Em busca da leveza perdida (ou o post do Proust) – final

Completando a trilogia de Em Busca da Leveza Perdida, falando de coisas que me foram significativas no ano passado, apresento um breve resumo de uma das aulas de Filosofia, cujo tema foi extraído da obra fenomenal do Marcel Proust Em Busca do Tempo Perdido.

4. O CURSO LIVRE DE FILOSOFIA DO AUTERIVES MACIEL JÚNIOR NO RIO DE JANEIRO

auterives

Auterives Maciel Júnior

Falando primeiro do professor: Auterives – nome para filósofo grego nenhum botar defeito. Acontece que ele é baiano, de Vitória da Conquista. Vive no Rio de Janeiro, onde ensina Filosofia! Herdou o nome do pai, batizado por sua avó portuguesa Sibéria (outro nome interessante para uma mulher!), que se inspirou no francês “haut-river“. Quando se diz que baiano não nasce, estréia, não é brincadeira…

Ele começou a vida profissional como cineasta e depois se dedicou ao estudo da Filosofia. Graduou-se pela UERJ e doutorou-se em Teoria Psicanalítica pela UFRJ. Atualmente, é professor na PUC – Rio de Janeiro, na pós-graduação da Universidade Veiga de Almeida no Rio e, ministra cursos livres de Filosofia na Casa do Saber e adjacências… Foi nas adjacências que o conheci e, fiquei fã.

Auterives – segundo seus alunos e ele próprio – é um entusiasta da Filosofia. Fala com conhecimento, convicção, vibração e convencimento. Não é pouco para ensinar Filosofia a neófitos como eu. Com seu jeito baiano, parece possuir o dom de “destrinchar” os temas filosóficos e uma capacidade extraordinária de tornar simples as explicações sobre os filósofos e suas – na maioria das vezes – complexas obras.

Foi assim que funcionou para mim. Ele consegue falar de Filosofia com uma tal simplicidade que a prosa escorre fluida. Engraçada até. Dá mesmo a impressão de reduzir a filosofia e seus conceitos, aos produtos que se vendem nas feiras-livres (os conhecidos horti-fruti) que apreciamos: abacaxi, manga, banana, laranja, tangerina, mamão, abacate, melancia, jaca, etc. Não ria não… Estou falando sério!

A brincadeira faz sentido, pois os filósofos, para mim,  se parecem com as frutas… Existe uma infinidade deles e delas, cada um com seu jeito, formato, cheiro, cor e gosto. Assim como as frutas, se pode escolher um ou mais filósofos para simpatizar, estudar, aprender, ensinar, divertir, refletir ou infernizar nossa razão e nossa vida. Bem ao gosto do freguês. Pode escolher à vontade…

feira

Horti-frutis filosóficos

Sei que comparar Filosofia – quase uma religião – com “horti-fruti” é blasfêmia talvez digna de punição, em alguns lugares do mundo! Sorte a minha, que não sou o Salman Rushdie autor dos Versos Satânicos, nem moro perto dos aiatolás do Irã e muito menos vejo os talibãs do Afeganistão! Cruz Credo!

Sou, como o Auterives, apenas um baiano de  boa cepa (creio eu), neto de libanês (meu avô Elias Abdon Benjamin era cristão maronita) e confesso que fico mais à vontade numa feira livre. Tem filósofo que é indigesto… Não é mesmo? Auterives que o diga!

Portanto Aristóteles, Sócrates, Platão e companhia, que me perdoem a maldita comparação mas, foi o que senti quando vi o mestre exibir sua catilogência (uma mistura de categoria, lógica e inteligência), discorrendo sobre alguns deles. Parecia mesmo um capoeirista dos bons, desmistificando os – terríveis e às vezes, difíceis de compreender – conceitos filosóficos.

Senti grande alegria nas aulas e nas “viagens filosóficas” que fizemos. Acompanhadas por uma sensação de conhecimento, entendimento e uma certa elevação, ao compreender os filósofos, suas criações, seus problemas e seus dilemas.

Muitas vezes nas aulas, tínhamos a impressão, de encontrar por acaso Sócrates passeando com Aristóteles, Platão, Spinoza, Schopenhauer, Kant, Deleuze e Nietsche, dentre outros Então, queríamos falar:

“Ei caras! Tão indo prá onde? Sentem aí. Vamos conversar um pouco! Como é mesmo aquela sua ideia sobre…”

Viu? Pois é. Adquirimos coragem, intimidade, algum conhecimento, atrevimento e um certo respeito…

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Marcel Proust

A aula que escolhi para comentar, como exemplo, nem é sobre um filósofo. É sobre um escritor: o Marcel Proust, autor por quem tenho uma enorme admiração decorrente de sua incrível viagem pela Arte (no caso as letras) e, sobretudo por sua aptidão para escrever longos parágrafos, narrando seu olhar e seu sentir. Um espirro, por exemplo! Não exagero. É isso mesmo.

A obra em questão é Em Busca do Tempo Perdido. A visão de nosso filósofo, é que Proust queria tratar do aprendizado de um homem de letras ao escrevê-la. Com que exuberância e qualidade o fez!
O conjunto que constitui essa obra, em sete volumes, foi escrito entre 1908/1909 e 1922 e publicado entre 1913 e 1927! O Proust não estava para brincadeira!

Segundo Proust, aprender significa interpretar signos. Por sua vez, o signo para Proust é o objeto de um encontro. Como podemos então definir signos? No próprio encontro. Sacou?

O signo não é a pessoa encontrada. É o que rolou no encontro…

Imagino a cara do Proust, ao ver o esforço de nós mortais, em seguir seus passos e, buscar entender seus escritos sobre os sentimentos, a arte de viver e recordar, tão impregnados de colossal memória, ilimitada descrição, infinitos detalhes e descomunal constatação.

Dá vontade mesmo de ser Proust – nem que seja por um instante – e tão inspirado quanto ele, poder descrever um por-do-sol, o nascer de uma lua, o olhar e o sorriso de uma mulher ou, ainda, os vislumbres que nossos sentidos eventualmente tem…

                                                Mestre Auterives e seus blue-caps!

Auterives chama a atenção para o fato de que é preciso, diminuir as “defesas narcísicas” de cada um de nós, para que o encontro aconteça e se desenrole com os elementos do acaso. Assim desprovido de agenda, de “script”. Tarefa não muito simples, né?

Você gostaria de ter encontros à la Proust? Posso dizer que tive a sorte de ter alguns, no ano passado. É surpreendente a qualidade da conversa, os assuntos conversados, os “insights” e os significados do que rola… Pode até influenciar ou modificar sua vida! Sem exagero. Experimente fazer encontros assim. Veja o que acontece e – se sobreviver – conte depois!

Vou logo alertando que, para o encontro acontecer, é preciso correr o risco de experimentar. Como tanta coisa na vida. Arriscar experimentar! Coisa que as crianças tiram de letra e, nós adultos, tropeçamos nas próprias pernas. Encontros assim, não podem acontecer apenas na imaginação ou no pensamento!

Experimentação é a atitude daqueles, que estão sempre interpretando algo e, sabendo que sempre há “algo” lhe escapando. Só é possível alcançar esse “algo” através de uma abertura. Só sabe que se está experimentando algo, quando você se torna um aprendiz.

Simplificando, quando você “sabe tudo”, você não aprende “porra nenhuma (os filosóficos termos que vocês acabam de ler são meus e não do Auterives). Não existe aprendizado, quando há certezas. O aprendizado se esconde nos “problemas”. Viu?

Ainda segundo nosso querido Proust, existe quatro tipos de signos:

Mundanos: Neste signo, as pessoas estão na “perda do tempo”: indo para festas fazer “caras e bocas”, por exemplo… Os signos mundanos portanto, são vazios. Porém, aprendemos algo com eles, quando entramos em contato, com o vazio de nossas vidas.

Amorosos: São signos “mentirosos” (olha o tamanho da encrenca que o Proust está comprando!) Quem se apaixona tenta, sem sucesso, entrar no mundo do outro. Parece que sempre há “um segredo”, no mundo do outro. Claro, esse mundo já foi habitado por outras pessoas, outros amores. Segredo esse, impossível de conhecer…

Daí decorrem os ciúmes, desconfianças, sofrimentos, angústias, etc. Um quer dominar o mundo do outro, mas, quanto mais se esforça, mais se sente excluído. Quando você ama, sofre e é movido por uma fantasia impossível de se concretizar. Entretanto, mesmo com o fracasso de uma relação amorosa, pode-se se sair com um aprendizado.

Sensíveis: Para Proust, existem as memórias voluntária e involuntária. Segundo ele, a inteligência não seria suficiente, para abordar a memória do próprio passado. Só o disparo por algum elemento (os sentidos), poderia acessar essa memória involuntária. Daí a clássica e indefectível associação da “madeleine“, quando ao mergulhá-la numa xícara de chá e prová-la, Proust tem acesso a toda a sua infância, passada de acordo com seu livro, na cidade fictícia de Combray.

Da Arte: Signo superior ao amor. Não confunda que ao fazer Arte, não vamos amar mais. Aqui o significado, é fazer Arte, para poder amar de uma maneira “artística” e, através dela poder re-significar as relações amorosas. Tá claro? Essas relações passam a ser cuidadas esteticamente. A Arte dá ao ser humano, a possibilidade de alegrias maiores que as mundanas, as sensíveis e as amorosas.

Resumindo então, aprender é estar aberto a experimentos, ao acaso; ao não previsto; enfim aos problemas. Criar problemas não é criar obstáculos. É trazer soluções. Criar problemas e solucioná-los é aprender, buscar entender. Só se aprende, experimentando.

Proust se encontrou na literatura. Virou escritor escrevendo, experimentando.

Cada ser humano tem uma essência e uma diferença extremamente singular. Essa essência só consegue se expressar, através da criação. Não é que seja inata. Na verdade, é quando você cria coisa, para além de sua certeza. Aí surge seu estilo e, assim, você se torna singular.

Quem? Você mesmo!

Essa singularidade só aparece quando você se expressa. É difícil expressar singularidade no amor. Ao contrário, as pessoas querem se fundir. Mas, quando aquele que ama, escreve um poema para sua amada, está se expressando e mostrando sua singularidade. Tá bem assim?

Proust em sua obra, escreve sobre a arte, amor, homossexualidade e sobretudo sobre a passagem e o significado do tempo e do olhar.

Como diz Caetano Veloso:

mora na Filosofia… prá que rimar, amor e dor!

Gostou do Auterives, do Proust e da Filosofia?

Até o próximo.

Beto Benjamin

ps.: Este post só foi possível graças às anotações fidedignas de nossa colega Rachael Botelho.

4 comentários em “Em busca da leveza perdida (ou o post do Proust) – final

  1. Querido Beto, para mim ficou: ” … quando você cria coisa, para além de sua certeza, aí surge seu estilo e, assim, você se torna singular” bello!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Perplexa e encantada com tanta leveza e erudição ao mesmo tempo. Nada fácil, mas você consegue. Parabéns! Seu texto escorre tão suave que parece o rio que nem se incomoda com as barreiras e vai seguindo o caminho. Uma delícia!

    Curtido por 1 pessoa

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