Para quem curtiu a entrevista de Aleixo Belov recomendo a Websérie Aleixo Belov na Antártida. Confiram os Episódios na íntegra:

 

  • Episódio 1 – Salvador – Ilha Bela – Punta Del Leste

 

  • Episódio 2 – De Punta Del Leste a Baia Bom Sucesso

 

  • Episódio 3 – Baia de Bom Sucesso – Ushuaia – Antártida

 

  • Episódio 4 – Antártida (Arquipelágo de Melchior) 

 

  • Episódio 5 – Antártida (Cuverville e Port Locroy)

 

  • Episódio 6 – Antártida (Port Locroy e Vernadsky) 

 

  • Episódio 7 – Da Antártida (Vernadsky) a Ushuaia

 

  • Episódio 8 –  De Ushuaia a Salvador 

Produção espanhola-argentina de 2015 dirigido por Cesc Gay, Truman traz consigo Ricardo Darin e Javier Cámara num dueto carregado de amizade e recordações com diálogos e situações onde o drama e humor do personagem de Darin, Julián e seu cachorro Truman nos fazem percorrer uma lenta mas, inexorável espiral em torno da morte.

Julián tem um câncer em estágio terminal. Resolve encarar o fim e até precipitá-lo, como se fosse mais um ato do cotidiano, se recusando a seguir os padrões que, em geral, conduzem os pacientes de uma doença incurável invariavelmente à auto-piedade, resignação e comiseração. Drama.

Tomás, melhor amigo de Julián – papel desempenhado por Javier Cámara  faz com maestria o “pas-de-deux” vivenciando, como coadjuvante, as situações criadas por seu amigo. Os diálogos bem elaborados e sem rodeios nos possibilitam, até mesmo, rir do inevitável fim que se aproxima.

truman_still_h_2015

Truman, Tomás e Julián

Certamente um dos maiores nomes do cinema latino-americano – senão o maior – na atualidade, Darin dá um show de simplicidade e domínio da arte de representar, com seu personagem simples, “demasiado humano” e suas expressões carregadas de nuances, olhares, silêncios, reflexões e dúvidas que emocionam qualquer um de nós!

Uma abordagem bem humorada da finitude da vida não é algo que se vê no cinema a toda a hora. A busca ansiosa de Julián por deixar “as coisas concluídas”, Truman “bem cuidado”, os parentes próximos e amigos “bem resolvidos”, as situações do cotidiano “encaminhadas”, fazem de Truman um filme leve e despretensioso até a não aceitação do fim, quando Julián se rebela e decide tomar em suas mãos o último ato de sua própria vida.

Não. Não se preocupe. Julián não indica caminhos, nem lhe obriga a fazer escolhas! Ele apenas se dedica com afinco, perseverança e humor a buscar a sua própria escolha. Deixa no ar para quem quiser refletir os temas do suicídio e da morte assistida. Só para quem quiser…

Confiram abaixo o trailer de Truman.

Beto Benjamin

 

 

Antes de finalizar a entrevista de Aleixo Belov dando continuidade ao post de 31.12.2015 – abordando, nesse final, a sua viagem à Antártica – confiram abaixo a pérola musical que Juracy Villas-Boas, amigo e sócio de Aleixo, garimpou e enviou para o Nunca se Sabe!

Se Aleixo tinha o desafio de enfrentar num veleiro os mares do mundo – com sua imensidão, mistérios, tempestades, forças e surpresas – vejam o “desafilho” musical que o saudoso amigo Osmar Macedo – baiano criador do Trio Elétrico – propôs a  Armandinho seu filho e herdeiro musical .

Comprovando o ditado popular que “filho de peixe, peixinho é”, Osmar juntou o “útero” ao agradável homenageando seu amigo Aleixo, que acabava de chegar ao Rio da primeira volta ao mundo – e a todos nós – com uma farra elétrica memorável com solos imperdíveis produzidos pelas cordas de seus bandolins mágicos.

Confiram, tomem fôlego e vamos ao final da entrevista do navegador, agora não tão solitário assim…

 

B.B.: Falando da Antártica, foi emocionante a travessia do Canal de Drake ?

Aleixo Belov: Atravessei o canal de Drake numa “janela” de tempo razoável. Três dias e um pouquinho. O pior foi último dia, quando apareceu uma neblina na chegada e, eu não sabia o que fazer.

Tinha duas opções: seguir mantendo a velocidade – mesmo sem enxergar o que estava na frente arriscando a bater num icebergue – para não pegar a próxima frente fria porque lá a cada dois dias, dois dias e meio, três dias chega uma frente fria. Ou diminuir a velocidade do barco por causa da neblina e dos icebergues, se arriscando a pegar a próxima frente fria.

Chamei o pessoal e perguntei: “o que é que vocês acham?” Mantemos o rumo prestando bem atenção para descobrir se vem  icebergues? (sabendo que só se enxergava 50/60 metros à frente; além, não se enxergava mais nada…), contando ainda com a ajuda de dois radares ligados com duas escalas  diferentes…Como eu nunca tinha visto gelo no radar, não sabia como ele se apresentaria mas, dizem que aparece.

Decidimos manter a velocidade. A gente “olha bem”… Tinha uma pessoa fora, observando, naquele frio “retado”. Uma outra pessoa olhando simultaneamente os dois radares e uma terceira pessoa  observando tudo. Fizemos o revezamento: olhando, olhando, olhando…

Conseguimos avançar, reduzindo muito pouco a velocidade e assim chegamos à Antarctica. Foi um dia inteiro pegando essa neblina terrível e surpresa. Quando chegamos, apareceu um vento que espantou a neblina…

O precipício foi  muito importante porque eu tinha que entrar num canal estreito e o GPS acusava uma diferença de três quartos de milha de erro. Uma milha equivale a 1850 metros e o canal só tinha 200 metros de largura onde eu ia entrar.

Entrei no visual e quando ancorei no mar o GPS dizia que eu estava ancorado em terra!…

A conclusão é que existem diferenças entre as cartas digitais e a realidade. Em certos locais essa diferença é grande. Enfim, chegamos à Antártica. Quem ia reclamar? Foi uma beleza, uma verdadeira farra. Todo mundo subiu as montanhas de gelo, escorregou daqui e dali, uma festa…

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

A Antártica e seus icebergues

B.B.: O que você sentiu ao ver aquela paisagem branca e gelada da Antarctica?

Aleixo Belov: Ah! Foi lindo! Aquelas montanhas imensas, aquele negócio cheio de gelo. A paisagem toda branca. Todo mundo eufórico. Saltamos em terra…

Agora, como é que se ancora na Antartica? Só pode parar num lugar raso. Se parar num lugar fundo, vem um icebergue, passa por cima de você e te leva.

Um icebergue pesa duzentas/quinhentas toneladas, quem sabe?… Se ele vier, lhe carrega para o oceano e acabou. “Zé fini…”

Então, joga-se a âncora, passam-se os cabos amarrados nas pedras em terra e puxa-se a popa do barco, até ele ficar no raso numa profundidade de cerca de três metros. É assim… Qual a vantagem? Simples: um icebergue fica quase todo dentro d’água – só um quinto dele fica fora -. Então ele “cala” muito.

Os icebergues grandes encalham antes e não conseguem lhe “morder”. Entendeu? Já os pequenos, não metem medo. Não fazem nada.

Foi isso que fizemos. No primeiro dia não fomos em terra porque chegamos tarde. Todo mundo esgotado pelo esforço da travessia. Precisávamos mesmo era descansar…

IMG_0702 por Juracy Villas Boas ∏

Fazendo o reconhecimento do “terreno”

B.B.: Espere um pouco… Não apareceu nem um icebergue na chegada de vocês?

Aleixo Belov: Apareceram só na chegada. Antes, não. Mas, poderia existir. Os icebergues vão longe. Dependem da correnteza, do vento… No outro dia cedo, fomos para terra. Subimos aquelas montanhas e nos deliciamos.

Eu avisava o pessoal:

“Cuidado que tem lugar em que o gelo racha. Chama-se “crevasse” em francês. Tem gente que cai, depois vem a neve fofa, por cima cobre e ninguém percebe.”

Você passa, cai numa brecha, lá embaixo. Se arrebenta todo e não tem como sair. Tem que tomar muito cuidado por onde anda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Crevasse

Geralmente quem anda nesses lugares se amarra numa corda. Cinco ou seis pessoas juntas a uma certa distância um do outro. Se um cair, os outros seguram e tiram. Mas se cair aí, pode quebrar braço, perna etc. Enfim se lascar todo…

Conosco deu tudo certo. Depois cheguei em Melcke. Passeamos bastante por lá. No dia seguinte, subimos as montanhas e no terceiro dia fomos andando para um novo lugar. Fomos para Cuverville. Ventou muito nesse dia. Caiu muita neve. Teve neblina de novo mas, já estávamos dentro dos canais. Não tinha onda. Ia devagarzinho. Chegamos na segunda locação. Lá tinha muito pinguim.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

“O que será que esses caras vieram fazer aqui?”

Na primeira não tinha tanto pinguim mas, na segunda era só o que tinha. Ficamos muito “invocados” de ver como sofremos tanto com o frio. Isso apesar de ter trazido roupas especiais: gorros, capotes, casacos, meias de lã e botas revestidas com feltro de lã. Estávamos muito bem protegidos, com óculos desses de esquiador, de ampla visão. Tudo cobertinho…

Lá fora os pinguins não “estavam nem aí”. Nós é que invadimos o território deles porque na realidade eles estão em casa. Você precisava ver aquela cena:

Os pinguins andando descalços sobre a neve e o gelo, sem reclamar nada!

Em seguida, saímos de Cuverville e logo pegamos um canal entre as ilhas, icebergues, isso e aquilo e depois fomos a Port Lockroy. Lá, tem uma casas de madeira que são os museus que vendem livros sobre a região da Antártica. Comprei bastante: dez ou onze livros. Vende camisa, souvenir. É inglês,  um posto pequeno.

Foi lá que eu encontrei com o Skip Novak, o grande velejador – mundialmente famoso – que já era meu amigo. Visitei o barco dele antes – quando estava fabricando o meu – para pegar algumas ideias. Ele foi a bordo e mostrei onde apliquei as coisas que ele tinha me ensinado. Foi muito interessante. Ficamos um pouquinho…

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Meu amigo Skip Novak

De lá fomos mais para o sul. Eu queria ir para base ucraniana de Vernardsky no sul da Antártica não somente porque eu tinha nascido na Ucrânia. Na realidade, todo mundo que passa lá visita a base ucraniana. É um lugar interessante mas, o canalzinho estreito com curvas e um bocado de pedras. É raso e complicado chegar lá. Um verdadeiro caracol. Se faz um arrodeio retado.

Eu tinha tomado aula de como ir pra base porque a carta náutica não mostra direito. Tem apenas umas indicações. Pela carta você não chega. Tem que obter conhecimento local. Eu já tinha tomado aula com Oleg, com o cara de outro barco, o Pomorange.  Você chega em Ushuaia antes, eles tem esses desenhos feito a mão desses pequenos portos, com todos os lugares rasos bons de parar. O cara me deu um “pen-drive” que tinha mais de cem fotos desses desenhos feitos à mão, rascunhos. Claro que não são desenhos perfeitos mas dão uma boa indicação. Então, copiei tudo.

Lá também existia um australiano que já tinha ido seis vezes à base ucraniana. Ele levava turistas para lá. Pois bem o cara me deu mais uma aulazinha. Me explicou como é que tinha que fazer para não encalhar.

Me “mandei” um dia de manhã cedo. Fui na frente mas, encontrei muito gelo. Tinha lugar que para passar era um dificuldade. Tinha que empurrar o gelo, evitar isso e aquilo. Arrecifes, pedras mal cartografadas. Tinha que ir com muito cuidado mesmo.

Veja só o que aconteceu. O australiano saiu muito tempo depois de mim. Quando eu estava chegando no arquipélago daquelas ilhas – chama-se Ilhas Argentinas – onde fica a base ucraniana ele já vinha me alcançando. Eu reduzi a velocidade. Deixei ele ir na frente e decidi seguí-lo. Ele que já conhece tudo. Vai lá!

Pois ele foi na frente e encalhou. O barco dele era de fibra de vidro e não tinha quilha retrátil. O meu tem. Meu barco tem 2,30 m de calado, quando eu arreio a quilha fica com 5,30 m. Se eu encalho não acontece nada. Levanto a quilha e saio do encalhe. Mole.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

“Lá vem o icebergue! Pega que é seu Alan!…”

Ele encalhou feio! Rapaz, botou força no motor para sair do encalhe, “fumaçou” tudo e o barco não saía. Então devagar me aproximei dele e encalhei também mas, sem medo nenhum porque tinha a quilha retrátil e já ia passar o cabo de reboque, quando ele conseguiu se soltar. Não precisou de ajuda.

Deixei meu barco encalhado, peguei o caíque com o motor de popa e fui até a base ucraniana. Voltei pois era apenas para tomar conhecimento do caminho. O australiano chegou na frente e escolheu o melhor lugar para ancorar.

54_MG_9243

“Eles nem sabem por que estou rindo!”

Os canais não são apertados mas, são muitos. Tem muito lugar para ancorar mas, ele escolheu o melhor lugar para ficar. Eu escolhi um lugar menos bom mas perto dele também. Amarrei o barco em duas pedras em terra, joguei a âncora e tal. Só que o barco dele era de fibra. Ele deu azar pois essa área tinha muitos icebergues. Não eram icebergues grandes mas, para um barco de fibra era complicado. Pois, os icebergues foram todos para cima dele.

Teve um que enganchou na minha corrente e eu comecei a empurrá-lo. Peguei o motor de popa, encostando e acelerando. Ele não quis sair mas, de repentes, ele escapuliu da minha corrente e foi para cima do barco do australiano. Eu gritei:

“Alan, um presente para você.”

Rapaz, o cara ficou “retado” comigo. Enquanto eu estava me divertindo porque o icebergue não era grande e ia para cima dele. Ele então pegou vários cabos e amarrou o icebergue numas pedras. Para ele ficar quieto ali. Eu nao sabia que se amarrava icebergue. Pois ele amarrou. Amarrou numa pedra, numa posição tal que quando ele tesou o cabo, como a correnteza não era muito grande, o icebergue  se acomodou e dormiu ali do lado dele sem incomodá-lo. Vivendo e aprendendo.

Falei pelo rádio em russo com os ucranianos. Eles marcaram a data para visitar a base. Não marcaram para ir naquele dia não. Marcaram para ir dois dias depois. Eu pensei que era alguma coisa especial mas na realidade tinha oito barcos na região. Todos foram convidados para ir no mesmo dia. Eu fui lá, falei russo com todo mundo. Traduzi para a minha tripulação toda.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Com os “camaradas” ucranianos

Eles fabricam e vendem vodca na base. Para nós e minha tripulação a vodca foi de graça. Teve gente que bebeu vodca até dizer chega… Eu comprei um bocado de souvenir numa lojinha deles. Conversei, fiz fotos…

Eles falaram que faziam pesquisas na base: do buraco de ozônio, das bactérias, das plantas, dos animais, do vento, do tempo, de tudo enfim. Falou que essa base antigamente era inglesa e foi vendida por um euro para os ucranianos, com a condição de que toda pesquisa que eles fizessem seria do mundo, não apenas deles. Foi muito interessante.

Eles marcaram para depois do expediente a visita a todos os barcos. Encontramos com todo o pessoal que foi visitar a base. A turma do barco australiano, todo mundo estava lá. Na volta, era de noite mas, lá não escurece no verão. Apenas fica mais claro e menos claro. Se enxerga tudo. Estava ventando muito e eu não tinha condição de chegar ao barco. A duras penas consegui chegar no meu barco. Dormimos abraçados com os icebergues mas, não eram grande. Dormimos no meio daquele gelo todo.

No outro dia soltamos os cabos em terra e fomos embora. O australiano teve que sair dali.

IMG_1790 por Juracy Villas Boas ∏.jpg

“Com esses caras por perto, melhor tomar conta do filhote!”

Eu já tinha visitado quatro locais na Antártica. Aí a previsão do tempo era abrir uma nova janela para atravessar o Drake de volta. Eu resolvi ir embora. Eu saí da base ucraniana até Ushuaia sem escala. Mas, não foi Ushuaia só não. Na verdade fui até a primeira ilha no Chile.

Eu parei em quatro lugares na Antártica. Eu podia voltar um pedacinho, mas rapaz eu peguei o barco e “sentei a porra”. Saí velejando por aqueles canais, contornando icebergues, tudo. Peguei um vento na cara com dois motores acelerando na toda para fazer um nó de velocidade, um nó e meio. E olhe lá.

Com a maior dificuldade para avançar mas, não tinha maiores riscos porque os icebergues a gente via. Se o motor falhasse ai seria complicado. Fui até um lugar onde dava para mudar o rumo e o vento deixaria de ser na cara. Por isso o barco não avançava. Então melhorou. Atravessei o Drake direto – sem escalas – e passei ao lado do cabo Horn. Fizemos umas fotos e parei em Toro.

LIGIA com Centollas

Ligia com as centolas

B.B.: E o banquete das centolas?

Aleixo Belov: Apareceu um barco de pesca com esses caranguejos querendo trocar por whisky. Não carrego whisky no barco mas, tenho chocolate, leite em pó etc. No meu  barco não entra cachaça. Eles toparam. Deram seis centolas e em troca, dei a eles um bocado de conserva, chocolate. Fiz um escambo.

Então comemos as centolas. Um caranguejo com um metro de comprimento. Veja na foto a Ligia segurando na ponta do caranguejo entre uma perna e outra. Veja o tamanho do bicho! É muito gostoso.

Parei também em Porto Williams, que era outro porto no Chile. E por último, em Ushuaia onde a tripulação voltou para Salvador porém dois deles, que foram comigo, ficaram. Era meu pessoal mesmo. Com esses, voltei para Salvador.

Apareceram mais três que só queriam fazer cinco dias de viagem. Queriam parar aqui, parar ali, saltar porque as mulheres iam reclamar. Disse para mim mesmo:

“os caras vem para o meu barco e ainda querem fazer o meu roteiro, onde eu tenho que parar?… Filhos da puta…”

Peguei o barco e sai de Ushuaia – sem escalas – até Angra dos Reis. Dezessete dias. “Matei” os caras. Depois vim para a Bahia. Acabou a viagem. Foi ótimo!

Paisagens e amigos para recordar

B. B.: Após tantas viagens, ver tanta coisa e tanta gente, o que você tem a dizer sobre a vida?

Ninguém vive de passado. Se vive do presente. Tem gente que não vive o presente pensando muito no futuro e lembrando do passado. Na realidade a vida é o presente. A vida é assim: você cresce, cresce e depois entra em decadência.

Eu me lembro que era um jovem forte. Hoje, não tenho mais a força que tinha. Estou motorizando os guinchos do barco pois não tenho mais a força para “bater aquelas catracas”. Eu não tenho mais o equilíbrio. Era um gato. Hoje eu caio com facilidade. Era forte, bonito, conquistava as mulheres com uma facilidade retada. Agora não conquisto mais.

Então a vida é assim: você sobe e desce em vários aspectos. Intelectualmente acho que estou bem porque apesar de estar relendo todos os filósofos que li nos meus vinte, vinte e cinco anos, a memória já não é a mesma.

Só dá para ler filosofia quando se está bem. Se está com um problema é como se um mata-borrão tivesse encharcado tudo. Não absorve. É preciso ter paz para poder pensar…

Se não se tem paz, não se consegue planejar.
As coisas boas e bonitas da vida perdem sentido.
Você não sabe para onde vai.
Fica perdido!

É preciso haver uma certa harmonia entre o sentimento e a realidade.
Entre a vida, o amor, a amizade e os ódios que acontecem…

Não é uma coisa simples não!…

Nota: As fotos desta entrevista foram feitas por Leonardo Papini, Juracy Villas-Boas e Nilton Souza.

Esta é a continuação da entrevista de Aleixo Belov postada em 10.11.2015, que pode ser conferida aqui.

B.B.: Mas Aleixo, acabou por que?

Aleixo Belov: Aquele rio que eu tomei banho com o pessoal não consegui mais localizar. Depois descobri porquê. Bali passou de trezentos mil para três milhões de habitantes em pouco tempo, saturando e poluindo tudo.

O rio de água cristalina passou  a ser de água barrenta, cinzenta com uma espuma asquerosa, por cima. Por essa razão eu não o estava encontrando mais. Um cenário horrível. O rio simplesmente virou esgoto.

Ninguém mais tomava banho nu – nem no porto, nem em lugar algum – e não se dava mais a mão para você segurar meia hora. Por fim, todas as portas se trancavam porque a ilha estava cheia de ladrões…

Se você descobrir um lugar que é um paraíso, não conte prá ninguém… Para não acontecer o mesmo que aconteceu com Bali!

B.B.: E a travessia do Oceano Índico? Como foi feita?

Aleixo Belov: Eu resolvi que ia mesmo. Decidi que não esperaria a passagem da estação dos ciclones e atravessaria o oceano…

Ou você tem estrela ou não adianta viver. Para que?

Você tem que ter estrela. Eu vou atravessar sim e chegando lá em Cape Town vou ligar para os amigos. Pronto. Decidido peguei meu barco e saí sozinho de Bali…

Quatro dias depois bateu um temporal tão forte que o barco não conseguia avançar de jeito nenhum. Evidente que eu não queria andar para trás porque seria uma vergonha. Não conseguir avançar contra aquele temporal mesmo reduzindo as velas, lutando dia e noite foi um desespero. Até que aquela idéia de telefonar para os meus amigos, me abandonou completamente.

Fiquei foi “lenhado”, porque dentro de mim moravam duas pessoas:

Um – que era cuidadoso, avaliava tudo, só agia quando tinha certeza e um outro, que só faltava  voar… Achava que podia tudo, não tinha medo de nada. Era aquele negócio, aquela energia…

Foi esse – que não tinha medo de nada – que me empurrou para sair na estação dos ciclones. Quatro dias depois, quando o “pau comeu”, o filho da puta me abandonou e chegou o outro.

Eu fiquei “lenhado”[gentil expressão do dialeto baiano que significa fod#@*…]. Mas fiz toda a força que tinha que fazer para não sucumbir. Peguei um ciclone mas, não peguei num lugar forte não. Ele passou distante e senti só uma “rebordozazinha”. Não naufraguei, não aconteceu nada, sofri “como o quê” mas, não parei. Não voltei. Continuei seguindo – com um medo retado – mas botando o barco para andar. E “vamo que vamo”.

O trecho por onde passava o maior número de ciclones durou cerca de dez dias. Nesse trecho, botei o barco para andar rápido dia e noite… Sem diminuir a velocidade: Pan, pan, pan….

Levei cinquenta e nove dias de Bali para Cape Town, seis mil milhas bem suadas.

DSC_1573

Veleiro Fraternidade na Baía de Todos os Santos em Salvador – Bahia

Cheguei em Cape Town com uma energia, uma coisa, um carisma. Liguei para todos os meus amigos no Brasil. Agora vem a parte boa. Apareceu uma mulher linda – uma verdadeira deusa – chamada Barbara. Descobri que ela tinha um caso com um cara de lá – um motoqueiro – que era comandante de barco também. Com tudo aquilo que cheguei, tendo atravessado a estação de ciclones, cinquenta e nove dias sem ver um ser humano, sem pisar em terra, minha energia sucumbiu a Barbara. Não podia ser diferente.

Rapaz, passei noites maravilhosas com ela. Eu não lembro a idade que ela tinha. Era jovem mas, não era adolescente. Tinha os seios de virgem. Me lembro que ela me convidou para sair. Fomos jantar. Quando terminou, ela disse:

“Se você quiser, você pode dormir aqui na minha casa desde que você se comporte bem”.

Respondi na hora: “Mas é claro. É comigo mesmo”.

Nos deitamos: ela de “calçolinha” e eu de cueca. Veja a cena: os dois deitados, bem comportados. De repente, quase pega fogo nos lençóis. Rapaz, foi uma trepada daquelas… Ave-Maria. E não foi uma só não. Naquele tempo…

Foi muito bom, ter atravessado o Índico nessa estação. Ter conseguido levar essa energia com garra até o fim. Em Cape Town fiquei amante de Barbara por um tempo. Amei assim, até dizer chega… Depois partir rumo ao Brasil, meu destino…

B.B.: E o que fez depois que chegou?

Aleixo Belov: Tinha projetado naquela época a carreira naval da Corema, que era para fazer tudo debaixo d’água com vigas pré-moldadas  e emendadas. Fazer concreto submerso emendando as vigas debaixo d’água com estacas. Tinha feito o projeto o pessoal fez a parte em seco e não tinha quem fizesse a parte dentro d’água. Eu tinha idealizado o processo.

_R0C7062 por Nilton Souza

Obras da Belov

Já foi obra da Belov Engenharia. Eu tinha saído da Mendes Júnior e estava desempregado. Fundei a Belov Engenharia e fiz a carreira naval da Corema que ficou uma maravilha.

Publiquei um livro, “Uma Viagem em Solitário” contando as aventuras da primeira volta ao mundo. Já ia dar a segunda mas, uma coisa conspirou contra mim. Eu tinha ganho um bom dinheiro e não tinha patrimônio. Resolvi fazer uma casa no Horto Florestal em Salvador. Isso me fez adiar a viagem por mais seis anos. Construí uma casa de três pavimentos. Ficou porreta. Depois, fui dar a segunda volta ao mundo. Ainda teve a terceira, já com os filhos do segundo casamento crescidos.

4a-volta-ao-mundo-aleixo-belov_2

Primeiro livro

Mais tarde fui dar a quarta volta ao mundo onde levei comigo jovens brasileiros. Treinei vinte e seis jovens, gente do Brasil todo. Eu tinha preferência a pessoas desconhecidas. Queria dar esse presente aos jovens, não aos conhecidos.

 

Nessa viagem, curti muito pouco o mar pois passei muito mais tempo treinando a rapaziada e evitando que eles sofressem um acidente, alguma coisa. Posso afirmar que treinei vinte e seis jovens – garotos e garotas -, dei a volta ao mundo com eles e ninguém se acidentou. Não se perdeu nem uma unha!

A viagem foi pelo Caribe. Atravessei o Panamá, passei pelo Oceano Pacifico todo, norte da Australia, Papua, Nova Guinea – naqueles arrecifes – cheguei em Bali com eles novamente.

Foram quatro equipes de jovens divididas para dar a volta ao mundo. Depois fui para Sri Lanka, India onde me juntei a um rally pois ia passar pela costa da Somália, que estava infestada por piratas.

Os piratas chegaram a pegar outros barcos que estavam próximos da gente mas não nos apanharam. Estive em Omã, no Yemen, onde o “pau tá comendo” agora e naquele tempo estava cheio de buracos nos edifícios da cidade. O governo disse que não era para tapar os buracos. Para ninguém se esquecer da “revolução”.

A “revolução” lá foi muito simples. O governo tinha uma grande oposição e um dia, disse que ia dividir o poder com a oposição.

O presidente do Yemen chamou todo mundo da oposição para uma reunião num teatro onde ele ia discutir as coisas e apaziguar tudo. Claro que o presidente não foi. Mandou os tanques. Matou todos os opositores.

É assim que se faz “política” no Yemen. Naquela região do planeta onde o sangue ferve, mesmo à meia noite, quando o tempo está bem frio.

Na hora de passar em frente à Somália no barco foram apenas eu, um marinheiro que participou da construção do barco e uma moça que embarcou em Bali. Taís. Era baiana  mas estava na Austrália. Disse que nunca tinha andado de barco. Já tinha dado apenas um passeiozinho e não entendia nada de mar.

DSC_1472

Veleiro Fraternidade singrando os mares

Nós três atravessamos a costa da Somália, nos arriscamos a ser apanhados pelos piratas. Imagina se eu enchesse o barco de alunos? Saí com doze alunos, depois diminuí para dez. Nesse trecho era eu e mais dois apenas. Atravessamos, deu certo.

Subimos o Mar Vermelho, estivemos no Sudão novamente, visitamos o deserto, todas aquelas coisas maravilhosas por lá. Depois fomos para o Egito. Paramos em Port Said, Suez, Ismailia e em outros portos. Uma corrupção só. Todo porto queria  arrancar nosso dinheiro. O Egito era uma coisa horrível nesse ascpecto. Apesar das pirâmides, do deserto… Quiseram me vender uma Coca-Cola, no deserto, por vinte dólares! Uma Coca! Não comprei.

Disse ao comerciante-ladrão:”Essa Coca Cola vai ser sua”.

De lá fomos para o sul da Turquia, para Fenich e lá entrei nos Dardanellos e coisa e fui parar em Istambul Lá visitei o Grande Bazar mais uma vez pois já conhecia. Me adiantei, entrei no mar Negro e subi até o norte. Cheguei a Odessa na Ucrania, o lugar onde tinha nascido.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Enfrentando as tempestades

Levei alunos para a Ucrania. Fui muito bem recebido, inclusive porque tinha contactado a Embaixada Russa no Brasil, me recomendaram e tal, ajudaram em tudo. Peguei oito horas de trem até Karkov e uma hora e meia de ônibus cheguei em Merefa onde eu nasci e moravam meus parentes. Visitei meus parentes todos. Era uma festa cada dia. Levei uma aluna para filmar e fotografar eu com os parentes todos. Depois os parentes vieram visitar o barco.

Na volta não parei em Istambul de novo porque queriam me cobrar 350 euros só para fazer a saída do país. Na subida, eu passei só na Turquia apesar de passar por tantas ilhas gregas porque quando muda de país é tanta documentação, muitos pagamentos que tem que apresentar. É complicado. Na volta só passei pelas ilhas gregas. Em Lesbos, nas ilhas das lésbicas, visitei várias praias de nudismo, andei pelado naquelas águas geladas, horrível comparadas com o Brasil, com a Bahia. Brasil é muito grande. Aqui a água é morninha, uma maravilha.

De lá fui para Creta de novo. Andei por dentro das ilhas gregas e fui me embora. Parei em Siracusa na Italia, depois parei na Espanha. Ai completei com nova tripulação que passou nas Canárias e ai para o Brasil terminei a quarta volta.

Treinei 26 pessoas. Eu curti menos porque fiquei o tempo todo preocupado com as pessoas. Eu não fui dar aula de como velejar, isso aí aprende na Bahia. Eu fui ensinar a andar pelo mar. Como fazer isso, como fazer aquilo. Foi bom porque eu queria fazer isso.

Dar esse presente à juventude brasileira mas eu curti muito menos do que as viagens solitárias pois eram eu e o mar. Um amor, um namoro sem testemunhas.

Sozinho você fica com os instintos à flor da pele.

Você presta atenção à tudo, a qualquer movimento, a qualquer mudança, sempre preocupado com tudo. Você tem que estar atento para os sinais, que a natureza dará para que você possa se antecipar aos elementos, aos problemas.

IMG_1951 por Nilton Souza

O Fraternidade e sua tripulação

Então na viagem com os alunos essa coisa ficou enfraquecida mas foi bom porque eu queria fazer isso. Aconteceu uma coisa inesperada, porque a Marinha reconheceu esse meu esforço e o meu projeto educacional e essa idéia foi parar na Presidencia da Republica e eu ganhei duas medalhas e o título Cavaleiro do Merito Naval. Nunca esperei isso. Aceitei. Não sou orgulhoso. Tanto as medalhas quanto os diplomas.

B.B: Como foi a viagem à Antartica?

Aleixo Belov: Fiquei aqui trabalhando um pouco e por último fui à Antártica. Eu não disse que ia para a Antártica. Disse que ia para o sul. Primeiro porque eu estava trabalhando muito, nem ajeitei o barco. Saí para a Antartica assim como quem não quer ir muito longe… O barco era o Fraternidade.

Já tinha dado a volta ao mundo com os alunos. Já estava com um barco grande, de setenta pés (21,5 m) mas não preparei muita coisa. Eu tinha muita dúvida sobre esse ano: se ia, se não ia, se ia, se não ia… até que um amigo meu disse:

“Você está esperando ter um enfarte para ir?”

Ai, me “retei” e fui. Foi esse amigo quem decidiu por mim.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Rumo à Antártica em 2014

Aí peguei uma pequena tripulação aqui em Salvador para ir descendo. Na realidade a viagem para a Antartica seria a partir de Ushuaia no sul da Argentina. As pessoas que iam comigo para a Antartica iam embarcar em Ushuaia. Fomos.

Veja o que aconteceu: as velas que usei na quarta volta ao mundo estavam queimadas pelo sol e eu não tinha percebido. Achei que ainda estavam boas. Quando cheguei em Ilha Bela as velas tinham começado a se desmanchar. Olha, foi muito bom isso ter acontecido nesse trecho. Se isso não tivesse acontecido – e as velas estavam meio estragadas  – elas podiam “abrir o bico” lá no sul onde o “pau come”. Felizmente para nós abriram o bico ainda por aqui.

Deu tempo para consertar pois ao chegar a Ilha Bela, procurei ver onde podiam fazer novas velas rapidamente. A empresa North Safe podia fazer na Argentina mas estavam com muita encomenda. Surgiu então a North Safe de Cape Town. Podiam fazer rapidamente e eu preferia pois lá tem muito vento. Se você tiver que encomendar mastro, vela etc. faça num lugar que tem vento. Então fiz a encomenda e quando cheguei no Uruguai elas já estavam me aguardando. Fiz a troca e desci para o sul da Argentina.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Aleixo e os compatriotas da Base da Ucrânia na Antartica

No caminho peguei uns tempinhos duros. Enfrentamos uns ventinhos e umas ondas que quando passavam pelo barco estremecia tudo. Parecia que a onda não estava aceitando a intromissão do barco. Ele dificultava a propagação da onda. O barco resistia. Era bom. Então, fomos em frente.

Atravessei e cheguei na Terra do Fogo. Dali dobrei à direita e entrei para Ushuaia pelo Canal de Beagle, onde Darwin fez as suas viagens. Lá desembarquei uma parte da tripulação, que foi substituída por outra, que incluía meu filho Alexei. De lá saímos, eu e mais nove. Fomos para a Antartica, passando pelo famoso Cabo Horn. Não o vimos na ida, só na volta.

                                                   Paisagens da Antartica

Antigamente para ir à Antartica em barco de madeira, velas de algodão era preciso um tipo de homem que hoje não existe mais.

Já não se fazem mais homens como antigamente.

Eles não tinham previsão de tempo. O tempo que viesse tinha que ser enfrentado. Resistiam e sobreviviam ou sucumbiam. Agora, não se viaja mais assim. Lá mesmo em Ushuaia tinha trinta a quarenta barcos enormes, levando turistas para a Antartica. As pessoas pensam que ir para a Antartica é como ir para o fim do mundo. Não é assim não. Tem que dominar certos conhecimentos.

Mas, você tem que esperar a janela de bom tempo. Esperar passar o temporal. Quando ele está passando, você sai, atravessa e chega na Antartica. Uma vez lá, se navega por dentro dos canais, entre as geleiras. Portanto, não tem onda. Tem vento, gelo, iceberg.

O barco amassou bastante batendo em gelos menores. Iceberg não morde ninguém. Anda devagar – pois não tem comandante – e vai guiado pelas forças da natureza, vento e correnteza. Ele se desloca mas, o barco é muito mais rápido para contornar. Fazer isso e aquilo… agora o gelo – os pequenos – tem lugar que está tão coalhado que tem que sair empurrando “a zorra toda” para poder passar.

O pior mesmo foi a travessia do canal de Drake que é justamente considerada a zona mais tempestuosa do mundo. O Pacífico Norte,  quero ir talvez no ano que vem se tiver saúde e disposição Talvez vá para o Alasca pois naquela região também o pau come bastante.

A entrevista com Aleixo Belov finaliza no próximo post

  1. As fotos desse post foram feitas por Leonardo Pappini, Nilton Souza, Hélio Viana e Juracy Villas Boas.

Com a publicação deste belo poema, presto uma homenagem póstuma à Maria de Fátima C. Gesteira – Mara –  minha ex-companheira e mãe de nossas três filhas: Joana, Gabriela e Carolina, que nos deixou em 22.11.2015 depois de lutar contra uma dura e longa enfermidade.
Beto Benjamin

Depois de criar o homem, Deus pôs-se a pensar
O que eles farão da vida, sem o medo dela passar
Criou então algo novo que consumisse a vida aos poucos
E como moeda de troca fosse gasto a cada evento
Usaríamos a todo instante sem ter direito a troco
E a ele deu um nome, batizou-o então de TEMPO

Mas logo após criá-lo, notou que não o sabiam usar
Viviam de forma tola, como se nunca fosse acabar
Mas como exigir que o homem pudesse saber gerir
Algo que não podia tocar, nem mesmo ver ou sentir
Então o grande Arquiteto criou um irmão pro tempo
Possível de ser sentido, lhe deu o nome de VENTO

Esqueçam portanto o tempo
Difícil de compreender
Aprendam mirando o vento
Que em poesia ensina a viver

O vento quando se apressa, e sopra o seu vigor
Destrói o que lhe atravessa, causando pânico e dor
Já sua brisa leve, constante e cadenciada

Transporta pequenos grãos, e parece não dar em nada
Mas muitos pequenos grãos, de forma coordenada
Constroem dunas enormes, semeiam a terra arada

O vento só anda pra frente
Não lembra por onde passou
Por saber viver o presente

É jovem e nunca cansou

Às vezes, sopra tão leve a ponto de silenciar
Assim como fazemos com o tempo,
Passamos a questionar
Estaria ele ainda aqui? Difícil imaginar
Mas bastam alguns segundos, para termos de respirar

Então nos parece claro, que Deus com seu dedo em riste
Nos fala de forma firme: “Não é só o que tu vês que existe”

Juntos, o tempo e vento, nos passam a grande lição
Vivam daqui pra frente
Saibam pedir perdão

Construam sem ansiedade, não deixem de acreditar
Devagar se chega longe, o que nos atrasa é parar
Creiam no que não veem, saibam agradecer
Busquem menos posses, preocupem-se mais em ser
Bailem por onde passam, espalhem a esperança
Ajudem o que é mais velho, encantem uma criança
Partam sem deixar mágoas, demonstrem o seu apreço

Onde veem um fim é sempre um novo começo

Meu tempo ainda é mistério, de tudo já ouvi falar
Uns dizem que um dia acaba, que tenho de aproveitar
Mas de outros ouvi também, com muita convicção
Que a vida é só passagem e a morte, conexão
Mas Deus me deu o vento, para o tempo melhor entender

Lhe deixo a face aberta, e peço pra responder
Uivando em meus ouvidos, sussurra então pra mim:
“Meu jovem, não se preocupe, seu tempo não terá fim
Por mais que seu corpo acabe, e pó você venha a virar
Lhe carregarei no colo, e seu pó irei semear
Te transformarás em flores e vidas irás enfeitar

Ou mesmo talvez em frutos, pra outros alimentar
Estarás então em tudo, assim como eu estou
Serás como tempo e vento, irás para onde vou
Não espere esse dia chegar, já podes compreender
Onde avistam seus olhos, em tudo que pode ver
Existe a unidade, são todos pedaços seus
Por isso és dito homem, mas revelo-te: também és Deus!

Eduardo Moreira (autor de “Encantadores de Vidas”)

 

 

Beto Benjamin (B.B.): Lamento informar mas, a entrevista que gravamos em janeiro passado “foi pro brejo”. O arquivo no iPhone foi corrompido (parece que a moda pegou no Brasil) e não consegui recuperá-lo. Vamos gravar nova entrevista e você passa ser o primeiro entrevistado do Nunca se Sabe a gravar duas vezes… Parabéns!

Aleixo Belov: É a vida, né? Fazer o quê? Rapaz, cada hora é uma hora. Agora, fique sabendo que cada vez que conto uma história, conto diferente. Nunca uma pessoa conta a mesma história duas vezes. Depende de tanta coisa… Do estado de espírito; tem dia que conta a história de um jeito, outros, de outro. Tem hora que você está animado, outras, desanimado e por aí afora… Já que temos que fazer tudo de novo, vamos começar logo então?

Como tudo começou! O presente que inspirou o gosto pelo mar!

B.B:  É verdade que um óculos de mergulho que você ganhou lhe fez se interessar pelo mar?

Aleixo Belov: Aprendi a nadar muito tarde, só aos treze anos porque meu pai não tinha dinheiro. Era imigrante aqui no Brasil e não era sócio de clube nenhum. Ia aprender a nadar aonde?

Aos dezesseis anos ganhei um óculos de presente de um amigo que ia para o Itamaraty e não podia levar tudo o que tinha. Era um óculos de mergulho. Eu nem sabia para que servia aquilo mas, esse presente, mudou o meu destino.

Veja só, naquele tempo não tinha televisão – nem em preto e branco – que dirá Discovery Channel! Hoje as crianças podem ver o pessoal mergulhando na televisão a cores e até em 3 D… Naquela época ninguém mergulhava. Ninguém conhecia os equipamentos de mergulho. Ninguém sabia o que era um óculos de mergulho.

Pois bem, um dia peguei o óculos e entrei no mar. Inicialmente no raso, com água nos joelhos. Depois andei mais um pouquinho, mais outro pouquinho e, de repente, terminei me apaixonando pelo mar. Veja só o que aconteceu em seguida:

Arriando a vela do Três Marias

Dei uma volta ao mundo sozinho. Duas, três, quatro. Fui à Antártica e à Groenlândia.

Estudei engenharia e misturei o mar com a profissão. Entendendo bem do mar, acabei como engenheiro me especializando em obras marítimas.Foi tudo muito natural. Isso me ajudou muito a viver. Porque fui vivendo, trabalhando, curtindo, navegando e mergulhando. Tudo no mar. Não é pouco.

Hoje na minha empresa – a Belov Engenharia – trabalham mais de trezentos mergulhadores na Bacia de Campos no Rio de Janeiro.

Isso foi o resultado de um óculos de mergulho!

Claro, existiam outras possibilidades. Fiz vestibular para o ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Graças a Deus não passei, apesar de classificado em sexto lugar no vestibular da Escola de Engenharia na UFBa. Teria sido engenheiro eletrônico e certamente ficado longe do mar. Tá vendo?

Estudei para o vestibular junto com um colega que foi aprovado no ITA mas, aqui na UFBa ficou em décimo lugar. Acho que o destino me colocou no lugar certo. Estudei na Escola Politécnica e me tornei engenheiro civil. O conhecimento adquirido na engenharia ajudou muito a construir os barcos, a entender a natureza das coisas. Foi muito melhor pois me aproximei mais ainda do mar, me tornei mergulhador, navegador e estou no mar até hoje. Não saí mais.

Na vida, acontecem coisas inesperadas. Nunca esperei ganhar um presente desses. Sem esse óculos de mergulho, não teria ido pro mar mergulhar. Poderia ter tomado outro rumo e feito diferente. Se alguém tivesse me dado um cavalo, eu poderia ter me tornado  um vaqueiro. Compreende?

Cuidado com o que lhe dão de presente. Um perigo! Pode mudar sua vida, sem a menor dúvida…

B.B.: Como sua família veio parar no Brasil e como você iniciou a carreira de professor?

Aleixo Belov: Meu pai Dimitri era agrônomo na União Soviética. Cuidava de plantações de trigo, centeio, aquele cereais todos. A Rússia, onde ele nasceu fazia parte da União Soviética. Um belo dia, ele estudou Agronomia e foi trabalhar na Ucrânia – que tinha as melhores terras para agricultura do planeta –  onde conheceu minha mãe, que era ucraniana,  e se casou.

Nasci na Ucrânia – filho de russo com ucraniana – mas fui criado na Bahia. Lá, mesmo naquele tempo da Segunda Guerra Mundial, as plantações eram todas mecanizadas. Como hoje é, a plantação de soja no Brasil. Ninguém planta mais soja, milho, trigo em grande escala, que não seja mecanizada.

Nasci na época da ocupação alemã na Grande Guerra, quando meu pai resolveu ir embora da Ucrânia. Ele tinha opções: podia ir para os Estados Unidos, para o Brasil ou para outros países. Disseram a ele que o Brasil tinha uma grande extensão territorial e que ia precisar de agrônomos. Então ele decidiu vir para o Brasil. Fez bem, eu penso.

Eu não gostaria de ter ido para os Estados Unidos porque a minha filosofia de vida não se casa muito com a filosofia daquele país.

Embora cada pessoa é uma pessoa, uma coisa é um país capitalista, os donos das fábricas de armas etc. Outra coisa é o povo de lá, que gosta de futebol americano e quer ser feliz como qualquer outro povo. Não tenho nada contra o povo americano, muito pelo contrário. Tenho alguns grandes amigos de lá, mas eu vim para o Brasil.

Ouço algumas pessoas dizerem que o Brasil agora está numa situação tão difícil, que se pudessem ia morar fora. Que a situação econômica e política etc. está ruim, enfim todas essas dificuldades que estamos passando. Ainda hoje alguém falou comigo que se tivesse grana teria ido morar nos Estados Unidos. Gozado… Eu podia ter morado em qualquer lugar do mundo, pois minha profissão de engenheiro me permite e ainda falo cinco idiomas. Podia ter me mudado. Mas, não.

Nunca saí da Bahia. Só moro aqui. Gosto demais daqui. Foi aqui que finquei as minhas raízes. Não são tão profundas porque foram rompidas várias vezes com as viagens que fiz. Mas, são minhas raízes…

Então, meu quando meu pai chegou ao Brasil constatou que a agronomia daqui era quase toda na base da “enxada”. Portanto, aquela experiência que ele tinha de agronomia mecanizada não foi bem aproveitada. Ele até que tentou trabalhar na agronomia aqui mas não funcionou. Migrou para a matemática e foi ser professor.

Quando fui convidado para ensinar na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, eu já tinha sido professor de matemática por mais de oito anos. Dei aulas particulares para os filhos de Norberto Odebrecht; do vice-governador da Bahia naquela época, Carybé, nosso grande pintor e para João Amado, filho de  nosso grande escritor Jorge Amado.

Meu pai foi quem começou a dar aula para esse pessoal e ficou muito conhecido na cidade. Em seguida me introduziu. Virei professor de matemática também. Quando fui ensinar na Escola de Engenharia, eu tinha dez anos de experiência como engenheiro. Já tinha uma certa vivência. Juntei a minha experiência de professor de matemática com a de engenheiro. Foi fácil para mim.

Ensinei na Escola de Engenharia por apenas quatro semestres e tive o “azar” de ter certos alunos como Beto Benjamin… [risos]. Nesse período fui professor homenageado da turma de formandos por duas vezes. No quarto semestre já não dei aula bem porque assumi a responsabilidade de construir as plataformas para a Petrobras. Deixei de ser professor por certas circunstâncias da vida.

Nessa obra trabalhava tanto, até o instante em que eu não conseguia mais me aguentar em pé.

Fui promovido a superintendente de produção e a obra era de tal complexidade que não havia tempo suficiente para resolver tudo. Por isso pedi demissão da Universidade para me dedicar exclusivamente às plataformas. Não havia como conciliar as duas coisas. Apesar de adorar dar aula.

Hoje, fora da escola, dou aula para os meus operários na Belov. Na minha empresa, atualmente com mais de mil funcionários, a maioria das pessoas entra como servente e sai como encarregado, mestre de obras, soldador profissional. Logo, minha empresa é uma escola. Meus bons encarregados me ajudam a enfrentar um mercado difícil que é o da Engenharia. São pessoas que “fiz” dentro da empresa. Muitos trabalham comigo há dez, vinte, trinta anos. Estou trabalhando com a “prata da casa”. Ensinar para mim não foi difícil. Foi até fácil. Pelo simples fato de que eu gostava de ensinar.

Quando você faz o que gosta, tudo fica mais fácil.

A idéia da volta ao mundo

B.B.: De onde surgiu o desejo de dar a primeira volta ao mundo?

Expedição Moana

A expedição inspiradora

Aleixo Belov: Ele surgiu por etapas. Primeiro me tornei mergulhador. Para pescar e ver as maravilhas no fundo do mar. Era apaixonado pelo mar. Depois, li um livro chamado “Expedição Moana” de Bernardo Gorski. Ele conta a história de quatro amigos que viajaram num barco à vela por todos os oceanos ou quase todos. Falavam muito do Mar Vermelho onde as águas são cristalinas. Claro, lá é deserto para todo lado, não chove, logo não tem como sujar a água.

Esses amigos fizeram essa viagem e mergulharam em muitos locais. Ficou guardado na minha cabeça que velejar era uma maneira fácil de viajar porque no barco tem hotel, tem cozinha, tem tudo, além do meio de transporte. Então como eu já era mergulhador resolvi que o negócio era viajar de barco, como o pessoal da expedição Moana fez.

Uma vez fui mergulhar em Porto Seguro que já foi um lugar belíssimo. Não era essa cidade de mil hotéis de hoje. Quando fui pela primeira vez, só tinha uma pousadinha com três quartos. Não tinha festa, não tinha hotel nenhum.

E eu lá nos arrecifes de fora mergulhando, apreciando a beleza do fundo do mar, no Arquipélago de Abrolhos. Adorei o fundo do mar…

Era uma coisa extraordinária, inesquecível mesmo. Aqueles corais lindos, maravilhosos, cheios de peixes, tartarugas, de tudo… Fiquei dezesseis dias mergulhando, até quebrar todas as minhas espingardas e entortar todos os meus arpões. Só voltei para Salvador quando todo o meu equipamento de mergulho tinha sido destruído. Foi ali que eu vi como aquilo era bonito. Eram os corais, os peixes etc. Então, disse para mim mesmo:

“O mundo deve ser todo bonito assim. Eu quero conhecer o mundo!”

Mergulhando em Abrolhos - BA

Mergulhando em Abrolhos – BA

Foi ali que deu aquele “estalo”, como o do padre Antonio Vieira que escreveu na areia. Foi lá que eu disse: “vou dar a volta ao mundo”.

B.B: E o que aconteceu no seu retorno para Salvador?

Aleixo Belov: Assim que voltei, fui na Ribeira olhar os barquinhos. Encontrei uns poucos barcos, mixurucas, porque em Salvador, naquela época em 1965, quando eu tinha vinte e dois anos, quase não existia veleiro. Tinha saveiro mas veleiro não. De repente, encontrei uma escuna sendo reformada por Lev Smarcevscki na beira da praia da Ribeira. Lev – como eu – era um artista, filho de russo, arquiteto, pintor, escultor etc. era o dono da escuna. Que coincidência, não é? Me aproximei e perguntei:

– “Esse barco está fazendo o quê aqui?”
Responderam: “Estão reformando. Preparando para dar a volta ao mundo.”
Pensei: ” O quê?” Parece brincadeira né! Na hora eu falei: “Rapaz, eu também quero participar desse negócio”.
A resposta foi: “Então venha trabalhar com a gente.”
Fui.

Lev Smarcevscki discutindo com um mestre a construção de uma escuna

Me deram uma lata de tinta e um pincel e lá fui eu pintar os parafusos do barco. Era um barco de madeira. Lev era um grande artista, um sonhador. Estava preparando aquele barco para sair dentro de um ano. Pensei logo em trancar o curso de engenharia para me dedicar integralmente à reforma do barco mas, por sorte, meu pai interferiu. Ele disse: “Olha, você pode viajar mas, trancar matrícula não. Continue estudando…”

Até o barco ficar pronto se passaram quatro anos. Se eu tivesse trancado tinha me ferrado. Deu tempo para me formar e, ainda trabalhar dois anos como engenheiro. Assim pude juntar um bom dinheiro. Pronto, ia viajar com dinheiro no bolso.

Chegou o dia da viagem.

O barco chamado Santa Cruz saiu de Salvador mas, a viagem de volta ao mundo acabou em Porto Rico no Caribe. Só durou quatro meses…

Fui o responsável pela navegação do Santa Cruz pois tinha estudado navegação astronômica e recebido a carta de navegador.

B.B.: Por que o Santa Cruz interrompeu a viagem?

Aleixo Belov: Durante a viagem, o barco apresentou algumas dificuldades. “Fazia muita água”. Era um barco de madeira com velas de algodão costuradas à mão por marinheiros de Cajaíba e Camamu. As velas eram boas. Os costureiros eram excelentes mas não dá para comparar com a tecnologia de hoje onde as velas são desenhadas no computador e costuradas com máquinas especiais e fios de resistência extraordinárias.

A viagem acabou em Porto Rico e de lá peguei outro barco para a Europa. Depois voltei para Salvador e continuei a trabalhar como engenheiro.

O francês e a travessia Brasil-África

B.B.:  Como foi a história do navegador francês que apareceu em Salvador querendo companhia para a travessia Salvador-Cidade do Cabo?

Livro de Pierre Chassin

Livro de Pierre Chassin

Aleixo Belov: Por uma dessas coincidências da vida soube que tinha um francês indo de Salvador para Cape Town na Africa do Sul. Ele viajava sozinho, estava com pressa de chegar para participar de uma regata que começaria em Cape Town. Procurava uma pessoa para ir com ele.

Não deu outra! Tirei férias e fui correndo me apresentar. Eu já tinha decidido que ia dar a volta ao mundo. Tentei, mas com quatro meses a viagem acabou e eu regressei sem dar a volta ao mundo. Com o francês Pierre Chassin – era o nome dele -, eu sabia que não ia dar a volta ao mundo mas, sim aprender muito durante a viagem. Ela duraria trinta e três dias. Saímos e posso dizer que em cinco dias eu aprendi – mais ou menos – como manobrar o barco dele.

Já possuía alguma experiência tendo navegado no Santa Cruz e em outros barcos ali por perto de Salvador. Essa travessia com o francês foi muito boa para mim porque depois de cinco dias de viagem eu não chamava o francês para me ajudar em nada. Quando ele estava dormindo, eu manobrava o barco sozinho. Descobri que eu podia fazer isso sozinho.

Me lembro que só para manobrar o barco no Santa Cruz teve tanta discórdia, tanta dificuldade – muita gente empilhada -. Eram oito pessoas a bordo, uma complicação retada. Na travessia eu pensei que era muito mais fácil fazer a manobra sozinho do que administrar as intrigas e egos de tanta gente.

 Decidi que ia dar a volta ao mundo mas, sozinho.

Uma coisa me marcou nessa viagem com o francês. Fui com ele fazer as compras de mantimentos para o barco e, na última hora, ele me deu uma declaração para assinar, onde estava escrito que ele não seria responsável por mim em caso de acidente. Se eu caísse no mar e morresse ele não seria responsável. Pediu para que eu assinasse e pôs no Correio para o irmão dele na França.

Aquilo me deixou extremamente encucado. Minha mulher na época, da Graça, disse: “Você vai viajar com esse cara e se ele for maluco, esquizofrênico ou paranóico?”. Respondi: “Quando uma pessoa quer ir, a pessoa vai. O abacaxi que der, se descasca no caminho”. Assim mesmo! E fui…No final a viagem foi muito boa mas, ficava o tempo todo pensando na carta.

Na saída caiu um temporal em Salvador mas, o francês não queria saber… Não quis adiar a saída porque ele tinha que chegar em Cape Town a tempo de participar de uma regata de volta ao mundo.

Logo na partida surgiram aquelas nuvens negras e entrou uma rajada de vento que rasgou a vela. A vela grande dele tinha sido danificada antes de chegar a Salvador. Tinha rasgado na parte inferior. Consertou no Rio de Janeiro. Com o vento forte que soprou, rasgou no mesmo lugar porém de tal sorte que “dando rizos” ou seja reduzindo a vela, ela continuava funcionando. E assim fomos…

Rapaz, eu enjoei na saída nesse barco pequeno do francês. A última vez que tinha navegado foi na escuna Santa Cruz.  Ali eu não enjoei porque o movimento da escuna de vinte e quatro metros era completamente diferente. O barco do francês era de regata. Nervoso o bicho pulava parecendo um cabrito. Era uma casquinha de fibra de vidro e um convés de compensado.

Levei três dias no mar  completamente enjoado que não aguentava ficar em pé. Ele  tinha um cachorro chamado Be Good  – que com seu sotaque francês ele chamava de “Bi-gudi – na tradução Seja Bonzinho. Era um cão policial que queria me morder o tempo inteiro.  Nos primeiros três dias de viagem não consegui fazer absolutamente nada a bordo. Enjoado.

No terceiro dia, Pierre fez um chá e me deu uma xícara para beber. Olhei para dentro e vi que tinha dois fios de pelo de cachorro. Disse para mim mesmo: “Puta que que pariu! O que faço agora?” Tirei os pelos de dentro da xícara e tomei o bendito chá. Melhorei do enjoo. No quinto dia tomamos um banho de água salgada . No barco tinha pouca água doce. Nos enxugamos e fomos adiante.

À medida que íamos navegando eu ia pegando a prática. Ficando mais esperto. Não sentia mais enjoo, não tinha mais nada. No nono dia eu tomei mais um banho e o francês nada. A partir daí, ninguém tomou banho até o final da viagem. Fazia um frio de lascar.

Pegamos cada tempestade no caminho. De repente um dia, bateu um temporal e as conservas começaram a cair e a rolar pelo chão do barco. Eu só olhando para o teto. As madeiras do teto eram de compensado. O barco jogava prá um lado e pro outro. Daí a pouco, começou a cair pedaços de madeira no chão. Pensei, pronto que esse barco vai se desmanchar todo mas, graças a Deus, não aconteceu. A experiência adquirida lidando com os temporais foram fundamentais para mim.

B.B.: Você sentiu medo?

Tempestade se aproximando

Aleixo Belov: Medo? O tempo todo. O medo era uma coisa latente que não saía. Só tinha medo… Com esse temporal a cruzeta desceu, saiu do lugar. Vou explicar sobre a cruzeta para aqueles que não conhecem: Tem o mastro e dele descem os cabos de aço. Para o mastro não entortar existem umas pecas transversais, chamada cruzeta. Então o cabo passa ali. A cruzeta é articulada e desceu. O cabo frouxou e a consequência é que o mastro podia cair.

O francês olhou para mim e disse: “Suba no mastro e amarre a cruzeta lá em cima.” Nessa hora, me lembrei da carta. Pensei na hora, se eu cair no mar  esse filho da puta não virá me buscar. Pensei ainda se estivesse fazendo uma manobra em cima do barco e escapulisse esse cara ia me deixar morrer…

Subi no mastro e fiz o serviço.

No decorrer dessa travessia, eu me comparava com o francês o tempo todo. Ele já era um navegador solitário. Ele só pegou um tripulante porque tinha pressa. Para velejar mais rápido na travessia precisavam duas pessoas. Senão, toda vez que anoitecesse, teria que reduzir o pano para dormir, pois o barco dele era franzino, muito rápido, muito leve.

Ele usava um óculos de “fundo de garrafa”, um grau retado. Eu enxergava muito melhor que ele. Ele fazia uma média de cinco manobras por dia. Barco de regata é assim mesmo. Toda hora tem que manobrar. Põe vela mais leve, depois uma maior, uma menor com o tecido mais grosso. Rapaz, o francês anotava tudo no seu diário de bordo.

Toda hora tinha que abrir escotilha e puxar um saco de vela que pesa muito. Eu puxava muito mais rápido que ele. Eu tinha muito mais “braço” que o francês. Resumindo, ele era franzino, careca, enxergava pouco mas, conhecia muito de navegação. Isso era verdade. Conhecia demais. Fora citado como navegador solitário em dois livros. Me mostrou os livros.

Pierre Chassin era paraquedista, mercenário, filho de um general da Força Aérea francesa. Lutou na Indochina, Vietnã, quando o Vietnã era colônia francesa e em muitos outros lugares pelo mundo. Ele ficou assim, meio doido e, quando esteve na Africa no Congo lutou como mercenário na guerra pelos minérios. Ele não era uma pessoa comum.

Teve um outro episódio que vou contar. Com o temporal, o cárter do barco ficou encharcado. Apesar da descarga possuir um dispositivo para evitar entrar água no cárter, o temporal tinha sido muito grande e não foi suficiente para proteger o equipamento. Íamos precisar virar o motor para carregar bateria, portanto tinha que remover um bujão embaixo do cárter, retirar o óleo com a agua e recolocar óleo novo. Rapaz, o Pierre se esforçou todo num lugar superapertado e não conseguiu fazer o serviço. Disse para ele: você tentou e não conseguiu. Dê licença. Fui lá e fiz. Consegui. Imagine a minha moral. Aí eu decidi mesmo: Vou ser navegador solitário!

Fiquei puto da vida quando o Pierre me mandou subir no mastro e fazer o serviço da cruzeta. Não esquecia da carta. Então quando ele dormia eu era navegador solitário. Quando eu ia dormir era ele, navegador experiente. Eu estava ali, naquela travessia, treinando para ser navegador solitário e estava felicíssimo.

A dúvida era: se eu caísse no mar será que ele voltaria para me buscar? Disse para mim mesmo. “E se ele caísse no mar eu voltaria para buscá-lo?” Era a minha chance de ser navegador solitário. “Tá rebocado, se eu volto para buscar esse filho da puta! Me fez assinar aquela carta. Ele vai se foder, se cair dentro d’água.” Eu estava começando a odiá-lo pelas coisas que ele fazia.

Finalmente chegamos em Cape Town. Os dois. A travessia havia sido bem sucedida. Então, subitamente, todo aquele ódio desapareceu por completo e eu senti uma afeição muito grande por ele. Foi quem me deu a chance de ter vivido aqueles momentos de incerteza, de luta, de competição e de afirmação.

Hoje lembro do Pierre Chassin com muito carinho. Foi uma pessoa importante na minha vida.
Na viagem de Porto Seguro resolvi um que dia daria a volta ao mundo.
Na travessia com ele,  resolvi que queria ser navegador solitário.

Depois que dei a volta ao mundo, me perguntaram: por que  fui sozinho? Por dois motivos: primeiro, achei mais fácil manobrar o barco sozinho do que administrar as intrigas; segundo, se eu podia subir uma montanha muito mais alta por que ficar subindo morrinhos, entendeu?

Voltei para Salvador e fiz tempos depois minha primeira viagem de volta ao mundo em solitário. Mas não foi apenas isso. Nessa primeira viagem de volta ao mundo eu tinha pouquíssimo dinheiro. Tinha acabado de construir o barco e não sobrou quase nada de dinheiro.Tinha quase dez mil dólares. Naquele tempo o dólar valia muito mais entretanto, era pouco para dar a volta ao mundo. Por isso eu não arriscava o barco de jeito nenhum. Só parava em porto que tinha carta náutica. Não entrava em riachinhos etc. Era para preservar o sonho. Preservava isso. Por isso, fui, fui, fui…

Visitando Bali – Indonésia 

                                                                    Vistas de Bali

Quando cheguei a Bali na Indonésia, o Oceano Índico estava em plena estação de ciclones. Eram as piores estações para a navegação. Lá eu soube de um ciclone que passou na ilha de Madagascar e arrancou todas as bananeiras da Ilha. Não sobrou nada.

A carta de ventos – pilot chart – indicava passagem desses ciclones todos. Foi muito bom chegar a Bali. Achei um lugar maravilhoso. Mas naquela ocasião eu tinha duas opções: atravessava na estação dos ciclones ou teria que esperar seis meses por lá. Tinha ainda uma terceira: pegar outro rumo.

Como eu queria concluir logo a volta ao mundo, começou a nascer dentro de mim e, de modo muito forte, aquela vontade de ir. Havia outros barcos, outros veleiros na região. Comecei a conversar com eles explicando meu plano e vontade de atravessar o Índico, rapidinho. Imagine que de Bali para Cape Town são seis mil milhas de distância.

Pensei bem, se atravessar o Índico, praticamente, cheguei em casa. Estou no Atlantico. É só gritar de lá: “Ô pessoal, tô chegando…”

Essa idéia foi crescendo na minha cabeça, foi crescendo… Quando falei com os amigos dos outros barcos o que eu estava prestes a fazer, eles me trouxeram suas cartas náuticas mostrando as passagens dos ciclones. Não pestanejei, abri a minha gaveta e mostrei que tinha a mesma carta náutica que eles e que estava ciente dos riscos que iria correr. Mas a idéia era uma só: seguir em frente agora, travessar e telefonar para os amigos…

B.B.: Quais suas impressões sobre Bali nesta e nas outras viagens? Qual o efeito do tempo e dos homens naquele paraíso?

A volta ao mundo no Três Marias

A volta ao mundo no Três Marias

Aleixo Belov: Vamos falar de Bali. Me falaram muito sobre Bali antes da viagem. Disseram que era um paraíso. Naquele tempo tinha muita gente indo pra lá. Eu também fui. Nessa primeira viagem a Bali, só vi artistas, pintores, escultores. Gente maravilhosa.

Meu barco – o Três Marias – foi todo esculpido por dentro pelos artistas que viviam em Bali. Uma das atrações de lá eram as turistas do mundo inteiro, inclusive para fazer sexo. Era assim: à noite, a gente chegava no bar, encontrava aquele pessoal todo por ali. Se sentava para conversar e ninguém ia dormir sozinho…

No outro dia, já se sentava com outras pessoas e não se falava do dia de ontem. Ninguém dizia: você me “deu” ontem, vai me “dar” hoje também. Não tinha nada disso. Eu sei que em vinte e cinco dias eu arrumei umas cinco ou seis namoradas. Eu que vinha de uma abstinência terrível. Bom, nem posso reclamar pois também consegui na Austrália antes de chegar a Bali.

Naquela época eu era bonito e forte. Tinha uma energia, um carisma. Estava dando a volta ao mundo sozinho. Isso me credenciava perante as mulheres, os homens, todo mundo. Eu trazia comigo uma aura, como se fosse uma nuvem me acompanhando. Quando a pessoa se aproximava, entrava nessa nuvem e parecia que você tinha o domínio sobre ela.

Quando fui a Bali  na primeira vez, ninguém trancava a porta de casa. Não tinha ladrão, prostituta, droga. Não tinha nada disso. Era um paraíso só cheio de artistas do mundo inteiro. Você segurava a mão de uma balinesa e ela não puxava não. Ficava ali tranquila, parada com a mão presa durante meia hora. A mão dela era ela. Ela era ela e você era você! Um estrangeiro. Elas não queriam nada com os estrangeiros. Você não conquistava uma nativa.  Essas meninas todas que eu disse que a gente transava em Bali eram as turistas: francesas, americanas, alemãs, européias. Não eram as nativas…

Cinco anos depois em Bali, já tinha um motoqueiro em cada esquina perguntando se você quer haxixe ou uma menina para transar!

Dez anos depois em Bali, eu não reconheci mais o rio que tomei banho pelado na primeira viagem. Lá, naquele tempo os homens tomavam banho pelado. Me lembro muito bem. Cheguei por volta de cinco horas da tarde, os caras trabalhando no porto, terminavam o expediente, tiravam a roupa e pulavam no mar para tomar banho.

Olha só as peças de xadrez de Bali!

Nunca tinha visto homem ficar nu no meio da sociedade. Já tinha visto mulher. Mas homem foi a primeira vez. Pois lá os homens ficavam nus, tomavam banho e depois vestiam a roupa e iam pra casa na maior paz e harmonia, parecendo os índios aqui no Brasil.

As moças trabalhavam na plantação de arroz e depois tomavam banho na vala de irrigação, de calcinha. Às vezes algumas chegavam para lavar roupa. As mulheres, às vezes, usavam uma toalha, mas pra não molhá-la, elas a levantavam um pouco e se alguém prestasse atenção, via o filme todo… Era uma maravilha.

Anos depois, Bali ficou tão famosa na Indonésia – que tem treze mil ilhas – que sua população que era de quinhentos mil habitantes cresceu para três milhões! Hoje já são mais de quatro milhões. O pessoal das outras ilhas foram para lá. Invadiram Bali que não tinha infraestrutura para suportar toda aquela invasão.

Começaram a roubar tudo e a se prostituir. Rapaz, na última vez que estive em Bali enquanto eu estava na marina, roubaram uma motocicleta. Perguntei se tinha seguro. A resposta foi que não se segura mais nada em Bali, pois o seguro custa quase o preço de uma motocicleta!

Para mim Bali acabou!

A entrevista com Aleixo Belov – Parte 2 – continua num próximo post

  1. As fotografias deste post foram feitas por Aleixo Belov, Nilton Souza, Leonardo Pappini e copiadas da internet.