Conheci o Nilton Souza nos idos de 1976 quando, recém-formado, eu trabalhava num projeto de engenharia – avançado para aquela época no Brasil – onde, um consórcio franco-brasileiro construía num canteiro na Baía de Aratu, na Bahia, três plataformas de concreto para a Petrobras, que posteriormente seriam rebocadas pelo mar e, instaladas nos litorais do Rio Grande do Norte e Ceará. Fiz, até, uma viagem a bordo de uma dessas plataformas, mas isso será objeto de um outro post, qualquer dia desses, pelo inusitado e divertido da aventura marítima.

O caboclo Nilton, me chamou logo a atenção pois, era um dos poucos que tinha aparecido no canteiro de obra que, poderia disputar – com grande chance de vencer – o torneio de “magreza”, do qual eu me julgava, líder absoluto. Fazíamos parte, de um grupo de gente magra, em Salvador – mas, bote magra nisso – liderados naquela época tropicalista por Caetano Veloso e Raul Seixas. Mas, não foi só isso, que despertou a minha atenção: ele, tinha uma maneira empolgada de falar – gaguejando levemente – quando se entusiasmava, porém o mais impressionante era, o que ele mostrava: as suas fotografias.

Havia certamente algo diferente, no seu trabalho e, era difícil dizer – de primeira – o que era.

Suas fotos tinham “um brilho”, enchiam os olhos de satisfação e, apresentavam uma qualidade incomum. Na foto, a plataforma parecia querer “saltar” do papel e, entrar na vida real, como se já não bastasse existir, no mundo concreto, com o perdão do infame trocadilho! Devo avisar aos amigos que, assim como os uerês, os trocadilhos, também, me perseguem… Desde que, menino ainda, descobri o seu significado.

Assim, nasceu uma amizade entre um fotógrafo-artista e, um apreciador das coisas do mundo, que resistiu todos esses anos e, permanece firme e forte. É verdade que, com o passar do tempo, nos distanciamos – viajei também muito pelo mundo – mas, reencontrar Nilton, ao longo da vida, era sempre motivo de grande alegria. Não faltava assunto e, ríamos muito: das coisas, das pessoas, de nós mesmos e, sobretudo, dos acontecimentos pitorescos, da nossa querida Bahia.

Passados todos esse anos, o caboclo, assim como eu, ganhou uns quilos a mais e saímos – com louvor – do rol dos “super” magros. Nilton, se desenvolveu profissionalmente, incorporou, ao longo do tempo, todas as mudanças tecnológicas dos equipamentos fotográficos – que ele fazia questão de estar na vanguarda -, desde que, se meteu no ramo. Imagine que, foto ainda se chamava retrato e, câmera, máquina fotográfica!…

Pois bem, tudo isso incorporado e, devidamente dominado – usando um termo atual -, soube cuidar de sua sensibilidade como poucos e, de um simples fotógrafo industrial, transformou-se num artista visual, de primeiríssima linha. O julgamento, não é só meu: suas fotos estão aí, para quem quiser ver e apreciar. Pois é, quem diria que o caminho seria assim? Ninguém sabia, nem o próprio. Mais uma vez, o refrão se aplica: Nunca se sabe… Ainda se emociona – do mesmo jeito de 40 anos atrás -, quando se depara com algo extraordinário: seja a foto de uma pessoa, de uma indústria ou, de uma paisagem. O leve gaguejar, também, não mudou…

A ideia de entrevistá-lo, expor o que pensa, sua história de vida, o que é importante para ele e, em especial, mostrar um pouco do seu trabalho, veio naturalmente e, tenho certeza, que vocês poderão saborear sua linguagem simples, sem floreios e, ainda, se deliciar, com as verdadeiras “obras de arte” retiradas de parte do seu imenso trabalho, como fotógrafo e artista. A conversa que postarei em nosso próximo encontro, nesse espaço de vivências, ocorreu numa tarde, do festivo mês de janeiro de 2015, em São Salvador, capital da Bahia, estado onde dizem, que as pessoas não nascem: estreiam…

Para dar um gostinho do que está por vir, ilustrando a entrevista do próximo post, veja algumas das maravilhas, capturadas por Nilton. Até logo mais.

Claudia Corbisier

Claudia Corbisier

Claudia Corbisier: Em 2003 andava procurando uma referência de aulas de dança. Uma amiga pernambucana arretada, bem irreverente, por acaso me disse que sua filha estava fazendo aula com um tal de Jean-Marie e que estava adorando! Logo depois fui almoçar no japonês do Shopping da Gávea, e avistei um homem muito interessante, com jeito de francês, numa mesa com algumas pessoas. Pensei na hora; é o Jean-Marie. E era. Fui falar com ele, me apresentei e disse que começaria a fazer suas aulas. Naquele momento cósmico não sabia que ele seria um marco em minha vida. Hoje, antes e depois de Jean Marie. Peço a ajuda do filósofo Baruch Spinoza para falar sobre a experiência de fazer as aulas de alongamento e de ballet clássico do Jean-Marie Dubrul. Spinoza fala que “os bons encontros potencializam o corpo e alma”.  Do meu ponto de vista, nenhuma frase definiria melhor o que acontece quando Jean entra em nossas vidas. Com seu jeito francês já tão abrasileirado que muitas vezes não sabe mais qual é a língua que está falando. Talvez por isso, tenha criado um quase dialeto que nos diverte e encanta a todos.Movimentos. Fluxos. Palavras. Gestos. Música. Tudo isso em harmonia potencializa nossas vidas de maneira inenarrável. É preciso viver a experiência. Mesmo pra quem gosta das palavras e trabalha com elas como eu faço, tenho sempre muita dificuldade em descrever o que acontece nos encontros, sempre únicos, com nosso professor de dança e de vida. De novo. É preciso experimentar. E mudar a vida para sempre.

david pinheiro

David Pinheiro

David Pinheiro: Essa aula, esse trabalho mudou a minha vida. Há 5 anos atrás eu era outra pessoa. Estava em casa, assistindo a um Festival de filmes que tem no TCM chamado “os cem filmes que você devia ver antes de morrer“. Um deles, era um filme muito antigo, americano, que contava talvez a história da primeira família do “show biz” na Broadway. Um ator muito conhecido por nós aqui, que não estou lembrando o nome. Era conhecido como “inimigo público número 1” mas, era um grande dançarino. Vi aquele homem no filme já numa idade mais avançada, dançando. Então disse para mim mesmo: O que é que eu estou fazendo aqui que eu não vou para a aula de dança ali em cima na Sauer? Isso foi em dezembro de 2009. Estou aqui até hoje. Sou outro homem. Mudei minha concepção de vida, a maneira de encarar o meu trabalho. Claro que isso me trouxe também modificações que me criaram complicações na relação com a vida, com o meu cotidiano. Mas, me tornei outro homem. A minha voz mudou. Tudo meu mudou. Foi fundamental. Atribuo isso a uma mudança, primeiro na respiração. A profundidade da respiração. Ela faz com que você se tonifique, se re-tonifique diariamente. Se você prestar bem atenção se respira profundamente em cada aula pelo menos umas 200 vezes. Isso já modifica completamente sua história interior. A relação com o espaço, a segurança, o equilíbrio. Eu faço (ballet) clássico então estou trabalhando bastante – depois de velho, que eu tenho 64 anos, não sou nenhum garoto –  vários lóbulos no meu cérebro. Estou num espetáculo agora que melhorei mil por cento como ator. Eu represento com todo o material adquirido aqui com o Jean-Marie. Isso vale para o corpo, para o espaço, com o público, na relação. Debito tudo isso à dança. Acho que é dançar para não dançar. Isso é fundamental.

Vera Gertel

Vera Gertel

Vera Gertel: Faço esse trabalho por duas razões: saúde e estética. Hoje não há em parte alguma do mundo um médico que não recomende às pessoas fazerem exercícios físicos. É bom para tudo: para a idade, para não enferrujar, para o coração, para a respiração, para uma série de coisas. Claro que há uma razão estética também. Ninguém gosta do que é feio. Então existe uma tendência quando a pessoa envelhece para engordar, porque o metabolismo é mais lento. Todos gostam de conservar o corpo e a musculatura etc. A diferença entre uma musculação comum e a aula de Jean-Marie é que aquela para mim é muito tediosa pois se trabalha cada músculo separadamente. Você fica lá. Vai mexer o braço. Aí uma, duas, três, quinze vezes… Abdominal, não sei quantas vezes. Você está mexendo só o braço, só o bumbum, só o abdômen, tudo muito separado e mecânico. Não há emoção naquilo que você faz. Não há uma consciência corporal no exercício que você faz na musculação. Enquanto que o trabalho de corpo generalizado – como é o caso do método do Jean-Marie – é um auto-conhecimento do seu corpo.É impossível fazer a aula do Jean-Marie se não tiver consciência corporal. Se não estiver ligado naquilo que está fazendo. Então acho que chamar de Alongamento é muito pouco. Porque na aula do Jean, o método é o seguinte: você trabalha durante uma hora, uma hora e pouco o corpo todo, quer dizer do fio do cabelo até a ponta do dedão do pé. Sem parar. O tempo inteiro você está mexendo o corpo todo. Isso para mim é o mais importante. É a única aula que mexe com a musculatura das costas. Eu fiz muitas aulas de musculação durante muito tempo e não conseguia mexer com a musculatura das costas. Aqui mexe em tudo. Acho as pessoas – que fazem a aula com Jean-Marie – muitos especiais, vão logo criando uma amizade. Porque não é qualquer um que entende esse método. Por isso acho que as pessoas novas que chegam deveriam pelo menos primeiro experimentar. Ter uma primeira aula gratuita para conhecer o método corporal dele. Ver se gosta. Ele costuma chamar de preparação para a dança. Acho que é mais isso que alongamento. Você faz uma esforço monumental na aula sem parecer, sem se dar conta e num ritmo de tai chi. Sem perceber. Porque todos os movimentos são muito lentos mas, exigem muita força. Não é todo mundo que se adapta a fazer um exercício que é lento. Não é qualquer um que gosta do roteiro musical que ele proporciona – que é excelente – mas não tem nada a ver com heavy metal!

Apresento a seguir os primeiros depoimentos dos alunos do Jean-Marie Dubrul: Ernani Torres, Ana Marta Veloso e Carla Do Eirado. Para não cansar o leitor, as impressões foram divididas em séries com 3 depoimentos por post. Outras opiniões virão posteriormente:

Ernani Torres

Ernani Torres

Ernani: Eu vim para cá porque tive uma crise de sacro-ilíaco. Fui tratar com RPG que deu uma boa segurada mas percebi que tendo em vista o “avanço etário” eu precisava de algo mais preventivo, e aí a Ana e você já estavam vindo aqui para o Alongamento, falei com minha professora de RPG que disse: “Olha, nós de RPG somos muito bons em alongamento mas, os bailarinos são os melhores… Risos…” Aí eu vim e em 15 dias melhorei muito.

Acho que se não tivesse tido uma entrada tão objetiva assim, eu não teria vindo. Já estou fazendo o trabalho há 3 anos e vejo hoje como uma coisa de prevenção e também de relaxamento. Dar uma relaxada de manhã é bom, não é ruim não… já está incorporado na minha rotina de vida e quando não faço, não é o fim do mundo: Não é uma coisa vital para mim, mas é uma coisa legal. Venho porque é legal, dá prá dar uma desacelerada boa.

Ana Marta

Ana Marta

Ana Marta Veloso: É um momento de dar uma “paradinha” no corre-corre do dia a dia. Respirar profundamente e entrar em contato com coisas que a gente não tem oportunidade na vida normal. Para mim, é um resgate muito legal de coisas que fiz a vida inteira: fiz ballet dos 5 anos de idade até uns 20 e tantos… Não imaginei que fosse conseguir fazer de novo. Descobri aqui que é possível. É possível. Tem que, obviamente, se dedicar. Vir com frequência mas, depois se observa que seu corpo começa a relembrar os movimentos.

Há momentos inclusive de muito prazer. É uma hora do dia para fazer uma atividade extremamente prazeirosa e não só individual. Também, o contato com o pessoal daqui é muito divertido. Esse lado lúdico, a gente não tem no dia a dia. Até resgata uma coisa meio criança, assim, numa boa, de se divertir fazendo algo com o corpo…

É um trabalho diferente pela heterogeneidade das pessoas e  também ver como o nosso mestre consegue trabalhar todo mundo, fazendo com que cada um dê o melhor de si. Aqui o público é muito diferente, em termos de idade e até de objetivos. Veja: a conversa do Ernani não tem a nada a ver com o que aconteceu comigo. São enfoques muito diferentes, mas muito parecidos até no sentido de se buscar um trabalho que faça bem ao corpo e à mente, além do prazer. Entretanto, é o talento do mestre que faz a diferença.

Carla do Eirado

Carla Do Eirado

Carla Do Eirado: Esse espaço é uma espécie de refúgio da avalanche que é o meu dia-a-dia. Um momento que tenho para dedicar a mim mesma. Minha trajetória na dança foi complicada e sempre me senti deslocada. Achava que meu corpo não era bom para dançar. Ele é bem abrasileirado. Já passei por outras academias e vejo como é importante ter o apoio não só de um bom professor – tecnicamente falando – mas, de alguém que seja observador, cuidadoso e amoroso como o Jean. Também acho ótimo fazer parte de uma turma que esteja buscando algo mais que uma simples aula de alongamento ou de ballet.

Aqui é um lugar onde sinto a unidade do meu ser. Sempre tive a sensação de trabalhar demasiado com a cabeça, de estudar muito, fazer trabalho intelectual. Por isso tive a necessidade de ultrapassar essa limitação, conciliando e fazendo o casamento entre o que penso e o que faço corporalmente. Isso tem tudo a ver com o que acontece aqui. Para mim cada dia é um recomeço e prometo a mim mesma estar aqui. Não é fácil. É uma escolha.

Além de vivermos fragmentados de um modo geral, temos também que suportar e aceitar as frustrações decorrentes dos limites do corpo. Achar que só porque pensou, vai executar? Não é assim que acontece. Quando se faz dança ou qualquer outro movimento corporal – especialmente o ballet – se lida com outra realidade. Não é “tão cabeça” e o corpo não é tão fluido. É preciso preparar e trabalhar o corpo. Aqui se aprende a retomar o corpo que se é.

Faz todo o sentido quando o Jean fala: “observar, decodificar e reproduzir”. Observar o movimento não é suficiente para realizá-lo. É preciso descobrir os caminhos que o corpo pode fazer para realizá-lo. Isso representa um desafio enorme e certamente se transforma numa prática de vida. Aqui também é um lugar espiritual. Muitas vezes procuro sentir o movimento e o que ele poder trazer de positivo para mim e para o mundo. Como isso me faz tão bem, me pergunto sempre de que maneira poderia compartilhar com os outros os benefícios que me traz?

Estou aberta para a vida e busco levar adiante o estado de espírito que consigo obter aqui. As palavras não esgotam o sentido dos acontecimentos. Cada aula de alongamento com o Jean é indescritível porque nos conduz a outras dimensões: do sensível, do afeto, do toque, do estar com o outro, do encontro. Tenho vivenciado aqui coisas preciosas. Devo dizer que é raro hoje em dia um espaço onde as Pessoas se dispõem e tornam possível essa convivência. Diferente de outras Academias de Ballet: não há competição, não tem um querendo suplantar o outro. Vejo todos empenhados na busca de si mesmo e dos outros. O objetivo é se desafiar, se superar, estar junto, sorrir e olhar.

Ele às vezes diz: “Olha! Olha! Faz o movimento. Olha o espaço. Se posiciona. Olha quem está à sua volta.” São ensinamentos para prestar atenção ao espaço e à vida. Olhar quem está à volta e ver o que está acontecendo. Vivemos dentro de um corpo mas a nossa pele não nos separa do mundo. Ela tem poros e o ar do mundo está sempre respirando dentro de nós. Somos seres de relação e de comunicação. Para mim a dança é uma prática: praticar o coletivo. Sem os outros somos nada.

B. B. (Beto Benjamin): Como foi que começou essa história de alongamento e ballet?

Professor de Alongamento e Ballet na Sauer Danças Rio de Janeiro, Brasil

Professor de Alongamento e Ballet na Sauer Danças Rio de Janeiro, Brasil

Jean-Marie: Foi na França. Posso dizer que tive o privilégio de fazer aulas com duas professoras de ballet maravilhosas: Nora Kiss – uma russa branca que morava em Paris e Rosela Hightower – uma americana que também vivia na França em Cannes. Duas grandes profissionais da dança no mundo.

Ambas eram figuras extraordinárias do ballet, que cativavam com a maneira de ensinar. Deram aulas para alunos de vários países.

Nas companhias de ballet que trabalhei pelo mundo, virei primeiro bailarino e de vez em quando, o Diretor me chamava para dar aula. Foi assim que comecei a ensinar e fui com o tempo, aperfeiçoando minha técnica. Sempre curti dar aulas e curto até hoje. Quanto mais faço mais sinto prazer, mais aprendo.

B. B.: Quais as diferenças entre essas duas professoras de ballet?

Jean-Marie: A diferença estava na maneira como cada uma delas se colocava perante as pessoas, os alunos. Rosela era uma primeira bailarina conhecida na França e no mundo inteiro e Nora Kiss era uma profissional também famosa e já com uma certa idade.

B. B.: E no alongamento, houve mais algum destaque?

Jean-Marie: Sim. Houve uma outra professora em Paris, Lilianne Arlen. Uma bailarina que se acidentou no teatro. Ela caiu do alçapão no palco e ficou paralisada das pernas o resto da vida. Dava aula em cadeiras de rodas. Era muito impressionante. Todo esse trabalho de alongamento, postura e tudo mais, foi com ela também que aprendi, num estúdio na Salle Pleyel em Paris.

B. B.: Qual o significado da repetição? Ela não é uma coisa enfadonha, que cria uma rotina tornando as coisas desinteressantes?

Jean-Marie: Não, muito pelo contrário. A repetição é a chave de tudo. É justamente a maneira para se aperfeiçoar e poder entrar em outra dimensão. Em todas as artes, a repetição é primordial: num concerto de música, numa orquestra etc. Um músico, tem que trabalhar muito, diariamente, repetir muito, para chegar lá. Bailarino, esse então tem que treinar muito. Muito mesmo. Não é brincadeira se tornar um excelente bailarino.

B. B.: O que os alunos significam para você?

Jean-Marie: Minha relação com os alunos é uma relação de troca. O professor só existe por causa do aluno. O grande desafio é aprender a descobrir o aluno, a gostar dele ou dela pois, se não gostar, não tem como ensinar nada a ninguém. Para mim, é nessa troca que acontece alguma coisa e gosto muito disso.

B. B.: O heterogêneo numa aula complica mais as coisas ou não?

Jean-Marie: Não é problema. É um desafio encontrar uma linguagem que possa ser compreendida e que acrescente alguma coisa a cada aluno, seja ele um profissional que já vem com certa bagagem ou alguém que está iniciando a descoberta do próprio corpo.

Isso foi uma coisa importante que aprendi cedo na profissão e observe que só no Brasil, trabalho há mais de 35 anos. Era preciso descobrir uma linguagem, uma solução, onde cada um pudesse encontrar seu conforto e satisfação.

Compare o trabalho entre você – que é leigo praticamente – e a Fernanda que já era bailarina – além de excelente artista – e tem se tornado uma bailarina cada vez melhor. Cada um de vocês tem a necessidade de encontrar respostas para suas expectativas. É aí que está o trabalho.

B. B.: Em que consiste esse trabalho?

Jean-Marie: Consiste em procurar um certo equilíbrio, uma dinâmica do movimento , uma respiração correta. O tempo inteiro. O que importa não é só fazer certos movimentos. O que resolve de verdade é como fazer o corpo chegar neste ou naquele posicionamento. É o movimento que vai transformando tudo. Ele é que dá esse equilíbrio e prazer.

B. B.: Como você saca que a pessoa está se desenvolvendo?

Jean-Marie: Ah! Isso é na hora! Bato o olho e já sei como está a pessoa: um dia, três dias, seis meses depois já se nota a diferença. No olhar da pessoa e no meu próprio. Eu também participo desse processo. É uma transformação onde eu também vou junto.

B. B.: Onde você vai buscar as “pérolas” que solta de vez em quando nas aulas?

Jean-Marie: É a vida que ensina. É de lá que elas surgem.Também não se pode ser sério demais fazendo esse trabalho.Tem que disfarçar um pouco a realidade, a dureza da vida. Já chega eu ser francês, não é? Não tenho culpa de ter nascido lá. E olha que já melhorei muito aqui no Brasil.

Aula de alongamento

Estou iniciando esta caminhada despretensiosa com um post sobre o trabalho de alongamento realizado pelo francês – quase brasileiro, como ele mesmo diz – Jean-Marie Dubrul, professor de Alongamento e Ballet da Sauer Danças, no Rio de Janeiro. Suas aulas são dinâmicas, energéticas, cativantes, diferentes e trazem resultados supreendentes para os participantes, como eu. É só conferir em outro post mais adiante o que dizem os alunos.

A bem da verdade, quero lembrar que, antes do Jean-Marie, tive a felicidade de fazer um trabalho semelhante com o não menos notável Antônio Negreiros, durante vários anos, em sua Academia no Leblon. Posso dizer que fui um dos “órfãos” do Negreiros, que um dia, resolveu sair pelo mundo e se foi… Para minha sorte, pouco tempo depois, minha querida amiga Ana Marta Veloso me convidou para fazer uma aula com o Jean-Marie.

A estréia do site com esses posts é um reconhecimento e uma homenagem ao trabalho desses dois profissionais do alongamento e da dança no Rio de Janeiro, e também um alô aos meus colegas nesse percurso.


O bairro, é o Jardim Botânico. Um belo casarão, no topo da Lopes Quintas, uma das mais tradicionais ruas daquele bairro. As pessoas, vão chegando devagar, geralmente em silêncio e, uma a uma, vão deixando seus pertences num canto do chão da sala – como se se despissem do excesso que carregam consigo no dia a dia – e, como se aquele ritual fosse uma espécie de preparação, para o que está por vir.

São homens e mulheres, de idades as mais variadas. Aqui, isso é o que menos importa. Algumas figuras conhecidas: uns “globais”, outros locais. Gente de toda a parte. Até baiano tem!… Profissões? As mais diversas: bailarinos, economistas, escritores, médicos, administradores, poetas, cantores, engenheiros, arquitetos, artistas plásticos, atores etc. Os tipos físicos também são os mais diversos. A maioria se conhece e, faz alongamento há bastante tempo. Outros, nem tanto. Sempre aparece alguém novo, interessado em conhecer o trabalho.

Os olhares se cruzam, rapidamente, como uma saudação – em geral, desprovida de palavras -. Os “ois”, pronunciados em tom baixo por gente, que pelo menos ali, não demonstra interesse em parolar.

A sala retangular ampla, iluminada de maneira a facilitar os exercícios e, com grandes espelhos ao redor, estendidos de cima a baixo, favorecendo o aumento virtual do espaço. Como se cada um fosse se utilizar de verdade daquele volume extra, engraçado, fictício e ilusório: “Espelho, espelho meu! Haverá alguém mais…”

Aula de alongamento

Aula de alongamento

Jean-Marie entra na sala – devidamente trajado -, ajeita o som, cumprimenta rapidamente todos e, dá inicio aos primeiros movimentos: “Andando”. Todos se põem a andar, num passeio caracterizado pela total falta de direção, similar a um movimento desordenado de partículas. Uma verdadeira entropia de gente. Num desfile forçosamente engraçado – só para quem estiver, de fora, assistindo!…

Nesse passear descompromissado e, fora de hora, as pessoas vão aos poucos se desligando de seus pensamentos, dos problemas da vida lá fora e, se concentrando no trabalho de alongamento que ora se inicia. A música, como um pano de fundo, auxilia na criação do ambiente adequado e, o mestre, acompanha de uma forma toda própria, o empenho dos alunos na execução de cada exercício.

“Cabeça erguida! Nada de olhar para baixo!”, brada ele. “Atenção para a respiratión e os movimentos”, acrescenta. Deixem que o córpinho carregue suas pernas”, fala, com leve sotaque, revelando sua origem francesa…

Após alguns minutos, o passeio aleatório acaba e, os alunos ocupam “os seus espaços” no salão. Jean comanda movimentos, que são repetidos por toda a turma e, vão se desenvolvendo progressivamente, numa cadência, onde a única força utilizada é, o próprio peso. O grupo acompanha numa coreografia singular – pois não se busca a perfeição como num ballet –, mas sim, a execução dos exercícios e posturas, conforme as possibilidades, tempos e limites individuais.

Aula de alongamento

Aula de alongamento

Os exercícios solicitam de cada pessoa e, a cada instante, distintas partes do corpo, numa gestual slow-motion, que mais parece uma busca por algo invisível, mas que se desconfia existir.

À medida que, a sequência de exercícios se desenvolve, nada escapa do olhar atento e, das intervenções corretivas e, apropriadas de Jean-Marie. Sempre num tom incentivador, porém incisivo, sem margens para fugir. Córragem”, anima o mestre, num mantra diversas vezes repetido. Certamente coragem, é o que não falta a ninguém ali.

“Solta o corpo. Deixa o corpo solto. Isso… Cuidado! Não é para forçar nada. Eu disse nada. Isso aqui não é Academia, muito menos Terapia. É outra coisa! Se você ainda não sabe, procure saber!”. 

A turma já está acostumada e, adora as pérolas, que o Jean-Marie solta, invariavelmente. É só esperar, que vem. Podem demorar um pouco, mas é certo, que vem.

A aula prossegue e, ao completar um exercício no “chão”, onde a tônica é o alongamento dos braços e das pernas, Jean, saca mais uma de seu arsenal: “Atenção para o olhar. O olhar, segue o movimento dos braços. Às vezes, a beleza das coisas, é dada pela direção do olhar…”Sacou?

O grupo entra naturalmente no ritmo e, consegue executar os exercícios com relativa facilidade, demonstrando familiaridade com as posturas e, um certo domínio da técnica. A liderança de Jean-Marie, é incontestável e, faz toda a diferença. Ele não tergiversa. Ninguém escapa aos seus olhos de lince, treinados durante décadas como professor de ballet. O cuidado e o respeito com todos, é permanente e, notável, gerando uma confiança fundamental, entre aluno e professor.

Aula de alongamento

“Démi-pliez, devagar. Eu disse devagar. Rélevez…mais uma vez! Vamos lá, mais uma vez…Olha essa menina…Fernandinha, que marravilha. Veja como ela faz. Veja como ela encaixa o ombro… Pés arrendondados. Allez…Estão me entendendo? C`est-ça. Traduzindo: É isso aí.”

Uma correção aqui, outra ali – o tempo inteiro – e, ele vai conseguindo levar o grupo na direção e, no ritmo, que deseja. A música, sempre acompanhando. A sessão ocorre, como se cada um fosse o mestre de si próprio. A respiração lembrada e praticada. O mote, sempre repetido:

“Não se isole. Vida é movimento. Sem respiratión não há vida. Eu não sou exemplo. Sou apenas sugestão. Uma possibilidade. Você, trate de descobrir o seu caminho…”

Além da música, só se ouve sua voz. Ele fala, todos seguem, buscando transformar as palavras em guia e, executar os movimentos, respeitando os próprios tempos. Atento aos detalhes dos exercícios, nada foge à sua atenção, rigor e sensibilidade. Conhece cada aluno, sabendo até onde pode ir e, explorando ao máximo, aonde quer chegar.

O tempo, parece passar vagarosamente, naquela sala pois, não se notam expressões de ansiedade, que possam ser interpretadas, como o desejo de que tudo acabe logo. Longe disso. As pessoas parecem curtir bastante, o que estão fazendo.

Vamos Daniel, estende essa coluna. Você consegue”. “Allez. Não me entendem? Eu estou falando “portugueish légal”. Com um leve sotaque mas é puro “portugueish”. “Vamos mais uma vez: allez , soltando…Lateral direito…”

Nunca se sabe…se isso vai dar certo!
Não se sabe… (úl)tima chance…mais uma vez, vamos…

Aula de alongamento

Aula de alongamento

Aos poucos, a sessão vai se aproximando do final. As pessoas, vão saindo daquele estado de quase meditação e, voltando lentamente à vida real. Nota-se no corpo, uma leveza que não existia antes e, nas expressões , um certo cansaço, que parece apenas, físico.

Para finalizar, a sempre surpreendente “roda”, onde todos de pé se dão as mãos, as luzes se acendem e, o espetáculo ridiculamente engraçado, de escolher “um, para Cristo”, lhe perguntando se se lembra o nome de todos, que estão na sala e, pedindo que recite, um por um. Evidente, que ninguém sabe o nome de todos e, fica aquela coisa engraçada e, ao mesmo tempo constrangedora, por um breve instante, de não saber o nome, de seu colega. Isso acontece com todos, sem exceção: um dia vai chegar a sua vez. Os nomes são recitados, um por um – com ajuda sempre – e, a roda se completa.

“As pérolas filosóficas”, do Jean-Marie, são surpreendentes e impagáveis, provocando, em geral, um misto de riso – ora disfarçado, ora escancarado -, reconhecimento e admiração. Para alguns, esse trabalho mexe com o corpo e, se trata de uma terapia anti-envelhecimento. Para outros, é muito mais que isso. Vai além. De uma certa forma, mexe com a maneira de ser e, de viver.

Programa de saúde? ginástica para a terceira idade, desculpe para todas as idades? Misto de exercício físico e meditação new age? Terapia gestáltica anti-stress? Trabalho com a respiração, movimento e musica? Exercícios anti-envelhecimento? Pode-se escolher o nome ou, os nomes, que quiser, para tentar explicar o trabalho do Jean-Marie. O que as pessoas buscam aqui, não se sabe, mas certamente, encontram alguma coisa do que procuram, pois quem vem, volta sempre.

Aula de alongamento

Aula de alongamento

Na verdade, fica a sensação, de que todos saem dali, com outra energia, outro pique, outra disposição. O resultado de bem estar, é visível em cada pessoa. Pode-se dizer sem medo de errar, que aqui fica a impressão, de que o todo, é maior do que o somatório das partesExiste uma “química”, uma cumplicidade, entre o Jean-Marie e os alunos, que funciona mesmo. Tem algo diferente. Como essa coisa meio mágica acontece, não se sabe!… Paradoxo inexplicável do alongamento?!… Talvez… Como e, por que isso ocorre?!… Está lançado o desafio, para quem queira apresentar uma explicação.

Será que, porque a aula é de alongamento, se sai maior do que se entrou?!…(rs)… Fora a brincadeira, existe ainda uma outra impressão interessante: a de que o tempo passou, naquela sala, como se não existisse. Pode?

Pois bem, aqui pode tudo. Lá fora, nunca se sabe…

Se você quiser saber mais sobre Jean-Marie Dubrul visite o site: www.sauerdancas.com.br

Beto Benjamin

Olá. Decidi, depois de pensar por algum tempo, escrever este blog, que chamei de Nunca se Sabe, para compartilhar com os amigos e com quem se interessar em ler – as coisas que descobri, vi, ouvi, visitei, participei, gostei, me chamaram a atenção, ou me contaram.

Compartilhar entrevistas com pessoas que conheci e achei interessantes e/ou extraordinárias. Claro! Para falar delas, de suas ideias, do que fazem, de seus trabalhos, de suas contribuições, de seus impactos na comunidade ou no mundo; são poemas, livros, contos e crônicas que me interessei ou que me enviaram; apresentar músicas que gostei; fotos, filmes, shows e peças que vi; enfim, tudo aquilo que me marcou ou despertou minha curiosidade. Celebrar a vida!

O nome que adotei para o site representa uma postura em relação à vida – com suas complexidades, acasos, incertezas, surpresas – e às escolhas que fazemos. Pois, por mais que se deseje antecipar os resultados, Nunca se sabe o que vai acontecer…

Outra razão pela qual resolvi criar este site é que descobri que agora tenho tempo – coisa que achava não ter antes – e, portanto, quando se tem tempo, se descobrem coisas surpreendentes e novidades interessantes. Ainda não sei a frequência que devo imprimir aos posts, mas estarei sempre buscando o que apresentar. Não espero comentários – nem nada de ninguém – mas, se vierem, serão bem-vindos.

Um aviso aos navegantes: não pretendo fazer uma viagem em torno do meu umbigo, mas por outras partes – quiçá mais interessantes – do Homem (e da Mulher naturalmente), navegando as aventuras da vida e da condição humana. Com certeza este site não será um timeline, como nos facebooks e nas biografias.

Todas as formas de Arte

Para facilitar a visualização, dividirei os posts –  à medida que eles forem sendo elaborados – por categoria, localizadas no ícone do menu, no topo superior direito da página: Entrevistas, Artes, Música, Poesia, Expressão Corporal, Cinema, Vídeos, Fotos, Teatro, Crônicas, Contos, Acontecimentos, Vivências, Esportes, Viagens, Lugares Interessantes etc. Isso permitirá  navegar mais facilmente, além de dar a opção de ir direto ao assunto.

Finalmente, quero agradecer a duas pessoas que foram muito importantes nessa decisão: o poeta Érico Braga Barbosa Lima, pelo empurrão sobre o abismo do escrever… Alertou-me (só depois, claro) que, passado o susto inicial, não morreria da queda e, ainda, descortinaria belos horizontes ocultos e desconhecidos, acrescentando que iria me divertir muito… e aos meus amigos. O segundo é ao jovem graphic designer Peter de Albuquerque, que com competência, elegância e paciência me conduziu pelo bê-a-bá do MacBook Pro, me transportando pelos meandros e segredos do hardware e do software, permitindo-me montar este site e começar a andar com as próprias pernas.

Espero que vocês curtam essas postagens, se divirtam e que elas possam ser úteis e/ou interessantes. E vamos ver no que dá! Nunca se Sabe…

%d blogueiros gostam disto: