Se vis pacem, para bellum! – parte 1

Se queres paz, prepara-te para a guerra! (provérbio latino) 

Aquela imagem do corpo estendido dentro de um caixão de madeira maciça, marrom com um tampo de vidro e alças douradas jamais sairiam da minha cabeça! E ele estava lá dentro, imóvel, morto… Era meu tio. Chamava-se Valdimiro Mello Benjamin e era “cavalhadeiro“. Sabe o que é isso?

Na verdade ele era muito mais. Eu só não sabia. Era criança. Tinha sete anos. Criança nunca sabe de nada. Só sente, brinca e vive cada momento, sem se preocupar com mais nada. Enquanto é criança. Falo assim, porque somente muito tempo depois, descobriria que além de tio, ele era meu herói. Criança não sabe o que é isso…

Herói de criança é a vida.

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Parabellum, a arma alemã que matou meu tio!

Tio Valdimiro tinha apenas vinte e quatro anos. Fora assassinado a tiros de pistola Parabellum na noite anterior.

Foi um crime encomendado e bem planejado. Ladislau Pereira de Azevedo – o Lau – filho de uma conhecida família da cidade (para Nelson Rodrigues nenhum botar defeito) e “amigo do meu tio”, foi o pistoleiro de aluguel, contratado por Manoel dos Santos – um rival de negócios na comercialização de animais – para executar o serviço. O mandante do crime  só se saberia anos depois, quando o assassino foi finalmente preso, julgado e condenado por vários crimes, além desse.

Também não sabia o que era assassinato e, muito menos, o que era Parabellum. O latim – que aprenderia no ano seguinte como coroinha (carregaria essa palavra como apelido, graças à gozação dos amigos) – seria para ajudar os frades capuchinhos nas celebrações das missas (nessa época as missas eram todas em latim, no mundo inteiro! Uma maluquice só, pois ninguém entendia bulhufas do que estava sendo dito), na Igreja Católica no bairro da Conceição, para onde minha família se mudaria.

Era o ano de 1959 e a cidade, Itabuna. Parecia um daqueles povoados do velho oeste americano em pleno no sul da Bahia, que eu veria nos filmes quando crescesse. Naquela época do cacau, era uma das mais violentas do país. O transporte de cacau das fazendas para o porto de Ilhéus era feito por animais. Itabuna era um grande entroncamento desse comércio. Uma cidade muito movimentada e contava com pistoleiros de aluguel. Se matava por inveja, dinheiro, rixas, brigas, intrigas, por muito pouco ou pelo simples prazer de matar… um verdadeiro faroeste!

Na noite do crime, me lembro de ter sido acordado na madrugada com os gritos de desespero e choro da minha mãe, dona Diná. Quando perguntei o que aconteceu, ela respondeu: “Mataram o seu tio Dute“! Era assim que minha mãe, carinhosamente chamava o irmão.

Dia seguinte já no velório, olhando ali parado, aquele caixão apoiado em cavaletes, quase na altura do meu tamanho, na casa de minha avó Maria, só vinha a lembrança do meu tio chegando na rua em que morávamos, montado num cavalo bonito, esquipando. Chegava em casa, mais uma vez com a “tropa” de cavalos, no bairro da Mangabinha. Era uma festa.

Era o próprio caubói brasileiro. Sul-baiano claro. Trajava sempre um  belo casaco de couro marrom, botas com esporas e taca de prata na mão esquerda. Sorriso no rosto com um dente de ouro aparecendo.

Era canhoto e exímio  pistoleiro. Muito respeitado na pontaria. Também só fui saber depois…

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Tio Valdimiro e seu cavalo

Tio Valdimiro era valente, me contaram meus tios e tias. Não tinha medo de nada. Só de alma. Era! Tinha medo de alma mesmo. A única coisa que respeitava. Vaidoso, só vestia roupas de linho, quando estava na cidade. Possuía ternos de várias tonalidades, sempre de linho. Tinha uma coleção de botas e seu animal era todo paramentado com enfeites de primeira. Fazia questão de ostentar os arreios e a sela de qualidade.

Circulava a cavalo por Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais fazendo negócios com os fazendeiros. Quando chegava, nunca estava sozinho. Negociava cavalos (comprava e vendia) e era um jovem inteligente. Muito esperto. Tinha sorte também e um tino extraordinário para negócios. Pernoitava nas fazendas. Os fazendeiros, que o abrigavam nesses percursos, eram seus clientes e admiravam seu jeito cativante de levar a vida e fazer negócios. Era trabalhador e bom de negócios. Gostavam muito dele.

Levava semanas e até meses para voltar em casa em Itabuna, cavalgando por aí. Mas vinha sempre. Chegava a Itabuna com um bando de cavalos e companheiros, que levantavam poeira na rua. Todos os sobrinhos que estavam em casa – e éramos muitos – corriam para recebê-lo, saudando-o em grande algazarra. Éramos muitos os familiares que moravam na mesma casa. Coisa de árabe mesmo.

Já revelei em post anterior minha origem, que muito me orgulha também sem saber o porquê. Até hoje nem o Líbano visitei! Pode uma bobeada dessas? Será corrigida em breve. Deve dar, no mínimo mais um post no NuncaseSabe!

Adorávamos quando ele vinha. Sabíamos que ia ser diversão na certa e nossos pais não conseguiriam nos impedir de brincar com ele e fazer altas peripécias. Ele era tio e líder na família. Todos, inclusive os irmãos e cunhados lhe deviam reverência. Pelo menos era essa a leitura que eu fazia. Lembre-se: eu era criança, bem me lembro!

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Tio Valdimiro

Quando ele chegava em casa, minha avó Santa (tem nome melhor para designar uma avó? O nome verdadeiro era Maria) sempre aprontava aquele almoço para ele e seu bando. Sim, era um bando mesmo. Trazia consigo homens desconhecidos e alguns bem mal encarados. Para nós aquilo não importava. Era ele, que importava. Comiam fazendo muito barulho e confusão. Falavam alto. Não eram educados. Isso também eu só descobriria depois…

Comiam pedaços de frango com a mão, rasgando-os com a boca, como os bárbaros que eu veria anos depois nos filmes de Hollywood. Iguaizinhos. Posso relembrar a cena como se fosse hoje. Falavam alto, com a boca cheia de comida, gargalhavam e bebiam cachaça. Isso eu já sabia o que era. Afinal, já tinha sete anos!

Vocês devem estar mais que curiosos, querendo saber o final dessa história, não é? E como se deu esse crime! Pois é. Eu também! Levei sessenta anos para contar. Estou contando agora…

Continua no próximo post

PS.: As fotos  desse post foram fornecidas por minha querida tia Geny que mora em Salvador

7 comentários em “Se vis pacem, para bellum! – parte 1

  1. Prosa boa, de pé-de-ouvido! Regional como Adonias Filho com leves matizes contemporâneos. Não gostei muito dos anglicismos, mas parecem umas concessões ao público pós-moderno. Gosto mesmo da descrição dos ambientes e dos personagens; esses jeitos de contar da cor de papel velho amarelado com cheiro de pó de estrada. Aí, o autor é que nem cachaça boa: não se precisa ficar bêbado pra saber que é boa.

    Curtido por 1 pessoa

    • Caro SB

      Agradeço muitíssimo os comentários. Coisa de quem leu mesmo e gostou! Os anglicismos foram removidos, graças ao seu comentário. Não há porque fazer concessões pós-modernas! Obg

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  2. Ótima história, bicho. De coeur, tardio, como paquete que atrasa 60 anos (rs), leva-nos junto com ela… Pelo menos até o meio da viagem, que o preço da passagem é a expectativa. Mando-te outra foto de Parabellum, de um livro que estou fechando, para compararmos quem tem o maior (ou com mais balas)… Manda bala – sem trocadilho -, que os babados estão cada vez mais fluidos e bons de ouvir contar.

    Curtido por 1 pessoa

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