Na qualidade de frequentador, de uns anos para cá, do Boulevard na ilha de Itaparica – bem como assíduo penetra das festas de aniversário do saudoso João Ubaldo Ribeiro – decidi me aventurar a garimpar a falta que ele faz aos seus amigos que sempre estão pela ilha, e olhem só a primeira parte do que registrei!
Devo dizer que fiquei impressionado de início e depois profundamente tocado com o carinho, a admiração e a amizade que os entrevistados devotam a João Ubaldo. Não me surpreendeu entretanto, pois tratam-se de relações construídas há muitas décadas, que foram nutridas com os encontros de sempre que eles souberam cultivar, demonstrando que nem a distância nem o tempo são capazes de apagar – sequer de diminuir – amizades verdadeiras e desinteressadas como essas.
A todos eles e ao nosso João Ubaldo, meu respeito, admiração e reverência.
Beto Benjamin
João Ubaldo Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica – Bahia – em 23/01/1941 e faleceu aos 73 anos no Rio de Janeiro em 18/07/2014. Escritor, jornalista e roteirista escreveu diversos romances dentre os quais destacam-se: “Sargento Getúlio”, “Viva o Povo Brasileiro”, “A Casa dos Budas Ditosos” e o “Sorriso do Lagarto”. Viveu bom tempo nos Estados Unidos, Portugal e Alemanha. Foi membro da Academia de Letras da Bahia e da Academia Brasileira de Letras. Suas crônicas dominicais publicada n’O Globo e outros jornais eram imperdíveis, primando pelo humor e ironia. Usava os personagens da sua adorada Ilha de Itaparica – reais ou fictícios – como metáforas e pano de fundo para as críticas sociais, ao poder e as mazelas do Brasil.
Na Ilha de Itaparica colecionou diversos amigos inseparáveis ao longo do tempo. Dentre eles objeto dessa entrevista: Jacob Branco, Toinho Sabacu, os irmãos Sérgio e Zeca Harfush – este último inspirou o famoso Zecamunista, personagem criado por João Ubaldo Ribeiro.
Parte da extensa obra de João Ubaldo.
Essa conversa de botequim ocorreu num sábado do verão de fevereiro de 2015, no Mercado do Peixe na iIha de Itaparica, graças aos “bons serviços” do patrício Sérgio Harfush – libanês de ascendência como eu – que mediou o encontro desses amigos de João Ubaldo Ribeiro moradores ou frequentadores da ilha, dentre os quais ele se inclui, para conversarmos sobre o amigo escritor, sua existência, amizades, crônicas, obras, casos e gozações, mas sobretudo a falta que ele faz aos seus amigos da Ilha.
Como não poderia deixar de ser, o papo ocorreu na mais completa desordem e barulheira, sentados em torno de uma mesa regada por cervejas bem geladas às oito horas da matina de um sábado calorento no Mercado do Peixe da aprazível ilha. Participaram, além do “promoter” Sérgio Harfush, Jacob Branco e Toinho Sabacu. Zecamunista, por estar ausente da ilha naquele instante, foi entrevistado posteriormente.
O bate-papo contou também com as súbitas, inesperadas e sempre surpreendentes aparições de três amigos – estes meus – Fred Carvalho, Yadir Vianna e Zé Caneta, que deram seus pitacos e goles durante o convescote e se escafederam pela ilha do mesmo modo sutil que apareceram.
Confira a transcrição da conversa.
Minha primeira pergunta foi a Jacob Branco, sobre quem João Ubaldo declarou certa vez em crônica que “Se tivesse anel no dedo, botaria num chinelo muitos desses advogadecos mal-acabados que por aí abundam” [crônica “Visão Pragmática da Problemática”]
Beto Benjamin (B.B.): Quando e como começou a amizade entre você e João Ubaldo?
Jacob Branco: A minha amizade com João Ubaldo teve início nos idos de 1958, durante a Copa do Mundo de Futebol, que o Brasil acabou ganhando na Suécia. Apesar da diferença de idade – ele era nove anos mais velho – João Ubaldo despertou minha curiosidade por seu humor, alegria e inteligência. Ele era muito parecido com seu primo Luiz Eduardo, inteligente e intelectual… João Ubaldo era um cara muito além das pessoas daquela época.
Digo isso hoje porque depois – de uns trinta anos pra cá – João Ubaldo dizia que não suportava mais, que detestava intelectual!…
A conversa que ele gostava mesmo era com o povo da ilha. Com o povo desse mercado aqui, o Mercado Municipal Santa Luzia – o mercado do peixe – e também com os frequentadores do bar do Espanha. Existem histórias engraçadas:

Jacob passeia sua exuberância no Santa Luzia
Há uns dois anos nos cruzamos caminhando aqui na ilha. Ele vinha para o cais e eu voltava… Minutos depois invertemos as posições: Ele ia e eu vinha. Parou e me perguntou: “Você tá fazendo o quê?” respondi: “Nada”. “Vamos tomar uma cervejinha?…” Paramos no bar do Magno e ao lado estavam um amigo meu e minha companheira conversando. Resolvi convidar os dois para se juntarem a nós: “Gente, vamos sentar ali, bater um papo com João Ubaldo?” A reação não foi nada boa: “Ah. Vou não… Essas conversas com João Ubaldo… Não sei não!” Eu nem pestanejei. Dei um “chega prá lá” de verdade nos dois, na hora:
“Porra, vocês estão pensando o que? Vocês estão por fora! O papo com João Ubaldo é pura esculhambação, só putaria… Viu?!”
É o que ele gostava de falar… Estava na praia dele… Morria de rir… Era muita gozação… Contava as histórias acontecidas com ele tanto no Brasil como no exterior…

O “cara” da Academia Acrópole “se achando”
Uma história que João gostava de contar era que lá na Bahia [B.B: como os baianos carinhosamente chamam Salvador] na década de 60/70 existia a Academia Acrópole na Praça da Sé, famosa pela halterofilia. Ele contava que um dos alunos quando terminava o treino ia para frente do espelho e começava a dar uma de Narciso: Pá pá rá pá pá pá. Todo “invocado” ficava ali um tempão no espelho se exibindo. Mostrando e conferindo os músculos.
Toda vez era assim. Terminava o treino e o “metido” ia para a frente do espelho e lá ficava “se achando”, pensando que era Apolo. Até que um dia o cara chegou, treinou e foi embora sem a presepada de sempre. Todo mundo na Academia estranhou. Então João Ubaldo disse que foi lá junto dele e perguntou: “O que houve?” Por que ele parou de fazer aqueles troços – assim, assado – defronte do espelho? O cara olhou prá ele e respondeu: “Vou contar a verdade. A história é a seguinte: eu namorava uma menina no bairro de Roma mas, eu morava no Alto do Papagaio. O que aconteceu é que fui visitar a menina em Roma um dia e a “turma” de lá me deu tanta porrada que eu perdi o interesse pela namorada e pela presepada…”
Ao não menos famoso Toinho Sabacu, referido por João como “Filósofo estóico com acentuadas influências de Sêneca” [crônica “A Ilha na Vanguarda”], perguntei o seguinte:
B.B.: Toinho, se João Ubaldo estivesse aqui, o que você diria pra ele?
Toinho Sabacu: Rapaz é muito difícil dizer, viu? Normalmente a gente contava piada, batia papo, falava sobre a vida da ilha. Quando estava no Rio ele me ligava para se informar, saber dos acontecimentos, das pessoas mais próximas. Queria saber quem tinha morrido, esse tipo de coisa… Queria sempre que eu contasse as novidades. Tudo o que aparecia na ilha, eu contava pra ele. Eu era seu “informante” [X-9 Itaparicano]. Mesmo morando no Rio de Janeiro queria saber tudo da vida de Itaparica: do bom e do ruim. Então era assim: quando falecia um amigo nosso eu ligava para ele e dizia:
– “Alô João Ubaldo. Faleceu “fulano de tal””…
Ele respondia: “É mesmo rapaz?”
– “É!”.
– “Puxa vida! Quer dizer que esse ano já não vou ver mais meu amigo aí?”
Eu respondia: “É. Infelizmente não, porque de repente ele partiu a mil… Não esperou pra ver você… A “catraca” pegou ele no caminho…” [A singular “teoria da catraca”, criada por Toinho Sabacu, está devidamente explicada na crônica “Considerações Iatrofilosóficas”. Veja no final do post].
João Ubaldo costumava sair cedo de casa em Itaparica. Geralmente cinco e meia, seis horas da manhã. Ele vinha aqui pra feira. Como eu morava perto, quando ele passava eu o acompanhava. Vínhamos para o mercado e ficávamos aqui até umas sete horas da manhã mais ou menos batendo papo. Quando chegava essa hora ele dizia:
“Toinho, vamos embora tomar nosso remédio para pressão. Está na hora.”
Eu o acompanhava empurrando a bicicleta. Umas duas reportagens que foram feitas com ele me flagraram com a tal bicicleta. Ia pra casa. Dizia que ia tomar um cafézinho, comer um cuscuz: Ele era chegado mesmo a um cuscuz.
Todo ano ele vinha para Itaparica. Era sagrado. Ele avisava antes, com uma semana de antecedência. Mandava dizer o dia e horário que ia chegar, até o horário do voo. Fui por vários anos buscar ele em Salvador com o amigo em comum, Beto Atlântico – que saiu daqui do bar há pouco tempo. A gente pegava ele no aeroporto e trazia de lancha aqui para Itaparica.
Agora, respondendo à sua pergunta, hoje a gente sente muita saudade dele. É verdade. Muita mesmo. Ele já fazia parte do cenário…
B.B.: O que vocês conversavam?
Toinho Sambacu: Papo normal… Eu contava piada… Casos que aconteceram comigo… Ele contava os seus casos, suas piadas… As coisas que aconteciam também no Rio com os amigos dele de lá. Outras vezes eu ia na casa dele por volta de seis ou sete horas da noite. Ficava batendo papo com a família toda reunida debaixo da mangueira e lá pelas nove, nove e meia, vinha embora.
Dar risada, bater papo era o dia-a-dia dele aqui na ilha. Não queria saber de botar uma camisa. Para desagradá-lo bastava dizer que ele tinha que ir a Salvador por qualquer razão, para resolver qualquer coisa. Ou então, que precisava fazer alguma coisa que ele tivesse obrigação de vestir uma calça, algo assim.
Era simples. “Cadê a sandália de dedo?”. Usava a bermuda sem camisa. Desligado total. Nunca vi uma pessoa tão simples assim. Nunca vi uma pessoa tão boa, tão humilde como João Ubaldo Ribeiro.
João Ubaldo faz muita falta sim. Tem muita gente por aí que não tendo o posto que ele tinha, não chegava nem perto do que ele foi e, se pudesse, não pisava nem no chão… “É ou não é, meus amigos?”
Ele não tinha disso. Falava com todo mundo. Era um cara atencioso. Se estivesse aqui conosco – ou em qualquer outro lugar – e alguém chegasse e pedisse para tirar uma foto? Atendia na hora. Era com ele mesmo. Não diferenciava classe. Então João Ubaldo me cativava por seu jeitão e simplicidade. Por que um acadêmico, um imortal, a bater papo com a gente? Não é qualquer um que dava espaço pra isso. Que topava isso. Ele tinha prazer de estar com o povo amigo. Amigos como esse aí (aponta para Sergio Harfush), como Xepa, Bartola. Ele era assim.
Por exemplo: Ele “tava” almoçando ali no Restaurante de Negão com sua família. Chegava um pessoal de fora que o via e dizia:
– “Olha ali o João Ubaldo.
– “É?”
– “Será que ele vai se aborrecer se a gente se aproximar da mesa ali?”
Ele conhecia as pessoas. Dizia:
– “Pode chegar. Bom dia, boa tarde”.
– “Será que dá pra tirar uma fotografia?”
Abraçava a pessoa ali na mesa mesmo. Ele parava de almoçar pra tirar fotografia, de bom gosto…
Uma pessoa dessa não existe…
As entrevistas continuam nos próximos posts. Até lá!
Ps.1: Toinho Sabacu é autor da Teoria da Catraca: “morrer é fácil : difícil é passar pela Catraca.”. Leia a hilária crônica “Considerações Iatrofilosóficas”, de João Ubaldo, clicando aqui.
Quem não se encantaria com um vídeo desses? Cantado por uma voz tão portuguesa como a de Dulce Pontes, num clipe carregado de suavidade e poesia que vai crescendo, ganhando força e graça até desabar numa lusitana paixão pela infinitude e mistérios do amor e do mar…
“Vem saber se o mar terá razão…”
“Vem cá ver bailar meu coração…”
A baiana Andrea Ferrer dá sua interpretação à canção Marina dos Mares, composta por Carlinhos Brown e Geo Benjamin num clipe gravado por Pico Garcez nas praias de Salvador. Confiram o clipe e vejam mais sobre o trabalho da artista no site: www.cdandreaferrer.com.br
Andrea fará um show no Rio de Janeiro dia 15 de maio de 2015, às 22h no Vizta – Hotel Marina Palace – Avenida Delfim Moreira 630 – 2o. andar – Leblon.
Inaugurando a Galeria de Poesia do Nunca se Sabe, devo dizer que sou “fã de carteirinha” da poesia de Érico Braga Barbosa Lima. Nessa estréia, apresento o poema Cena XVI extraído do livro “Cenas de mortes Vulgares”.
Dono de um estilo todo próprio, a poesia descomportada e desconstruída do Érico invade a nossa leitura, nos arrebata sem aviso prévio e nos conduz de forma vertiginosa por um turbilhão de nuances e sentires com palavras e versos dançando incontinente e impiedosamente à nossa frente, até que, no fim da leitura, é preciso fazer uma pausa, respirar fundo e buscar fôlego para embarcar na próxima Cena…
Poeta carioca, deu uma entrevista para este site a ser postada brevemente, falando de sua carreira literária e de sua vasta obra multimídia.
CENA XVI
GARGALHA e ri-se desgrenhada e louca
desdenha do mundo solta o cabelo
pinta a boca
prende a franja oculta um olho desfaz a pintura
range o dente troca a lente recolore a loucura
de preto reflexo um beijo no espelho
desmancha o cabelo desfaz o beijo
tira a roupa
E na triste fratura
Dos cacos da imagem no corpo cansado
Despencam os olhos
Triste miragem
Esconde em rasura em cínica fuga
as íntimas rugas do esboço do rosto
Desgosto…
Reage!
De um lado
apruma o busto suspende a cinta
ajeita sugere a forma perfeita a calça que cava
e fere
Impõe-se o salto enrijece a coxa
O cansaço… se esquece
comanda:
“enrijece”
A unha é vermelha
O olhar é sangüíneo
A boca é roxa…
Varizes se escondam no prumo da pose
pois mais do que nunca agora ela toda
é mais do que o mundo
que todas as outras
Gargalha e ri-se enfeitada e rouca!
Todo orgasmo, toda volúpia
nessa hora é pouca…
Nada contém o desenfreio absurdo
do pacto da carne com o desejo surdo
Espalha o gris sob a concha dos cílios
A lascívia e o gozo… são todos seus filhos
Entalha um riso na face estupenda
Assim desejada ela que se estenda
o desejo aos poros e em tudo se espalhe:
“Que a luz imprecisa da impressão se acenda…
Se apague o sol, que o dia falhe!
Que o mundo inútil não mais trabalhe!
Que o mundo então vire
ilusão tremenda!”
Feroz e Profunda no abismo da fenda
Violenta e Fecunda a noite chacoalha
pra isso só baste querer
“é o que basta”
a papa lasciva que a língua arrasta
ao lóbulo lívido e lânguida espalha
promessas de terras de juras já gastas
a ética cíclica abrupta e falha
do choque cinético as Carnes que o início
o fim e o veio… a tudo embaralha
Sonhos da terra onde tudo se encaixa
A vaidade oscila se altiva ou rebaixa
de salto ou de quatro se orgulha do vício
sob o peso da farsa… é tão doce o suplício
À vida se entrega e rica ela sonha
pra tão doce sonho não há sacrifício
Extrai seu ouro do tolo artifício
quer se abafe no grito se oculte ou se exponha…
A prostituta sonha…
Desperta!
Sobre um copo na quina
dormira da bancada de um bar de esquina
a rua deserta
cinco da madrugada
Incerta
na lembrança embriagada
vê as noites enfiando-lhe abaixo a goela cerveja
Moeda ilusão porrada…
Só!
Ajeita a bolsa levanta toma estrada
atrás dela
revolve-se poeira… tristeza levantada
A poesia
é uma puta velha
nenhum homem por ela dá mais nada.
“Érico Braga Barbosa Lima (1971 – ) é engenheiro mecânico, mestre em Literatura Brasileira (Transdisciplinaridade em Augusto dos Anjos), doutor em Estudos de Literatura (Perfis Leitores de Tobias Barreto), músico e compositor (com mais de 180 composições), poeta, ensaísta e escritor (com mais de 16.000 mil versos publicados e 8 livros editados), foi professor da USU, da UGF, e da UniverCidade, da pós-graduação lato sensu da PUC-Rio, é pesquisador da Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio, coordenador de pesquisa do Instituto Interdisciplinar de Leitura PUC-Rio e, atualmente, faz seu pós-doutoramento na aplicação do dialogismo bakhtiniano na poesia brasileira.”
Uma homenagem à grande cantora e compositora britânica Amy Winehouse que será objeto de um documentário intitulado AMY, com filmagens e canções inéditas, dirigido por Asif Kapadia (o mesmo que fez Senna) e lançamento previsto para 3/7/2015.
Vista como uma das artistas mais talentosas de sua geração, seus álbuns venderam milhões de cópias. Conhecida por seu poderoso e profundo contralto vocal e sua mistura eclética de gêneros musicais, incluindo soul, jazz e R&B, Amy morreu de intoxicação alcoólica aos 27 anos de idade.
Vejam abaixo duas de suas canções mais conhecidas.
Back to Black
You Know I’m no Good
A seguir, a parte final da entrevista com Nilton Souza cujo início foi postado em 5/3/2015. Ele fala como fotógrafo profissional: de sua carreira, visões, opiniões, vivências, histórias e sobretudo nos mostra suas fotos excepcionais.
Beto Benjamin (B. B.) : Você enfrentou situação perigosa alguma vez ao fotografar?
Nilton: Correr risco de vida? Corri o tempo inteiro…[rs]… Só de voos de avião e helicóptero foram milhares de horas… Agora veja, nunca computei o tempo que voei!. Poxa, quantas mil horas voei desde 1976 até hoje? Medo de voar? Não tenho. Nem nunca tive… Sou daqueles que acreditam que tudo vai dar certo e sair na mais perfeita ordem. Já imaginou se nessa profissão tivesse medo de voar? Estaria “ferrado”.
Veja na foto abaixo: eu, quando fui documentar a construção da Ferrovia de Carajás em plena selva amazônica. Era uma obra impressionante. Dava a impressão de uma gigantesca serpente no meio da selva…
B.B.: Você fotografou na Amazônia?
Nilton: Fotografei sim. A obra era a construção daquela ferrovia. Faz muito tempo, mas ainda me recordo bem. Eu, magro e franzino, fazendo um tremendo esforço físico para carregar uma maleta pesada, com a câmera e seus acessórios, fotografando tudo – com muito sacrifício -, mas com um prazer enorme.
Foi um presente registrar a execução de um projeto desses, testemunhando as técnicas da engenharia. Esses empreendimentos – as vezes visionários – foram e são importantes para o desenvolvimento do Brasil… Guardo grandes recordações de ver as pessoas – engenheiros, técnicos, mestres de obra, administradores, operários, peões etc – nos mais diferentes cantos do país, erguendo coisas monumentais, muitas vezes, em condições dificílimas… Saía sempre muito impressionado de ver a engenharia brasileira executando esses projetos e se superando a cada desafio…
Devo reconhecer que minha atividade como fotógrafo me trouxe uma enorme, verdadeira e inesquecível enciclopédia da vida. É um ensinamento atrás do outro. E não acaba nunca. Ao fotografar um canteiro de construção de plataformas de petróleo ou estaleiro, uma fábrica de automóveis, ou de cabos de fibra ótica se trava conhecimento com todo o processo envolvido. Se aprende como fabricar, montar, construir, produzir… Conhecer os materiais, equipamentos, métodos construtivos e, principalmente, as dificuldades.
Me sinto uma testemunha ocular da história da engenharia nacional dos últimos quarenta anos…
B.B.: Alguma fábrica lhe chamou a atenção?
Nilton: Sim. Muitas. Por exemplo, a fabrica de tanques para armazenamento de água da FORTLEV despertou minha atenção. É um processo interessantíssimo: os técnicos misturam os produtos químicos numa máquina, de repente, adicionam um pó e… Puff… Sai lá o tanque pronto!… Cacete! Foram tantos os processos que testemunhei. Sempre acompanhei com atenção todas essas construções. Conhecimento vivido mesmo, não foi lendo uma reportagem…
Inegavelmente, tem sido uma experiência educativa, inesquecível e enriquecedora…
B.B.: Você se lembra de algum caso curioso ou engraçado?
Nilton: Claro. Vários. Teve a história quando fui fotografar o shaft (poço) da mina da Caraíba Metais, que a Odebrecht construía no sertão da Bahia. Me lembro como se fosse hoje. Desci no shaft a 650 m de profundidade. Que sensação… Estou lá fotografando e de repente, um grande estrondo… Buuuuummmmm! Inesperadamente explodiu lá uma “zorra”. Ninguém avisou que ia ter explosão. Tremia tudo e eu não sabia o que estava acontecendo. “Êta pau… Tô ferrado” (pensei comigo mesmo olhando ao redor). Um medo danado. Tremedeira. A vibração durou algum tempo, foi diminuindo e, parou. Felizmente passou. Aproveitei, fiz minhas fotos e caí fora rapidinho…[rs]…
O shaft parou de tremer! Minhas pernas é que não!…
“Homi, seu menino!…. A gente passa por cada uma!…”
Me lembro também de outra situação. Esta curiosa. Estava voando num helicóptero, em plena floresta amazônica. Horas e horas de voo. Tudo verde… Olhava lá fora nos quatro pontos cardeais – norte, sul, leste e oeste -, e só via aquela mesma paisagem: floresta virgem!… Árvore para “dar de pau”. Dentro do helicóptero, só via homem. Aí tive um devaneio: já imaginou se o helicóptero cai e tivéssemos que recomeçar uma “tribo” dali?!… Concluí meu devaneio com uma triste constatação: Não seria possível…
Não havia mulher a bordo! Só com homem, não daria para gerar uma nova “tribo”!…
Veja que era nisso que eu pensava entre ansioso e preocupado a bordo do helicóptero, lá no meio da floresta amazônica!… Pode uma maluquice dessas?
B. B. : Um momento aí Nilton! Até podia. Uma tribo nova podia recomeçar, mas convenhamos que ia ser uma tribo alegre… Não concorda?…[rs]…
Nilton:…[rs]…Oxente… Que zorra é essa rapaz? Ficou maluco? Tribo alegre?!… Que alegria teria se eu sobrevivesse à queda, e não tivesse no mínimo uma mulher ao lado?!…[rs]…
B. B. : Como surgiu a ideia de fazer um livro de Fotografias?
Nilton: A idéia do primeiro livro ocorreu em 2009. Meu amigo Fernando da Rocha Peres, professor e membro da Academia de Letras da Bahia, olhou minhas fotos e disse: “Vamos levar para fazer na EDUFBa. Vou lhe apresentar. É lá que se publicam os livros.” Fomos. Tinha que me apresentar ao pessoal. Mostrar o projeto para ser avaliado etc…. Caramba! Todo aquele processo burocrático. Pensei que não ia dar certo. Quando mostrei a “boneca” do livro, todo mundo se encantou. Disse que precisava apenas da diagramação e do ISBN. Tinha recursos para fazer dois a três mil exemplares. Resultado: foram impressos cinco mil! Fiz uma doação de duzentos exemplares para a EDUFBa.
[EDUFBa – Editora da Universidade Federal da Bahia]. Nota de B.B.
[ISBN – International Standard Book Number]. Nota de B.B.
O livro foi batizado de “Salvador Aérea”. Consegui fazer uma pré-venda para grandes empresas. Fernando Peres escreveu uma parte do livro e convidou Angela Gordilho, arquiteta e professora, para escrever a outra. Reconheço e agradeço sempre o apoio deles e da Flavia Rosa. A primeira edição se esgotou em menos de dois anos. Foi um sucesso. Eu, já como editor e autor, lancei uma segunda. Recebi elogios do Dr. Robert Darnston, diretor da Biblioteca de Harvard, e do Dr. Aquiles Brayner, da British Library. A terceira edição atualizada deve sair até o início do próximo ano.
B.B.: Afinal, quantos livros você já publicou?
- Salvador Aérea
- Baía de Todos-os-Saveiros
- Salvador: Fé, Luz e Cor
- Viva Saveiro
Nilton: Para minha alegria até agora, quatro. Três, como editor e autor das fotos. E um, o “Viva Saveiro”, onde sou apenas autor das fotos. Esse livro contém cinco fotos históricas do incomparável Pierre Verger. Resumindo:
O primeiro, “Salvador Aérea”.
O segundo, “Baía de Todos-os-Saveiros”, apresenta fotos das regatas, seus roteiros, e bordejos dos saveiros na Baía de Todos-os-Santos. Explica o Graminho – um incrível conhecimento gravado numa tábua – contendo todas as proporções para a construção de um saveiro. Com o Graminho em mãos, o mestre construtor, que mal sabia ler, podia construir o saveiro nas proporções corretas. Calculava a largura, altura, tamanho do mastro e todas as demais dimensões necessárias à construção. Algo inacreditável! Pura sabedoria inserida num pedaço de madeira!…
O terceiro, “Salvador: Fé, Luz e Cor”, contém as religiosidades baianas, diversos tipos de arquitetura com vistas de exterior e interior, belos pontos turísticos, carnaval, acarajés, moquecas, pimentas e colares. Costumo dizer às pessoas:
“Se folhear esse livro perto do meio dia, vai mexer com o seu estômago!…”
Três mil exemplares Impressos em novembro de 2013 encontram-se no final de vendas. Haverá nova edição. Queria chamar a atenção para um fato curioso que ocorreu com esse livro: tentei fotografar alguns terreiros de Candomblé ao vivo, mas não foi permitido. Apesar disso, fotografei e incluí as belas esculturas dos orixás do artista Tati Moreno instaladas no Dique do Tororó.
O quarto livro, “Viva Saveiro”, traz a historia de cada um dos saveiros ainda existentes na Baía de Todos-os-Santos e também a de seus mestres. Essa obra foi um projeto da ONG “Viva Saveiro”(http://www.vivasaveiro.org/) que contou com o apoio do Ministério da Cultura (MinC).
B.B.: Você ainda pretende publicar um novo livro?
Nilton: Tenho dois em pauta:
“A beleza interior de nossa Salvador”, referindo-me à sagrada herança deixada pelos portugueses na Bahia. Nesse livro conto com o apoio de alguns “Imortais” membros da Academia de Letras da Bahia, como Aramis Ribeiro Costa, Fernando da Rocha Peres, entre outros. O livro trará uma visão de Salvador que as pessoas desconhecem.
Para dar um “gostinho” das fotos que estarão nele, veja acima: o Museu de Arqueologia, a Academia de Letras da Bahia, o Museu de Arte Sacra da Igreja de Santa Teresa e a Igreja de São Francisco com seu revestimento em ouro. Em geral, as pessoas que passam pela frente da Academia de Letras da Bahia, situada no bairro de Nazaré, e em outros pontos históricos, não se dão conta do tesouro arquitetônico existente, nem da sua beleza interior.
O segundo, “Bahia Litoral 932“, mostrará a belíssima costa da Bahia, com suas lindas vistas aéreas. Os 932 quilômetros representam o tamanho do maior litoral de um estado brasileiro, com suas convidativas costas: Descobrimento, Cacau, Dendê, Baía de Todos-os-Santos e Coqueiros. Tudo isso fotografado em dias de sol com marés e praias maravilhosamente encantadoras. Será um convite irrecusável para visitar a Bahia. Veja só as fotos acima…
B.B.:: Você se sente um fotógrafo ou um artista?
Nilton: Me sinto um fotógrafo com a cabeça mais artística, embora essas fotografias que estamos falando sejam muito técnicas, com muita simetria. Veja nas minhas fotos como as verticais são certinhas! Não pendem para um lado, nem para o outro. Tudo está conforme se vê na realidade…
Agora, produzir um livro premiado sobre o Mosteiro de São Bento e, logo na capa, ver as colunas todas inclinadas, isso eu não aceito. Dói!…
B.B. : De onde vem essa sua busca pela perfeição?
Nilton: Sempre tive. Parece que nasceu comigo. Está dentro de minha alma.
B.B.: Você tem muito ou pouco auto-controle?
Nilton: …[rs]… Puxa vida, falando de auto-controle, tenho duas histórias pitorescas para contar: a primeira, quando aos quatorze anos, fiquei quase bêbado numa festa. Era muito tímido e a turma queria que eu tirasse uma garota para dançar de qualquer maneira. Os amigos zoando: “Nilton não dança…”. “Mas, hoje ele tem que dançar”… Naquele tempo, o whisky era Kings Archer (lembra?) e ainda misturado com Coca-Cola.Uma verdadeira bomba! Que ressaca monumental eu tive! Foram três dias de mal estar no estômago… Foi o primeiro e único whisky que tomei em minha vida. A verdade é que acabei criando coragem mesmo, convidei a garota para dançar e fiz a minha parte, para alegria de todos… Meio tonto sim, mas sem perder o auto-controle…[rs]…
A segunda, mais engraçada: é sobre o controle do auto…[rs]… com o devido perdão do trocadilho que sei que você tanto gosta. Quando eu tinha vinte e dois anos, estava numa “farra” em Itapoã com um amigo e duas garotas. Tomamos “todas”. Bebemos um litro inteiro de batida. No final – todos já grogues – chegou a hora de ir embora. Voltar para casa em Salvador. Veja só o que é controle! Mesmo embriagado falei: ” Alguém aí tá com pressa?” Somente eu tinha carteira de motorista. Ninguém respondeu nada. Retruquei: “Então vamos voltar para casa, mas no meu ritmo…”. Rapaz, dirigi o carro na segunda marcha de Itapoã até Salvador, passando por Brotas para deixar as meninas. Consegui – nessa “velocidade” – chegar na Av. Joana Angélica na casa de meu amigo Besouro, onde dormi…
Você acredita que no caminho saí do carro para vomitar e continuei na mesma balada? Sempre na segunda marcha… Quase fundi o motor do arrumadíssimo “fusca” que eu chamava carinhosamente de “Gaspar”. A moral da história é que eu sabia que tinha que fazer aquilo, mas daquele jeito… Tinha consciência que ia correr riscos, porém saberia me controlar.. Não sei explicar? Se fosse hoje, com a Lei Seca, não sei onde iria dormir!…[rs]…
B. B.: Que critério você usa para comprar seus equipamentos?
Nilton: Sempre busco o melhor. Não adianta comprar qualquer coisa. A minha laminadora tem 18 anos, “top” de linha. Maravilhosa. A impressora de 110cm com 12 cartuchos. Isso tem a ver com a filosofia da busca pela qualidade. No final, sai mais barato. As três câmeras que tenho atualmente são as melhores no padrão CMOS 36x24mm. Atendem muitíssimo bem… Estou satisfeito até sair a Canon de 50 MP já anunciada, e que certamente substituirá uma das existentes.
B.B.: O que muda na sua fotografia com a aquisição do drone?
Nilton: O drone é uma evolução inexorável. Quando falo em drone não é qualquer droninho de mil dólares. Estou falando de um de verdade mesmo. Nesses droninhos você acopla uma câmera GoPro daquelas que se põem no capacete, na bicicleta, na prancha de surfe e arrasa! É uma combinação imbatível. Entretanto, se vai fotografar um prédio, o Elevador Lacerda, uma torre, sai tudo distorcido. O horizonte sai curvado. Chama-se tecnicamente “distorção de barril”. Numa aventura, num surfe, numa prancha, não há problema. Ninguém nota isso. Agora, o nosso drone é poderoso. Tem oito hélices e Guimball para estabilizar a câmera Canon 5D Mark III (por enquanto)…[rs]…
Existem trabalhos que o helicóptero é absolutamente imprescindível. Fotos em grandes altitudes ou indústria com grandes áreas – como a Dow Química na Bahia – prefiro o helicóptero. Nas fotos que faço para o “Bahia Litoral 932″ utilizo um, devido à flexibilidade. Porém, para fazer um trabalho de um loteamento em Pirajá, bairro de Salvador famoso pela batalha da Independência da Bahia, utilizarei o drone. Resolve bem. Você viu as fotos em Villas do Atlântico e na Estrada do Côco para a empresa CLN, feitas com ele, não foi? Viu a qualidade? O resultado é ótimo.
Normalmente, sempre que o cliente me pede alguma coisa, procuro saber o que a foto “vai dizer”. Baseado na minha experiência, recomendo a forma mais econômica: drone ou helicóptero. Certamente, com a melhor qualidade.
O resultado é delirante. Você está aqui embaixo com sua maquininha. trrrrrrrrr… Esquerda…. trrrrrrrrr… Direita. O drone “paradinho da silva…”
Só lhe obedecendo. Gira a câmera para cá, faz a foto. Gira para lá – trezentos e sessenta graus – com um resultado excelente e a um custo bem menor. Não é notável?
B.B.: Quando você está fotografando com auxílio do drone, vê exatamente aquilo que sai na fotografia?
Nilton: Claro que sim. Esse drone possui dois “displays”: um para o seu comandante e outro para o fotógrafo, onde se vê perfeitamente o que se fotografa.
B.B.: Como foi a história dos Saveiros?
Nilton: Foi em 6 de outubro de 2006. Estava num helicóptero fotografando a Refinaria de Mataripe no fundo da Baía de Todos-os-Santos. Ao retornar para o aeroporto, avistei dois saveiros passando próximo da ponta de Humaitá. Nem pestanejei. Disse para o comandante: “faz a volta, passa ali rapidinho”. Cliquei os saveiros. Fotos lindas. Coloquei as imagens na parede do meu escritório. As pessoas viram, gostaram, compraram. Um dia, Pedro Bocca, da ONG Viva Saveiro me convidou: “Você não quer participar de uma regata?” Topei na hora. Participei da primeira regata e me empolguei. Na segunda, banquei o helicóptero e fui presenteado pela mãe natureza com ventos fantásticos. Surgiram linhas de espuma d’agua, como rastros dos Saveiros, propiciando simetrias inacreditáveis. Veja as fotos abaixo….
A foto do saveiro solitário foi feita com ele bordejando… Era só relaxar e ouvir os murmulhos do vento na vela impulsionando a embarcaçâo… Olha só o céu totalmente escuro com o arco-íris no fundo… Pura poesia e mágica divina!… Êta Bahia!…
B.B.: O que Pierre Verger (http://www.pierreverger.org/br/) significa para você?
Nilton: Um cara que amou profundamente a fotografia e a Bahia. Conheci o Pierre Verger. Dedicou-se de corpo e alma às suas conexões religiosas e à fotografia. O resultado foi um maravilhoso registro histórico. Deixou um legado muito especial para os baianos. Já imaginou o registro histórico dos saveiros sem o olhar do Pierre Verger?
O saveiro, para quem não sabe, é um meio de transporte “suave”. Foi muito importante na movimentação de cargas no Recôncavo baiano no século passado. Desliza sobre a água, impulsionado pelos ventos em suas grandes velas… Transportava tudo. Já pensou na cerâmica sendo transportada em estradas sem asfalto de chão batido?… Em lombo de burro? Ia chegar tudo arrebentado!…O saveiro não, quase voando sobre as águas. Veja essa foto: “Cerâmicas dentro do Saveiro”. Muito técnica. Capturada apenas com a iluminação ambiente. Graças à tecnologia, consegui um resultado desses.
B. B.: Quantos filhos você tem? Por acaso, algum fotógrafo?
Nlton: Tenho dois. Um fotógrafo. Pense num cara perfeccionista: é o Joás. Vou te contar…. Acho que é meio “pau-a-pau” comigo. Outro dia, fazendo uma página para o meu site, pedi para ele dar uma olhada. Foi uma surpresa: “o cara” viu tanta coisa que eu não tinha observado…
Semana passada, Joás fotografou o Parlamento Europeu em preto e branco e me enviou. Examinei as fotos, selecionei determinadas áreas, meti luz aqui e ali…. Fez uma diferença!… Então existe uma interação entre nós, onde cada um entra com sua “crítica construtiva”… Curtimos isso.
Nunca me esqueço quando lhe dei uma câmera aos seis anos de idade. Fotografou o muro lá de casa com uma visão da composição estética que já mostrava quem seria mais tarde… Até hoje me arrependo de não ter conservado aquela foto.
(B.B.: Abaixo, uma amostra do trabalho fotográfico do Joás em Londres)
Desde a primeira câmera que Joás mostrou essa busca pelo perfeccionismo. E como eu, demonstrou um grande interesse pela fotografia. Eu tinha uma Hassel ArcBody, câmera super-técnica; só de níveis de bolha eram quatro. Ele aprendeu a mexer, fotografou toda a construção da fábrica da Ford em Camaçari e o Complexo Sauípe. Fez um ótimo trabalho.
Posso dizer que ele aprendeu tanto que, em poucos meses após ter chegado em Londres, um amigo mostrou-lhe um anúncio de uma agência de propaganda à procura de um fotógrafo especializado em arquitetura. Ele foi lá, fez a entrevista e surpreendeu os ingleses com o seu trabalho. Saiu contratado.
(B.B.: Abaixo um pouco mais do trabalho fotográfico do Joás em Londres)
Vou contar uma história do Joás: Ele tinha feito um trabalho para um grupo carnavalesco aqui em Salvador. Pense um DVD maravilhoso, com a capa de um profissionalismo extremo! Ele fez! Eu vi e disse: “Caramba! Te prepara pois no próximo ano vai bombar”….Chegou o próximo ano. Ele disse: “meu pai, os caras não tão nem aí, não aprovaram o meu orçamento. Olha agora as fotos que estão aqui, no site deles, tudo tremido, sem foco. Olha a porcaria que eles fizeram aqui”…. Não hesitei ao notar a cegueira desses donos de blocos e camarotes carnavalescos. Falei: “Vá embora daqui”! Ele corajosamente foi.
Primeiro para Nova York e depois para Londres. Ganhava direitinho e paralelamente fazia outros trabalhos. Juntou uma boa reserva para aguentar uns dois anos. Montou um “puta portfólio” e um site maravilhoso. Depois de algum tempo, trabalhando para uma empresa, pediu demissão para tentar “voo solo”. Viajou muito. Visitou mais de 30 países e territórios. Foi a India, Paquistão, China, Irã etc.
Essa foto do lado é o auditório da ONU. Achei um ambiente imponente com a foto muito bem enquadrada e com um belíssimo teto. Tudo é uma busca por perfeição e por uma forma precisa de fazer.
Joás também criou um generoso blog (http://www.easylondonblog.co.uk) para ajudar os imigrantes novatos em Londres. Através dele, conheceu a Ana Cruz, uma portuguesa linda, carinhosa e trabalhadora. E mais… De encantadora família. Apaixonaram-se. Em breve devem oficializar o casamento.
O “cabra” não é moleza não!
Estamos permanentemente em contato, trocando experiências, idéias e sobretudo crescendo juntos.
B.B.: Pode falar mais desse blog?
Nilton: Ele, com seu coração grande, baseado em sua própria experiência de imigrante e desejando ajudar pessoas que vão estudar ou trabalhar na Inglaterra, criou uma espécie de centro de informações e escreveu como introdução:
“Depois de passar por todos os perrengues possíveis durante meus primeiros anos na Terra da Rainha, eu resolvi criar esse blog, dar o caminho das pedras, escrever um pouco de tudo que um indivíduo precisa saber sobre Londres, com informações importantes; principalmente para aqueles que tem a intenção de sair das barras da Dilma e vir morar aqui, ou pelo menos tentar uma nova vida, o que é uma ótima ideia. Tento fazer deste Blog um informativo completo sobre Londres, desmistificando mitos, trazendo dicas e curiosidades sobre esta cidade que tanto chama a atenção dos brasileiros.”
B.B.: Que história legal essa do seu filho… Parabéns! O que você diria então para os jovens que pretendem ser fotógrafos?
- Filho e pai fotografando a Regata Aratu-Maragojipe
Nilton: Não posso indicar o caminho que eles devem seguir. Agora, se quiser fazer Fotografia, tem que ter dedicação absoluta, paixão. O conforto monetário vai depender do “network”. Das conexões. Conhecer “fulano” que de repente, vai te apresentar a outra pessoa, como aconteceu com Joás que conheceu e fotografou a casa de um investidor – casa de quinze milhões de euros – em Mônaco. Ele gostou tanto, que o apresentou para outras pessoas do seu círculo de relações e Joás mandou ver…
Fazendo bem feito, dentro do “network” não tem como dar errado. Existe também um outro lado da Fotografia, chamado Fine Art que tem a ver com a exposição em Galerias, que mais uma vez depende de “network”. Um “cara”, por exemplo, conseguiu vender uma fotografia por dezenove milhões de reais. Amigos da Oprah!…(já ouvi falar que esses valores absurdos contém coisas “estranhas” no meio, mas…).
Eu, sendo um pouco crítico no meu livre pensar, observo que existem certas “Artes” sem composição, técnica, beleza e traços marcantes que levem diretamente ao seu criador… Costumo ouvir: “é a visão do artista”, que é assim mesmo!…
Tem coisas que não concordo. Costumo chamar de “arte preguiçosa”… Para mim, não dá!… Não é por aí!…
Falando de conforto material, o meu, atualmente, vem através da fotografia aérea, industrial e de arquitetura que classifico como Fotografia Comercial. Ainda pretendo organizar minha galeria de fotos que considero Artísticas num livro, imprimir uns vinte exemplares na BLURB e enviar para galerias pelo mundo afora. Deus queira que tenha reconhecimento e eu, um ótimo retorno.
[BLURB: Site onde suas idéias podem se transformar em livros bem impressos por um preço razoável]. Nota de B.B.
B.B.: Existe alguma foto que você não conseguiu fazer?
Nilton: Existe. Deixei de registrar o desenvolvimento urbano das cidades por onde passei… Essa é a fotografia que não fiz.
B.B.: Qual será o futuro da Fotografia?
Nilton: Já estamos no futuro… Aqui prá nós, a Canon anunciou para breve uma câmera de 50 megapixels. Um extraordinário poder de ampliação. No ano 2000 isso era puro sonho. E daqui a 25 ou 50 anos? Acho que daqui a 25 ainda verei! “Bem Véinho” mas verei…
Observe também que as fotos impressas atualmente – mesmo coloridas – poderão ser vistas daqui a trezentos anos ou mais, com alta qualidade. Isso não acontecia com as fotografias coloridas impressas e reveladas quimicamente.
Arrematando, dizia a minha Vó Libânia: “Meu filho, o futuro só a Deus pertence”.
B.B.: Você pensa em se aposentar?
Nilton: Não vai demorar muito…[rs]… mas como amo o que faço, continuarei alimentando este amor para sempre… Fotografar é prazeroso.
B.B.: Você tem uma foto preferida?
Nilton: Não tenho uma preferida não! Agora vou te contar um segredo: fiz uma série de fotografias completamente diferente de tudo o que já fiz. (Ainda não coloquei no meu site.) Chama-se Olhares. As pessoas já me perguntaram: “essas fotos são suas?”
A história delas foi assim: Eu estava no “comboio”, com minha querida amiga Dra. Ana Kolbe, dentista. O “comboio” é formado por uma equipe de pessoas que desejam fazer o bem aos outros. Recolhe cestas básicas, roupas, lonas, brinquedos etc. Elas enchem os caminhões e levam para distribuir aos necessitados em regiões pobres da Bahia. A Ana Kolbe cuida, com muita dedicação, de melhorar o sorriso das pessoas. Havia até aula de como escovar os dentes e quem ministrava era a Leda e a Teresa, minha esposa querida.
Essas crianças estavam numa fila e ao me aproximar, fui repentina e profundamente tocado por seus olhares. Fotografei-as e fui embora. Veja abaixo o meu segredo: o olhar dessas crianças.
Muito difícil de explicar e mais doloroso ainda de ver… Este é o retrato da pobreza, da desesperança e do medo das crianças sofridas do nosso Brasil. O que motivou esses Olhares? O que está por trás deles? Serão esses os olhares das crianças sem futuro? Não sei. Como você diz : Nunca se sabe…
Se quiser saber mais sobre Nilton Souza visite o site:
http://www.niltonsouza.com.br
Se quiser saber mais sobre Joás Souza visite o site:
http://www.architecturalphotography.london
Nunca se Sabe 













