Na qualidade de frequentador, de uns anos para cá, do Boulevard na ilha de Itaparica – bem como assíduo penetra das festas de aniversário do saudoso João Ubaldo Ribeiro – decidi me aventurar a garimpar a falta que ele faz aos seus amigos que sempre estão pela ilha, e olhem só a terceira parte do que registrei.
Devo dizer que fiquei impressionado de início,e depois profundamente tocado com o carinho, a admiração e a amizade que os entrevistados devotam a João Ubaldo. Não me surpreendeu entretanto, pois tratam-se de relações construídas há muitas décadas, que foram nutridas com os encontros de sempre que eles souberam cultivar, demonstrando que nem a distância nem o tempo são capazes de apagar – sequer de diminuir – amizades verdadeiras e desinteressadas como essas.
A todos eles e ao nosso João Ubaldo, meu respeito, admiração e reverência.
Beto Benjamin.
Parte da extensa obra do escritor.
B.B.: Sergio, como foi que você conheceu João Ubaldo?
Sérgio Harfush: Eu conheci João Ubaldo na década de 50. Eu tinha meus 14/15 anos e foi aqui em Itaparica. Ele estudava Direito e começou a namorar com aquela que se tornou a primeira esposa dele, a Beatriz Moreira Caldas, filha do desembargador e nossa amiga. Junta Itaparica com Salvador pronto: aí surgiu a amizade. Foi assim que começamos…
Ele se identificava muito, porque era mais velho que ele, com meu irmão Zeca, que se tornou posteriormente no famoso personagem Zecamunista. Meu irmão era um homem de grande conhecimento intelectual. Discutia muito com João Ubaldo – no bom sentido é claro! Quando João queria escrever sobre um assunto polêmico logo citava Zecamunista, como uma figura polêmica e era comum ele ir lá pra casa no fim de semana, dia de sexta feira para conversar.
Ficávamos bebendo whisky e conversando até cinco, seis horas da manhã. Nós, ele e Bilú que era sua namorada na época. A gente também saía muito pra pescar de noite. Pesca de arrasto e do camarão. Depois íamos lá pra nossa casa e minha mãe fritava os camarões. Varávamos a noite indo até de madrugada comendo, bebendo e conversando.
João, sempre contando histórias!…
B.B: Você frequenta a ilha desde quando?

João Ubaldo e Berenice
Desde que nasci. Estamos aqui na quinta geração frequentando a ilha: meus avós, meus pais, nós, meus filhos e meus netos. Então desde menino nós nos “dávamos” [ B.B. – modo baiano de dizer que se relacionavam] com João Ubaldo. Ele também morou em Portugal mas, por pouco tempo. Quando voltou de lá no início de 83 veio morar em Itaparica. Morou aqui muito tempo e como estava na ilha, a gente se encontrava ainda mais, incrementando a amizade porque o verão propiciava os nossos encontros ali, debaixo do oitizeiro na praça. Era ali que a gente também se reunia.
Ubaldo sempre teve um papo fabuloso, inteligentíssimo, com histórias e personagens que ele criava. Não tinha como não ficar muito envolvido pela conversa dele. Ficava até de madrugada papeando.
Um fato que me marcou muito foi o último jantar que ele participou fora de casa, antes de morrer. Foi comigo no Rio de Janeiro. Ele morava pertinho de minha filha Janaína. Quando cheguei de Salvador, ela disse: “Olha, chamei o João Ubaldo e Félix – outro casal amigo – para virem jantar aqui hoje à noite”. Eu não tinha pedido para ela fazer nada. À noite ele veio, bebeu whisky, bateu papo… Isso foi no dia 17 de julho. Quando deu meia noite, apesar dele morar a uma quadra do apartamento de minha filha, eu disse: “João, espere aí que Serginho, meu filho, vai te levar.” Foi meu último contato pessoal com ele. Morreu no dia seguinte aos 73 anos de idade.
O importante é que foi uma amizade que durou mais de 55 anos.
Assim, com altos e baixos. Também na vida dele, no seu mundo, Ubaldo era muito bem humorado. Era um papo maravilhoso mas, ele tinha, ultimamente, suas fases de baixo astral porque lutava contra a bebida e o cigarro. Não era uma luta fácil. Nós tentávamos ajudar.
Tem outra história interessantíssima: Ubaldo uma vez foi entrevistado pela Veja nas Páginas Amarelas exatamente por sua luta contra a dependência do álcool. Ele era muito sincero, nunca negou essa dependência e foi uma entrevista que poucos teriam a coragem de dar.
Ele parou de beber e as pessoas simplesmente não acreditavam!

Bar do Espanha
Ele andava com um copo de guaraná na mão e as pessoas pensavam que era whisky. Não era. Sou testemunha disso. Posso dizer que Ubaldo durante o verão 70 por cento das vezes ia almoçar em minha casa em Itaparica. Sentava lá. Muitas vezes eu nem estava em casa. Ele pedia uma garrafa de água e ficava bebendo.
É uma história interessante porque ele fez tratamento contra o alcoolismo. Se internou dois meses numa clínica. Eu perguntei como foi que ele parou de beber de uma hora para outra? Contou que um dia tinha bebido muito… Então ele contou que nesse dia fez uma farra e Berenice se aborreceu pois sabia que ele não podia beber. Foi dormir e acordou no meio da noite se sentindo mal. Não teve coragem de acordar a Berenice. Ele sempre foi muito dependente dela, que foi a sua terceira esposa. A realidade é essa. Ele viveu com ela por mais de 30 anos até morrer.
Foi pro banheiro, se sentou e disse: “Vou morrer! Não tenho dúvida nenhuma que vou morrer!” Aí se lembrou de Nossa Senhora (ele era devoto de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro) e pediu:
“Minha Nossa Senhora, se eu não morrer hoje, garanto que vou parar de beber álcool!”.
Não morreu e cumpriu a promessa. Ficou de seis a sete anos sem “triscar” em álcool!
Porém continuou fumando muito. Depois de uns 7 anos voltou a beber cerveja. Ultimamente ele bebia whisky lá no Tio Sam. Ele bebia mas numa escala bem menor que antigamente. Bebia aos sábados e domingos com os amigos. O horário dele era de onze e meia às duas horas da tarde. Almoçava, lia as notícias e ia pra casa.
O médico foi muito claro com ele: tinha que parar de fumar e beber. Infelizmente não é fácil para uma pessoa abandonar determinados vícios. João Ubaldo não tinha vontade de sacrificar os prazeres: bebida e o papo com os amigos. Ele teria feito 74 anos no dia 3 de janeiro de 2015.
B. B.: Sérgio, como é que você compara os amigos dele do Rio com os amigos daqui?
Veja eu me dou bem com aquela turma dele lá do Rio, do Tio Sam. Ele gostava em especial de 5 ou 6 amigos mas, posso afirmar que ele se identificava muito mais com o pessoal da ilha. Com os nativos, que fizeram parte da sua infância e que foram parceiros das peladas no Boulevard. Ele gostava de jogar bola. Resumindo, ele se identificava mais com as pessoas que sempre foram muito próximas a ele aqui da ilha, principalmente Jacob Branco e Toinho Sabacu.

João Ubaldo – foto revista Muito no. 100
Outro que passou a ser um dos seus maiores amigos foi Zecamunista, meu irmão. Também Luciano Kibe Frito – que você não conheceu – foi outro grande amigo dele. Amigo de farra, de bebida, de todos os momentos. Então, além de se identificar mais com o pessoal da ilha – principalmente os nativos – era deles que saía a inspiração para criar as principais personagens de suas crônicas e de muitos romances.
São pessoas que existiram. Algumas vivas ainda; outras mortas. O famoso Caboclo Capiroba era o Zé de Honorina; Gugu que está vivo. Curiosamente dois grandes personagens que serviram de inspiração para João morreram em dias subsequentes. Tem o grande Cuiuba amigo do João e colega de escola primária que inventou a frase que considero a mais filosófica do mundo de todos os tempos. Pra mim não existe frase mais importante e Ubaldo a citava em muitas de suas crônicas:
“pior seria se pior fosse…”
Era assim: quando João Ubaldo contava um problema para Cuiuba, ele respondia: “Cumpadre, pior seria se pior fosse…” Pra mim a frase é histórica e lapidar.
Eu não sei exatamente ao pé da letra. Talvez Jacob saiba mas contava-se que Cuiuba um dia chegou na escola primária – era muito inteligente, falante e preparado – e disse para a professora:
“Esse Ubaldo aí não é certo da cabeça não! Tem problema de idéia! Ele tem um parafuso a menos… Se prepare Professora que ele vai lhe dar problemas.”
Ubaldo fez muito por Itaparica. Por exemplo, eu acho uma injustiça, vou ressaltar a grande baluarte que é Dalva Tavares da Biblioteca. Uma verdadeira heroína ao levar a Biblioteca do jeito que leva e de ter feito as homenagens que prestou a João Ubaldo em itaparica. Acho que Ubaldo foi muito mal reconhecido pelo governo baiano, pelo governo municipal. Ele tornou a ilha de itaparica reconhecida mundialmente. Noventa por cento por causa dele e se você ainda não leu – recomendo que leia – um livro maravilhoso que é coletânea de crônicas que ele publicou em jornais. De vez em quando as editoras publicavam um livro de crônicas: “A Arte e a Ciência de Roubar Galinhas”. É um livro de crônicas apenas sobre itaparica. Só com os personagens de Itaparica. Personagens mortas mas alguns ainda vivos como nós e outros.
Jacob Branco: Tem mais dois livros ainda como esse, que são: “Sempre aos Domingos” e “Você Me Mata Mãe Gentil” . Esse último ele dedicou a vocês, aos Harfurshes.
Sergio Harfush: Teve uma coisa muito significativa para nós. Na véspera de lançar um livro ele me ligou. Me ligava sempre. Era o temperamento dele. Era uma pessoa reservada com essas coisas, porém espontânea nas homenagens e disse: “Sergio, amanhã estou lançando o livro que eu dediquei a vocês”. Isso na véspera. “Você me mata mãe gentil” para os Harfushes, no plural. Disse que nome próprio também existe plural. “Faça o favor de ir”. Era uma pessoa muito simples. Não diferenciava posição social, financeira, ou credo muito pelo contrário. Até preferia estar com o pessoal mais simples.

Barco de Xepa que ganhou motor de popa de João
Respondendo à sua pergunta, no Rio o grupo dele era mais condensado, menor de pessoas “intelectualmente”. Vamos entender, botar entre aspas o que é esse intelectualmente: pessoas de um nível de criação muito próxima do dele. Ubaldo se dava muito com os nativos daqui da ilha: Xepa, o caseiro da casa dele era um cara que ele adorava. Ano passado – tem uma história no livro, João conta – Xepa chorou bastante porque Ubaldo disse: “Vou lhe dar um motor de popa”. Porque Xepa pesca. Olha, ele não acreditou: “Não acredito que ninguém vai me dar um motor de popa”. Quando chegou no ano passado ele chegou do Rio e disse : “Peraí que eu tenho um negócio para você”. Quando Ubaldo deu aquele presente a Xepa, um motor de popa zero quilômetro ele não queria acreditar. Abriu o presente, pensando que era um motor recuperado e quando viu o motor novo caiu no choro copiosamente. Ubaldo conta isso nesse livro que você recebeu. Tem até um detalhe que Xepa retrucou que João não botou por escrito – não escreveu crônica – que ia dar o presente. A reação de João foi na hora :
“Porra “seu” sacana, então você vai me pagar o motor de popa! Vai pagar uma prestação de 20 centavos por mês!”
Xepa disse: “Ah bom! Se é assim eu topo. Pois, vou morrer e não pago!”
João caiu na gargalhada…
João Ubaldo era assim. Pegava tudo nos mínimos detalhes. Me lembro uma vez que eu estava com ele, debaixo da mangueira da casa dele, batendo papo. Ele viu o cágado andando devagarzinho, atravessando o quintal assim com toda a calma e disse:
“Esse cágado tá parecendo o Rubinho Barrichello!…”
Batizou o cágado de Rubinho Barrichello, na hora. No domingo seguinte, escreveu uma crônica sobre o cágado comparando-o a Rubinho Barrichello na Fórmula 1…
Jacob Branco: Estive com a Berenice batendo papo na semana passada. Onde é que tem a mesa cativa do Ubaldo? É no Flor do Leblon ou no Tio Sam? No Tio Sam não é? Eu propus a Berenice ir ao Tio Sam pois tenho uma foto publicada no jornal: eu ao lado do ataúde com o corpo do João Ubaldo. Ela concordou. Vou de paletó preto – ele criou o personagem de Jacob Branco de paletó e eu incorporei -, camisa branca e gravata vermelha homenageando o Vasco da Gama que deveria ter voltado para a primeira divisão. Infelizmente isso não aconteceu. Disse a Berenice:
“Vou sentar na mesa que ninguém senta”.

Jacob, Sérgio e o cachorro no Santa Luzia
Sergio Harfush: No Tio Sam? É na cadeira que reservaram para ele lá com uma placa: Cadeira de João Ubaldo. Na última vez que eu fui, a turma muito chegada a mim, disse: “Você vai se sentar na cadeira de João Ubaldo”.
Jacob Branco: Por acaso, como eu sou desconhecido, vou levar foto com a aeguinte dedicatória:
“Obrigado por reconhecerem o valor que tinha o meu amigo João Ubaldo Ribeiro”.
Vou levar uma crônica minha falando dele. Quando disserem: “Levante-se por favor”! Eu responderei “Queira sentar-se aqui e aí entrego tudo pra eles.” Não vai ser legal?
A segunda conversa que tivemos foi sobre o desejo de Berenice de trazer os restos mortais de João Ubaldo para o cemitério daqui. Isso depois do segundo ano da morte dele. Conversei com Dalva. Vamos tentar depositar os restos mortais na Igreja da Piedade onde estão os restos mortais do avô e da avó de João Ubaldo em Itaparica. Naquela igrejinha ali, aquela capela em forma triangular. Vamos começar a falar sobre isso.
Sergio Harfush: Agora devo dizer que me deu muito orgulho foi ser convidado para falar em nome dos amigos dele no seu aniversário de 70 anos. Ele era amigo até do meu neto de 10 anos de idade que adorava ele. Evidente que tinha também seus momentos de maus modos. Também por causa da pressão alta. Teve sua vida limitada apesar de não obedecer aos médicos. Ele sabia que tinha limitações. Confessadamente falo, sem o menor constrangimento:
Não foi muita surpresa o que aconteceu para quem conhecia a vida de Ubaldo na intimidade, porque realmente como ele mesmo dizia: enfiou o pé na jaca!
A parte final das entrevistas será com Zecamunista no próximo post. Até lá.
Eu era menino ainda quando o via passar, de terno escuro amarrotado, caminhando à toa pelas ruas da cidade do interior onde vivi: Itabuna – Bahia. Carregava sempre uma flor – na mão ou na lapela – e cumprimentava cada mulher que cruzava bradando um inconfundível “Mãe! Mãe! Mãe!”. Recitava poemas e oferecia a flor… Não assustava ninguém, apesar do inusitado da cena nas ruas de uma cidade do interior. Para as mulheres que passavam, deveria ser algo surpreendente. Para nós meninos, era apenas mais um louco na cidade.
Quando cresci e comecei a entender melhor as coisas, descobri que não era louco. Era poeta: Firmino Rocha. Seu poema abaixo, não esqueci nunca mais. Carrego-o comigo até hoje mais no coração do que na cabeça e, ainda me emociono ao lembrar de Firmino declamando-o com sua voz rouca, levando poesia pelas ruas da cidade, silenciando todos os outros barulhos.
Esse poema está inscrito numa placa de bronze exposta na sede da ONU em Nova Iorque e representa um protesto contra a guerra! Todas elas! Viva Firmino!
Beto Benjamin
Deram um Fuzil ao Menino
Firmino Rocha
Adeus luares de Maio.
Adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência,
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.
Agora é o tambor da morte
rufando nos campos negros.
Agora são os pés violentos
ferindo a terra bendita.
A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números,
o verso ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus.
DERAM UM FUZIL AO MENINO
Mas, o que é isto? Vocês conheciam a Ná Ozzetti?
Olha o show que ela dá com sua firme e belíssima voz, acompanhada pelo piano excepcional de André Mehmari. A canção se chama “Pérolas aos Poucos” mas, de pouco não tem nada mesmo. Não é?
Beto Benjamin
Na qualidade de frequentador, de uns anos para cá, do Boulevard na ilha de Itaparica – bem como assíduo penetra das festas de aniversário do saudoso João Ubaldo Ribeiro – decidi me aventurar a garimpar a falta que ele faz aos seus amigos que sempre estão pela ilha, e olhem só a segunda parte do que registrei.
Devo dizer que fiquei impressionado de início e depois profundamente tocado com o carinho, a admiração e a amizade que os entrevistados devotam a João Ubaldo. Não me surpreendeu entretanto, pois tratam-se de relações construídas há muitas décadas, que foram nutridas com os encontros de sempre que eles souberam cultivar, demonstrando que nem a distância nem o tempo são capazes de apagar – sequer de diminuir – amizades verdadeiras e desinteressadas como essas.
A todos eles e ao nosso João Ubaldo, meu respeito, admiração e reverência.
Beto Benjamin.
Parte da extensa obra de João Ubaldo.
Paisagens da ilha de Itaparica.
B.B. (Beto Benjamin): Sérgio. E você? Tem alguma história para contar?
Sérgio Harfush: Escute essa: Tem uma história do João Ubaldo que Toinho Sabacu não vai gostar muito não (Toinho ali em frente, olha de banda do outro lado da mesa), mas é uma daquelas que mais repercussão teve: João Ubaldo fez uma crônica sobre isso. Foi quando a Secretaria de Saúde veio realizar na população masculina de Itaparica o famoso exame de próstata. Vieram três médicos para fazer o exame e Toinho soube que haveria esse campanha na ilha. João Ubaldo disse que ele botou paletó e gravata e foi fazer o primeiro exame. Saiu o resultado dizendo que estava tudo bem e ele não acreditando muito, pediu para ser examinado pelo segundo médico. Também desconfiando da opinião do segundo médico, partiu imediatamente para o terceiro…
João finalizou a crônica acrescentando que naquela campanha de saúde, quantos médicos tivessem, tantas dedadas Toinho ia tomar. Seria a próstata mais bem cuidada da ilha e do Brasil!…

Sérgio Harfush
A última do João Ubaldo foi com a Seleção Brasileira. Ele escreveu no jornal A Tarde: “Meu amigo Toinho Sabacu, de Itaparica ficou tão contrariado com o 7 a 1 da Alemanha no Brasil mas, tão contrariado que dobrou a dose de remédio de pressão e ficou trancado dentro de casa por três dias, sem botar a cara na rua.”
Toinho Sabacu: Rapaz, eu aqui na ilha tranquilo e o cara lá no jornal fazendo sacanagem comigo. Ainda disse: “Toinho, você já leu ‘A Tarde’ de hoje?”. “Não!” “Vá lá, leia. Pegue lá para você ver”. É brincadeira?!
Jacob Branco: Queria ver o João Ubaldo fora do sério? Oferecesse um celular ou bagunçasse o seu jornal. Ele “virava na porra”, véio…
Toinho Sabacu: Olha, sinto muita falta dele mesmo entendeu? Mas muita mesma… Esse janeiro não foi como os anteriores.
Foi um janeiro mais triste para mim principalmente porque me privou de ter a presença de um amigo que eu gosto, gostava e continuo gostando, onde ele estiver.
B.B.: João Ubaldo gostava daquelas festas de aniversário, abertas ao povo, na Biblioteca Pública aqui na ilha de Itaparica?
Toinho Sabacu: Ele gostava. Gostava porque era promovida por Dalva, a bibliotecária que fazia as festas com muito amor e tinha grande amizade a ele. O povo participava. Aquele povão – que ele gostava – sempre ia. A festa era bonita. Ele saía de lá alegre, contente, satisfeito. Por último, na festa desse ano fizeram uma homenagem a ele: inauguraram um busto de João Ubaldo. A festa foi muito bonita…
A conversa foi interrompida pela súbita chegada de meu amigo Fred Carvalho, copo de whisky na mão e na animação que lhe é peculiar… Amigo de longas datas, que não vejo há algum tempo… Foi entrando logo no papo quando soube que a conversa era sobre João Ubaldo Ribeiro e contou que uma certa vez o Roberto Irineu Marinho estava na casa de Newton Lins, na Gamboa, sul da Bahia e convidaram João Ubaldo, que só tomava whisky Old Eight, para visitá-los.
Chegando lá não deu outra, João Ubaldo foi logo pedindo seu Old Eight em dose dupla. Casa de bacana sabe como é, né? Ninguém passa recibo. Olha, que mágica o Newton Lins fez aquele dia para arrumar o whisky eu não sei, mas, num instante trouxeram o Old Eight em dose dupla para a alegria do João.
Jacob Branco: Também esse ano lançaram o livro “Viva o Povo Brasileiro e João Ubaldo Ribeiro – Antologia” sobre os amigos de João Ubaldo…. [B.B.: veja foto ao lado]
Toinho Sabacu: É. Teve o lançamento do livro sim. Tem um depoimento meu nesse livro.
B.B: E sobre o Rio de Janeiro? O que João Ubaldo falava de lá?
Toinho Sabacu: Ele dizia que não saía muito. Só saía para o Tio Sam no Leblon, onde tem mesa reservada até hoje. Reunia-se com os amigos e dali para casa. Não gostava muito de sair, não. Aqui mesmo em Itaparica, antigamente a gente andava na praia, pescava siri, mas com o tempo ele foi saturando, cansando. Já nem mais ia à praia. Mal vinha aqui no mercado. Eu chamava: – “João, vamos dar uma esticada na Marina?” Ele respondia: – “Não tô a fim de andar não, Toinho. Quero voltar para casa…” Ele já sentia muito cansaço.

Famoso Tio Sam do Leblon
Jacob Branco: Tinha uma barraca de bebidas e eu me lembro que quando ele chegava para nos visitar, pegava o jornal e dizia: “o meu jornal é donzelo!” Não queria que ninguém pegasse o jornal dele. Que ninguém lesse primeiro que ele. Eu dizia: “o seu está aqui guardado. Ninguém pegou nele não.” “Guarde aí que eu vou na Fonte da Bica e volto”, e tomava o seu cafezinho. Todo dia de manhã cedo ele estava aqui. Na barraca a gente batia papo. Ele fumava um cigarrinho, eu também. Era um papo tão gostoso que era difícil se desligar dele. Também não demorava muito, não: Logo Ia pra casa.
Uma vez ele viajou. Voltou e me encontrou no mesmo lugar, na barraca de bebidas. Eu já não fumava mais. Ele tomou o cafezinho, meteu a mão no bolso e pegou o cigarro. Eu disse: – “Rapaz, pelo amor de Deus largue esse vicio para lá”. Ele respondeu: – “Vou fazer sua vontade. Não vou fumar mais. Só vou fumar esse aqui…” Viajou para retornar só no ano seguinte.
Essa é que foi bacana:
Eu disse:
– “Graças a Deus, João, que nós deixamos de fumar.”
Ele respondeu:
– “Você! Eu não sou o homem que você é não, rapaz.”.
Eu ficava muito no pé dele sobre o cigarro.
Eu dizia: – “Amigo, deixe de fumar.”
“Esse cigarro ainda vai destruir você.”
– “É Toinho, essa miséria desse cigarro não tem como eu deixar de fumar mas, seu amigo vai lhe prometer o seguinte: Para o ano, quando eu voltar aqui, você me cobra. Não venho mais com cigarro.”
– “Olha lá rapaz! Não faça promessas que você não possa cumprir. Você tá falando aí, na vista de todo mundo. Vou te cobrar. Você sabe que eu cobro!”
– “Fique tranquilo, estou lhe prometendo que não vou mais fumar”.
E foi embora…

Jacob Branco na ilha
Ano seguinte fui para o aeroporto com Beto buscar ele e Berenice. Em seguida apanhamos a lancha ali no Yacht Club e viemos para Itaparica. Viemos conversando na popa da lancha. No caminho, se esqueceu completamente da promessa feita no ano passado. Meteu a mão no bolso e tirou a carteira de cigarro. Eu só olhando e ele lá, “desligadão”. Tirou o cigarro e botou na boca. Quando pegou o isqueiro e ia acender, olhou para mim e disse:
– “Amigo, falhei com você. Não foi?”
Eu disse:
– “Nem sei do que você está falando!”
Ele respondeu:
– “Você sabe sim. Mas, vou lhe prometer. Não vou perder a moral total com você, não.”
Apagou o cigarro, jogou na lixeira. Pegou a carteira de cigarro e me entregou.
– “Tome. Faça o que você quiser com esse cigarro que seu amigo não vai mais fumar…”
Amassei a carteira de cigarro, cheguei na lixeira da lancha e joguei no balde. Repetiu:
– “Seu amigo não vai mais fumar a partir de hoje.”
Não fumou aqui em Itaparica. O período todo ele não fumou. Mas não fumou mesmo. Quando voltou para o Rio teve a recaída.
Ele teve um principio de piripaque aqui e foi internado no hospital. Arritmia. Passou uns dez dias no hospital. Fui lá com Beto visitar. Encontrei o Antonio Carlos Magalhães que estava de saída. João Ubaldo bateu papo, conversou comigo e disse: “Toinho meu irmão, passei um momento retado. Vi a catraca nos olhos… Vi a catraca perto… Toinho, você tem medo da morte?”.
Eu disse:
“Olha, João, medo da morte eu não tenho não. Quem tem medo da morte são as pessoas abastadas. Que tem bens materiais e fica naquela pressão, com receio de perder tudo. Perder aquele “bem bom”! Eu sou um “lenhado”. Se eu morrer, não tenho nada a perder. Agora, eu tenho medo é da catraca!”
A catraca é aquele momento que você passa de um estágio para o outro. Da vida para a morte. Eu ainda não vi ninguém morrer bonitinho. Aquela passagem ali. Mas, da morte eu não tenho medo. É da catraca. Na hora do cara sair dessa para outra. Aí é bronca. Ele disse: “Sabe que você está cheio de razão? Morrer é natural. Ninguém vai ficar… Todo mundo vai morrer.”
B.B.: E os livros deles, os personagens, vocês comentavam? Ele falava sobre os livros?
Toinho Sabacu: Não falava não. Ele escrevia… Em alguns livros ele botava um personagem ou outro… Ele me deu um presente. Mandou do Rio toda a coleção. Ainda botou um bilhete dentro da caixa. Aquele painel que tem ali na Ilha foi preparado por mim:
“Meu amigo Toinho: segue esse presente para você mas não é obrigado a ler essa porra toda não.”

Sobrado onde foi escrito Viva o Povo Brasileiro
Jacob Branco: No que se refere à parte literária, ele dizia que eu era o maior leitor dele aqui da ilha. Não cheguei a ler todos os livros. Em janeiro de 1983 eu estava passando no Largo da Quitanda quando ele me chamou e pediu que subisse para o primeiro andar. Me apresentou uns calhamaços datilografados naquele papel rascunho. Disse: “Leia aí meu novo livro!” Falou com aquele vozeirão inconfundível. Olhei umas páginas e perguntei: “João, qual é o título?” “Jacózinho, meu filho, ainda está sem título…”
Naquele momento ele dava o primeiro passo de um futuro best-seller: “Viva o Povo Brasileiro”. Eu me arrepio de ter sido o primeiro leitor do livro. Me emociono. Fui o primeiro leitor de “Viva o Povo Brasileiro”, porra!
E a perda em si! A morte é insubstituível quando se trata de João Ubaldo Ribeiro. É muito forte e recente também. Acho que perde todo mundo: Itaparica, o povo, a cultura, a Bahia, o Brasil, o mundo. Porque ele me confessou: “Jacob, eu praticamente vivo do exterior.” Como ele disse várias vezes: “Vampeta – o jogador de futebol – ganha numa partida mais do que eu ganho com um livro a vida inteira…” Palavras dele. E ali naquele canto hoje estou chorando de tristeza mas, chorava de prazer. Lacrimejava de ouvir as coisas que ele contava. A mais recente foi aqui. A última foto dele eu fiz ali. Ele sentado, de bermuda e havaianas brancas.
Certo dia, em meio à nossa galera, olhou para mim e disse: “Jacózinho não costumo dizer ‘dessa água não beberei’ mas vou lhe confessar: não pretendo voltar aos Estados Unidos”.
Ao retornar de Los Angeles em meados de 2006, no check-in no aeroporto foi confundido pela segurança americana com um terrorista:
“Devido à minha estatura, cor e certamente por causa do atentado do 11 de setembro me confundiram com algum membro do talibã! Pensaram que eu era um terrorista!… Já imaginou? Me encostaram numa parede, fazendo gestos…. Me apalparam todo… Até nos bagos meteram os dedos… Pode um negócio desses?”
B.B.: Vocês se encontram para falar sobre João Ubaldo?

- Os amigos Sergio e Jacob passeando em Itaparica
Jacob Branco: Conversamos mais com o pessoal de fora da ilha pois tem uns caras aqui que não gostavam dele não. Essa é que é a verdade. Porque o João conversava comigo. Isso está na internet. Ele já falou isso para mim pessoalmente várias vezes. Quando ele começou a escrever no jornal O Globo – principalmente -, e na Folha de São Paulo que era reproduzida pela Tribuna da Bahia e posteriormente pelo jornal A Tarde, dizia que o pessoal do Globo se queixava de que ele só ficava falando de Itaparica e ninguém sabe que porra é, nem onde fica. Aí o cara ia dizer que Itaparica é uma ilha que fica no centro na Baia de Todos os Santos. É uma estância hidromineral. Foi a terra onde eu nasci e daí começou a ter maior interesse em Itaparica.
A ponto de eu dizer a ele que o Bar do Espanha hoje está para Itaparica, por causa dele, assim como o Bar Vesúvio em Ilhéus está para Jorge Amado. Essa é que e a realidade.

O Espanha e seu Bar
Chegam aqui várias pessoas – você por exemplo, prazer honroso em conhecê-lo e bater esse papo – procurando saber quem é fulano, quem é sicrano, quem são os personagens de João Ubaldo Ribeiro. Então nossa terra foi mais difundida, foi mais divulgada. Também sou itaparicano e amo muito a minha terra. Infelizmente não há um sucessor para levar em frente essas coisas. Por exemplo, esse assalto que houve recentemente aqui na casa do ex-governador. Aqui em Itaparica, tem assaltos que levam vinte, trinta anos, não descobrem nada.
Agora só porque era a casa de uma figura importante em menos de vinte quatro horas, veio delegado, polícia, helicóptero, prendeu todo mundo. Esse caso teria sido uma crônica de João Ubaldo, com certeza. Ele não teria perdido a chance de fazer uma grande gozação com o ocorrido.
B.B: O que João Ubaldo mais gostava de fazer, além de bater papo com vocês quando estava em Itaparica?
Jacob Branco: Tomar birita. Era um bom biriteiro. Sempre foi. Agora tudo está no livro. Eu li o livro em oitenta e três aqui também quando nós voltamos a nos ver. Ele morou muito tempo nos Estados Unidos, morou no Rio. Foi um dia que nos expulsaram de três botecos. Já tarde da noite, uma hora da manhã quando voltávamos para casa. Na rua da Glória que era a casa do avô dele. Que foi meu professor e diretor aqui no Ginasio. Ele me abraçou e disse:
Porra Jacozinho, no Rio de Janeiro na Hipopótamos, eu tenho mesa cativa e não pago porra nenhuma. Aqui na nossa terra nos expulsam de três botecos. E dava risada prá caralho!
As entrevistas continuam no próximo post. Até lá!
Na qualidade de frequentador, de uns anos para cá, do Boulevard na ilha de Itaparica – bem como assíduo penetra das festas de aniversário do saudoso João Ubaldo Ribeiro – decidi me aventurar a garimpar a falta que ele faz aos seus amigos que sempre estão pela ilha, e olhem só a primeira parte do que registrei!
Devo dizer que fiquei impressionado de início e depois profundamente tocado com o carinho, a admiração e a amizade que os entrevistados devotam a João Ubaldo. Não me surpreendeu entretanto, pois tratam-se de relações construídas há muitas décadas, que foram nutridas com os encontros de sempre que eles souberam cultivar, demonstrando que nem a distância nem o tempo são capazes de apagar – sequer de diminuir – amizades verdadeiras e desinteressadas como essas.
A todos eles e ao nosso João Ubaldo, meu respeito, admiração e reverência.
Beto Benjamin
João Ubaldo Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica – Bahia – em 23/01/1941 e faleceu aos 73 anos no Rio de Janeiro em 18/07/2014. Escritor, jornalista e roteirista escreveu diversos romances dentre os quais destacam-se: “Sargento Getúlio”, “Viva o Povo Brasileiro”, “A Casa dos Budas Ditosos” e o “Sorriso do Lagarto”. Viveu bom tempo nos Estados Unidos, Portugal e Alemanha. Foi membro da Academia de Letras da Bahia e da Academia Brasileira de Letras. Suas crônicas dominicais publicada n’O Globo e outros jornais eram imperdíveis, primando pelo humor e ironia. Usava os personagens da sua adorada Ilha de Itaparica – reais ou fictícios – como metáforas e pano de fundo para as críticas sociais, ao poder e as mazelas do Brasil.
Na Ilha de Itaparica colecionou diversos amigos inseparáveis ao longo do tempo. Dentre eles objeto dessa entrevista: Jacob Branco, Toinho Sabacu, os irmãos Sérgio e Zeca Harfush – este último inspirou o famoso Zecamunista, personagem criado por João Ubaldo Ribeiro.
Parte da extensa obra de João Ubaldo.
Essa conversa de botequim ocorreu num sábado do verão de fevereiro de 2015, no Mercado do Peixe na iIha de Itaparica, graças aos “bons serviços” do patrício Sérgio Harfush – libanês de ascendência como eu – que mediou o encontro desses amigos de João Ubaldo Ribeiro moradores ou frequentadores da ilha, dentre os quais ele se inclui, para conversarmos sobre o amigo escritor, sua existência, amizades, crônicas, obras, casos e gozações, mas sobretudo a falta que ele faz aos seus amigos da Ilha.
Como não poderia deixar de ser, o papo ocorreu na mais completa desordem e barulheira, sentados em torno de uma mesa regada por cervejas bem geladas às oito horas da matina de um sábado calorento no Mercado do Peixe da aprazível ilha. Participaram, além do “promoter” Sérgio Harfush, Jacob Branco e Toinho Sabacu. Zecamunista, por estar ausente da ilha naquele instante, foi entrevistado posteriormente.
O bate-papo contou também com as súbitas, inesperadas e sempre surpreendentes aparições de três amigos – estes meus – Fred Carvalho, Yadir Vianna e Zé Caneta, que deram seus pitacos e goles durante o convescote e se escafederam pela ilha do mesmo modo sutil que apareceram.
Confira a transcrição da conversa.
Minha primeira pergunta foi a Jacob Branco, sobre quem João Ubaldo declarou certa vez em crônica que “Se tivesse anel no dedo, botaria num chinelo muitos desses advogadecos mal-acabados que por aí abundam” [crônica “Visão Pragmática da Problemática”]
Beto Benjamin (B.B.): Quando e como começou a amizade entre você e João Ubaldo?
Jacob Branco: A minha amizade com João Ubaldo teve início nos idos de 1958, durante a Copa do Mundo de Futebol, que o Brasil acabou ganhando na Suécia. Apesar da diferença de idade – ele era nove anos mais velho – João Ubaldo despertou minha curiosidade por seu humor, alegria e inteligência. Ele era muito parecido com seu primo Luiz Eduardo, inteligente e intelectual… João Ubaldo era um cara muito além das pessoas daquela época.
Digo isso hoje porque depois – de uns trinta anos pra cá – João Ubaldo dizia que não suportava mais, que detestava intelectual!…
A conversa que ele gostava mesmo era com o povo da ilha. Com o povo desse mercado aqui, o Mercado Municipal Santa Luzia – o mercado do peixe – e também com os frequentadores do bar do Espanha. Existem histórias engraçadas:

Jacob passeia sua exuberância no Santa Luzia
Há uns dois anos nos cruzamos caminhando aqui na ilha. Ele vinha para o cais e eu voltava… Minutos depois invertemos as posições: Ele ia e eu vinha. Parou e me perguntou: “Você tá fazendo o quê?” respondi: “Nada”. “Vamos tomar uma cervejinha?…” Paramos no bar do Magno e ao lado estavam um amigo meu e minha companheira conversando. Resolvi convidar os dois para se juntarem a nós: “Gente, vamos sentar ali, bater um papo com João Ubaldo?” A reação não foi nada boa: “Ah. Vou não… Essas conversas com João Ubaldo… Não sei não!” Eu nem pestanejei. Dei um “chega prá lá” de verdade nos dois, na hora:
“Porra, vocês estão pensando o que? Vocês estão por fora! O papo com João Ubaldo é pura esculhambação, só putaria… Viu?!”
É o que ele gostava de falar… Estava na praia dele… Morria de rir… Era muita gozação… Contava as histórias acontecidas com ele tanto no Brasil como no exterior…

O “cara” da Academia Acrópole “se achando”
Uma história que João gostava de contar era que lá na Bahia [B.B: como os baianos carinhosamente chamam Salvador] na década de 60/70 existia a Academia Acrópole na Praça da Sé, famosa pela halterofilia. Ele contava que um dos alunos quando terminava o treino ia para frente do espelho e começava a dar uma de Narciso: Pá pá rá pá pá pá. Todo “invocado” ficava ali um tempão no espelho se exibindo. Mostrando e conferindo os músculos.
Toda vez era assim. Terminava o treino e o “metido” ia para a frente do espelho e lá ficava “se achando”, pensando que era Apolo. Até que um dia o cara chegou, treinou e foi embora sem a presepada de sempre. Todo mundo na Academia estranhou. Então João Ubaldo disse que foi lá junto dele e perguntou: “O que houve?” Por que ele parou de fazer aqueles troços – assim, assado – defronte do espelho? O cara olhou prá ele e respondeu: “Vou contar a verdade. A história é a seguinte: eu namorava uma menina no bairro de Roma mas, eu morava no Alto do Papagaio. O que aconteceu é que fui visitar a menina em Roma um dia e a “turma” de lá me deu tanta porrada que eu perdi o interesse pela namorada e pela presepada…”
Ao não menos famoso Toinho Sabacu, referido por João como “Filósofo estóico com acentuadas influências de Sêneca” [crônica “A Ilha na Vanguarda”], perguntei o seguinte:
B.B.: Toinho, se João Ubaldo estivesse aqui, o que você diria pra ele?
Toinho Sabacu: Rapaz é muito difícil dizer, viu? Normalmente a gente contava piada, batia papo, falava sobre a vida da ilha. Quando estava no Rio ele me ligava para se informar, saber dos acontecimentos, das pessoas mais próximas. Queria saber quem tinha morrido, esse tipo de coisa… Queria sempre que eu contasse as novidades. Tudo o que aparecia na ilha, eu contava pra ele. Eu era seu “informante” [X-9 Itaparicano]. Mesmo morando no Rio de Janeiro queria saber tudo da vida de Itaparica: do bom e do ruim. Então era assim: quando falecia um amigo nosso eu ligava para ele e dizia:
– “Alô João Ubaldo. Faleceu “fulano de tal””…
Ele respondia: “É mesmo rapaz?”
– “É!”.
– “Puxa vida! Quer dizer que esse ano já não vou ver mais meu amigo aí?”
Eu respondia: “É. Infelizmente não, porque de repente ele partiu a mil… Não esperou pra ver você… A “catraca” pegou ele no caminho…” [A singular “teoria da catraca”, criada por Toinho Sabacu, está devidamente explicada na crônica “Considerações Iatrofilosóficas”. Veja no final do post].
João Ubaldo costumava sair cedo de casa em Itaparica. Geralmente cinco e meia, seis horas da manhã. Ele vinha aqui pra feira. Como eu morava perto, quando ele passava eu o acompanhava. Vínhamos para o mercado e ficávamos aqui até umas sete horas da manhã mais ou menos batendo papo. Quando chegava essa hora ele dizia:
“Toinho, vamos embora tomar nosso remédio para pressão. Está na hora.”
Eu o acompanhava empurrando a bicicleta. Umas duas reportagens que foram feitas com ele me flagraram com a tal bicicleta. Ia pra casa. Dizia que ia tomar um cafézinho, comer um cuscuz: Ele era chegado mesmo a um cuscuz.
Todo ano ele vinha para Itaparica. Era sagrado. Ele avisava antes, com uma semana de antecedência. Mandava dizer o dia e horário que ia chegar, até o horário do voo. Fui por vários anos buscar ele em Salvador com o amigo em comum, Beto Atlântico – que saiu daqui do bar há pouco tempo. A gente pegava ele no aeroporto e trazia de lancha aqui para Itaparica.
Agora, respondendo à sua pergunta, hoje a gente sente muita saudade dele. É verdade. Muita mesmo. Ele já fazia parte do cenário…
B.B.: O que vocês conversavam?
Toinho Sambacu: Papo normal… Eu contava piada… Casos que aconteceram comigo… Ele contava os seus casos, suas piadas… As coisas que aconteciam também no Rio com os amigos dele de lá. Outras vezes eu ia na casa dele por volta de seis ou sete horas da noite. Ficava batendo papo com a família toda reunida debaixo da mangueira e lá pelas nove, nove e meia, vinha embora.
Dar risada, bater papo era o dia-a-dia dele aqui na ilha. Não queria saber de botar uma camisa. Para desagradá-lo bastava dizer que ele tinha que ir a Salvador por qualquer razão, para resolver qualquer coisa. Ou então, que precisava fazer alguma coisa que ele tivesse obrigação de vestir uma calça, algo assim.
Era simples. “Cadê a sandália de dedo?”. Usava a bermuda sem camisa. Desligado total. Nunca vi uma pessoa tão simples assim. Nunca vi uma pessoa tão boa, tão humilde como João Ubaldo Ribeiro.
João Ubaldo faz muita falta sim. Tem muita gente por aí que não tendo o posto que ele tinha, não chegava nem perto do que ele foi e, se pudesse, não pisava nem no chão… “É ou não é, meus amigos?”
Ele não tinha disso. Falava com todo mundo. Era um cara atencioso. Se estivesse aqui conosco – ou em qualquer outro lugar – e alguém chegasse e pedisse para tirar uma foto? Atendia na hora. Era com ele mesmo. Não diferenciava classe. Então João Ubaldo me cativava por seu jeitão e simplicidade. Por que um acadêmico, um imortal, a bater papo com a gente? Não é qualquer um que dava espaço pra isso. Que topava isso. Ele tinha prazer de estar com o povo amigo. Amigos como esse aí (aponta para Sergio Harfush), como Xepa, Bartola. Ele era assim.
Por exemplo: Ele “tava” almoçando ali no Restaurante de Negão com sua família. Chegava um pessoal de fora que o via e dizia:
– “Olha ali o João Ubaldo.
– “É?”
– “Será que ele vai se aborrecer se a gente se aproximar da mesa ali?”
Ele conhecia as pessoas. Dizia:
– “Pode chegar. Bom dia, boa tarde”.
– “Será que dá pra tirar uma fotografia?”
Abraçava a pessoa ali na mesa mesmo. Ele parava de almoçar pra tirar fotografia, de bom gosto…
Uma pessoa dessa não existe…
As entrevistas continuam nos próximos posts. Até lá!
Ps.1: Toinho Sabacu é autor da Teoria da Catraca: “morrer é fácil : difícil é passar pela Catraca.”. Leia a hilária crônica “Considerações Iatrofilosóficas”, de João Ubaldo, clicando aqui.
Quem não se encantaria com um vídeo desses? Cantado por uma voz tão portuguesa como a de Dulce Pontes, num clipe carregado de suavidade e poesia que vai crescendo, ganhando força e graça até desabar numa lusitana paixão pela infinitude e mistérios do amor e do mar…
“Vem saber se o mar terá razão…”
“Vem cá ver bailar meu coração…”
Nunca se Sabe




