Em busca da leveza perdida… – parte 2

3. A EXIBIÇÃO DO FILME “OLHOS NEGROS” (OCI CIORNIE) E O DEBATE

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Prosseguindo a busca iniciada no post anterior, onde me propus a relatar assuntos que me foram importantes em 2018, apresento um evento que participei no Rio de Janeiro, que me pareceu singular: a exibição do filme Olhos Negros, seguida de um debate.

Olha só o cartaz convidando para a exibição do filme: “Olhos Negros” e Outros Olhares! Não tá belíssimo? Vocês também não gostariam de ver uns olhos negros como aqueles do cartaz? Eu fui e vi!

Tudo aconteceu de forma pouco convencional, pois o lugar da exibição não era um cinema comum e o debate que se seguiu, muito menos, reunindo um escritor, um psicanalista, um poeta e os presentes à sessão.

Para começo de conversa, o “cinema” era ao ar livre na Sauer Danças, uma Academia no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.

Ir ao cinema é sempre um grande programa mas, estar num cinema ao ar livre é outro negócio. Bem melhor. Muito mais agradável – desde que o tempo esteja bom, claro – e relaxante pois, literalmente o céu é o limite. Foi o nosso caso naquela noite de primavera no Rio de Janeiro.

A produção caprichou! Distribuídas pelo pátio da Academia, as cadeiras e poltronas nos permitiram assistir uma sessão de primeiríssima, sem sentir falta de ar condicionado. Nem a pipoca faltou… O filme: “Olhos Negros”, uma produção ítalo-soviética-americana (sim, ainda existia União Soviética!), tendo Marcello Mastroianni como astro principal.

A película, baseada em contos de Anton Tchekhov, descrevia um casamento falido entre um pobretão (Romano, interpretado por Mastroianni) e Elisa (interpretada por Silvana Mangano) uma aristocrata riquíssima, que o sustenta, cada um vivendo em seu mundo e aquela aparência de faz de conta que está tudo bem. Não estava…

O personagem vivido por Mastroianni – no meio daquela mediocridade toda – entediado, busca aventuras fora do casamento, talvez para compensar parte daquela vida vazia, desprovida de sentido. Flerta com todas as mulheres que aparecem na sua frente. Um verdadeiro don Juan. Papel que Mastroianni dá uma aula de interpretação conquistando, a Palma de Ouro de Cannes, como melhor ator, em 1987.

Um dia, Romano com a desculpa de buscar cura para uma doença imaginária, se refugia numa estação de águas e conhece a tímida Anna (interpretada por Yelena Safonova), uma jovem russa, pela qual se apaixona, sem se dar conta direito. Ambos são casados. Ela, não suportando aquele amor improvável, o abandona e volta à Russia deixando uma carta em russo explicando seu gesto. Ele, por sua vez, ao se ver abandonado volta “à vidinha em família”. Não acaba aí…

Ao conseguir traduzir a carta deixada por Anna, a paixão entre os dois fala mais alto e ele arranja um pretexto bobo para ir até os confins da Rússia à procura de sua amada… Assim se desenvolve o filme, com paisagens belíssimas da Rússia Soviética, além de cenas impagáveis de fino humor retratando satiricamente a burocracia da Rússia czarista, mescladas com belas canções do folclore russo.

Sob a batuta do renomado diretor Nikita Mikhalkov, contou ainda, com as participações de Silvana Mangano e Yelena Safonova entre outros atores. A  trilha sonora foi de Francis Lai. O título do filme é de uma popularíssima canção folclórica russa, Ocie Ciornie, que significa Olhos Negros. Vejam algumas cenas do filme abaixo, com um Mastroianni impecável!

Vejam só os prêmios e indicações em festivais especializados que esse filme conquistou:

  • ganhou o troféu do Festival de Cannes, de melhor ator, para o Mastroianni em 1987 e também à Palma de Ouro;
  • indicado para o Oscar de 1988 de melhor ator;
  • indicado para o BAFTA no Reino Unido como melhor filme em língua não inglesa em 1989; 
  • venceu na categoria de melhor ator (Mastroianni) e melhor atriz (Yelena Safonova) o prêmio David di Donatello em 1988, na Italia.
  • indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro, pelo Globo de Ouro, em 1988, nos EUA.
  • indicado ao prêmio César em 1988 na França, como melhor filme estrangeiro.

Com interpretação magistral do Mastroianni, “Olhos Negros” tem cenas inesquecíveis e impagáveis como essa abaixo, que dispensa comentários, Pela beleza do cenário, dos figurinos e sobretudo do significado do gesto de um cavalheiro diante de uma dama.

Na minha vida presenciei e, até já passei por algumas situações similares, onde um homem tem a oportunidade de demonstrar sua sensibilidade perante uma mulher, uma musa, um amor ou uma paixão; mas com a simplicidade e beleza dessa cena, não tinha visto. Confiram no vídeo abaixo, se não é verdade!

Claro que o debate foi muito mais rico que o resumo que apresento aqui apenas para dar a vocês um “gostinho” do que foi na realidade. Vejamos um sumário das opiniões dos convidados, o psicanalista Carlos Mario Alvarez, o poeta Érico Braga e o escritor Juva Batella e no final, ainda me arrisco a dar o meu palpite.

1. OPINIÃO DO PSICANALISTA CARLOS MARIO ALVAREZ

Em “Olhos Negros”, vemos mais uma vez o amor romantizando o humano. O tal ente dito “amor” se re-apresenta desde a perspectiva de um bom bufão (Romano ou Don Marcello Mastroianni) que mirou os olhos de uma mulher (Anna)  e que por estes olhos, de alguma forma, foi também mirado.

A partir deste encontro – miríade de miríades refratárias e refratantes – desta quase anedota à dois, com e por ela, fez as mais prósperas e impossíveis apostas: viver a paixão mesmo com tantas barreiras, tantas improbabilidades, tamanha fenda, acidente geográfico abissal. Pois o amor existe pleno ou ele é, virtualmente projetado? Ou as duas coisas?

Bem, meus caros, o amor é evanescente, é safado, é sagaz, é manco, é e pode ser equivocante. O amor é chama e chamado, que queima e arde, até incinerar os amantes. Eis o que vemos se desdobrar em “Olhos Negros”: um belíssimo, chiquérrimo e capcioso conto de amor e desencontro que revela o quão bobos, inconsequentes e ainda sim, belos, podem ser os olhos dos apaixonados. 

2. OPINIÃ0 DO POETA ERICO BRAGA

Como não poderia deixar de ser – noblesse oblige –  o comentário do poeta veio em forma de poesia:

A entrega é o finito
Sem angústia ou euforia
Mas o divino senso de ironia
De serem deuses por um dia
E seus cordeiros imolados
Pela paz e pela orgia
Sem uma gota de pecado

A entrega não é dar-se, ceder, fartar-se
Ou um brinde à fantasia

A entrega é toda a espera consumida
No ato

A entrega é todo o universo
No laço

A entrega não é alma ou corpo
Mas o quarto

Quando a mulher se entrega,
É ela
O homem,
Só seu palhaço

3. OPINIÃO DO ESCRITOR JUVA BATELLA

Quase tudo em Olhos Negros é vidro. O filme, estruturado em narrativas de Tchekhov, funciona em torno de uma história que o protagonista, Romano, conta de si mesmo. E esta história — retrospectiva e toda ela endereçada a um companheiro de conversa e viagem, a quem Romano conta a sua vida de negócios e amores —, se a princípio nos parece digna e forte, ao final se espatifa, qual o pedaço de vidro que o nosso herói carrega às costas por quase todo o filme.

Drummond escreveu no seu “Poema de sete faces”: “Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Vai tu, Romano. És cigano, um homem já nascido sem um mapa, e por isso vagas pelos corações das mulheres e pela Rússia. Com os homens não tem conversa. No conto de Tchekhov, “A senhora com o cachorrinho”, nosso herói chama-se Gurov: “Na companhia dos homens, ele se entediava, ficava pouco à vontade (…), mas, quando se encontrava entre mulheres, sentia-se livre e sabia o que falar com elas e como se portar…” 

Romano é um sedutor, sim, mas antes de tudo seduz a si mesmo, sendo seduzido por sua própria beleza, por seu charme e pela fragilidade com que se expõe às mulheres. Uma vez apaixonado, desdenha do universo do bon vivant que ele sempre foi, e olha desiludido para o frívolo mundo à volta. “Que mentalidade horrível, que personagens!”, escreve o russo sobre o seu Gurov. “A jogatina de carteado, a glutonaria, a bebedeira, o falatório constante sempre sobre os mesmos negócios desnecessários e as conversas inúteis” (p. 18).

Só lhe interessa a bela Anna, possuidora dos olhos negros. Mas um homem em quem a transparência e a complexidade não são excludentes não poderia apaixonar-se por uma mulher simples e sólida. Anna é atormentada por si mesma, e seu coração também é de vidro. É confusa e odeia-se. Tem a certeza de que não merece o amor de Romano. Nas palavras de Tchekhov: “… e ela (…) sempre lhe pedia que confessasse que não a respeitava, não a amava nem um pouco, e só via nela uma mulher vulgar” (p. 15).

A complexidade de Romano tem a transparência do vidro. Sua mulher, Elisa, sabe disso, e finge acreditar que aquela carta em Russo não significa um amor adúltero. Ela sabe, e vê, como se diante de um vidro de carne e osso, que seu marido está perdido, uma vez que um vivo casamento já não tem, carreira nunca teve, e dinheiro não terá. Quando empreende um novo negócio, a venda aos russos de um vidro especial, nosso herói fracassa. A garantia que Romano oferece aos seus parceiros comerciais, prometendo a inquebrantalidade absurda do seu produto, é também vidro partido — bem como a garantia que dá à Anna de que ele voltará, desfeito o casamento com Elisa, para o seu beijo, já não mais adúltero. Romano possui toda a covardia do mundo para não honrar sua palavra, e esta promessa de amor, claro, também se espatifa.

O que não se espatifa neste filme é a estrutura impecável da narrativa, que tem a lógica dos grandes contos clássicos: o seu desfecho, que emerge com graça e simplicidade, mas com grande impacto. A graça? — Está aqui: o espectador se dá conta, findo o filme, de que todas as pistas que o levaram ao significado daquele desfecho estavam sempre ali, diante de seus olhos. Não viu, não porque não quis ver; não viu porque estava seduzido pela história. Isto basta para que um grande conto e um grande filme se tornem inesquecíveis aos olhos e ao coração.

4. MINHA OPINIÃO

Esse filme me causou uma impressão fortíssima por sua beleza, personagens e cenários, quando o assisti em 1988, no Rio de Janeiro. Ficou em mim uma interpretação um tanto não usual da “amargura” e suposta “covardia” do personagem Romano, quando diante de tudo, fraquejou e não foi atrás – como prometera – da mulher amada, objeto de sua paixão.

A covardia do Romano o levou ao dificílimo caminho de amar uma mulher à distância, sem efetivamente a tê-la. Ele se “condenou” a pagar um tributo eterno e demonstrar aquele amor, repetindo – diariamente – para os viajantes que se apresentassem, a sua história de paixão!

Mais que julgar os personagens do filme, claramente pintados pelas cores dramaticamente amargas e satíricas do Tchekhov, me deliciei com a beleza dos figurinos, paisagens, situações hilárias, cenas de profunda beleza estética e musical. Uma que não esqueço é a cena de Romano acompanhado de um grupo de ciganos cantando uma canção russa de ninar chamada Nanna Ninna. De uma beleza fenomenal.

Deixo a covardia de Romano para quem quiser atirar a primeira pedra em assuntos de amor e paixão! Lembro que a diferença entre o vidro e o diamante, reside apenas em uma dose extraordinária de temperatura e pressão e, poeticamente, finalizo perguntando quem diante do amor ou da paixão, nunca foi vidro ou fez o papel de palhaço, alguma vez na vida? Não é mesmo?

Finalmente e encerrando a trilogia de Em busca da leveza perdida, o próximo post será sobre uma aula do curso livre de filosofia dado pelo prof. Auterives Maciel Filho, no Rio de Janeiro, para um grupo fechado. Dotado de um didática peculiar para o ensino da Filosofia, o mestre baiano é figura bem conhecida no meio acadêmico da Filosofia no Rio de Janeiro.

Até lá então!

Beto Benjamin

7 comentários em “Em busca da leveza perdida… – parte 2

  1. Pude testemunhar esse evento caprichadíssimo, que culminou num bate papo inspirado acerca do enredo (entremeando psicanálise, literatura, cinema e a própria vida).
    Por mais encontros assim, mais-que-necessários! E que ótimos os textos dos “rapazes”. Parabéns pela organização, caro Roberto!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Parceirao velho, apesar de ser fã de “Seu Nacib”…nunca assisti o filme Olhos Negros…..mas, vou corrigir esse erro.

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  3. Me impressiona e ainda me emociona assistir ou conhecer histórias como essa, cheia de princípios como honra, altivez e cavalheirismo… Me sinto como um leitor de Dostoiévski, viajando num mundo antigo, duro mas cheio desses princípios, onde até os vilões tinham honra, usavam-na e se orgulhavam disso.
    Pena que hoje essa postura desapareceu e nos sete bilhões de habitantes da terra, a probabilidade de 2 indivíduos com essa característica se encontrarem é baixíssima…. quase inexistente.

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    • E muito duro Edu ser testemunha da História. Sempre há tempos mais canalhas que outros. Em se tratando de Brasil então, vou te contar! Seu comentário abrangeu todo o planeta de modo que compreendo e até compartilho do seu cinismo sobre a humanidade, agora com h minúsculo….

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