a cara mais descarada do mundo e rindo…

Pois bem, depois de andarmos quase que no mesmo ritmo por um bom tempo e nos cruzarmos diversas vezes durante o caminho, notamos que ele começou a acelerar o passo e se adiantar. “Por que Luiz está tão apressado agora,” pensamos…

Chegou a Santiago de Compostela uma semana antes de nós. Ficava mandando fotos, vídeos fazendo gozação. “Fui mais rápido que vocês! Estou aqui, viu Pedrão? Aí deixou escapar: “Estou doido para voltar para casa.”

Ah! Era isso… Tava explicado porque acelerou tanto… Deve ter batido  saudade da esposa que ele brigou. Pronto, lá se foi o Luiz, lutador de MMA fazer as pazes com ela… Não consigo  imaginar a cena! (risos).

Cenas do Caminho de Santiago

Conhecemos também dois paulistas. Gente boa demais. Percorremos um bom trecho juntos. Eram pai e filho. Pelo que vimos uma bela relação entre os dois. O rapaz tinha uns vinte e seis anos e o pai da minha idade, uns sessenta anos. O filho morava fora do Brasil. Combinaram de se encontrar e fazer o caminho de Santiago juntos. Ambos possuíam uma grande qualidade: eram agregadores. Onde estavam faziam amizade, se enturmavam logo. Quando chegávamos numa praça num povoado qualquer e avistávamos uma mesa grande, tínhamos certeza que os dois estavam lá. Contando suas histórias, divertindo gente e se divertindo…

Teve também outro peregrino interessante:

fazia o caminho de Santiago descalço! Rapaz! Não era coisa para qualquer um!

Descalço mesmo consegue imaginar o que é isso? Não me aproximei tanto dele. Porém, sempre nos batíamos pelo caminho. Chegávamos nos lugares e daí a pouco, ele também chegava. Sempre descalço. Andava no seu ritmo mais devagar com os pés no chão, mas chegava. Dia seguinte saíamos cedinho, cruzávamos com ele, ultrapassámos e seguíamos adiante. Não sei como conseguia pisar no meio de tantas pedras e continuar caminhando daquela forma. Mancava dos dois pés. Usava dois cajados. Não conseguia pisar direito. Mas foi seguindo… Devia ser promessa mesmo. Puro sacrifício…

Teve uma hora que, com pena, tive vontade de oferecer uma sandália para ele mas, me contive. Tinha certeza que ele não aceitaria!

Havia todo tipo de gente no caminho. Gente nova, gente velha, gente gorda, gente magra. gente bonita, gente feia. Havia mulheres que pesavam cento e cinquenta quilos. Não estou inventando não. Caminhando. Quadris enormes, aquelas coxas. Como era que suportava a caminhada eu não fazia a menor idéia. Chegavam quatro horas depois da gente mas, chegavam.

Beto Benjamin: Acho que é por isso que esse caminho é tão bem compactado como vi em algumas fotos que você mostrou! (Risos).

Pedro Gordilho: É possível mesmo. Havia também os estrangeiros. Todos tentando viver essa experiência de olhar para dentro de si próprio. Buscando auto-conhecimento. Como todo mundo. Não fui com esse propósito claro. Sabia que ia acontecer mas não fui com a intenção. Foi consequência.

Beto Benjamin: E as paisagens?

Pedro Gordilho: Lugares lindos. Pode acreditar. Às vezes eu olhava do alto de uma montanha, via aquele vale e lá no fundo, no horizonte, uma coisa meia azulada de tão longe. Era a meta a ser alcançada. Você sentia que chegaria tão distante. E não era apenas chegar. Sentia que iria ultrapassar aquela distância. Iria além. Isso servia como uma grande motivação. Quem não se motivaria a caminhar com um incentivo desses?

A caminhada prosseguia: subia, descia, andava no plano. Sabia que tinha que subir um morro enorme. Previamente se estudava a topografia do caminho. Daí a pouco começava a descer o morro e tinha a sensação que estava fazendo tudo dobrado. Muito doido…

Além de subir, ainda tenho que descer. Mas isso não desanimava ninguém. Ao contrário. Dava forças para prosseguir. Subia o morro. Chegava lá em cima, no cume e estava um frio danado. A camisa e a cara encharcadas de suor. Camisa gelada. Pois bem enxugava no próprio corpo. Daqui a pouco, suava novamente. Ia, ia… Paisagens indescritíveis. Céu azul todo o tempo. Só tivemos um dia de chuva e assim mesmo no último trecho. O resto foi céu completamente azul. Um espetáculo. Lindo, lindo. Não posso esquecer.

Muitos riachos, muitas fontes no caminho. Enchia a garrafa de água e caminhava. Centenas, milhares de pessoas caminhando. Sou capaz de arriscar pelo que vi, que se fosse possível fazer uma foto dos peregrinos em qualquer instante, se veriam pelo menos três mil pessoas caminhando. A qualquer hora. Talvez mais.

Em Santiago devem chegar todos os dias pelo menos mil peregrinos. Todos os dias. Refletindo você se pergunta enquanto caminha: “quantas pessoas devem ter passado por esse chão que estou pisando agora?”

Beto Benjamin: Que pensamentos lhe passavam pela cabeça na caminhada?

Pedro Gordilho: Pensamentos de contemplação. Daquilo que via e vivia. Olhei muito para dentro. Sou religioso também.

Ficou muito nítido para mim quem sou de verdade. Minha essência. Ali vi com clareza pois aqui, nessa vida corrida que se leva, não dá para perceber!

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Credencial de Peregrino

Fiz uma coisa nos últimos dez dias do meu caminho. Dediquei cada dia para cada pessoa que me era muito próxima. Cada pessoa ou grupo de pessoas. Um dia dediquei para meus filhos. Fui conversando silenciosamente com cada um. Primeiro fazia uma retrospectiva da nossa vida. Cada minuto, cada momento. O momento que ele foi desejado, gerado.

Foram tantas as dificuldades que passamos. Os impasses que já tivemos e no final eu terminava “zerado”. Ou seja. Perdoado. Eu dizia: A partir de hoje você está perdoado e eu também por qualquer coisas que tenhamos feito um ao outro. Fiz isso com minha mãe, com meu pai, com minha mulher, com meus filhos, com meus cunhados, com meus irmãos, com cada um deles. E claro, comigo mesmo.  Foi muito bacana. Zerei a conta.

Beto Benjamin: Como foi a reação deles, ao tomar conhecimento desse seu gesto?

Pedro Gordilho: Não houve reação. Não contei para ninguém! Quem sabe disso agora é você. Nem Luiz, que estava comigo, sabia.

Beto Benjamin: Sobre o que você e Luiz conversavam?

Pedro Gordilho: Tudo. Brincávamos. Esculhambávamos. Luiz foi um excelente companheiro de viagem. Conversas de amigos. Falávamos de tudo e de todos. Luiz tinha trabalhado na Dow Química por mais de trinta anos. Se aposentou quando era diretor da Dow para a América Latina. Fez um projeto de vida e disse: “Chega de trabalho. Não quero mais!”.

Imagine meu privilégio de passar trinta dias, caminhando, com um companheiro desse quilate.

Cenas do Caminho de Santiago

Beto Benjamin: Que comiam e bebiam os peregrinos no caminho?

Pedro Gordilho: Ih rapaz. Era vinho todo dia. No mínimo uma garrafa para cada diariamente. O menu do peregrino, inclui uma garrafa de vinho. Pau! Era para começar. O menu do peregrino é uma delícia. Estou até desconfiado que alguns dos peregrinos gostavam mais dessa parte. Como nós. (Risos).

Quando entramos na Galícia, comemos polvo todo dia “mermão”. Você não faz idéia do que é comer polvo na Galícia. Coisa muito séria ali. PQP! Até pizza de polvo comemos.

Estávamos andando um dia. Era tarde. Paramos num boteco para comer. Tínhamos fome. Sabíamos que ia ficar pesado terminar a caminhada de barriga cheia. A senhora do boteco disse: “Tenho somente pizza. De polvo”. Fiz foto para mostrar aos incrédulos. Traçamos a pizza de polvo e terminamos a caminhada aos trancos e barrancos aquele dia.

De outra vez comemos um hamburger de polvo. Acredita? Galícia, decore esse nome. Lugar de comida gostosa. Tudo. Não somente polvo. Carnes. Tudo delicioso.

O menu do peregrino dá muitas opções de pratos como entrada: tortilla, salada, paella, caldo galego. O segundo prato normalmente era carne, frango e outras opções. Aí ainda tinha a Sobremesa. Tudo muito bom. Por mais que o menu do peregrino fosse uma refeição básica, era muita comida de verdade.

Beto Benjamin: Como os peregrinos eram vistos pela população?

Pedro Gordilho: Extremamente respeitados. O peregrino tem toda uma história. Aquela coisa religiosa. Católica. Tradição. Muitos lugares dependem economicamente dos peregrinos para sobreviver. Reconhecimento, cumprimento. A população sempre lhe diz na sua passagem:

“Buon camino! Buon camino”!

É a saudação oficial. Não apenas entre os peregrinos. Também da população que vive nos vilarejos e cidades ao longo caminho. Muito bacana!

Beto Benjamin: Havia alguma cerimônia especial para peregrinos nas igrejas que vocês passavam?

Pedro Gordilho: Claro que sim. Devo ter assistido pelo menos umas dez missas nessa caminhada. Não tinha muito o que fazer além de caminhar. Vamos para a missa! Em alguns lugares havia a benção dos peregrinos. Um negócio lindo! Acabava a missa, o padre reunia os peregrinos que estavam na igreja. Chamava-os para a frente do altar, liberando as pessoas locais e fazia a benção.

Teve um que falou em dez idiomas. O padre perguntava de onde vinha cada pessoa. Vínhamos de todos os lugares: Brasil, China, Japão, Holanda, Itália, França, Bélgica, Estados Unidos, Inglaterra… Enfim, de muitos países. Ele então dava seu recado dizendo como era importante cada um de nós estar ali e desejando um caminho de conhecimento, de paz. Mensagens tocantes.

Igrejas lindas! Me assombrei com a beleza delas. Pensava que tínhamos belas igrejas em Salvador. A nossa igreja de São Francisco – que é reconhecidamente uma das mais lindas e ricas – se compara lá  na Espanha com igrejas de povoados com quinhentos habitantes. Difícil acreditar no que se está vendo! Conhece a catedral de Santiago de Compostela? Pois de repente, você se depara com uma igreja que tem um “pé direito” (altura) de trinta metros.

Altares belíssimos. Suntuosos. Impressionante se deparar com o poder que a Igreja exercia – e ainda exerce – sobre as  pessoas. Ouro e prata em abundância. Provavelmente levados daqui. A ostentação de poder está ali. Não dá para descrever, nem  imaginar. Tem que conferir. Altares com vinte e cinco metros de altura, tudo em ouro. Acredita?  Centenas de imagens de santos atrás do altar… Um luxo só!

A igreja de Santiago tem um incensário. Uma obra de arte. Quando tem cerimonias importantes eles utilizam aquele equipamento com três metros de diâmetro. Fica pendurado com uma corda com um moitão. Aquele conjunto sobe. Eles começam a balançar. Cruza a igreja inteira balançando.  Veja no YouTube. As pessoas devem morrer de medo daquilo se soltar, desabar e cair em cima de alguém. É morte certa!

Fiz uma descoberta interessante. A razão de usarem incenso antigamente nas igrejas: para disfarçar o mau cheiro das pessoas. Apesar de tudo, é lindo. Me falaram então sobre um filme  chamado “The way” (O Caminho). Assisti no YouTube.

Luiz se “apagava” cedo. Dava sete horas da noite e já estava recolhido. Tinha que apagar todas as luzes. Ele botava um pano na cabeça e adormecia. Ninguém podia se mexer. Normalmente eu dormia mais tarde. Pensava: “Puta que pariu! O que vou ficar fazendo aqui sozinho?” Então pegava meu iPhone e assistia filmes.

Recomendo ver “O Caminho” pois retrata fielmente como é uma peregrinação. Está tudo ali. Toda a simplicidade da caminhada. Você lembra da história do filme? As pessoas vivendo suas experiências em busca de si próprias…

Me fez lembrar da Chapada Diamantina, na Bahia. Do Capão, onde tenho uma casa e mais precisamente do Vale do Paty. Parece um pouco com o caminho de Santiago. Sobe o morro, anda sobre uma planície e chega num lugar.

Você acha o Capão bonito? Pois o Paty é muito mais! É lindo. Você dorme na casa de “não-sei-quenzinho” num quarto coletivo com o chão de terra batida. Eu já dormi. Experiência boa. Muito bacana. Se não fez, recomento.

Tome nota. No próximo São João vou para o Capão subir o morro defronte a minha casa. Sempre que me sentava na varanda, apreciando a paisagem, olhava para ele e dizia:

“Ainda vou subir você um dia, seu Morro!”.

Um vizinho meu amigo, já subiu. O morro tem quinhentos metros de altura. Sempre me perguntei se teria coragem para subir? No caminho de Santiago fui a mais de mil e quinhentos metros de altura. Portanto, subir esse morro agora é um tapa. Está marcado: dia vinte de junho vou subir o Morro Branco. Ele é lindo visto de qualquer lugar. Da minha casa o visual é extraordinário. Muito contemplativo. Totalmente zen!

Beto Benjamin: Pedro me lembro bem do Capão. Um vale com montanhas em volta e a Natureza. Linda e exuberante como ela é. Não precisa de mais nada! Não é?

Cenas do Caminho de Santiago

Pedro Gordilho: Sim e ainda tem muitas pessoas bacanas vivendo lá. Não apenas os nativos mas, pessoas do mundo inteiro que escolheram aquele lugar para viver por algum tempo ou definitivamente. Encontrei gente bem educada. “Na delas”. Ninguém quer saber do seu sobrenome. Zero violência. Lugar que não tem polícia, não tem bandido. Se você precisar de polícia não vá para lá. Se pode dormir com portas e janelas abertas. Faz frio. Muito frio para os padrões brasileiros… Um paraíso na Terra!

Final da entrevista no próximo post

 

Aproveitando o embalo da peregrinação do Pedro Gordilho no Caminho da Santiago, das coisas que ouvi do monge budista em Bangcoc na Tailândia muito tempo atrás e as viagens que essa pandemia – querendo ou não – nos convida a fazer nos dias de hoje, fico muito à vontade para “viajar” com uma jovem destemida, pelos quatro cantos deste mundo. Ainda bem que é deste mundo… Estão todos convidados a viajar conosco!

Adriana Lacerda, (Teté) a entrevistada da vez é jovem, bela, alegre, antenada, “rápida no gatilho”, versada e boa de conversa, iluminada, sorriso aberto, olhos brilhantes, cheia de vida, franca e direta, daquelas que não levam desaforo prá casa. Entende?

Teté fala com o entusiamo de uma adolescente descobrindo a vida!

Descreve situações e peripécias – sozinha ou acompanhada – com aquela sutileza dengosa característica dos baianos que sem percebermos, nos transportam para as descobertas, novidades, paradas, encontros, reencontros, desencontros, surpresas, mistérios e dramas do ser humano que parece o mesmo, independente de gênero, país, raça, credo, lugar onde habita ou transita. Eu adorei as histórias de Teté! Fiquei com pena do Gulliver…

Antes de apresentar a entrevista, aproveito para responder a uma curiosidade do próprio Pedro Gordilho  – cuja caminhada ainda está sendo contada aqui no NuncaseSabe. Foram publicados dois posts. Pedro indagou: “Por quê escrevo contando as histórias dos “outros”, quando podia estar falando de si próprio?” Como tem sido a tônica nos tempos atuais.

Minha resposta se inspirou nas palavras  do cineasta Federico Fellini (1920-1993) – de quem sou fã de carteirinha – ao se referir ao amigo e Diretor de Cinema Rosselini de quem era assistente:

“Nunca seria capaz de converter-me em Diretor mas, trabalhando com Rosselini descobri algo que me impressionou fortemente. Humildade na atitude diante do mesmo da vida. Sem presunção, sem dizer estou contando minhas fantasias, minhas histórias. Não. Estou tratando de contar o que vi e depois uma fé imensa no humano. Na matéria plástica em si mesma. O que mais me impressionou e finalmente me abriu os olhos foi descobrir

essa comunhão que se cria, de quando em quando, entre você e um rosto. Entre você e um objeto.

Compreendi que ser um diretor e fazer filmes podia encher a minha vida. Não podia pedir mais. Aquilo podia me oferecer tantas possibilidades. Ser tão fascinante, tão comovedor. Algo que me justificasse e me ajudasse a encontrar um significado…”

Essas palavras expressam bem meu sentir e minha alegria ao garimpar, descobrir, convencer a falar (raramente), entrevistar, contar ou ajudar a contar as histórias dos outros…

Com lembranças assim na memória e na bagagem, ficou bem mais fácil, no meio dessa pandemia, sentar com Teté  sem máscaras – ela de lá, eu de cá – usando o Facetime, ouvir histórias das inúmeras viagens que ela fez por diversos países de todos os continentes, vivenciando experiências incríveis por todos os cantos desse planeta, que reconheçamos, não é tão pequeno assim.

E ainda por cima, Teté é filha de meu querido amigo e companheiro, de longas datas e muitas aventuras, José Caetano Lacerda. Não precisa de mais apresentações, não é?

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Lençóis Maranhenses, Brasil

Beto Benjamin: De onde sacou essa de sair por aí, viajando pelo mundo?

Teté: Está diretamente atrelada à minha história de vida. Ainda bebê aos onze meses de idade saímos de Salvador, Bahia e fomos morar no Peru. Minha primeira infância foi toda em Lima: aprendi a falar, a andar. Acho que isso ficou registrado no meu “sistema” como minha primeira experiência. Não só viajar, morar fora mas explorar outras culturas. Isso me acompanha desde sempre.

Minha mãe conta uma história curiosa: demorei a falar. Ela até me levou em psicóloga, pedagoga. Mas quando comecei a falar, já falava espanhol, português e um pouco de inglês. Ela percebeu que eu queria falar o idioma certo com a pessoa certa: espanhol com minha babá peruana, português com ela e inglês – algumas palavras – com minha irmã mais velha Mariana que ia para uma escolinha de inglês.

Essa salada toda saiu de vez e quando falei já foram três idiomas… Espanhol e português saíram ao mesmo tempo. Até brinco dizendo que metade da minha alma é peruana. Dizem que os primeiros sete anos de uma criança tem aquele efeito esponja, que ela absorve tudo. Morei no Peru sete anos e meio.

Beto Benjamin: Exemplo de como o acaso entra em nossas vidas sem pedir licença nem sabermos as consequências, não é? Seu pai foi transferido para o Peru, levou toda a família e isso influenciou toda a sua vida.

Teté: Totalmente. Por conta disso fui estudar numa escola britânica em Lima. Aprendi inglês e certamente tudo isso influenciou o resto de minha vida. Há alguns anos descobri o termo “cross-cultural“, que designa crianças de culturas que se cruzam pois tinha a cultura brasileira dentro de casa e a peruana fora. Acrescente ainda a cultura escolar, primeiro britânica e depois a americana. Uma verdadeira geléia geral. Foi assim, até completar oito anos de idade, quando saí do Peru.

Beto Benjamin: Que lembranças ficaram dessa época?

Teté: Tenho memórias maravilhosas apesar de que meus pais eram preocupados com nossa segurança. Era época do Sendero Luminoso, grupo terrorista que estava muito ativo no Peru.

Beto Benjamin: Teté, eu estava em Lima na semana que as forças de segurança do Peru prenderam o Rafael Guzman, líder do Sendero. Me lembro bem das blitzes policiais constantes nas ruas de Lima, de dia e de noite!

Teté: Chegamos ao Peru em 1984 e minha mãe conta uma história. Disse que um dia me escondi dentro de casa. Brincadeira de criança. Passei horas escondida. Minha mãe já estava para ter um troço. Naquele tempo em Lima. E eu sumida. Imagine: Sendero Luminoso, carros-bomba, o diabo a quatro.

Quando finalmente apareci – deixando meu esconderijo – minha mãe disse ter tido duplo sentimento: alívio por um lado e vontade de me dar uma surra por outro. Ela dizia: “Você não tem noção do que está acontecendo?” Claro! Não tinha mesmo, eu era criança. Então me lembro que o pano de fundo era esse cenário político do terrorismo.

Me lembro que moramos em algumas casas. Hoje que moro em apartamento lembro como era bacana morar em casa. Tinha animais de estimação: um cachorro. Tivemos alguns cachorros mas, teve uma época que tivemos um bode, como bicho de estimação!

Beto Benjamin: Mas Teté. Um bode?

Teté: É isso mesmo! Um bode!

Foi assim: eu adorava acompanhar minha mãe quando ela ia fazer compras na feira aos sábados. Para mim a feira era uma coisa fantástica. Aquele colorido de frutas, verduras, batatas. Vozes, gritos, gente. Eu adorava… Achava aquilo o máximo.

Um dia fomos juntas e tinha um bode à venda. Ia ser abatido. Minha mãe olhou para o bode imaginando a cena e ficou com pena. Decidiu comprar e disse ao vendedor: Vou levar o bode para casa e nos perguntou, se eu e minha irmã Mariana, a ajudaríamos a cuidar do animal. Concordamos na hora.

Compramos uma mamadeira para ele e virou nosso bicho de estimação. Mais um. Na verdade era um cabritinho. Ainda tinha o umbigo. Levamos para casa e ele fazia companhia ao cachorro. Acho até que ele pensava que fosse um cachorro também. Foi crescendo e virou bode de verdade. Com chifre e tudo. O nome dele era Arnaldo…

Tenho muitas memórias pois convivíamos com muita gente amiga naquela época. O pessoal da Odebrecht, onde meu pai trabalhava. Os filhos dos amigos de meu pai eram quase que “primos” de tanta intimidade. Recordo bem dos finais de semana na casa de um, na casa de outro. Muitos churrascos, festas de Halloween. Celebrávamos o Sete de Setembro. Era tudo muito alegre…

Ótimas recordações. Lembranças gostosas, sim. Adorava minha escola. Ah, ainda tínhamos dois coelhos em casa. Um meu, um de Mariana.

Outra história engraçada: um dia, coloquei o coelho dentro da minha lancheira e levei para a escola. Claro, ele quase morreu sufocado mas, escapou. Quando cheguei em casa de volta, novamente dentro da lancheira, ele estava quase desfalecido mas, sobreviveu. (Risos).

Clicando nas fotos saberá o país

Beto Benjamin: Quando saíram do Peru foram para onde? Como foram essas mudanças para você?

Teté: Saímos do Peru para os Estados Unidos. Fomo morar em Maryland por uns  dois anos. De lá voltamos para o Brasil, para Salvador. Ficávamos nós três em Salvador e meu pai já estava na ponte aérea Rio-Brasília-Salvador. Trabalhando.

Aos quinze anos voltei – para estudar – aos Estados Unidos. Fui para um colégio interno em Connecticut. Passei um ano lá e terminei o ginásio em Salvador, na Escola Americana. Cheguei a prestar vestibular na Unifacs em Salvador mas, não me adaptei. Aî já não era mais a minha realidade. Achava tudo muito estranho.

No ano seguinte como fui aceita numa universidade americana: George Washington University em Washington DC. Cursei quatro anos. Depois morei em Miami onde permaneci por quase dois anos. Em seguida, fui para Valência na Espanha, onde fiquei cerca de um ano e meio.

Fui para Chipre onde passei um ano e pouco. Posteriormente voltei para o Brasil onde fiquei um tempo no Rio de Janeiro e depois dois anos e meio em Florianópolis. Voltei para o Rio e em 2013 fiz uma viagem de volta ao mundo por treze meses. Percorri trinta países.

Beto Benjamin: Ufa. Cansei só de ouvir… Você nasceu com sebo nas canelas? Que conta dessa passagem pelos Estados Unidos?

Teté: Foi uma experiência diferente. Saí de uma escola privada britânica de elite em Lima e fui morar num subúrbio de Maryland, onde estudei numa escola pública, muito boa. A razão de ter escolhido aquele bairro foi porque ele tinha uma das melhores escolas da região mas, era “white-suburbian” dos Estados Unidos.

Na minha sala de aula tinham poucos estrangeiros. Eu e uma chinesa adotada ainda bebê, que não falava chinês. Era americana com feições chinesas. Tinha também um paquistanês. Éramos apenas três estrangeiros. Os demais americanos. Eu era olhada de maneira diferente pois meu sotaque era britânico. Fui americanizando meu sotaque para conviver. O lugar que vivíamos era aquela coisa americana mesmo: uma casinha atrás da outra, bonitinha, com jardim na porta. Lembro dos invernos, escorregando na neve em frente da casa. O lugar era super-bonito, super-tranquilo. Mas, na escola era bem diferente.

Também pudera. Não tínhamos os laços de amizade que fizemos no Peru. Era recomeçar do zero. Foi difícil fazer amizade, entrar nesse mundo. Ser aceita. Entretanto, foi um momento forte de núcleo familiar. É o que acabou sendo para nós. Americano é assim. Muito mais difícil de pertencer a vários grupos sociais como no Brasil e na América Latina. As relações ficam mais restritas. Apesar das dificuldades, foi uma experiência pessoal e familiar muito enriquecedora.

Tenho boas lembranças da casa, das brincadeiras. No quintal apareceu um dia um veado pulando no meio daquela floresta linda. Um lugar super-tranquilo. Imagina. Mariana com dez anos de idade e eu com oito. Íamos a pé para a escola e era super-seguro.

Tinha todo esse lado interessante. Era bem pertinho de Washington DC. Cidade com uma vasta riqueza cultural. Foi  um recomeço difícil para nós mas, com muitos ganhos.

Depois dos Estados Unidos, voltei para o Brasil.

Beto Benjamin: E a viagem para morar na Espanha? Como ocorreu?

Teté: Fui para a Espanha já adulta. Mais ou menos após um ano de formada. Conheci meu ex-marido quando trabalhávamos na mesma empresa em Miam. Surgiu uma oportunidade para ele ir trabalhar na Espanha. Fui junto. Lá, decidi fazer uma pós-graduação em Marketing. Trabalhei com mídia, na verdade. Era uma agência de planejamento de mídia em Valência.

Adorei a cidade. Respira arquitetura: muitas obras de Calatrava. Uma coisa icônica. Uma cidade grande e pequena ao mesmo tempo. Grande, para atender às necessidades sociais, culturais, fazer minha pós-graduação mas, não tão grande quanto Madrid… Nem tão turística e movimentada como Barcelona… Acho que foi um meio do caminho para morar. Visitar e morar são bem diferentes. Conhecia Barcelona. Já tinha passado uns oito meses estudando lá.

Hoje percebo a diferença com muita clareza. Vi o outro lado de morar. Adorei mas, é morando que se vê o mau humor do espanhol e outras diferenças. Eu vinha dos Estados Unidos, onde se vai num supermercado e se compra tudo ali. Na Espanha, pelo menos naquela época, até existiam os super mercados mas, eram pequenos.

Claro, em Valência tinha um ou outro Carrefour – que é grande – mas, culturalmente na Espanha onde vivi se comprava pão na padaria, carne na loja de carne, outras compras na mercearia. No mercado se compram produtos de limpeza porem tem que lembrar que a geladeira em casa é pequena. O apartamento  também é pequeno. Exatamente o oposto dos Estados Unidos.

Saí de um lugar onde tudo era grande, para seu contrário. Coisas da vida!

Adorei isso: pegar meu carrinho de compras e ir em dois ou três lugares diferentes, para adquirir o que precisava para a semana. Não podia ser mais do que isso. Não cabia. Nem na casa, muito menos na geladeira. Porém isso tem uma beleza. Você acaba conhecendo os vendedores. Se apresenta. Fala com eles. Estabelece uma relação. Tem seu charme.

Não é tão prático como o sistema americano mas tem um lado de viver em comunidade, cumprimentar e conversar com as pessoas, levar a vida em outro ritmo.

Eu aprendi isso lá e foi muito gostoso. A beleza da diferença. Quando você mora, não tem jeito. Tem que abraçar a diferença.

Bem, depois de Valência veio Chipre…

Beto Benjamin: Chipre? Menina, o que você perdeu lá?

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Chipre

Teté: (Risos). Calma, as viagens estão só começando. Fui, mais uma vez, graças ao trabalho de Gustavo, meu ex-marido. Um dia ele disse: “Surgiu uma oportunidade de trabalho em Chipre”. Eu disse : “Ótimo. Tenho uma amiga cipriota”. Ele falou: “Como? Uma amiga em Chipre?”. Respondi que tinha, pois havia feito um trabalho voluntário em 2006, viajando por alguns países e conheci uma garota que era de lá. Não conhecia o país contudo, conhecia uma pessoa de lá. Fomos…

Chipre é uma ilha dividida: parte grega, parte turca. Super interessante. Fui morar num vilarejo. Nenhuma cidade lá era muito grande. Eu fiquei com a mesma sensação de recomeçar novamente.

Moramos em Larnaca, que era uma das maiores cidades de lá. A capital é Nicosia. Junto com Limassol, formavam as três maiores cidades do país. Tem muita história. Tem tudo que tem na Grécia e na Turquia porém, numa escala menor. Chipre tem templos, construções e arquiteturas como as da Grécia antiga, com sítios históricos, praias lindas.

Mas, tudo provinciano com um povo super fechado. Conheci pessoas através do meu trabalho. Eram muito fechadas. Talvez por ter sido colônia britânica. Percebi ainda que ilhas em geral tem culturas muito fechadas. Cultura de ilha é coisa de “nós”. Quem sabe até para se proteger. Não são nada abertos. Isso é uma coisa que eu saquei.

Foi outra experiência de vida. Beirava a xenofobia. Sei que é uma palavra forte mas, era por aí mesmo… Povo fechado. Até meio carrancudo. Isso apesar de ter histórias lindas, de pessoas bacanas que se conhecem num vilarejo, num supermercado, num restaurante, numa feira, enfim em qualquer lugar. Mas a tendência é eles serem mais fechados.

Visitei diversos vilarejos no interior de Chipre. Alguns deles com poucas pessoas, cinquenta, cem pessoas vivendo ali. Uma verdadeira viagem no tempo. Parecia até um universo paralelo porque existe uma fronteira. A ilha é de fato dividida. O lado turco de Chipre nem é reconhecido como país pela ONU. Parece mas, não é outro país.

Culturas completamente distintas. Sair da Grécia e entrar na Turquia. A religião, a comida, as feições das pessoas… Tudo diferente. Se vêem mesquitas no lado turco. Então para mim, valeu como experiência de vida. Muito aprendizado. Até brinco com as pessoas e digo ser a única pessoa, que morou em Chipre, que você vai conhecer. Muita curiosidade para voltar lá.

Nunca mais voltei!

Continua no próximo post

Sira Quiroga – a protagonista

Confesso que não sou fã de assistir séries de filmes. Muito menos de gostar de ver filme em casa. Sou de ir ao cinema. Cada doido com sua maluquice, não é? Mas qual não foi  a minha bela surpresa ao conferir, em dias distintos claro, os dezessete episódios que compõem a série O Tempo entre Costuras! Adorei!

Evidente que não farei nenhum spoiler, em respeito àqueles que ainda não viram a série bem como às regras não escritas do NuncaseSabe. Entretanto, isto não me impede de fazer comentários sobre o que achei, após conferir os capítulos da série exibida a partir de 2013, que fez enorme sucesso na Espanha tão logo foi lançada.

A história com um enredo intrincado e bem construído, tem como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola de 1936 e o início da Segunda Guerra Mundial. Os sets de filmagem se passam na Espanha, no Marrocos e em Portugal.

Produção franco-espanhola esmeradíssima em todos os sentidos. Grande elenco com ótimos atores dentre os quais Peter Wives, Filipe Ramírez, Hannah New, Alba Flores e Juan Luís Tristán Ulloa. Trajes bem caprichados. Caprichadíssimos… Afinal trata-se de um filme de época e em especial os da protagonista Sira Quiroga – papel interpretado com muito charme, carisma e encanto por Adriana Ugarte – nos remetem aos desfiles de alta-costura.

É bem verdade que Sira se transforma de uma simples modista em alta-costureira num processo que vai se sofisticando com o desenrolar da trama. Figurinos literalmente, de tirar o chapéu… Ela usa esse adereço quase todo o tempo e vocês sabem – desde sempre – que os trocadilhos me perseguem. Não houve Freud, nem Jung, nem Orixá da Bahia que me livrassem deles, até hoje! Portanto, tiro também o meu…

Um dos pontos altos da série, o vestuário ficou por conta de Bina Daigeler. Um desfile de trajes – femininos masculinos – do mais puro glamour e estilo dos anos quarenta. Somente no primeiro episódio a Sira usa mais de trinta e quatro vestidos, de um total de duzentos e trinta modelos diferentes da série! Confiram nas fotos abaixo:

Sira Quiroga e seus trajes

Também não passou despercebida a demonstração dos diretores, de mostrar a evolução do personagem Sira mediante as roupas que portava ao longo do desenrolar da trama, passando dos vestidos simples de algodão para modelos de femme fatale sofisticados, custosos e bem elaborados. Os chapéus então, são um show à parte. Mata Hari que se cuide…

Dirigida por Iñaki Mercero e Norberto López, baseada no livro escrito por María Dueñas com o mesmo título, a série consegue juntar a ficção do romance com fatos reais naquele período da guerra civil espanhola. Posso garantir que não tem como não se sentir arrebatado e transportado – de forma primorosa – para dentro da História. Foi como me senti.

A série conquistou o prêmio Ondas Award for National Television e a protagonista, o prêmio de Melhor Atriz de Ficção, na Espanha.

A trilha sonora composta por César Benito teve músicas na liderança de plataformas digitais. O Álbum ocupou o segundo lugar no iTunes da Espanha e a liderança na categoria trilha sonora. Recebeu também o Prêmio Melhor Música para a Televisão pela Academia de Ciência e Artes da Espanha e até hoje é uma das trilhas sonoras de televisão mais baixadas no Spotify. Acima de dois milhões.

Uma curiosidade é que o “Tema de Sira”, uma das músicas da trilha sonora foi utilizado pela ginasta espanhola Carolina Rodríguez em suas apresentações com fita desde 2014, inclusive na Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro.

Surpreende na série, a ausência de violência explícita. Nos dias de hoje e nos modelos hollywoodianos, coisa rara. Raríssima. Até nas poucas cenas onde sabemos que ela está rondando, o diretor dá um show de sutileza, elaboração e graça. Aliás, falando de elegância os personagens principais e até os coadjuvantes são um retrato da própria. Sobra elegância em O Tempo entre Costuras

A Sira Quiroga então é de deixar qualquer um maravilhado. Seu personagem possui um carisma e uma inocência que capturam a atenção permanentemente. Uma combinação bem elaborada de fragilidade, coragem e determinação. Sabe aquela pessoa que leva as porradas da vida o tempo todo e, aguenta? Não desiste! Soa familiar? Conhece alguém que preenche os requisitos? Sei…

Além de bela, a Adriana Ugarte dá um show de interpretação. Convincente em cada movimento nos faz acreditar que, independente das surpresas que a vida sempre apresenta, ela encontrará uma maneira de se sair – e bem –  das paradas e continuar a fazer – e bem feito – as suas costuras, sejam elas nos tecidos, nas amizades, nas armações ou nas amorosas. Fiquei fã!

Constatei também que quatro personagens da série realmente existiram: a inglesinha quer dizer, deveria falar “a inglesona” (devido à sua altura) Rosalinda Fox, amiga de Sira; Juan Luis Beigbeder, militar importante durante a ditadura franquista, Ministro de Assuntos Exteriores de Espanha em 1939 e amante da Rosalinda; Ramón Serrano Suñer, cunhado de Franco, substituto do Beigbeder quando este foi demitido pelo Franco e figura importantíssima enquanto durou o regime franquista na Espanha e o inglês Alan Hillgarth coordenador dos serviços de espionagem britânicos de 1940 a 1944. Devido a sua atuação – e consequente pressão do governo inglês – foi um dos responsáveis por impedir que Franco se aliasse a Hitler na segunda guerra mundial. Não foi pouco!

O Tempo entre Costuras tem mais esse mérito. Juntar realidade histórica e romance de modo suave, sem forçação de barra, resultando literalmente numa sutil e graciosa costura entre os personagens e suas atividades, sejam elas políticas, empresariais, amorosas ou a vida normal daquele tempo.

Poderia comentar sobre cada um dos personagens que me atraíram porém, melhor deixar que vocês façam suas avaliações e julgamentos. São muitos os personagens importantes na trama e cada um, mais interessante que o outro.

As cenas no Marrocos são deliciosas, com paisagens incrivelmente belas, a arquitetura árabe sempre em destaque, além de flashes sobre os marroquinos que gozam da fama de despreocupados, alegres e hospitaleiros, principalmente com estrangeiros. As tomadas em Tétouan – cidade histórica encravada numa montanha e hoje Patrimônio da Humanidade – são realistas, deslumbrantes e agradáveis. Convencem.

 

A cidade de Tétouan no Marrocos

Às vezes dá a sensação de que estamos efetivamente participando do filme. Passeando pelas ruas de Madrid, Lisboa, Tanger e Tétouan. Seguindo o caminhar incerto, os passos inseguros e o olhar triste, sonhador e distante de Sira.

Dá vontade inclusive de – passada essa pandemia – pegar o primeiro avião direto para… o Marrocos! Inch Allah!

O drama, o romance, a trama, os personagens, as mulheres, a elegância, a beleza, o tempo, a história, o olhar, a vida… Vejam o trailer abaixo:

 

https://open.spotify.com/user/juancvarco/playlist/7BFAA03z5pTCgXaChHHWBI?si=fxf9l2EhSnaI54dvd2kCCg

Para arrematar, “viajem” na longa e sensual trilha sonora da série, abaixo! Para resistir a qualquer pandemia! Me remetem às páginas do caro amigo Proust. Ele mesmo, Marcel e seu tempo não tão perdido assim… Afinal, ele não costurava. Escrevia sobre o tempo. O nosso atualmente? Tá f… Deixa prá lá!

https://open.spotify.com/user/juancvarco/playlist/7BFAA03z5pTCgXaChHHWBI?si=StJY-HkjRMSU9wRwWuUDHg

Depois me contem o que acharam!

Beto Benjamin

Nesses tempos bicudos de Covid-19 com tantas “deaths, lives, fake news”, desgovernos e outros quejandos, me dediquei a criar – para não pirar – uma rotina de resistência dentro de casa, como todo mundo. Uma delas foi concluir esse post sobre o Caminho de Santiago percorrido por Pedro Gordilho, contendo a segunda parte da longa e divertida conversa que tivemos em Salvador. Coisa que estava devendo aos leitores há muito tempo. Pronto. Está aí. Aproveitem.

Beto Benjamin: De onde vinha sua disposição para caminhar todos os dias durante trinta dias seguidos. Não parece coisa de maluco?

Pedro Gordilho: Rapaz, vou te contar: teve uma ocasião durante a caminhada que peguei um resfriado forte. Durou três dias. Apesar disso tive forças para caminhar. Acordava, acredite se quiser, com aquela alegria e disposição para seguir em frente.

Não tenho noção de onde se originavam essa disposição nem a vontade que pintaram no meu corpo e na minha cabeça para explicar aquela vibração e ânimo para caminhar. Mesmo doente e naquelas circunstâncias em terras desconhecidas…

Era tudo novo. Talvez parte da explicação venha da liberdade sentida verdadeiramente pela primeira vez na vida, de estar naquela aventura – única e exclusivamente – por mim. Me dei esse presente. Afinal, estava fazendo o que queria, falando com qualquer um, sem ter que dar explicações para ninguém. Era minha livre escolha. Sem amarras… Solto na buraqueira… Tá bem?

Queria muito fazer o Caminho de Santiago! Fiz!

Olhando para trás, sempre me senti “preso” na vida. Muita coisa embolada. Dedicado sobremaneira ao trabalho e à família. Carreguei coisas demais e arrastei tantas outras; o volume só aumentava, na medida que a vida se desdobrava. Fazemos isso sem sentir e vamos nos limitando como consequência.

Na hora de viajar dando início à minha aventura, até meu cardiologista se achou no direito de perguntar se eu estava realmente preparado! Pitaco de tudo que é lado. Pode?
Meu dentista foi pelo mesmo caminho: “Pedro, sou atleta e não me sinto capacitado para encarar o que você vai fazer. Tem certeza que vai?”
Até meu sogro resolveu me sacanear: “Menino, fazer isso para quê? Não vai aguentar o rojão”.

Pois fui. Caminhei novecentos quilômetros e voltei muito melhor do que saí! (risos)

O primeiro dia foi o mais difícil. Certamente porque era o primeiro. Foi difícil pelo desconhecimento, pouco preparo, ansiedade e a dificuldade da caminhada. Cruzei trinta quilômetros nos Pirineus sendo cinco de subida. É muito!

E mais mil e quinhentos metros de descida. Foi mole não! Comparando com o que estava acostumado na Bahia: a Cachoeira da Fumaça na Chapada Diamantina, tem uma subida de “apenas” trezentos metros! Tinha sido minha maior “subida”!

Naquele início de peregrinação enfrentei neve, gelo, frio. Tive dor nos pés e nas articulações; apareceu dor em cada lugar que nunca imaginei. Teve uma hora que falei para o Luiz, meu parceiro de aventura:

“Tá difícil! Não sei se consigo continuar”. Dito isso,  forcei a barra. Caminhei e cheguei “quase morto” no meu destino da primeira etapa: Roncesvalles. Literalmente quase morto mesmo. A mochila que carregava nas costas pesava oito quilos e meio. No albergue ainda levei uma hora em pé, na fila, para me registrar! Foi dureza.

Meu corpo doía dos pés à cabeça!

 

Cenas do Caminho de Santiago de Compostela

Pensei: “Deus do céu! O que é que eu tô fazendo aqui?”. Tomei um banho. Relaxei. Descansei um pouco e – para minha surpresa – duas horas depois estava “inteiraço”! Pronto para o jantar. Saí do albergue para a vila como se nada tivesse acontecido. Parecia que não tinha andado trinta quilômetros com uma mochila nas costas.

Acabou a dor. Não tinha mais nada. Passou tudo. Tomei vinho e comi o menu do peregrino. Vi muita gente alegre, conversando, contando suas histórias, compartilhando experiências. Gente entrando e saindo daquele lugar o tempo todo. Afinal, era a Espanha. Que vengan los toros…

Soube que muitos peregrinos pulam essa etapa que fiz no primeiro dia, exatamente pela dificuldade que é a transposição dos Pirineus. Eles não sabem o que estão  perdendo pois foi um dos dias mais emocionantes de toda a caminhada. Não apenas pelos primeiros passos dados como peregrino como pela beleza da paisagem e sobretudo experiência vivida e sentida. Em todos os sentidos…

Para mim quem se põe no caminho, atravessa o primeiro portal: o do desconhecimento…

Beto Benjamin: O que lhe motivou a fazer essa aventura?

Pedro Gordilho: Nunca me fiz essa pergunta. O que motivou foi viver uma aventura que não tinha me permitido até então. Só isso. Não teve nada de mirabolante. Simples assim.

Reconheço que fazer o Caminho de Santiago me transformou em outra pessoa!

Beto Benjamin: Ouvindo sua história veja quanta coisa não nos permitimos na vida! Pela primeira vez em quarenta anos você fez algo do gênero! Imagine o quanto nos privamos por ignorância, por medo ou qualquer motivo. Quantas possibilidades perdemos? Quantos encontros não existirão? Quantas dimensões e experiências na vida jamais conheceremos por causa das amarras que criamos?

Pedro Gordilho: De acordo. São responsabilidades que assumimos e temos que dar conta. Nos comprometemos. Normalmente, começava a caminhada por volta de sete e meia. Havia dias que caminhava vinte quilômetros. São quatro horas para chegar ao destino. Muitas vezes, era um vilarejo de somente cinquenta pessoas.

Ficava ali batendo papo ou, às vezes, era um lugarejo chato. Não tinha nada interessante. Pô, parei aqui quando podia ter caminhado mais um pouco. Chegado em outro lugar. Em compensação passamos por vilas e áreas belíssimas. Dava vontade de ficar mais um dia. Não ficava. Era um dia em cada lugar mas, vejo que podia ter me permitido estender um pouco mais. Porém eu tinha uma meta: o dia de retornar ao Brasil. Passagem comprada. Poderia ter mudado sim mas, foi tudo muito bom. Reclamar do quê?

Beto Benjamin: Como foi a preparação para essa caminhada ?

Pedro Gordilho: Não sou um atleta. Nunca fui. Tomar a decisão de viver uma aventura dessa, não foi fácil. Comecei a me preparar de verdade apenas dois meses antes. Meu amigo Luiz caminha todos os dias. Faça chuva ou faça sol . Percorre quinze quilômetros.  Uma verdadeira máquina de andar. Viciado em caminhar. Eu não…

Ele me disse que precisávamos começar a treinar. No primeiro mês caminhávamos uma vez por semana. Saindo do Campo Grande passando pelo Jardim dos Namorados até Itapuã em Salvador e voltando. Vinte quilômetros sob o sol. Fazíamos isso em quatro horas, uma vez por semana.

No segundo e último mês da preparação, aumentamos para duas vezes por semana, com mochila como peso. Pode imaginar a cena? Duas figuras estranhas caminhando com mochila na paisagem da orla de Salvador? O barato é que na volta fazíamos um “pit stop” no Yacht Clube, que ninguém é de ferro e tomávamos aquela cervejinha gelada e o banho de mar. Uma beleza…

Recuperava tudo. Foi aí que comecei a perceber que todas as dores que sentia, passavam, depois que descansava. O corpo se recompõe de modo e velocidade impressionantes. As dores crônicas nas articulações sumiam. No último dia da caminhada-treino, percorri quarenta e dois quilômetros sem precisar ir ao médico. Nada. Nenhum problema para resolver. Zero dor.

Falando de dinheiro a viagem você pode montar com o orçamento que quiser. Tem lugar para todos os preços. O verdadeiro Peregrino é aquele que come o menu do Peregrino oferecido em todas as cidades: primeiro prato, segundo, sobremesa, vinho, água e pão. Custa apenas dez euros.

Se quiser, come-se apenas isso. Não tem mais vontade de comer nada porque é muita comida. Vinho Malbec por apenas 5 Euros. Dorme-se num albergue. Cama e  banho. Não tem roupa de cama. Leve o seu saquinho de dormir porque o colchão não tem plástico. Então você não vai ficar naquele contato. Tem albergues particulares um pouquinho mais caro. Tem os das prefeituras que não são tão limpos. A viagem pode ser muito barata. Eu revezei acomodações. Fui experimentando…

Beto Benjamin: Como foi que escolheu o percurso da caminhada? Como e por que São Tiago criou esse caminho?

Pedro Gordilho: Dizem que na época que ele viveu, e fez essa peregrinação com os apóstolos de Jesus criou-se a marca do Caminho de Santiago: uma vieira. Os peregrinos para provar que a fizeram, passavam por Santiago de Compostela iam até Finisterra que era o final da terra na costa da Espanha, pegavam a vieira e traziam de volta, como prova. Fui até lá tá, comprovando que fiz o caminho de Santiago.

Eu também trouxe a vieira!

Cenas do Caminho de Santiago de Compostela

Houve muitos momentos emocionantes na viagem. Os olhos se enchiam de lágrimas diante de tanta beleza que estávamos vendo. Dava para sentir o quão pequeno você é nesse mundo. impressionante mesmo.

Vou contar uma situação que me emocionou muito bem no final da viagem. Foi no último dia quando já estávamos voltando. Luiz e eu estávamos juntos há trinta e um dias longe de casa, longe de tudo. Mais que natural desejar voltar para o aconchego de sua casa, rever sua família e os amigos.

Aí ocorreu uma coisa surpreendente. Luiz foi para a França se encontrar com sua mulher. Fizemos juntos o voo de Santiago até Madrid. Saltamos do avião. Ele ia pegar uma conexão para a França e eu pegaria ali mesmo o voo de volta para o Brasil. Fomos caminhando pelo aeroporto sabendo que teríamos algumas horas horas de espera.

O tempo foi passando mas a hora foi chegando. Caminhamos na direção do portão e de repente nos deparamos com uma bifurcação. Era a hora da verdade:

Ali tínhamos que nos separar.

Um iria para um canto e o outro para o outro. A emoção nos atingiu em cheio. Dominou tudo. Olhamos um para o outro e começamos a chorar. Desabamos no choro. Dois homens crescidos chorando que nem criança.

Beto Benjamin: Pedro, Essas emoções na verdade eram um resgate da essência de vocês e que foi se perdendo pela vida, se distanciando de emoções que nos distinguem como seres humanos!

Pedro Gordilho: Concordo totalmente. Emoção como aquela parece que vai ficando algo distante, impossível. No dia que acontece “a ficha cai” e você se depara com um tremendo estranhamento. Que está acontecendo comigo? As lágrimas escorriam. Puta que o pariu!

O que é isso companheiro?

Uma viagem assim é como um casamento. Você se separa da sua família e, querendo ou não, fica trinta e um dias com uma pessoa só. Passando vinte quatro horas por dia com ela. Seu companheiro, amigo de conversar, de rir, contar piada e, na hora de uma separação repentina olha o que acontece. Como é que não sente?

As lágrimas escorriam de meu rosto e eu me perguntando Que porra é essa? Por que estou chorando como uma criança?

Evidente que já estava emotivo, no último dia, pelo fato de estar retornando. Abandonando tudo aquilo que estava vivenciando Aquele momento foi muito forte, Cheio de significados para mim e, certamente também para o meu companheiro de peregrinação Luiz.

Cenas do caminho de Santiago de Compostela

Beto Benjamin: Falando de viagens e histórias posso pedir licença para contar uma Pedro? Em 1992, quase trinta anos atrás, fiz uma viagem a Cingapura, como executivo da Odebrecht. Estávamos construindo uma plataforma de produção de petróleo e gás para a Petrobras. Era a atual P-XVIII em consórcio com uma empresa local. Fernando Barbosa era o líder da nossa equipe de brasileiros residentes em Cingapura.

Encontrei o Fernando muito estressado, lidando com um parceiro novo e um cliente que sempre jogava duro: a Petrobras. Resolvi chamar o Fernando para dar uma relaxada e fomos para Bangcoc na Tailândia passar o fim de semana. Cidade interessante, movimentada, cheia de gente, carros e “tuk-tuk” (riquixá motorizado) pelas ruas. Aquela bagunça o oposto da “pasteurizada” Cingapura.

Estávamos andando pelas ruas de Bangcoc quando nos deparamos com uma universidade budista, cheia de monges com aquelas roupas de cor laranja, típica deles. A porta estava aberta, entramos e pedimos para falar com algum monge. Afinal vínhamos de muito longe. Queríamos bater-papo. Saber como era a vida de um monge budista e ali estava a oportunidade.

Não contávamos com o fato de que a maioria dos monges que ali estavam, não falava uma palavra de inglês. Nos levaram para uma sala e disseram para aguardar.  Ficamos sentados no chão, sobre um tapete, por muito tempo e nada acontecia. Não aparecia monge nenhum. Olhamos um para a cara do outro e fomos ficando inquietos, nervosos, chateados com o “chá de espera…””

Quando íamos levantando para ir embora, apareceu um monge com aqueles óculos redondos à la John Lennon. Silenciosamente entrou e ao invés de falar, se sentou e ficou nos mirando com aquele ar de paciência budista, distanciamento esotérico e olhos miudinhos mas, bem vivos…

Começamos a nos sentir os maiores babacas. Poxa, entramos numa “furada”. Esse desejo de entrar aqui e conversar com um monge foi uma “roubada”. Lá pelas tantas e já completamente agoniado quando ia me virando pro Fernando para dizer: “vamos embora que esse cara não vai falar porra nenhuma. Só vai ficar olhando aqui para gente…”
Nesse momento o monge disse umas palavras que jamais vou esquecer. Falou em inglês com aquela “vozinha” abençoada e pausada:

“Vocês ocidentais são muito apressados…”

“Puta que o pariu!” Pensei. Olhava para o Fernando e o Fernando olhava para mim. Ambos com vontade de dar um pau naquele monge. Saímos da Bahia para escutar essa lorota aqui, no outro lado do mundo…

O monge sem se abalar, arrematou: “Vocês gostam de fazer tudo apressadamente.”

“A grande viagem não é que a gente faz para fora. É a que a gente faz para dentro.”

Pronto. Recado dado. Curto e delicado. Disse tudo o que precisávamos ouvir naquele momento. Caímos na real. Nada mais precisava ser dito. Pelo menos para nós. Nos despedimos do monge e abraçamos seu ensinamento para o resto da vida.

Você Pedro, está nos contando a “sua grande viagem”. Na verdade, você – sabendo ou não  – estava fazendo as duas: suas pernas te conduzindo na caminhada real e suas emoções no outro caminho, interior, resgatando sensações e valores que está nos contando.

Revela parte de sua essência que, como você mesmo disse, não estava tendo acesso há muito tempo. Com isso está nos permitindo desfrutar paisagens e passagens tão importantes e belas, quanto as outras do mundo exterior…

Continua no próximo post

1. Como conheci o Pedro

Tinha nome de apóstolo, de santo, braço direito do Chefe, pedra ou rochedo (Petrus em latim, vindo do grego Pétros ou do aramaico Cephas), vá lá. Ainda não existia Google mas, imagino que dona Maria Sanches e “Seu” José Geraldo – seus pais – devem ter feito essa pesquisa, antes de decidir por esse nome: Pedro mesmo, em bom português! A bem da verdade e de acordo com a Bíblia, seu nome deveria ter sido Simão, pois era esse o nome do caboclo que Jesus Cristo batizou de Pedro… Complicada essa história de nome, né?

Pedro, não o apóstolo – o Gordilho – se apresentou para uma entrevista, um dia, assim do nada, no canteiro de obras de uma construtora na cidade do Salvador, Bahia. Disse que era candidato a estagiário (ou estacionário, nome sacana e jocoso que todos que ali trabalhavam, designavam os que ainda eram estudantes de Engenharia e, buscavam ganhar um pouco de experiência prática nas empresas). O candidato era o moço da foto acima…

Ele se recorda – mais que eu – das bobagens e lorotas que escutou, de mim claro, durante a curiosa “entrevista”, caminhando pelo canteiro de São Joaquim. Afinal estávamos na Bahia, no princípio dos anos oitenta do século passado, evidentemente.

Como bons baianos (mesmo os  que vieram de fora trabalhar na empresa) respeitávamos todos os santos, sem exceção. Lá ninguém é maluco de brincar com eles.

Ainda mais ocupando um pedaço de terra à margem daquela calma e linda Baía de Todos-os-Santos, encantos e axés… Foi assim que transcorreu a entrevista.

Eu era o Gerente de Contrato, responsável pela construção de plataformas para produção de Petróleo, do grupo Odebrecht, tendo como cliente a Petrobras. Como terminou a história entre a Odebrecht e a Petrobras todos sabem e, não vem ao caso. Lugar de lavar roupa suja não é aqui.

Ao final da “entrevista-andante” (Carlinhos Brown só tempos depois inventaria o “camarote-andante” no carnaval), Pedro Gordilho estava aprovado e contratado como estacionário! A conferir.

Ingressou na empresa naquela “honorífica” função e, foi logo mostrando quem era. O famoso “arriar das malas”, que a vida vai nos ensinando a conhecer sobre as pessoas! Agitado, irrequieto, inteligente, criativo, gozador, já foi “avisando” que não ia ficar muito tempo.

Pedro queria aprender alguma coisa da atividade de construção e montagem de plataformas mas, o que desejava mesmo era “ser patrão de si próprio”. Metido mesmo! Se achava! Claro que tinha suas razões. Tanto atrevimento num jovem só não era algo comum. Tomei nota e o mantive sempre à vista, acompanhando de perto seus passos e seu desenvolvimento no canteiro de obras.

Não deu outra. Era um inventor nato. Foi logo bolando um “andaime suspenso” (esse o Brown desconhece) para colocar no topo da plataforma em construção e facilitar a atividade de soldagem. A “sacada” era que o andaime que ele criou podia ser montado ao nível do chão, preso nos tubos que constituíam as “pernas” da plataforma, ao serem giradas para a posição vertical, já estavam prontos para serem utilizados na soldagem seguinte. Economizava tempo e dinheiro para o projeto. Entenderam? Também não precisa entender, pois vocês não vão construir plataformas para a Petrobras.

Levamos a sério a invenção e a empresa pediu ao INPI a patente do andaime criado pelo Pedro Gordilho. Afinal eram dois atrevidos: ele e nós! Nisso combinávamos bem. Patente não devia ser coisa apenas para estrangeiros e, achávamos que merecíamos respeito! E lá fomos nós lutar contra a burocracia brasileira…

O jovem Pedro certamente ganhou o respeito de todos e não foi mais tratado como “estacionário”! Naquela plêiade de engenheiros e técnicos, vindos de várias regiões do Brasil e, na atividade que desempenhávamos, essa “reconhecimento” valia muito. Pedro soube valorizar.

Graduou-se em engenharia mecânica pela Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia e um dia “pediu as contas”. Foi embora. Disse que tinha chegado a hora. Ia enfrentar o desconhecido. Virou gente grande. Montou sua própria empresa: a Rótula Metalúrgica (https://www.rotulametalurgica.com.br/). Foi correr atrás de seu sonho:

tornar-se patrão de si mesmo.

Só muito mais tarde, descobriria que não era bem assim: que sem querer e sem carteira assinada, era “empregado” do governo que lhe cobrava impostos, aconteça o que acontecer! Mas, isso aí é outra história. Coisa para outro post.

Sabedor que Pedro Gordilho resolveu fazer o caminho de Santiago, fui logo avisando que, na volta, teria que dar uma entrevista para o NuncaseSabe. Aceitou de bate-pronto.

Aqui está a conversa que tive com ele, regado a bons quitutes baianos que Ana, sua esposa nos ofereceu, acompanhados de cerveja bem gelada num início de noite, no aconchegante apartamento deles no Campo Grande, em Salvador com uma vista espetacular da Baía de Todos-os-Santos e da ilha de Itaparica.

2. O caminho de Santiago

Beto Benjamin: De onde vem essa sua devoção por São Tiago? Com tantos santos e orixás aqui na Bahia, vai escolher logo um espanhol? Que negócio é esse?

Pedro Gordilho: Calma aí Benjamin. Quem disse que eu tenho devoção por São Tiago? Tenho não… Sou devoto de mim mesmo… Apesar do meu nome, não sou devoto de santo nenhum… Essa experiência – percorrer o caminho de Santiago – que resolvi viver na minha vida, foi um parêntese; um tempo que me dei de presente, pois nunca tinha feito algo parecido. Seria a primeira vez.

Beto Benjamin: Há quanto tempo você é empresário?

Pedro Gordilho: Minha vida toda foi pura labuta. Minha empresa, a Rótula Metalúrgica tem trina anos. Eu, quarenta anos exercendo a engenharia. Resolvi me presentear e soltar um pouco as amarras que me prendiam… Aquelas que a gente pensa que existem. Na verdade elas não são reais mas, as criamos e nos prendemos como se fossem. Inventamos um nó na vida. Tudo saído daqui, de nossa cabeça. Cada dia que passa, descubro que as coisas não são bem assim.

Beto Benjamin: Por que o Caminho de Santiago e não outra coisa?

Pedro Gordilho: Há cerca de dez anos, conheci Luiz Seixas, pai do namorado da minha filha, que viria a se tornar meu melhor amigo. Atualmente, não namoram mais. Entretanto, ficou uma amizade muito bonita. Luiz já fez esse caminho duas vezes. Eu não conseguia entender essa “viagem” dele. Fazer uma vez, eu até entendia mas, duas? Era demais para minha cabeça.

Na primeira vez que ele relatou a viagem, retruquei: “Você é maluco!” Ele respondeu: “Não dá para explicar, descrever o que a gente vive.” O motivo para fazer uma caminhada daquelas eu não conseguia entender. Era descrente de coisas que não são concretas, cartesianas. Meu mundo sempre foi assim, muito diferente desse outro.

De um certo tempo para cá, comecei a olhar a vida de outro modo. Não sei a razão mas, comecei a olhar para dentro de mim. A prestar atenção ao que se passava no meu interior. Era um busca de autoconhecimento. Psicanálise. Minha vida começou a mudar. Foi aí, que despertei e comecei a enxergar “as amarras que nos prendem”. Aquelas que criamos e nos limitam.

Depois dessa experiência vivida vejo com muito mais clareza. Não conseguia imaginar que um dia, andaria novecentos quilômetros. Foi a distância que andei, nessa primeira vez que fiz o caminho de Santiago.

O que me motivou, foi a empolgação que meu amigo Luiz transmitiu. Fomos juntos inclusive. Era sua terceira vez.

Eu estava numa etapa da vida que permitia fazer isso. Arrisquei um monte de coisas e fui. Ana me apoiou. Não é fácil deixar a família, sair do conforto de sua casa para um lugar distante, diferente. Dormir em albergues, em quartos com até cinquenta pessoas, muitas roncando, fazendo todo tipo de barulho. Dormir em beliches com zero conforto. No outro dia e todos os outros dias, acordar cedo e encarar um caminho que não se sabe direito qual é.

Você diz para si próprio: “Porra, quero andar hoje vinte quilômetros”. Mas tem trinta e dois para fazer. “Será que consigo?”

Muitas vezes, não acreditava que conseguiria. Entretanto, todos os dias acordava com mais disposição e alegria no coração para caminhar. Seguir em frente.

Uma coisa é sair caminhando pela orla de Salvador, sabendo onde vai chegar e voltar. Outra, é caminhar sem saber aonde vai chegar, nem o que vai encontrar pelo caminho. São duas situações bem distintas.

Fiz um levantamento – coisa de engenheiro – foram dois milhões de passos aproximadamente caminhados nesses dias. Fui presenteado, a cada quilômetro, com paisagens belíssimas, clima extraordinário e pessoas de todo o mundo, que  se encontram pelo caminho. Enfim, uma troca experiências que abre o coração.

As pessoas que você encontra pelo caminho, te contam coisas íntimas, segredos. Impressionante. Parece um irmão ou alguém que já conhecia há muito tempo. Não dá para descrever. Fiz mais de duas mil fotos imaginando mostrar às pessoas que amo, o que eu via e vivia mas, não dá para descrever fotos ou sentimentos… e o engraçado é que nem a imagem consegue transmitir. Você coloca a foto na televisão ou no computador e não é a mesma coisa…

Lá, ao vivo, você usa todos os sentidos: a visão, o tato, o olfato, o seu paladar tirando uma fruta do pé e comendo no meio do caminho; a audição conversando com as pessoas. O som das pedras que você está pisando. Não dá para descrever e é muito estranho uma pessoa como eu, tão descrente dessas coisas intangíveis falando como estou aqui. Jamais daria valor a coisas tão pequenas…Foi uma experiência belíssima. Se sente uma força que lhe motiva a caminhar todos os dias.

Cenas do caminho de Santiago de Compostela

Continua no próximo post.

Finalizando o post anterior:

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Família Benjamin: O patriarca avô Elias, avó Santa e os primeiros seis de seus nove filhos! Tio Valdimiro é o segundo a partir da esquerda

O banho no rio

Ao chegar das viagens de negócios, tio Valdimiro se aboletava em um dos muitos quartos daquela casa grande dos meus avós, à beira do Rio Cachoeira. Tirava os trajes de “cavalhadeiro” (chapéu, casaco de couro, botas com esporas etc.), colocava um calção e arrastava a meninada para o fabuloso banho no rio, que corria no fundo da casa e cortava toda a cidade. Seu séquito era constituído por muitos primos…

Na maior confusão, cada um querendo segurar sua mão, lá ia ele com aquele cortejo de sobrinhos pequenos, magros como gravetos.

Pulávamos de alegria, como cabritos, até chegar à beira do rio. Claro, nenhum de nós sabia nadar. Vão tomando nota de quanta coisa não sabíamos, naquela época! Éramos crianças, se esqueceram?

Entrávamos no rio e nos esbaldávamos, nadando nas costas do tio, como filhotes de macaco, pendurados em seu pescoço. Ele atendia a todos. Ninguém ficava sem nadar. Era uma grande confusão e gritaria, como é próprio dos meninos…

Me lembro bem… Ele nos carregava um por um, nadando até uma pedra no meio do rio. Deixava um por lá e, vinha buscar o próximo, até completar a turma. Como o rio não tinha correnteza naquele lugar, ficávamos quietinhos, na pedra, aguardando a nossa vez. Para nós, aquilo era o máximo…

Quando terminava o banho no rio, voltávamos com os olhos vermelhos, de tanto mergulhar na água e, sempre com as mãos de “velho”. Era como chamávamos as mãos engelhadas.

Na verdade, como não conhecíamos bem o nosso idioma (éramos crianças, lembram?), chamávamos de mãos “engiadas”, vocábulo que escutávamos dos nossos pais, que tampouco conheciam bem a língua portuguesa (isso também, só descobriríamos mais tarde!).

A charrete de carneiros

Mas, as traquinagens não se limitavam ao banho de rio. Tinha também as corridas com parelhas de carneiro! Essa tenho que explicar: o tio trazia, de vez em quando, junto com seus cavalos, um bando de ovelhas, carneiros e cabras. Era para vender para o abate na cidade. Uma vez mais, só descobriríamos isso depois.

Para nós, elas eram os “cavalos” que puxavam nossas charretes… Sim, montávamos com os carneiros uma espécie de miniatura de carro de boi e saíamos pelas ruas das redondezas e quem quisesse que saísse debaixo, senão corria o risco de atropelo.

Era uma algazarra enorme nesses passeios deliciosos. Ouvíamos muitos xingamentos dos transeuntes mas, não estávamos nem aí. Nos divertíamos à valer pilotando nossa charrete. Imperdível mesmo.

Gostávamos da velocidade que os carneiros desembestados imprimiam à charrete. Só veria algo “comparável” às nossas bigas e peripécias pelas ruas do bairro depois, quando crescesse:

as corridas do Ben-Hur no filme do Cecil B. de Mille e na Fórmula 1, quando o meu herói passou a ser o Ayrton Senna!

Dinalva, a namorada

Ah! Tio Valdimiro tinha uma namorada. Se chamava Dinalva. Ah Dinalva… Com seus dezessete anos, era belíssima. Seus cabelos eram pretos e longos.

De todos os primos do pedaço, sei que ela gostava mais de mim.

Achava que além de gostar de meu tio, ela era “apaixonada” por mim (só iria descobrir que o apaixonado era eu, quando me explicaram o significado de Eros. Muito tempo depois. Eu já não era mais criança!). Me lembro, que além de muito bonita, usava calça! Não era comum uma mulher, naquela época, usar calças. Tudo isso junto atraiu a minha atenção.

Meu tio e ela faziam uma brincadeira conosco: eles se separavam e cada um dizia o que ia fazer; então os primos escolhiam com quem iriam e corriam para o escolhido. Não dava outra: eu sempre ficava sozinho, nos braços dela, claro!

Aquelas cenas tinham um certo despertar erótico precoce, reconheço. Eu ainda não sabia. Descobriria muito tempo depois, quando crescesse. Algo me movia na sua direção e não queria saber das brincadeiras do tio, como os outros primos.

Corria, me pendurava em seu pescoço (dela, evidentemente) e me deixava envolver pelo seu cheiro, perfume, carinho, abraços e beijos.

Seu cheiro e aquelas cenas ficaram gravadas para sempre em mim…

Dinalva então me levava para o parque de diversões – como se eu precisasse de outro parque para me divertir! Enquanto os outros primos (bobos!) se “picavam” com o tio para o banho no rio ou montar cavalos! Vejam se eu ia perder uma coisa dessas?
Ainda hoje, na hora de dormir, às vezes, as cenas com Dinalva me vêm na memória. Nessa hora, volto a ser criança…

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A taca de cabo prata

De vez em quando, também montava cavalo com o meu tio. Ele deixava eu segurar a taca e, até batia no cavalo, fingindo que eu era o “cavalhadeiro”! Esses anos de infância, não sei precisar quanto durou no tempo cronológico. No meu “relógio”, durava uma eternidade. Não acabava nunca.

Não sabia que o tempo era uma dimensão da vida. Também não sabia o que era o tempo e muito menos o que era a vida!…

Então essa infância transcorria assim. Com o tempo sempre marcado a partir das chegadas de tio Valdimiro em casa na cidade.

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Cenas de Tio Valdimiro em fotos corroídas pelo tempo!

O crime

Então veio o dia do crime. Meu tio acompanhado de alguns amigos foi para uma casa de tolerância num bairro da cidade. Era muito comum naquela época de muita repressão sexual que os homens adultos frequentassem os puteiros da cidade. Não era apenas em Itabuna. Era a pratica em todo o país!

Soubemos depois por testemunhas como se deu o crime. Lau e meu tio, além de outros companheiros se reuniram nesse puteiro e ficaram bebendo até tarde da noite. Lau tinha planejado tudo e atraído meu tio para uma cilada.

Lá pelas tantas restaram só o meu tio e ele. Lau entâo se despediu e “foi embora”. Na verdade, se escondeu de tocaia atrás de uma porta na descida do sobrado onde eles estavam.

Meu tio desceu e quando passou por ele alguém apagou a luz. Nessa hora Lau disparou vários tiros de pistola Parabellum. Mortalmente ferido e empunhando sua pistola (embora sem forças pois um dos tiros tinha atingindo exatamente o braço esquerdo) tio Valdimiro ainda teve forças para se arrastar para um bar defronte e caiu no chão dizendo: “Chamem minha mãe. Diga a ela que quem me matou foi Lau. Não sei porque ele fez isso…” E tombou morto.

A cena com seu corpo sendo velado na casa da minha avó Santa, eu descrevi no início do post anterior. Ela nunca saiu de minha memória…

Lau, o assassino, tinha recursos. Fugiu e a polícia só conseguiu capturá-lo, anos depois. Foi julgado em júri popular (por este e outros crimes) e condenado a dezoito anos de prisão, tendo cumprido apenas seis. Libertado, casou-se com a advogada (filha de um rábula famoso em Itabuna) que o livrou da cadeia. Bela dupla!

A família nunca mais foi a mesma após o assassinato de tio Valdimiro! Logo em seguida, um dos cunhados dele abandonou a mulher com sete filhos e sumiu. Foi embora para São Paulo. A família perdeu um líder e um provedor.

Os anos se passaram… Um dia, quando eu já tinha uns quinze anos de idade, andando na principal avenida da cidade, a Cinquentenário, em Itabuna, minha mãe e eu, demos de cara com o assassino, que tinha saído há pouco tempo da prisão. Minha mãe gritou para ele ouvir:

Roberto, esse homem aí na frente, foi quem matou seu tio!”

À pouca distância, olhei para aquele homem moreno e alto. Olhar crispado. Estava olhando para o rosto de um facínora, um assassino, um matador. O homem que tirou a vida do meu tio.

Ele me olhou e baixou a vista. Eu sustentei o olhar mas, não senti nada. Nem raiva, nem pena, nem desejo de vingança! Era como se estivesse olhando para uma sombra…

Sem dizer nada, segui em frente!

Beto Benjamin

 

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