B.B. (Beto Benjamin): Essa história de fotografia começou na barriga de sua mãe? Conte aí…
Nilton: Foi na minha adolescência. O amigo Sócrates, lá na rua onde morávamos, bairro da Saúde, tinha uma câmera fotográfica, uma Beirett – que eu gostava – mas nada ainda que tivesse me tocado. Até que um dia resolvemos sair juntos para fazer umas fotografias. Eu, aos 15 anos, já trabalhava numa empresa – de mármores – lá na Calçada, Cidade Baixa, em Salvador. Trabalhava de dia e estudava à noite, no SENAC, perto da Rua Chile. Feitas as fotos, peguei o filme e levei para revelar no Zito, lá na Rua Chile, 7. Seu moço, três dias depois, quando fui buscar o resultado, um negócio aconteceu comigo!… Minha curiosidade para ver as fotos reveladas era tão grande – mas tão grande – que saí correndo do Terminal da França até a Rua Chile passando pelo Elevador Lacerda. Mas, correndo pra valer mesmo!
A partir daí disgramou ! O bicho me mordeu! [rs]
[“disgramou” é inocente expressão baiana que significa “f…”]. Nota de B. B.
Saí dali para comprar a minha câmera e comecei a fotografar, brincando. Posteriormente comprei uma Yashica “Minister D”, uma câmera mais sofisticada. Comecei a me interessar verdadeiramente pela fotografia, a ter mais curiosidade. Tempos depois, adquiri uma Asahi Pentax Sportmatic II. Rapaz, comprei essa câmera num sábado e fui até terça-feira seguinte dormindo altas madrugadas: experimentando, imaginando as possibilidades e explorando o seu potencial. Era um equipamento maravilhoso para aquela época… Além de fotografar, comecei também a revelar as fotos, comprei um ampliador com “seu” Marotta, da Casa Lamar, e mergulhei de cabeça no assunto. Fotografava qualquer coisa que aparecesse: eventos sociais, festa de amigos. Até que um dia a empresa Magnesita – que era nossa vizinha de sala, e eu no meu segundo emprego no bairro do Comércio – me chamou para fotografar a inauguração do seu terminal marítimo de minério. Ora, se eu ia perder uma chance dessas!?… Pedi permissão ao meu patrão e fui lá fazer as fotos.
Pensei que eles fossem comprar 20 ou 30 copias 20×25 cm. Me pediram entre 300/400 fotos… Aí eu disse: “Vixe Maria … Esse negócio aqui é bom. Tem mercado.” Me empolguei na hora. E continuo até hoje…
Comecei a estudar de verdade a arte da fotografia. Tinha um livro (e tenho até hoje): o “Tratado de Fotografia” de autoria do M. J. Langford. Li profundamente com o maior interesse tudo onde via a palavra “Fotografia”… Queria aprender mas, também, tomar uma decisão: estava estudando – tomando curso pré-vestibular… Entretanto, a possibilidade real de ganhar dinheiro me atraía enormemente e – ao mesmo tempo – me amedrontava tremendamente. A profissão não era estável; ao contrário, era inconstante, insegura… Até que, um dia, fui receber um pagamento no Consórcio Mendes Júnior-Campenon Bernard. Lembra? Você trabalhou lá, na construção das plataformas de perfuração e produção de petróleo para a Petrobras. Foi lá que nos conhecemos. Pierre Lazzaroto – aquele francês que você também conhece – me mostrou umas fotos da plataforma que estava sendo construída e perguntou: “Que tal?” Eu olhei, olhei, virei prá ele e disse: “Pierre, eu faço melhor que isso”. Ele respondeu : “Ah é?” “Então mostre! Faça uma proposta e mande. Prove que faz mesmo”. Aí, não deu outra. Fui lá no canteiro de obra e fiz.
Essa prova para o Pierre não foi muito fácil: tinha que por uma placa com a data da foto na plataforma – numa posição complicada – com um certo ângulo para sair na foto… Ai meu Deus do céu! O fato é que o Pierre me disse, também, que a empresa que fizera as fotos até então estava com problemas e que o Consórcio ainda teria dois anos de trabalho pela frente. Então, pensei: o contrato com o Consórcio me permitiria ganhar muito mais do que ganhava no emprego com o “seu” Zé Vicente – uma construtora pequena que trabalhava com estradas. Lá, eu cuidava da administração e organização fiscal. Tomei minha decisão: optei por não fazer a faculdade. Contei a situação para Zé Vicente, treinei uma pessoa para me substituir e “me piquei”. Curioso é que, mesmo saindo, ele ainda me deu uma gratificação.
Naquela época no Brasil, as Importações eram muito dificultadas. Com o dinheiro na mão, embarquei para a Zona Franca de Manaus, comprei uma Hasselblad e uma Nikon. Fiquei muito feliz com essas aquisições e foi assim que comecei a minha vida como fotógrafo profissional.
Além desse contrato firme de fotografia com o Consórcio das plataformas, logo se iniciava a implantação do polo petroquímico de Camaçari – BA com suas empresas. Fui conquistando os contratos para fotografar a implantação delas. A Cobafi foi a primeira e, daí por diante, vieram CPC, DETEN, BASF, RHODIA, as primeiras obras para a Odebrecht: o Portoseco Pirajá, o Centro Empresarial Iguatemi, a barragem de Pedra do Cavalo… Depois a OAS, CONCIC. Não parou mais. Sempre fotografando obras industriais. Portanto, além de gostar da atividade, consegui obter o necessário conforto financeiro.
Desde que me entendo por gente, tudo que fiz foi sempre com muito esmero, carinho e dedicação. Me faz lembrar os tempos de moleque, ainda quando, entre 7 e 9 anos, consertava bicicleta para meu irmão Vavá, lá em Varzedo. Eu simplesmente não aceitava que o eixo da bicicleta se mexesse: fazia todos os ajustes para que a folga fosse zero. Queria o eixo perfeito – com essa idade. Imagine!
Tem outra história engraçada: com menos de dez anos, morando no interior, eu fabricava uma tal de “batida paulista” para vender. É… Para vender… Acredita? Minha família tinha um pequeno armazém. A mistura era: cachaça, canela, cravo, mel e limão. Eu fazia, experimentava, deixava “naquele ponto” e colocava para vender no armazém. Como é que pode um garoto – com menos de dez anos – fazer um negócio desse com tanta dedicação, e ainda mexendo com álcool? Pois é. Saquei que a zorra “tava” dentro do meu DNA. Queria fazer sempre o melhor. Não aceitava qualquer coisa.
Fui um adolescente muito solitário. A fotografia foi minha amiga e minha namorada querida, pois, naquele tempo, minhas conversas não tinham retorno. Claro, existiam as namoradas mas não era paixão. Os amigos também não davam retorno às minhas idéias. Lembro, também, a onda dos anos 1960: toda aquela musicalidade, os Beatles com sua música harmônica e envolvente. A Jovem Guarda!… Adorava tudo aquilo e já morava em Salvador. Vim para cá com dez anos.
A fotografia foi, é e sempre será uma paixão!
Quero falar sobre uma das coisas de que me arrependo profundamente: viajei o Brasil inteiro – trabalhando para a Odebrecht e para a OAS – e não fotografei tudo o que deveria… Pode? Fui a todos os estados brasileiros – menos os 3 territórios lá de cima – e perdi a grande oportunidade de clicar tudo o que estava lá embaixo, nos muitos voos que fiz. Atribuo essa falha clamorosa à minha cabeça fechada daquela época. Óbvio que devia ter registrado tudo por onde passei. Salvador, então (a cidade que vivo), nem falar!… Evidente que as empresas que me contrataram não estariam gastando nada adicional se eu tivesse – de passagem – feito as fotos. Em Salvador, só registrei as regiões do Iguatemi, Itaigara e Magalhães Neto. Por que zorra eu não documentei tudo mais?!… Sempre me pergunto. O Horto Florestal?! Veja hoje como está!… A Pituba e tantas outras áreas metropolitanas?… A boa notícia é que, há tempos, consertei esta minha falha… Agora, ao passar por cima, luz bonita, sem nuvem para manchar, sem custo adicional para o cliente, meto o dedo e passo a zorra, fotografo tudo…Algumas vezes – em eventos especiais – eu mesmo banco a contratação do helicóptero, como na inauguração do estádio da Fonte Nova, em dois carnavais, na regata de Saveiros … Ah! Adquiri, com dois amigos, recentemente, um Drone de 8 hélices com Canon 5D III. Fique tranquilo, que seguiremos as normas da ANAC.
Arquivos de fotos gravados e seguramente armazenados. Pronto. São quatro HDs em dois locais diferentes. Só perderei se cair um meteoro sobre Salvador ( Deus nos livre!…). Lembrei: nem se isso acontecesse! Pois em junho de 2014 levei mais um HD de 3TB e deixei em Londres com o meu filho Joás. Ficou lá, lacrado, dentro de uma excelente mala Pelikan. Toda a história está lá armazenada. Se tivesse feito deste o inicio – trinta e nove anos passados -, teria um documento “super” histórico da cidade de Salvador e de muitas cidades brasileiras. Como dizia minha avó Libânia: “Agora é tarde e Inês é morta”.
Nessa longa caminhada na fotografia, devo registrar também que a minha cabeça se abriu. Vejo coisas hoje que não via antes, compreende? Por exemplo: está vendo aquela foto – ali na parede – com duas lagoas secas? Fotografei no Vale do Capivara, perto de Salvador. Ia passando de helicóptero, bati o olho, enxerguei a cena e “pimba”: cliquei. Olha o que saiu depois!? Estranho e diferente não é mesmo? Fiquei até com a impressão que era o “Olhar da Natureza” me surpreendendo [rs]. Não é interessante?
Está vendo aquela outra foto, daquele navio, lá, perto da porta? [“Navio Entrando no Porto de Salvador”. Abaixo]. Pois bem, considero aquela foto uma sintonia quântica ou cósmica. Sorte. Sorte. Sorte. Conexões inexplicáveis: estar lá em cima na hora certa e aparecer aquilo na sua frente: o arco-íris. É para se encantar mesmo, não é? Naquele dia – me lembro como hoje: o cliente ligou à tarde, todo afobado, e ordenou: “Você tem que fotografar os três navios entrando no Porto amanhã às sete da manhã, viu? Não pode falhar”. O céu, justo naquele dia, amanheceu todo nublado. Então, eu disse para mim mesmo: “Meu Deus, como vou fotografar dessa maneira e atender ao cliente com uma foto de qualidade?” Não tendo outra alternativa, peguei o helicóptero e subi.
De repente, um buraco se abre nas nuvens, o horizonte azula, surge um belo arco-íris sobre o navio e luz em cima dos prédios junto ao porto. Você gostou do resultado? Eu achei fantástico. O cliente, fascinado!
B.B.: A que você atribui essa conjunção de fatores que, de repente, acontece nas suas fotografias?
Nilton: Minha mãe falava há cinquenta anos atrás – inclusive, está rolando isso de novo – sobre o poder do pensamento positivo. É acreditar e ir conferir. Faço sempre, nem titubeio. Aquela outra foto do saveiro, mais uma vez foi assim: subi, peguei o helicóptero por minha conta; de repente, o vento vem, sopra e parece que surgem desenhos atrás que jamais imaginei. Acaba sendo uma coisa mágica, que me deixa encantado.
No livro que publiquei agradeço as coincidências: as que aconteceram e as que acontecerão na minha vida.
B.B.: Você é daqueles que pensam que quem procura acha?
Nilton: Certamente… [rs]. Mas acho que tem que ter a “Força”. Não pode pensar que vai dar errado. Tem que acreditar que vai dar certo. Digo sempre ao Dourado, meu parceiro do drone: ” Rapaz esqueça: Duvidar para que? Tem que pensar que vai dar certo, que vai dar certo e que tem que dar certo”. Tudo aqui na Terra, na essência, é partícula. Energia. Aqui, na nossa cabeça mesmo, são só conexões, sinapses… Veja! O livro que você me indicou: A Ilha do Desconhecimento de Marcelo Gleiser, achei muito interessante. O Gleiser é um cientista de cabeça aberta. Amo o dizer: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que a vã filosofia dos homens possa imaginar”, dito há tanto tempo por ninguém menos que William Shakespeare. Acredito nisso piamente.
B.B.: Você encontrou nas empresas, pessoas que souberam reconhecer e valorizar o seu trabalho, além das questões meramente comerciais de preço de um serviço?
Nilton: Posso afirmar, sem dúvida alguma, que sempre encontrei pessoas que reconheciam o valor do meu trabalho. Você mesmo – Benjamin – é uma delas …Houve muito isso! Posso me orgulhar de uma coisa que me dava e me dá muita alegria: eram os clientes que me procuravam. Comentavam entre si, trocavam figurinhas, passavam as impressões de um para o outro – o famoso boca a boca – e, para minha felicidade, acabavam vindo a mim.
Atualmente, com o avanço da tecnologia, as facilidades de ter uma boa câmera, fotografar, reduziu um pouco o volume de procura por esse trabalho. Também tem o padrão de exigência: Brasil. Já notou quantos prédios e colunas verticais são fotografadas de forma torta, caindo para o lado? Arquitetos com quarenta anos de historia, livro cheio de patrocinadores, belos projetos e a maioria das fotos horrivelmente tortas. Não consigo entender! Posso também afirmar – sem falsa modéstia – que atingi um padrão de qualidade que não vale a pena sair para fotografar qualquer coisa a qualquer preço.
Surgiram outros métodos de divulgação da fotografia , e tenho que estar atualizado, planejando sempre os próximos passos. Estou aqui mas sempre organizando, pensando nos livros – devem sair mais dois este ano – no site, em meus painéis para decoração de ambientes e em outras criatividades. Devo permanentemente estar sintonizado com a evolução.
B.B.: Como foi que você passou de fotógrafo de obras industriais para fotógrafo da vida, da natureza, das cidades, das pessoas?
Nilton: Lembra que certa vez lhe disse: a minha mente fez “BUM!”, abriu-se. Pois é… Eu não “enxergava além”, só mirava a obra ou a indústria a ser fotografada. Via apenas uma única direção: tenho que fotografar o desenvolvimento da obra, da fábrica tal e pronto. Eu não parava para olhar ao meu redor. Era só a missão contratada. Foram muitos voos em helicópteros e aviões: três, quatro, seis horas num helicóptero e a possibilidade de erro tinha de ser zero.
O tempo passa… A minha preocupação com a prata utilizada nos filmes acabar – estou me referindo ao metal – e “adeus filme” (dá para acreditar?) foi superada com a chegada da captura digital e, simultaneamente, a abertura da minha cabeça. Comecei a ver, a enxergar além.
Outro dia estava, passando pela Av. Vasco da Gama, olhei para o lado e vi, na raiz da árvore, uma certa forma sensual. Pode? Ainda bem que estava com a câmera perto. Recentemente adicionei em meu novo site, uma área chamada “Galeria”. São as minhas criações via cabeça mais aberta: detalhes dos saveiros e outras abstrações. Estou tratando e selecionando fotos para fazer um livro com as que considero mais criativas, mais pessoais. Tenciono enviar para certas galerias no Brasil e mundo afora, para serem analisadas. Ver se meu olhar, minha forma de enquadrar, de criar, tem condição de um reconhecimento mais abrangente. Além do mais: livro é livro ! Cada um tem sua maneira de fotografar: borrado, tremido. isso é a visão do artista. Nas minhas fotografias procuro sintonizar com o “Código Secreto” – o livro do Priya Hemenway – uma fonte de sabedoria. Procuro fazer com que a composição da foto seja agradável para os olhos. A Mãe Natureza usa formas mágicas. Então isso requer uma grande dedicação, e também sensibilidade. Quer ver uma coisa deste mundo moderno? Alguém faz uma foto completamente sem foco, sem enquadramento, nem nada… Mas foi o famoso fulano de tal quem fez: é a arte. Chama-se “Arte Contemporânea”, do fulano de tal. Bem, não é o meu ponto de vista, não é minha linha!
A minha arte é outra: é o meu olhar criativo de hoje com toda a técnica que aprendi e continuo a aprender no dia-a-dia.
B.B.: Como foi que você fez essa transformação. O que foi que despertou essa mudança?
Nilton: A mudança está totalmente alinhada à tecnologia digital. As incríveis possibilidades quando se captura com, pelo menos, 14 bits, logicamente em arquivos RAW. Vejo, sintonizo, enquadro e clico. No meu monitor – capaz de mostrar 99% do Adobe RGB1998 devidamente calibrado situado numa sala com luz ambiente de 5000K sem interferência da luz externa – começo finalmente a polir o diamante digital.
Me ponho a pensar: “Puxa isso aqui – o céu -, eu posso aumentar a densidade só do azul, clarear só o verde das árvores; posso aumentar esse contraste, buscar detalhes nas sombras. Porque nosso olho tem uma limitação, dependendo da quantidade de luz. Nossa íris abre e fecha. Abre e fecha. Se tem muito brilho a íris fecha. Só que a câmera, além da íris – do abrir e do fechar – tem velocidade da captura, regida pelo obturador sob a sabedoria do fotógrafo. Nosso olho não tem velocidade ou obturador. O piscar é pura lubrificação.
As câmeras mais modernas com captura em 14 ou 16 bits ( 14 bits significa 16.384 tons e 16 bits 65.536 tons ) permitem dar um tempo de exposição mais longo. Hoje temos menos “ruído” nas áreas escuras. Pode-se também trabalhar com múltiplas exposições, buscar detalhes nas áreas mais claras ou nas áreas mais escuras. Para fazer tudo isso tem que saber como manusear a câmera no momento da captura. Não pode permitir que a câmera faça apenas o que foi programado pela engenharia do fabricante. Quando o ambiente exige, tem que ser mesmo na forma “Manual”. Os arquivos capturados em formato RAW são em estado bruto e, assim, quanto mais conhecimento técnico no momento da captura, melhor. Assim tem-se um poder extraordinário para buscar detalhes nas zonas mais claras ou mais escuras. Ou seja: ir aonde sua habilidade, competência, experiência e sensibilidade lhe conduzirem. Pensando bem… tem também o estado de espírito.
Ontem, mesmo, eu fotografava a Regata João das Botas. De repente, o céu estava azul, o mar estava azul. Daqui a pouco o mar estava verde, o céu cinza, nuvens carregadas, chuva e o mar verde. O que é isso? É a natureza. Liguei para uma bióloga minha amiga e perguntei o que era isso? Ela respondeu: são as micro-algas. Pois é. É a natureza.
Mês passado, estava na avenida vindo para cá, pela manhã, e de repente vejo uma árvore – com suas folhas novinhas – com um belo, brilhante e explosivo verde. Noutra passada – sem a bela luz incidente – o verde das folhas tornou-se um verde simples. Ora, tem que estar ligadão para sacar. A pessoa olha a fotografia e diz: Ah, você exagerou. Você interferiu com o Photoshop naquela foto com os nove saveiros juntos… O que foi que eu fiz? Nosso olho num dia nublado, vê a nuvem cinza. Naquela foto com esses nove saveiros, tive a sorte mágica – “a conjunção astral” – de, naquele momento, entrar uma luz. Tudo nublado, e magicamente entrou uma luz em cima deles. Eu, centrado, cliquei. A tonalidade das nuvens em tempo nublado – ou na sombra – capturada pela câmera, tende para o azul. Só que nosso olho não enxerga tal azul, mas cinza, cinza claro, cinza escuro. Então, o que eu fiz? No computador, selecionei as nuvens, eliminei a saturação azulada e harmonizei-as com o olhar… só isso. Ainda me dizem em tom de elogio: “Parece uma pintura”! Uaaaaauuuu !!!
Simples. Mas, o fazer – a alegria de ter o resultado – é tudo.
B.B.: Quer dizer que a luz é o Deus da fotografia ?
Nilton: É a magnifica presença DELE. Quando li sobre a teoria das cordas, quis ir mais fundo… Quando eu escuto a Karen Marie Garrett tocar “The Allure Of Sanctuary” (https://www.youtube.com/watch?v=_pFfWDEDzpM) sinto uma paz incrível… Os acordes são deliciosamente pacíficos e harmoniosos. Escutar uma música dessas é entrar em sintonia com DEUS.
Outro dia, estava ouvindo uma música e, de repente, meus pelos se eriçaram. O que houve? É emocionante. Pura emoção. Ouvir a música e se arrepiar. Tem mais: em outra ocasião no carro, estava indo para o sítio, sozinho, ouvindo música e tive que gritar: “Ahhhhhhhhhhhh”. Aquilo ali era doce energia, pura emoção. Tive que soltar, alegremente aqueles gritos, acho que foram uns três. Vejo um lado assim. O outro lado que vejo como resultado da fotografia, é o que chamo de: “boa energia monetária” .
A energia monetária que vai para a conta bancária que, através de numerozinhos – via senhas -, me permite adquirir saborosos queijos, vinhos, alimentos saudáveis, viajar, o que quer que seja… foi gerada por alegrias e satisfações. Isto é magnifico! A Deus eu agradeço por tal contemplação, tal felicidade. O conforto material, que tenho e desfruto com minha adorável Teresa, é gerado por uma alegria positiva das pessoas que recebem os resultados. Enxergo tudo isso como um ciclo que se completa.
Outro dia, um grande cliente encomendou-me cem fotos para dar de brinde para seus clientes especiais. Logo, ele disse:” Pode mandar uma fatura de 50%.” Eu falei: “Não! Espere aí: Quando você receber, veja se gostou. Depois mando a cobrança.” Para mim, o meu trabalho tem que ser transformado em alegre energia, em satisfação para o cliente…
A entrevista continua no próximo post: A Entrevista – Parte III. A seguir algumas fotos.
GALERIA DE FOTOS POR NILTON SOUZA
- Saveiros em Bordejo no Paraguaçu – BTS
- Velas dos Saveiros
- Velas Coloridas – Saveiros
- Saveiro – Detalhe – Baia de Todos-os-Santos
- Reflexos do Saveiro
- Saveiro – Detalhe – Baia de Todos-os-Santos
- Cidade do Salvador
- Salvador / Carnaval 2015
- Cidade Baixa e Quebra-Mar
- Porto de Salvador
- Forte São Marcelo
- Elevador Lacerda e Cidade Baixa
- Av. Tancredo Neves – Salvador
- Porto de Salvador – Carnaval 2015
- Cidade Baixa ao Por do Sol
- Av. Oceânica – Salvador
- Estádio da Fonte Nova
- Plataforma P59
- Navio Eagle Paraiba
- Chuvas no Bairro da Ribeira
- Transparência do Rio Capivara
- Transparência do Rio Capivara
- Chuva no Verniz – I
- Mangue Seco – Bahia
- Natureza vista do Ar
- Vale do Capivara – Bahia
- Foz do Rio Paraguaçu – Baía de Todos os Santos
- Chuva sobre o mar
- Cordas de Atracação – Saveiros
- Partida de Regata Saveiros.
- Saveiro Solitário
- A Solidão da Árvore
Conheci o Nilton Souza nos idos de 1976 quando, recém-formado, eu trabalhava num projeto de engenharia – avançado para aquela época no Brasil – onde, um consórcio franco-brasileiro construía num canteiro na Baía de Aratu, na Bahia, três plataformas de concreto para a Petrobras, que posteriormente seriam rebocadas pelo mar e, instaladas nos litorais do Rio Grande do Norte e Ceará. Fiz, até, uma viagem a bordo de uma dessas plataformas, mas isso será objeto de um outro post, qualquer dia desses, pelo inusitado e divertido da aventura marítima.
O caboclo Nilton, me chamou logo a atenção pois, era um dos poucos que tinha aparecido no canteiro de obra que, poderia disputar – com grande chance de vencer – o torneio de “magreza”, do qual eu me julgava, líder absoluto. Fazíamos parte, de um grupo de gente magra, em Salvador – mas, bote magra nisso – liderados naquela época tropicalista por Caetano Veloso e Raul Seixas. Mas, não foi só isso, que despertou a minha atenção: ele, tinha uma maneira empolgada de falar – gaguejando levemente – quando se entusiasmava, porém o mais impressionante era, o que ele mostrava: as suas fotografias.
Havia certamente algo diferente, no seu trabalho e, era difícil dizer – de primeira – o que era.
Suas fotos tinham “um brilho”, enchiam os olhos de satisfação e, apresentavam uma qualidade incomum. Na foto, a plataforma parecia querer “saltar” do papel e, entrar na vida real, como se já não bastasse existir, no mundo concreto, com o perdão do infame trocadilho! Devo avisar aos amigos que, assim como os uerês, os trocadilhos, também, me perseguem… Desde que, menino ainda, descobri o seu significado.
Assim, nasceu uma amizade entre um fotógrafo-artista e, um apreciador das coisas do mundo, que resistiu todos esses anos e, permanece firme e forte. É verdade que, com o passar do tempo, nos distanciamos – viajei também muito pelo mundo – mas, reencontrar Nilton, ao longo da vida, era sempre motivo de grande alegria. Não faltava assunto e, ríamos muito: das coisas, das pessoas, de nós mesmos e, sobretudo, dos acontecimentos pitorescos, da nossa querida Bahia.
Passados todos esse anos, o caboclo, assim como eu, ganhou uns quilos a mais e saímos – com louvor – do rol dos “super” magros. Nilton, se desenvolveu profissionalmente, incorporou, ao longo do tempo, todas as mudanças tecnológicas dos equipamentos fotográficos – que ele fazia questão de estar na vanguarda -, desde que, se meteu no ramo. Imagine que, foto ainda se chamava retrato e, câmera, máquina fotográfica!…
Pois bem, tudo isso incorporado e, devidamente dominado – usando um termo atual -, soube cuidar de sua sensibilidade como poucos e, de um simples fotógrafo industrial, transformou-se num artista visual, de primeiríssima linha. O julgamento, não é só meu: suas fotos estão aí, para quem quiser ver e apreciar. Pois é, quem diria que o caminho seria assim? Ninguém sabia, nem o próprio. Mais uma vez, o refrão se aplica: Nunca se sabe… Ainda se emociona – do mesmo jeito de 40 anos atrás -, quando se depara com algo extraordinário: seja a foto de uma pessoa, de uma indústria ou, de uma paisagem. O leve gaguejar, também, não mudou…
A ideia de entrevistá-lo, expor o que pensa, sua história de vida, o que é importante para ele e, em especial, mostrar um pouco do seu trabalho, veio naturalmente e, tenho certeza, que vocês poderão saborear sua linguagem simples, sem floreios e, ainda, se deliciar, com as verdadeiras “obras de arte” retiradas de parte do seu imenso trabalho, como fotógrafo e artista. A conversa que postarei em nosso próximo encontro, nesse espaço de vivências, ocorreu numa tarde, do festivo mês de janeiro de 2015, em São Salvador, capital da Bahia, estado onde dizem, que as pessoas não nascem: estreiam…
Para dar um gostinho do que está por vir, ilustrando a entrevista do próximo post, veja algumas das maravilhas, capturadas por Nilton. Até logo mais.

Claudia Corbisier
Claudia Corbisier: Em 2003 andava procurando uma referência de aulas de dança. Uma amiga pernambucana arretada, bem irreverente, por acaso me disse que sua filha estava fazendo aula com um tal de Jean-Marie e que estava adorando! Logo depois fui almoçar no japonês do Shopping da Gávea, e avistei um homem muito interessante, com jeito de francês, numa mesa com algumas pessoas. Pensei na hora; é o Jean-Marie. E era. Fui falar com ele, me apresentei e disse que começaria a fazer suas aulas. Naquele momento cósmico não sabia que ele seria um marco em minha vida. Hoje, antes e depois de Jean Marie. Peço a ajuda do filósofo Baruch Spinoza para falar sobre a experiência de fazer as aulas de alongamento e de ballet clássico do Jean-Marie Dubrul. Spinoza fala que “os bons encontros potencializam o corpo e alma”. Do meu ponto de vista, nenhuma frase definiria melhor o que acontece quando Jean entra em nossas vidas. Com seu jeito francês já tão abrasileirado que muitas vezes não sabe mais qual é a língua que está falando. Talvez por isso, tenha criado um quase dialeto que nos diverte e encanta a todos.Movimentos. Fluxos. Palavras. Gestos. Música. Tudo isso em harmonia potencializa nossas vidas de maneira inenarrável. É preciso viver a experiência. Mesmo pra quem gosta das palavras e trabalha com elas como eu faço, tenho sempre muita dificuldade em descrever o que acontece nos encontros, sempre únicos, com nosso professor de dança e de vida. De novo. É preciso experimentar. E mudar a vida para sempre.
David Pinheiro
David Pinheiro: Essa aula, esse trabalho mudou a minha vida. Há 5 anos atrás eu era outra pessoa. Estava em casa, assistindo a um Festival de filmes que tem no TCM chamado “os cem filmes que você devia ver antes de morrer“. Um deles, era um filme muito antigo, americano, que contava talvez a história da primeira família do “show biz” na Broadway. Um ator muito conhecido por nós aqui, que não estou lembrando o nome. Era conhecido como “inimigo público número 1” mas, era um grande dançarino. Vi aquele homem no filme já numa idade mais avançada, dançando. Então disse para mim mesmo: O que é que eu estou fazendo aqui que eu não vou para a aula de dança ali em cima na Sauer? Isso foi em dezembro de 2009. Estou aqui até hoje. Sou outro homem. Mudei minha concepção de vida, a maneira de encarar o meu trabalho. Claro que isso me trouxe também modificações que me criaram complicações na relação com a vida, com o meu cotidiano. Mas, me tornei outro homem. A minha voz mudou. Tudo meu mudou. Foi fundamental. Atribuo isso a uma mudança, primeiro na respiração. A profundidade da respiração. Ela faz com que você se tonifique, se re-tonifique diariamente. Se você prestar bem atenção se respira profundamente em cada aula pelo menos umas 200 vezes. Isso já modifica completamente sua história interior. A relação com o espaço, a segurança, o equilíbrio. Eu faço (ballet) clássico então estou trabalhando bastante – depois de velho, que eu tenho 64 anos, não sou nenhum garoto – vários lóbulos no meu cérebro. Estou num espetáculo agora que melhorei mil por cento como ator. Eu represento com todo o material adquirido aqui com o Jean-Marie. Isso vale para o corpo, para o espaço, com o público, na relação. Debito tudo isso à dança. Acho que é dançar para não dançar. Isso é fundamental.
Vera Gertel
Vera Gertel: Faço esse trabalho por duas razões: saúde e estética. Hoje não há em parte alguma do mundo um médico que não recomende às pessoas fazerem exercícios físicos. É bom para tudo: para a idade, para não enferrujar, para o coração, para a respiração, para uma série de coisas. Claro que há uma razão estética também. Ninguém gosta do que é feio. Então existe uma tendência quando a pessoa envelhece para engordar, porque o metabolismo é mais lento. Todos gostam de conservar o corpo e a musculatura etc. A diferença entre uma musculação comum e a aula de Jean-Marie é que aquela para mim é muito tediosa pois se trabalha cada músculo separadamente. Você fica lá. Vai mexer o braço. Aí uma, duas, três, quinze vezes… Abdominal, não sei quantas vezes. Você está mexendo só o braço, só o bumbum, só o abdômen, tudo muito separado e mecânico. Não há emoção naquilo que você faz. Não há uma consciência corporal no exercício que você faz na musculação. Enquanto que o trabalho de corpo generalizado – como é o caso do método do Jean-Marie – é um auto-conhecimento do seu corpo.É impossível fazer a aula do Jean-Marie se não tiver consciência corporal. Se não estiver ligado naquilo que está fazendo. Então acho que chamar de Alongamento é muito pouco. Porque na aula do Jean, o método é o seguinte: você trabalha durante uma hora, uma hora e pouco o corpo todo, quer dizer do fio do cabelo até a ponta do dedão do pé. Sem parar. O tempo inteiro você está mexendo o corpo todo. Isso para mim é o mais importante. É a única aula que mexe com a musculatura das costas. Eu fiz muitas aulas de musculação durante muito tempo e não conseguia mexer com a musculatura das costas. Aqui mexe em tudo. Acho as pessoas – que fazem a aula com Jean-Marie – muitos especiais, vão logo criando uma amizade. Porque não é qualquer um que entende esse método. Por isso acho que as pessoas novas que chegam deveriam pelo menos primeiro experimentar. Ter uma primeira aula gratuita para conhecer o método corporal dele. Ver se gosta. Ele costuma chamar de preparação para a dança. Acho que é mais isso que alongamento. Você faz uma esforço monumental na aula sem parecer, sem se dar conta e num ritmo de tai chi. Sem perceber. Porque todos os movimentos são muito lentos mas, exigem muita força. Não é todo mundo que se adapta a fazer um exercício que é lento. Não é qualquer um que gosta do roteiro musical que ele proporciona – que é excelente – mas não tem nada a ver com heavy metal!
Apresento a seguir os primeiros depoimentos dos alunos do Jean-Marie Dubrul: Ernani Torres, Ana Marta Veloso e Carla Do Eirado. Para não cansar o leitor, as impressões foram divididas em séries com 3 depoimentos por post. Outras opiniões virão posteriormente:
Ernani Torres
Ernani: Eu vim para cá porque tive uma crise de sacro-ilíaco. Fui tratar com RPG que deu uma boa segurada mas percebi que tendo em vista o “avanço etário” eu precisava de algo mais preventivo, e aí a Ana e você já estavam vindo aqui para o Alongamento, falei com minha professora de RPG que disse: “Olha, nós de RPG somos muito bons em alongamento mas, os bailarinos são os melhores… Risos…” Aí eu vim e em 15 dias melhorei muito.
Acho que se não tivesse tido uma entrada tão objetiva assim, eu não teria vindo. Já estou fazendo o trabalho há 3 anos e vejo hoje como uma coisa de prevenção e também de relaxamento. Dar uma relaxada de manhã é bom, não é ruim não… já está incorporado na minha rotina de vida e quando não faço, não é o fim do mundo: Não é uma coisa vital para mim, mas é uma coisa legal. Venho porque é legal, dá prá dar uma desacelerada boa.

Ana Marta
Ana Marta Veloso: É um momento de dar uma “paradinha” no corre-corre do dia a dia. Respirar profundamente e entrar em contato com coisas que a gente não tem oportunidade na vida normal. Para mim, é um resgate muito legal de coisas que fiz a vida inteira: fiz ballet dos 5 anos de idade até uns 20 e tantos… Não imaginei que fosse conseguir fazer de novo. Descobri aqui que é possível. É possível. Tem que, obviamente, se dedicar. Vir com frequência mas, depois se observa que seu corpo começa a relembrar os movimentos.
Há momentos inclusive de muito prazer. É uma hora do dia para fazer uma atividade extremamente prazeirosa e não só individual. Também, o contato com o pessoal daqui é muito divertido. Esse lado lúdico, a gente não tem no dia a dia. Até resgata uma coisa meio criança, assim, numa boa, de se divertir fazendo algo com o corpo…
É um trabalho diferente pela heterogeneidade das pessoas e também ver como o nosso mestre consegue trabalhar todo mundo, fazendo com que cada um dê o melhor de si. Aqui o público é muito diferente, em termos de idade e até de objetivos. Veja: a conversa do Ernani não tem a nada a ver com o que aconteceu comigo. São enfoques muito diferentes, mas muito parecidos até no sentido de se buscar um trabalho que faça bem ao corpo e à mente, além do prazer. Entretanto, é o talento do mestre que faz a diferença.

Carla Do Eirado
Carla Do Eirado: Esse espaço é uma espécie de refúgio da avalanche que é o meu dia-a-dia. Um momento que tenho para dedicar a mim mesma. Minha trajetória na dança foi complicada e sempre me senti deslocada. Achava que meu corpo não era bom para dançar. Ele é bem abrasileirado. Já passei por outras academias e vejo como é importante ter o apoio não só de um bom professor – tecnicamente falando – mas, de alguém que seja observador, cuidadoso e amoroso como o Jean. Também acho ótimo fazer parte de uma turma que esteja buscando algo mais que uma simples aula de alongamento ou de ballet.
Aqui é um lugar onde sinto a unidade do meu ser. Sempre tive a sensação de trabalhar demasiado com a cabeça, de estudar muito, fazer trabalho intelectual. Por isso tive a necessidade de ultrapassar essa limitação, conciliando e fazendo o casamento entre o que penso e o que faço corporalmente. Isso tem tudo a ver com o que acontece aqui. Para mim cada dia é um recomeço e prometo a mim mesma estar aqui. Não é fácil. É uma escolha.
Além de vivermos fragmentados de um modo geral, temos também que suportar e aceitar as frustrações decorrentes dos limites do corpo. Achar que só porque pensou, vai executar? Não é assim que acontece. Quando se faz dança ou qualquer outro movimento corporal – especialmente o ballet – se lida com outra realidade. Não é “tão cabeça” e o corpo não é tão fluido. É preciso preparar e trabalhar o corpo. Aqui se aprende a retomar o corpo que se é.
Faz todo o sentido quando o Jean fala: “observar, decodificar e reproduzir”. Observar o movimento não é suficiente para realizá-lo. É preciso descobrir os caminhos que o corpo pode fazer para realizá-lo. Isso representa um desafio enorme e certamente se transforma numa prática de vida. Aqui também é um lugar espiritual. Muitas vezes procuro sentir o movimento e o que ele poder trazer de positivo para mim e para o mundo. Como isso me faz tão bem, me pergunto sempre de que maneira poderia compartilhar com os outros os benefícios que me traz?
Estou aberta para a vida e busco levar adiante o estado de espírito que consigo obter aqui. As palavras não esgotam o sentido dos acontecimentos. Cada aula de alongamento com o Jean é indescritível porque nos conduz a outras dimensões: do sensível, do afeto, do toque, do estar com o outro, do encontro. Tenho vivenciado aqui coisas preciosas. Devo dizer que é raro hoje em dia um espaço onde as Pessoas se dispõem e tornam possível essa convivência. Diferente de outras Academias de Ballet: não há competição, não tem um querendo suplantar o outro. Vejo todos empenhados na busca de si mesmo e dos outros. O objetivo é se desafiar, se superar, estar junto, sorrir e olhar.
Ele às vezes diz: “Olha! Olha! Faz o movimento. Olha o espaço. Se posiciona. Olha quem está à sua volta.” São ensinamentos para prestar atenção ao espaço e à vida. Olhar quem está à volta e ver o que está acontecendo. Vivemos dentro de um corpo mas a nossa pele não nos separa do mundo. Ela tem poros e o ar do mundo está sempre respirando dentro de nós. Somos seres de relação e de comunicação. Para mim a dança é uma prática: praticar o coletivo. Sem os outros somos nada.
B. B. (Beto Benjamin): Como foi que começou essa história de alongamento e ballet?

Professor de Alongamento e Ballet na Sauer Danças Rio de Janeiro, Brasil
Jean-Marie: Foi na França. Posso dizer que tive o privilégio de fazer aulas com duas professoras de ballet maravilhosas: Nora Kiss – uma russa branca que morava em Paris e Rosela Hightower – uma americana que também vivia na França em Cannes. Duas grandes profissionais da dança no mundo.
Ambas eram figuras extraordinárias do ballet, que cativavam com a maneira de ensinar. Deram aulas para alunos de vários países.
Nas companhias de ballet que trabalhei pelo mundo, virei primeiro bailarino e de vez em quando, o Diretor me chamava para dar aula. Foi assim que comecei a ensinar e fui com o tempo, aperfeiçoando minha técnica. Sempre curti dar aulas e curto até hoje. Quanto mais faço mais sinto prazer, mais aprendo.
B. B.: Quais as diferenças entre essas duas professoras de ballet?
Jean-Marie: A diferença estava na maneira como cada uma delas se colocava perante as pessoas, os alunos. Rosela era uma primeira bailarina conhecida na França e no mundo inteiro e Nora Kiss era uma profissional também famosa e já com uma certa idade.
B. B.: E no alongamento, houve mais algum destaque?
Jean-Marie: Sim. Houve uma outra professora em Paris, Lilianne Arlen. Uma bailarina que se acidentou no teatro. Ela caiu do alçapão no palco e ficou paralisada das pernas o resto da vida. Dava aula em cadeiras de rodas. Era muito impressionante. Todo esse trabalho de alongamento, postura e tudo mais, foi com ela também que aprendi, num estúdio na Salle Pleyel em Paris.
B. B.: Qual o significado da repetição? Ela não é uma coisa enfadonha, que cria uma rotina tornando as coisas desinteressantes?
Jean-Marie: Não, muito pelo contrário. A repetição é a chave de tudo. É justamente a maneira para se aperfeiçoar e poder entrar em outra dimensão. Em todas as artes, a repetição é primordial: num concerto de música, numa orquestra etc. Um músico, tem que trabalhar muito, diariamente, repetir muito, para chegar lá. Bailarino, esse então tem que treinar muito. Muito mesmo. Não é brincadeira se tornar um excelente bailarino.
B. B.: O que os alunos significam para você?
Jean-Marie: Minha relação com os alunos é uma relação de troca. O professor só existe por causa do aluno. O grande desafio é aprender a descobrir o aluno, a gostar dele ou dela pois, se não gostar, não tem como ensinar nada a ninguém. Para mim, é nessa troca que acontece alguma coisa e gosto muito disso.
B. B.: O heterogêneo numa aula complica mais as coisas ou não?
Jean-Marie: Não é problema. É um desafio encontrar uma linguagem que possa ser compreendida e que acrescente alguma coisa a cada aluno, seja ele um profissional que já vem com certa bagagem ou alguém que está iniciando a descoberta do próprio corpo.
Isso foi uma coisa importante que aprendi cedo na profissão e observe que só no Brasil, trabalho há mais de 35 anos. Era preciso descobrir uma linguagem, uma solução, onde cada um pudesse encontrar seu conforto e satisfação.
Compare o trabalho entre você – que é leigo praticamente – e a Fernanda que já era bailarina – além de excelente artista – e tem se tornado uma bailarina cada vez melhor. Cada um de vocês tem a necessidade de encontrar respostas para suas expectativas. É aí que está o trabalho.
B. B.: Em que consiste esse trabalho?
Jean-Marie: Consiste em procurar um certo equilíbrio, uma dinâmica do movimento , uma respiração correta. O tempo inteiro. O que importa não é só fazer certos movimentos. O que resolve de verdade é como fazer o corpo chegar neste ou naquele posicionamento. É o movimento que vai transformando tudo. Ele é que dá esse equilíbrio e prazer.
B. B.: Como você saca que a pessoa está se desenvolvendo?
Jean-Marie: Ah! Isso é na hora! Bato o olho e já sei como está a pessoa: um dia, três dias, seis meses depois já se nota a diferença. No olhar da pessoa e no meu próprio. Eu também participo desse processo. É uma transformação onde eu também vou junto.
B. B.: Onde você vai buscar as “pérolas” que solta de vez em quando nas aulas?
Jean-Marie: É a vida que ensina. É de lá que elas surgem.Também não se pode ser sério demais fazendo esse trabalho.Tem que disfarçar um pouco a realidade, a dureza da vida. Já chega eu ser francês, não é? Não tenho culpa de ter nascido lá. E olha que já melhorei muito aqui no Brasil.

Aula de alongamento
Estou iniciando esta caminhada despretensiosa com um post sobre o trabalho de alongamento realizado pelo francês – quase brasileiro, como ele mesmo diz – Jean-Marie Dubrul, professor de Alongamento e Ballet da Sauer Danças, no Rio de Janeiro. Suas aulas são dinâmicas, energéticas, cativantes, diferentes e trazem resultados supreendentes para os participantes, como eu. É só conferir em outro post mais adiante o que dizem os alunos.
A bem da verdade, quero lembrar que, antes do Jean-Marie, tive a felicidade de fazer um trabalho semelhante com o não menos notável Antônio Negreiros, durante vários anos, em sua Academia no Leblon. Posso dizer que fui um dos “órfãos” do Negreiros, que um dia, resolveu sair pelo mundo e se foi… Para minha sorte, pouco tempo depois, minha querida amiga Ana Marta Veloso me convidou para fazer uma aula com o Jean-Marie.
A estréia do site com esses posts é um reconhecimento e uma homenagem ao trabalho desses dois profissionais do alongamento e da dança no Rio de Janeiro, e também um alô aos meus colegas nesse percurso.
O bairro, é o Jardim Botânico. Um belo casarão, no topo da Lopes Quintas, uma das mais tradicionais ruas daquele bairro. As pessoas, vão chegando devagar, geralmente em silêncio e, uma a uma, vão deixando seus pertences num canto do chão da sala – como se se despissem do excesso que carregam consigo no dia a dia – e, como se aquele ritual fosse uma espécie de preparação, para o que está por vir.
São homens e mulheres, de idades as mais variadas. Aqui, isso é o que menos importa. Algumas figuras conhecidas: uns “globais”, outros locais. Gente de toda a parte. Até baiano tem!… Profissões? As mais diversas: bailarinos, economistas, escritores, médicos, administradores, poetas, cantores, engenheiros, arquitetos, artistas plásticos, atores etc. Os tipos físicos também são os mais diversos. A maioria se conhece e, faz alongamento há bastante tempo. Outros, nem tanto. Sempre aparece alguém novo, interessado em conhecer o trabalho.
Os olhares se cruzam, rapidamente, como uma saudação – em geral, desprovida de palavras -. Os “ois”, pronunciados em tom baixo por gente, que pelo menos ali, não demonstra interesse em parolar.
A sala retangular ampla, iluminada de maneira a facilitar os exercícios e, com grandes espelhos ao redor, estendidos de cima a baixo, favorecendo o aumento virtual do espaço. Como se cada um fosse se utilizar de verdade daquele volume extra, engraçado, fictício e ilusório: “Espelho, espelho meu! Haverá alguém mais…”

Aula de alongamento
Jean-Marie entra na sala – devidamente trajado -, ajeita o som, cumprimenta rapidamente todos e, dá inicio aos primeiros movimentos: “Andando”. Todos se põem a andar, num passeio caracterizado pela total falta de direção, similar a um movimento desordenado de partículas. Uma verdadeira entropia de gente. Num desfile forçosamente engraçado – só para quem estiver, de fora, assistindo!…
Nesse passear descompromissado e, fora de hora, as pessoas vão aos poucos se desligando de seus pensamentos, dos problemas da vida lá fora e, se concentrando no trabalho de alongamento que ora se inicia. A música, como um pano de fundo, auxilia na criação do ambiente adequado e, o mestre, acompanha de uma forma toda própria, o empenho dos alunos na execução de cada exercício.
“Cabeça erguida! Nada de olhar para baixo!”, brada ele. “Atenção para a respiratión e os movimentos”, acrescenta. “Deixem que o córpinho carregue suas pernas”, fala, com leve sotaque, revelando sua origem francesa…
Após alguns minutos, o passeio aleatório acaba e, os alunos ocupam “os seus espaços” no salão. Jean comanda movimentos, que são repetidos por toda a turma e, vão se desenvolvendo progressivamente, numa cadência, onde a única força utilizada é, o próprio peso. O grupo acompanha numa coreografia singular – pois não se busca a perfeição como num ballet –, mas sim, a execução dos exercícios e posturas, conforme as possibilidades, tempos e limites individuais.

Aula de alongamento
Os exercícios solicitam de cada pessoa e, a cada instante, distintas partes do corpo, numa gestual slow-motion, que mais parece uma busca por algo invisível, mas que se desconfia existir.
À medida que, a sequência de exercícios se desenvolve, nada escapa do olhar atento e, das intervenções corretivas e, apropriadas de Jean-Marie. Sempre num tom incentivador, porém incisivo, sem margens para fugir. “Córragem”, anima o mestre, num mantra diversas vezes repetido. Certamente coragem, é o que não falta a ninguém ali.
“Solta o corpo. Deixa o corpo solto. Isso… Cuidado! Não é para forçar nada. Eu disse nada. Isso aqui não é Academia, muito menos Terapia. É outra coisa! Se você ainda não sabe, procure saber!”.
A turma já está acostumada e, adora as pérolas, que o Jean-Marie solta, invariavelmente. É só esperar, que vem. Podem demorar um pouco, mas é certo, que vem.
A aula prossegue e, ao completar um exercício no “chão”, onde a tônica é o alongamento dos braços e das pernas, Jean, saca mais uma de seu arsenal: “Atenção para o olhar. O olhar, segue o movimento dos braços. Às vezes, a beleza das coisas, é dada pela direção do olhar…” . Sacou?
O grupo entra naturalmente no ritmo e, consegue executar os exercícios com relativa facilidade, demonstrando familiaridade com as posturas e, um certo domínio da técnica. A liderança de Jean-Marie, é incontestável e, faz toda a diferença. Ele não tergiversa. Ninguém escapa aos seus olhos de lince, treinados durante décadas como professor de ballet. O cuidado e o respeito com todos, é permanente e, notável, gerando uma confiança fundamental, entre aluno e professor.

Aula de alongamento
“Démi-pliez, devagar. Eu disse devagar. Rélevez…mais uma vez! Vamos lá, mais uma vez…Olha essa menina…Fernandinha, que marravilha. Veja como ela faz. Veja como ela encaixa o ombro… Pés arrendondados. Allez…Estão me entendendo? C`est-ça. Traduzindo: É isso aí.”
Uma correção aqui, outra ali – o tempo inteiro – e, ele vai conseguindo levar o grupo na direção e, no ritmo, que deseja. A música, sempre acompanhando. A sessão ocorre, como se cada um fosse o mestre de si próprio. A respiração lembrada e praticada. O mote, sempre repetido:
“Não se isole. Vida é movimento. Sem respiratión não há vida. Eu não sou exemplo. Sou apenas sugestão. Uma possibilidade. Você, trate de descobrir o seu caminho…”
Além da música, só se ouve sua voz. Ele fala, todos seguem, buscando transformar as palavras em guia e, executar os movimentos, respeitando os próprios tempos. Atento aos detalhes dos exercícios, nada foge à sua atenção, rigor e sensibilidade. Conhece cada aluno, sabendo até onde pode ir e, explorando ao máximo, aonde quer chegar.
O tempo, parece passar vagarosamente, naquela sala pois, não se notam expressões de ansiedade, que possam ser interpretadas, como o desejo de que tudo acabe logo. Longe disso. As pessoas parecem curtir bastante, o que estão fazendo.
“Vamos Daniel, estende essa coluna. Você consegue”. “Allez. Não me entendem? Eu estou falando “portugueish légal”. Com um leve sotaque mas é puro “portugueish”. “Vamos mais uma vez: allez , soltando…Lateral direito…”
Nunca se sabe…se isso vai dar certo!
Não se sabe… (úl)tima chance…mais uma vez, vamos…

Aula de alongamento
Aos poucos, a sessão vai se aproximando do final. As pessoas, vão saindo daquele estado de quase meditação e, voltando lentamente à vida real. Nota-se no corpo, uma leveza que não existia antes e, nas expressões , um certo cansaço, que parece apenas, físico.
Para finalizar, a sempre surpreendente “roda”, onde todos de pé se dão as mãos, as luzes se acendem e, o espetáculo ridiculamente engraçado, de escolher “um, para Cristo”, lhe perguntando se se lembra o nome de todos, que estão na sala e, pedindo que recite, um por um. Evidente, que ninguém sabe o nome de todos e, fica aquela coisa engraçada e, ao mesmo tempo constrangedora, por um breve instante, de não saber o nome, de seu colega. Isso acontece com todos, sem exceção: um dia vai chegar a sua vez. Os nomes são recitados, um por um – com ajuda sempre – e, a roda se completa.
“As pérolas filosóficas”, do Jean-Marie, são surpreendentes e impagáveis, provocando, em geral, um misto de riso – ora disfarçado, ora escancarado -, reconhecimento e admiração. Para alguns, esse trabalho mexe com o corpo e, se trata de uma terapia anti-envelhecimento. Para outros, é muito mais que isso. Vai além. De uma certa forma, mexe com a maneira de ser e, de viver.
Programa de saúde? ginástica para a terceira idade, desculpe para todas as idades? Misto de exercício físico e meditação new age? Terapia gestáltica anti-stress? Trabalho com a respiração, movimento e musica? Exercícios anti-envelhecimento? Pode-se escolher o nome ou, os nomes, que quiser, para tentar explicar o trabalho do Jean-Marie. O que as pessoas buscam aqui, não se sabe, mas certamente, encontram alguma coisa do que procuram, pois quem vem, volta sempre.

Aula de alongamento
Na verdade, fica a sensação, de que todos saem dali, com outra energia, outro pique, outra disposição. O resultado de bem estar, é visível em cada pessoa. Pode-se dizer sem medo de errar, que aqui fica a impressão, de que o todo, é maior do que o somatório das partes. Existe uma “química”, uma cumplicidade, entre o Jean-Marie e os alunos, que funciona mesmo. Tem algo diferente. Como essa coisa meio mágica acontece, não se sabe!… Paradoxo inexplicável do alongamento?!… Talvez… Como e, por que isso ocorre?!… Está lançado o desafio, para quem queira apresentar uma explicação.
Será que, porque a aula é de alongamento, se sai maior do que se entrou?!…(rs)… Fora a brincadeira, existe ainda uma outra impressão interessante: a de que o tempo passou, naquela sala, como se não existisse. Pode?
Pois bem, aqui pode tudo. Lá fora, nunca se sabe…
Se você quiser saber mais sobre Jean-Marie Dubrul visite o site: www.sauerdancas.com.br
Beto Benjamin
Nunca se Sabe 










































