Por Beto Benjamin.
Dedicado às minhas filhas Joana, Gabriela e Carolina.
Dedicado a Josué de Castro.

            Vinham todos os dias, quase,
            eu era bem criança, lembro,
pois passavam devagar, na minha frente,
segurando sempre um caixão, pequeno,
revestido todo de azul bem claro.
            assim da cor do céu que o verão veste,
era a procissão dos anjos não celestes
(e ainda não sabia quanto era triste)

             Não eram muitos…
Meninos e meninas, maioria.
Enfileirados, cheios de poeira
Carregavam velas e: Ave-Maria!
             Ave, Ave, Ave-Maria!
             Ave, Ave, Ave-Maria!
Enchiam as ruas nossas do bairro
Seus rostos puro suor, todos molhados
Suas aparências inocentes e tristes,
Eram eles de verdade
                          pobres coitados…

Não entendia bem o significado,
Mas parava para ver a procissão passar:
Olhava, ouvia, via, ouvia e olhava –
Eu era bem criança, e eu bem me lembro
que aquela cena me paralisava,
             comovia
             e me extasiava…

Infantes carregando – esforço e zelo –
o corpo inocente, inerte, em pelo
           
de outra infância arrebatada
Ainda menor que a caixa finda
que lhe cabia. Andavam, pés no chão,
poucos adultos ao seu redor…
Pai? Mãe da criança? Q
uem saberia…
             era cena de dar dó

Eu era bem criança, eu bem me lembro
das sujas ruas, da lama das ladeiras, de esgotos mis
da triste urbe de Itabuna, minha
do bairro pobre e meu da Mangabinha,
             onde eu sabia ouvindo
             quando ela vinha

De longe escutava, vindo, a cantoria,
me 
preparando, todo, para assistir.
mãe no braço, não deixava-a desistir,
eu era bem criança, eu bem me lembro,
mão estendida, não a permitindo sair
enquanto a procissão não terminasse,
até que a fila dos infantes embora fosse e
a cantoria não se pudesse mais ouvir…

Só em tempo mais tardio saberia
que as razões têm tempo de existir;
lembro, bem criança, que o tal lamento,
era um rio terno e vago eterno em mim,
espetáculo triste a assistir:
azul caixão suspenso, preso no tempo…
Eu era bem criança, não esqueci

Daquela procissão chinfrim, ainda os revejo
não muitos, magros, quase esqueléticos,
roupas surradas, desbotadas, ali, eram,
quem sabe, um retrato desse país enfim
Não sabia nem poderia ter tento e
entender os porquês, mas eu bem me lembro
era vida e morte severina sim

Perguntei a minha mãe, um certo dia:
“o que era aquilo, que eu tanto via e não
cansava nunca de assistir”…. Com ar
cansado duro e suspirando respondeu:
             “É a procissão dos anjinhos, filho
             Era criança pequena. Morreu
             Foi para o céu, logo que nasceu”

No meu raciocínio puro não cabia
uma viagem tão rápida assim no escuro
e tal qual a minha mãe me dizia.
Espantado, como só crianças ficam,
me perguntava: “Se era para ser rápido”,
Lembro, era criança, “por que nascia?…”
“Não compreendo…” E não compreendia…
“Deus chamava!”, e abismado me sentia
tão incompleto e inacabado,
como aquele que partia

Pensava com os botões de infante vivo,
Olhando enviesado para esse deus
tão bem falado.
“Se ao mundo não era para vir,
por que a mandava?”
Por tanto tempo guardada “na barriga
da mãe, voltava assim que nascia?…”
             “Que viagem estranha essa!…”
             “Que mal chegou, e já se ia!…”

Eu era bem criança, eu bem me lembro,
A trabalheira, no cemitério, era,
sem fim. Sepultado um anjinho,
chegava outro pelo mesmo caminho
Trabalho insano, esse, dos coveiros:
abrir e fechar de cova, o dia inteiro
como sempre que me faço este relato

De que morriam? Quem sabe?
Foi “de fome. De doenças”,
a minha aflita mãe dizia
Ou foi um tal “Papai do Céu chamou!”,
feito um clássico quadro anônimo
de um país que seria o meu, um dia

Eu era bem criança, era o meu tempo,
vivo, passaram mortos, muitos, sem fim…
Hoje já não sou criança, mas bem me lembro,
pois carrego aquela procissão em mim.

Aleixo Belov parte de Salvador – Bahia no veleiro-escola Fraternidade para o Alasca

Parece que essa doença não tem remédio mesmo! Depois de quatro voltas ao mundo – três em solitário – e duas viagens à Antártica o baiano-ucraniano Aleixo Belov, 73 anos, está de novo de volta ao mar. Dessa vez o veleiro-escola Fraternidade leva seu timoneiro e tripulação para o Alasca, no Hemisfério Norte.

Depois, só Deus sabe para onde vão! Partiram de Salvador num ensolarado sábado, 3 de dezembro de 2016, em direção a Natal. De lá seguiram para Granada, Panamá – atravessaram o canal – Galápagos e por aí vai.

Uma das novidades dessa nova aventura é a presença de Leonardo Papini, um fotógrafo e cineasta profissional que, com a ajuda de um drone, vai documentando a viagem e nos deliciando com as imagens.

Para quem gosta de aventura e do mar, não existe prato melhor. Aliás, existe: embarcar no Fraternidade e viver a experiência. Como não cabem todos que desejariam se arriscar, vamos “velejando” daqui de terra mesmo, apreciando os videos enviados – de tempos em tempos – por meu amigo Aleixo Belov, entrevistado do Nuncasesabe tempos atrás.

Para curtir os video-trechos , basta clicar no Playlist do video acima e selecionar um por um.

Boa viagem!

Ah esses baianos!… Não são de Marte nem de Morte. São de Vida e Festa. Muita festa. Vai ser festeiro assim longe… Também dá para entender. Com a herança africana que receberam poderia ser diferente? Parece que festejam desde o dia que estreiam (se não sabia, fique sabendo: baiano não nasce, estreia…) até o dia que morrem! E morrem? Às vezes fico com a impressão que não. Que dançam desde sempre e eternamente…

Tem suas dúvidas? Então vejam só o que pode acontecer em Salvador numa segunda quinta-feira do mês de janeiro de todos os anos! Quero dizer, desde que a Bahia é Bahia! Estou falando da procissão e lavagem do Senhor do Bonfim que se realiza desde 1773. Começa na frente da Igreja da Conceição da Praia e percorre cerca de oito quilômetros da Cidade Baixa até chegar à colina onde foi erguida uma das igrejas mais famosas de Salvador.

Pela quantidade de promessas e pedidos que recebe, o Santo realmente é forte e não tem descanso. Do alto da colina contempla toda a cidade com suas centenárias igrejas, candomblés, fiéis, yaôs e orixás. Como não são poucos, o trabalho do santo deve ser bem grande! Vigiar tudo isso, só pra ele mesmo. Senhor do Bonfim para os católicos ou Oxalá no sincretismo religioso.

Pois nesse dia, as pessoas vão chegando bem cedinho e se reunindo em torno da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, na Cidade Baixa. Todos vestidos de branco. Oriundos de muitas partes da cidade, vêm sozinhos, com seus companheiros(as), familiares, amigos, conhecidos, ou em grupos. Dezenas, centenas por que não dizer milhares deles. Não tô brincando não!

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Com a alegria estampada nos rostos, estas pessoas não vêm em silêncio. O som percussivo dos atabaques, tambores, timbales, agogôs, pandeiros e tantos instrumentos ressoam pelas ladeiras e ruas da velha São Salvador. Vão gradativamente tomando conta daquele espaço festivo criando o clima de festa popular! Inebriante e contagiante! Se escuta de tudo. Todos os ritmos são bem-vindos e tem o direito sagrado de se manifestarem…

E se manifestam, produzindo uma verdadeira colcha de retalhos musicais, quase uma salada sonora de frutas tropicalistas…

No átrio da Igreja da Conceição tem início um encontro ecumênico reunindo todo o sincretismo religioso com manifestações dos seus líderes. Sempre pregando pela união, solidariedade e paz. Pela vida.

Às nove horas de relógio (é assim que o baiano fala, nos deixando uma leve desconfiança que eles mesmos descobriram outro modo de marcar hora que não seja o velho e bendito relógio, ora pois), o cortejo – com as baianas à frente – inicia a caminhada festiva de cerca de 9 quilômetros até a colina onde se ergue a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Na caminhada tem de tudo: do sagrado ao profano.

A sensação é de que a Bahia inteira tá na rua.

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Devo dizer que políticos de todos os naipes e partidos se apresentam sem falta. Geralmente acompanhados com seus cordões de puxa-sacos, recebem aplausos e/ou vaias, dependendo de sua cotação no mercado naquela data. Ninguém passa incólume ou despercebido. Todos levam a sua cota, seja lá do que for…

E não é só de branco que se veste no Bonfim. O povão com sua fé se veste de tudo e qualquer coisa. “Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiar…” já avisava o ilustre baiano tropicalista Gil. Vem a pé, de bicicleta, de carro… Antigamente vinham de jegue, mulas, cavalos e em carroças ricamente ornamentadas. Já houve época que tinha até trio elétrico! Imagine isso numa procissão religiosa!

“Dai-nos a Graça Divina, da Justiça e da Concórdia!” diz o hino do Senhor do Bonfim… A procissão é uma verdadeira geléia geral. Coisa de baiano mesmo!

Durante a longa e vibrante caminhada, o samba de roda e todos os ritmos comem solto. Grupos afros, afoxés, charangas de todos os tipos, tamanho e composições arrastam literalmente suas pequenas multidões até a famosa Colina Sagrada que abriga a Igreja do Bonfim. Claro que tudo isso regado a muita cerveja, bebida principal das chamadas Festas de Largo.

 

Quando o cortejo finalmente alcança o Bonfim, são feitas as preces, as “baianas” fazem a lavagem das escadarias da Igreja num ato cheio de africanos significados. Todos então partem para receberem o famoso “banho de cheiro” dos potes das baianas.

“Sapeca aí uma água santa na minha cabeça, ô Baiana! pra afugentar o mau-olhado.”

Muitos amarram nas grades que circundam a frente da igreja as indefectíveis fitinhas do Senhor do Bonfim, fazendo os pedidos para si, parentes e amigos. A parte sagrada se encerra com a bênção solene do padre da paróquia.

 

É a partir daí que o couro come, com os sambas de roda e todos os outros ritmos baianos tocados nas conhecidas “barracas”. São centenas delas, servindo acarajés, abarás, “passarinha” (baço de boi assado!), caruru, vatapá, sarapatel, feijoada e outras coisas não tão leves assim… É a maneira baiana de celebrar a vida e agradecer a Deus – perdão! Quis dizer ao Senhor do Bonfim. A festa vai noite adentro. Quem não veio pra procissão pode vir depois…

Andrea,  o olhar do olhar 

Andrea

Se você chegou até aqui, viu a procissão pelos olhos e lentes de Andrea Fiamenghi. Nascida em São Paulo – como dizem por aqui, “a maior cidade do nordeste” – , criada na Bahia desde os quatro anos, acompanha a procissão do Bomfim desde 2002 quando se iniciou na fotografia.

Teve como mestres Mário Cravo Neto, Walter Firmo, Marcelo Reis, Manuel Gomes Teixeira e na primeira vez que fotografou a procissão se empolgou tanto que acabaram os filmes (é, naquele tempo ainda tinha filme!) antes da festa acabar. Sobre ela, diz Andrea:

“Vejo na procissão gente com muita fé, muito emocionada, algumas pessoas fazendo um verdadeiro esforço físico para caminhar tanto e chegar. E elas conseguem. Isso é algo que aparece com clareza durante todo o percurso. Uma manifestação popular imperdível.

Cada ano tento fazer uma abordagem única, para me concentrar naquilo… Este ano por exemplo escolhi as diferenças das vestimentas, que necessariamente, não tem nada a ver com a festa.

IMG-20170308-WA0020Também Andrea trabalhou na Fundação Pierre Verger! Como se sabe Pierre é o mais baiano dos franceses. E claro um dos seus gurus e inspiradores. Dele se diz que conseguia pegar as pessoas de uma forma muito poética e ele nunca se deixava pegar pelo personagem.

Recorda Andrea sobre Verger: “Ele chega, cria uma intimidade com o personagem e consegue capturar quase que a alma das pessoas. Eu não o conheci mas era como se conhecesse pela influência que tem em meu trabalho.”

“Pela fotografia você conhece qual o tipo de fotógrafo. Ela revela. Deixa as impressões digitais e, como dizia Mario Cravo Júnior – hoje com 93 anos – toda obra representa um pouco de você.”

Sobre Mário Cravo Neto – artista baiano falecido – Andrea diz que ele fez muitos trabalhos nessas festas de Largo da Bahia. “Você quer fotografar? Vá ler filosofia, geografia, história e depois apareça aqui. Bote sua alma naquilo que você está fazendo. Escolha um tema simples e vá fundo nele”. Dizia Neto para a jovem fotógrafa.

“O Bonfim é o único dia que a gente não pode contar com nossa mãe para nada – diziam minhas filhas. Eu simplesmente não posso deixar de ir e cada ano é diferente. A festa tem mudado muito mas continua a procissão do Bonfim.”

Bem, depois de uma procissão dessas que só acontece na Bahia e ainda tendo recebido a distinção de sermos conduzidos por ela – através do seu olhar  – só nos resta mirar o alto e agradecer ao Senhor do Bomfim e a Oxalá por tanta Beleza e Fé. Ainda mais sendo hoje o Dia Internacional da Mulher. Este post é também uma homenagem às Mulheres.

Andrea querida, continue fotografando o Bomfim. Obrigado. Axé Baba. Fui!

Se quiserem conhecer mais sobre Andrea Fiamenghi e seu trabalho:
http://www.andreafiamenghi.com.br
http://www.facebook.com/andreafiamenghifotografia

Com a chegada de 2017, o NuncaseSabe completa dois anos de existência. Uma boa oportunidade para refletir sobre a publicação de quase quarenta posts, visualizados e lidos por brasileiros e estrangeiros em cinquenta e seis países do mundo. Pela número de visualizações os cinco países que mais acessaram o blog nesses dois anos foram: Brasil, Portugal, Estados Unidos, Inglaterra e Itália.

A experiência de escrever um post é simplesmente extraordinária. Pelo menos tem sido assim comigo. Não é difícil escrever um post mas, nem sempre se saberá como ele vai se desenvolver e menos ainda como ficará após concluído. O escrever parece ser meio assim como viver: a vida e as palavras, com suas belezas ou a ausência delas, os fatos, os acontecimentos, as ações e reações, as surpresas e eventos completamente fora do seu controle. Entretanto, podem impactar a sua vida produzindo alterações, desvios, nuances, mudanças de rumo e de atitudes, escolhas, imposições, aceitações e recusas, moldando para sempre a nossa existência.

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Syilvie Guillem

Portanto, posso afirmar quase com segurança que escrever se assemelha, de uma certa forma, a viver. As letras e as palavras parecem ter seus próprios caminhos. Como se fosse uma imitação da vida real. Elas vão lenta mas, inexoravelmente se insinuando e tomando literalmente a direção de sua escrita. Carregam seus pensamentos e parágrafos para lugares impensados e ponto final. Ou seja, você não é mais dono de nada. Aliás nunca foi. Parece mesmo um paradoxo: embora o texto tenha sido criado por você, não lhe pertence! E por fim você ainda pode acabar se tornando passageiro de sua própria escrita, quando pensava que era o condutor… Sacou?  Coisas do escrever… ia dizendo coisas da vida… Não é?

Me lembro de ter avisado aos navegantes na Apresentação de dois anos atrás que queria compartilhar descobertas de coisas, lugares e pessoas. Que tinha tempo e que queria celebrar a vida mas que não ia fazer uma viagem em torno do meu umbigo. Sorte de vocês! Essas promessas continuam válidas e permanecem dois anos depois. Nesse tempo, posso dizer que escrever dá trabalho, pois as palavras requerem um certo cuidado no seu manuseio e – como se rebeldes fossem – não aceitam sairem feias na foto. Ninguém aceita!

Escrever então fica às vezes parecido com o exercício de falar a mesma coisa repetidamente, até que os erros sejam consertados; as palavras, as frases sejam devidamente polidas e fiquem claramente formuladas e expressadas para que seu sentido possa ser entendido e compreendido com facilidade. Não é assim caro Proust?

Você até descobre ou pensa que tem um determinado estilo de escrever, como se isso fosse parte de uma certa elegância. Uma espécie de clube que alguns frequentam… Reconheço então que nesses posts publicados tentei encontrar uma maneira de escrever, com humor mas, tendo o cuidado e respeitando às idéias e pensamentos dos outros. Nesses dois anos foram publicadas algumas entrevistas: Jean-Marie Dubrul, os amigos de João Ubaldo Ribeiro, Nilton Souza, Aleixo Belov. As entrevistas eram longas e foram divididas em partes o que dificultou um pouco a leitura mas por se tratar de Pessoas singulares e extraordinárias, para mim, naquilo que são e fazem, achei que valeu a pena.

nuncasesabepordosolEstou aprendendo também que escrever na época da internet e das redes sociais requer um certo pragmatismo e velocidade pois o pressuposto é que o produto da escrita “envelhece” imediatamente após ser publicado. Não é assim mestre Peter de Albuquerque? Isso requer uma postura para se adaptar a esses meios de comunicação onde as prioridades são rapidez e certa leveza na publicação. Requer esforço notadamente para principiantes, como eu.

É mais um aprendizado onde se pode sempre ser surpreendido com o inesperado das visualizações do post que acabou de publicar. Este, uma vez publicado, é como uma cria que se vai, caminhando por seus próprios pés e sem controle algum. Você pode no máximo, e apenas galhardamente, segui-lo e se divertir com os caminhos por ele percorridos…

Me vi também nesse período muitas vezes tentado a escrever sobre o Brasil e o buraco negro que conseguimos criar e nele se alojar, espalhando desesperança e descrédito em nossa capacidade de sobreviver e fazer um país melhor e menos indecente. Resisti.

Também me vi diversas vezes tentado a escrever sobre os homens e – como dizia o mano Caetanoseus podres poderes, espalhando o horror num planeta sem fronteiras chegando mesmo a duvidar que fazemos parte de uma “civilização”. Que civilização? Resisti.

Com o passar do tempo, descobri que havia dentro de mim algo intuitivo que me impedia de publicar no NuncaseSabe coisas sobre o lado negro da Força, seja ela no Brasil ou no resto do mundo. Aos poucos fui percebendo que esse espaço que criei é para o Sonho e não para o Horror. É para Alegria e não para a Tristeza. É para a Celebração e não para a Decepção. É para a Luz e não para a Escuridão.

nuncasesabeuniversoConfesso que fui resistindo sem saber. Agora resisto sabendo… É muito melhor. É um ato consciente da vontade e portanto de escolha. Escolhi o lado menos obscuro da Força. Nada contra quem pense e faça diferente.

Finalmente espero me adaptar melhor em 2017, à necessidade de mais postagens com talvez menos conteúdo, sem perder a qualidade do texto, das imagens, nem as pretensões do blog. A tentativa, então, será de buscar captar o espírito das coisas e das pessoas de forma mais leve, ligeira e com graça, trazendo ao leitor algo que ele ainda não saiba e que possa se divertir com as leituras, os textos, as entrevistas e as opiniões trazidas por este aprendiz de escriba.

Meu desejo é que seja interessante esse futuro do presente para todos nós. Então que venham 2017, 2018, 2019, …

Axé

Beto Benjamin

E o vento levou!

Se o vento levou mesmo, eu não sei e nunca vou saber…

Só sei que os psicanalistas Carlos Mario Alvarez e Aluisio Pereira de Menezes levaram. Um monte de gente para assistir e discutir – sob o ponto de vista da Psicanálise – trechos do famoso épico americano lançado em 1939 E o vento levou

Com marcações de teatro e música, o evento buscou fugir da “mesmice” que geralmente constitui os habituais seminários de Psicanálise. Conseguiu!

O encontro Psicanálise &  Cinema foi promovido pela dupla Alvarez & Menezes que, num auditório no Leblon no Rio de Janeiro apresentou trechos do filme com intervenções, interpretações e debates sobre significados e mensagens para um grupo  de pessoas que foi conferir as manhas, artimanhas, dramas, tragédias, receios, meneios, tateios e outros rodeios de Scarlett O’Hara – protagonista da película de Hollywood – que mais faturou no mundo. Foram mais de 4 bilhões de dólares a preços de hoje. É muito dinheiro para pouco vento…

Segundo Alvarez, “Promovi este evento porque acredito e sonho com ideias que nos transformem. Me sinto à vontade para aglutinar pessoas que tenham desejos como o  meu. Busco o exercício da Psicanálise com toda a incerteza e contraditoriedade que ela porta. E o Vento Levou traz na figura da personagem Scarlett O’Hara o emblema de um feminino em construção, com seus paradoxos, incongruências e inconsistências, além de um arquétipo que insiste em não desistir.”

O filme possui cenas impagáveis interpretadas por seus principais atores: Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), Rhett Butler (Clark Gable), Ashley Wilkes (Leslie Howard), Melanie Hamilton (Olivia de Havilland) e a negra Mammy (Hattie McDaniel).

O drama épico, baseado no romance de Margareth Mitchell, carrega alguns fatos pitorescos:

  • Foram entrevistadas pelo produtor David Selznick mais de 1.400 mulheres para o papel de Scarlett O’Hara. A escolhida foi Vivian Leigh;
  • As filmagens esperaram dois anos para começar. O produtor não abria mão de ter o canastrão Clark Gable no papel de Rhett Butler;
  • Foram necessários três diretores para que o filme fosse concluído;
  • Recebeu treze indicações para o Oscar e levou dez, inclusive de “melhor filme”;
  • A exibição dura quase quatro horas e sua estréia foi em Atlanta, Georgia, em 15 de dezembro de 1939;
  • A atriz Hattie McDaniel que interpreta Mammy não pôde assistir ao lançamento por ser negra. Foi ainda, com esse filme, a primeira atriz negra americana a conquistar um Oscar;
  • Ocupa até hoje o quarto lugar na lista de “Os Melhores Filmes dos Estados Unidos” do American Film Institute (AFI).

O filme se passa no século XIX e retrata da perspectiva sulista – escravagista – tanto o período que antecede e atravessa a guerra civil americana, como também o posterior. Conhecida como Guerra da Secessão, o conflito se deu entre os estados do sul (Confederados) e os estados do norte (União), durando de 1861 a 1865 e terminando com a vitória dos nortistas e a abolição da escravatura.

Mostra ainda toda a riqueza, pompa e sutileza da vida dos barões nas “plantations” de algodão da época que viviam da exploração da mão de obra escrava nas plantações e claro, não queriam abrir mão daquele “status quo” – razão da guerra civil – que custou a vida de 600 mil pessoas.

Na sessão promovida pela Psicanálise & Cinema, Alvarez & Menezes deram interpretações psico-analíticas de algumas cenas dos personagens, das suas relações e conflitos conduzindo com vivacidade os debates com os presentes, estimulando as suas manifestações. Alguns participantes deram mostras, com suas intervenções, de que também eles concordavam que o que rolava por trás daqueles dramas era mais coisas do que simplesmente o vento…

Dentre as várias sacadas sobre o filme e seus personagens destaca-se a pulsão pela vida, num eterno recomeçar, mostrando que a sobrevivência é uma força monumental para a Humanidade seguir existindo, a despeito dos obstáculos, das dificuldades, das lutas, das vitórias e das derrotas. O filme deixa muito claro que é possível, sempre, recomeçar…

Essa parece ser a mais significativa de todas as mensagens – conscientes e inconscientes – do filme. Mesmo quando tudo está perdido! Para isso basta sonhar, acreditar e enfim recomeçar. Já que o vento levou, resta  como diz o popular ditado “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”… Isso a Scarlett O’Hara faz com grandiosidade…

                                       Cenas do Seminário Psicanálise & Cinema

O evento teve também a  curiosa e surpreendente participação da jovem atriz Isadora Ruppert de 17 anos, que vestida com trajes de época fez o papel de uma Scarlett O’Hara do Leblon – recitando falas escritas por  Carlos Mario Alvarez.

Teve ainda a participação do músico das ruas do Leblon Christian del Rio que tocou violão no intervalo.

A cena final – para delírio de todos, psicanalistas ou não – é freudiana, literalmente. Nela, Scarlett, prostrada, ouve a voz de Gerald O’Hara, seu pai morto… O pai (ou a mãe), sempre ele (ou ela)!… Puro Édipo… Quer mais Freud do que isso? Deixa o vento levar…

Concluindo – depois de tudo que vi e ouvi no original evento -, dou a minha interpretação parodiando a já célebre frase:

não foi o vento, estúpido. Foi o olhar!…

Beto Benjamin

Nota: Fotos por Alexandre Resende

 

Na língua tupi Boipeba significa “cobra-chata”, denominação indígena para a tartaruga marinha da região! Confesso que não vi nenhuma – tartaruga ou cobra-chata – mas, sei que vivem e passeiam por ali. Afinal, é a praia delas e os invasores somos nós!

Tirando isso, quando se fala em viajar para a ilha de Boipeba, lembro-me logo do ditado baiano: “Só vai lá quem tem negócio!” Expressão que significa é um pqp para chegar. Não é para você desistir do passeio porém, a expressão de fato representa a realidade para os viajantes – amadores ou profissionais – curiosos, aventureiros ou simples buscadores de novidades (des)conhecidas!…

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Localização

Dependendo de onde você vem a viagem pode levar algum tempo. Vejamos: nem fica tão longe de Salvador. No entanto, a travessia da capital baiana até Bom Despacho, na ilha de Itaparica  é um verdadeiro “perrengue” por causa de um ferry-boat obsoleto. Ninguém merece  isso mas, a travessia de navio economiza mais de 100 km para quem sai da capital pois não precisa dar a volta no Recôncavo Baiano! Também outro lugar bom para se perder! Mas isso daria outro post!

Com sorte, a travessia via ferry pode levar uma hora. A nossa levou uma hora e vinte minutos. Daí, de carro mais uma hora e meia para chegar a Valença. Deixa-se o carro num dos “estacionamentos improvisados” e apanha-se a “lancha rápida” para Boipeba. Pronto, ainda não chegou mas está quase lá. A viagem marítima – agradabilíssima por sinal – nos rios que parecem um mar sem fim, leva cerca de uma hora.

Ainda bem, pois essa compreensível “dificuldade” para chegar, parece que foi obra dos Avatares e Orixás de Boipeba. Eles se juntaram e teceram, com o tempo, uma invisível teia de proteção em torno da ilha, para aranha nenhuma botar defeito. Com cobras-chata ou não!

Evidentemente estou me referindo à sua natureza exuberante, abundante, belíssima, escancaradamente selvagem. De emocionar. Não estou exagerando não! Lá, conheci gente que foi passar um fim de semana e não saiu mais… A bela ilha não só atrai. Encanta e enfeitiça… Quer mais?

É mesmo. Boipeba não está para brincadeira. Se resolver se aventurar, aconselho deixar seus demônios – conhecidos ou não – lá fora, no continente, do outro lado da ilha. Por dois motivos: não vai precisar deles e pode resgatá-los no regresso. Se voltar!… É um aviso aos navegantes!

Nesse lugar, deveras fascinante é impossível passar incólume! Melhor então mergulhar logo no “clima”, se atirar de verdade no mar que lhe banha um dos flancos e percorrer – como se um desbravador lusitano ou holandês fora – os rios e estuários que abundam em torno da ilha. Certamente foi isso que os conquistadores fizeram. E pelo que vimos e ouvimos, não se arrependeram!.

Portanto já que está saindo da “civilização”, aproveite e se “lambuze” nesse paraíso. Tome banhos de natureza, se embrenhe pela mata, caminhe de pés descalços pelas areias brancas das incontáveis praias, curta a escuridão do céu de estrelas numa noite de lua cheia, se ilumine de luzes, cheiros e cores. Volte o mesmo, mas volte outro!

Coma e beba bastante. Frutos do mar não faltam. Muitos deles… e bem frescos. Não fique aflito com tanta beleza, nem com olhar de “gente besta”. Ninguém fica e, não se morre por isso. Pelo menos ali em Boipeba.

Como diria meu amigo Paulo Peixinho, dono da Pousada Rhydayam: “Curta a viagem, que a viagem é curta!” Afinal é apenas uma “viagem”! Não precisa de nada mais…  Só sua presença. O resto acontece… Celular?  Facebook?

Esquece!

Ora, chega de “lero-lero”. Boipeba dispensa muita conversa e meu amigo Guido Magalhães Júnior – advogado ilustre em Valença – já me deu todas as dicas. No seu caso, se ainda não foi, basta apreciar as fotos e verá que as palavras são desnecessárias para descrever o cenário com tanta beleza e exuberância.

Relaxe e – tal qual um pau-brasil recém-descoberto – se aventure nesse paraíso e se dissolva nessa natureza. Pegue leve e se quiser, vire árvore na floresta, cobra-chata no mar, lagarto, golfinho nadando na baía, macaco-prego, teiú, carangueijo de mangue, peixe-espada, beija-flor, curva de rio, por-do-sol, estrela no céu, acidente de percurso, estátua, qualquer coisa. Vire até paisagem! Depois, conte para seus amigos, como foi… Eles vão adorar!

Um programa imperdível é ir comer a lagosta do Guido na praia de Cueiras bem perto da Pousada Mangabeiras. O Guido, o de Boipeba não o de Valença – e suas histórias – é um personagem engraçado, indescritível e imperdível. Cuidado com a cachaça que ele oferece. Não é para amadores. Derruba rapidinho… O festival de lagostas que ele prepara, inesquecível!

Outro passeio obrigatório é pegar uma lancha e dar uma volta na ilha. Recomendo a lancha do Expedito (http://www.costadodende.com.br). Grande Expedito! Um daqueles “marinheiro-empresário”, boa-praça, nativo, tem uma simpatia que lhe conquista logo. Além de ser um cuidadoso marinheiro e comprometido com o meio ambiente, conhece tudo e toda a história de Boipeba. Sua lancha é de primeira e a viagem deliciosa. Vai-se parando nos lugares mais interessantes. Expedito sabe muito bem quais:

  • Caminhar pela Praia do Moreré -uma das mais extensas da ilha – com suas areias brancas. Dar um mergulho em suas piscinas naturais (não esquecer o equipamento de snorkel) e depois comer uma bela moqueca – seja lá do que for – na Barraca existente na praia.
  • Também para caminhar, outra praia deliciosa e vizinha a Moreré é Bainema.
  • Em seguida vem a Praia e a Ponta dos Castelhanos na foz do Rio Cajú com suas piscinas naturais e com menos afluência que Moreré pois a turma que vem de Morro de São Paulo – ilha vizinha e mais famosa – baixa lá o tempo todo. Em Castellanos você pode tomar umas caipiroscas de cacau e outras frutas menos conhecidas.
  • Depois vem mais caminhadas e banhos de mar – imperdíveis na maré baixa – nas duas coroas: Coroa Grande e Coroa Pequena. A lancha fica ancorada e você pode desfrutar durante horas os bancos de areia que a natureza foi criando ao longo do tempo.
  • Um pouco mais adiante, na foz do Rio dos Patos, ficam alguns quiosques onde são preparadas pelos nativos umas caipiroscas maravilhosas.
  • Outro passeio de lancha, você ainda pode saborear as famosas ostras e lambretas do barco de cimento – construído por um italiano e de propriedade de “seu” Gilmar – que fica ancorado numa parte do rio em que as três ilhas Boipeba, Tinharé e Cairu se “encontram”, defronte a ponta dos Tapuias.

Em Boipeba existem pousadas para todos os bolsos. Já fiquei em algumas mas, dessa vez ficamos nas Mangabeiras (http://www.pousadamangabeiras.com.br). Se situa no alto e fica um pouco distante da vila  – 20 minutos andando – mas tem todo o conforto. Bem projetada e cuidada, é arejada, agradável e com uma excelente piscina. As paisagens da ilha descortinadas do alto da pousada são de tirar o fôlego!

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Pousada das Mangabeiras

Não deixe também de subir até o mirante do Quebra-Cu! É isso mesmo, Quebra-Cu. Não precisa ficar nervoso nem se preocupar com a sonoridade do nome. Basta subir o morro. De lá, você terá verdadeiras visões desse Paraíso. Experimente!

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Vista do Mirante Quebra-Cu

Fotos de Joana Benjamin, Beto Benjamin, do site Viagens Cinematográficas e do site da Pousada Mangabeiras