Vejam o que o Charles Trenet, um dos maiores cantores e compositores franceses faz com esta composição dele próprio chamada La Mer! 

Trenet brilhou no cenário musical mundial entre 1930 e 1950 embora sua carreira tenha se estendido até os anos 90. Teve esta canção gravada por Bobby Darin nos início dos 60 e por George Benson em meados de 80. Esta é sua canção mais famosa fora da França e teve mais de 400 versões gravadas em todo o mundo.

Para vocês curtirem, os vídeos com as versões de Trenet no original e Benson em versão inglesa Beyond the Sea com seu “swing jazzístico” imperdível em gravações ao vivo.

Beto Benjamin

Na qualidade de frequentador, de uns anos para cá, do Boulevard na ilha de Itaparica – bem como assíduo penetra das festas de aniversário do saudoso João Ubaldo Ribeiro – decidi me aventurar a garimpar a falta que ele faz aos seus amigos que sempre estão pela ilha, e olhem só a última parte do que registrei: entrevista com um de seus personagens mais famosos: Zeca Harfursh vulgo Zecamunista.

Devo dizer que fiquei impressionado de início, e depois profundamente tocado com o carinho, a admiração e a amizade que os entrevistados devotam a João Ubaldo. Não me surpreendeu entretanto, pois tratam-se de relações construídas há muitas décadas, que foram nutridas com os encontros de sempre que eles souberam cultivar, demonstrando que nem a distância nem o tempo são capazes de apagar – sequer diminuir – amizades verdadeiras e desinteressadas como essas.
A todos eles e ao nosso João Ubaldo  Ribeiro – que anteontem completou um ano de morto – meu respeito, admiração e reverência.

Beto Benjamin

                                                  Parte da extensa obra do autor

B.B. (Beto Benjamin): Zeca, você é o último dos amigos de João que entrevistei. O que você tem a contar da sua amizade com João Ubaldo e como surgiu o famoso personagem Zecamunista?

Zeca e João fazendo um trato

Zeca e João fazendo um trato

Zecamunista: João Ubaldo e eu nos conhecemos em 1958. Comecei a namorar em 62/63 com uma amiga de Bilõ que era namorada dele. Saíamos muito juntos para “matinées” entre outras coisas. Eu tinha 22/23 anos. Era outra Bahia bem diferente dessa de hoje. Qualquer um podia andar sem medo de dia ou de noite. Podia ir a todo canto sem ser incomodado por ninguém. Hoje não dá né?

Depois de deixar as namoradas em casa – porque tinha aquele horário 22 horas, “menina de família” e principalmente a minha cujo pai tinha sido Secretário de Estado da Segurança – partíamos para a “gandaia”.

Íamos para aqueles inferninhos tipo XK Bar ali na Vitória. Tomávamos Cuba Libre, a bebida que nosso bolso alcançava naquela época. Já viu: estudante, grana curta, pegávamos as “garotas” para dançar… Todo estudante era metido a esquerdista, era uma obrigação naquele tempo. Tinha que ser! João sempre foi direitista, um “conservadorzinho” enrustido. Cada um de nós sabia exatamente em que lado estava o outro. Nos respeitávamos mutuamente e ele sabia que eu era atuante mesmo. Me candidatei à presidente do Diretório Acadêmico de Arquitetura e perdi. Foi exatamente em 1963, um ano antes da famigerada “Revolução Redentora de 1964”.

João e eu saíamos muito juntos enquanto solteiros. Posteriormente ele se casou com a primeira mulher – Bilô – que era nossa amiga. Eu e minha namorada Valdete íamos muito ao apartamento deles na Rua Oito de Dezembro na Graça. Batíamos papo, bebíamos cerveja, whisky nacional, ouvíamos música noite adentro. Ele tinha o mesmo sorriso dos últimos tempos. Sempre sorrindo. Raríssimas vezes vi João Ubaldo fechar a cara. Só duas vezes e em Itaparica, por causa de gente que o assediava enquanto ele queria tranquilidade. Curtimos muito nossa amizade. Um dia, intempestivamente, ele se separou da primeira mulher. Ela me contou uma história e ele me contou outra. Evidentemente as histórias eram completamente diferentes. Nunca questionei nenhum dos dois. Ouvia um, ouvia o outro e ficava calado. Nunca tomei partido.

Depois ele foi para Portugal e para os Estados Unidos. Aí nos afastamos. Em Portugal conheceu sua segunda mulher. Depois voltou para o Brasil e aí foi a minha vez de viajar. Me embrenhei pela Amazonia. Fui trabalhar como fiscal de obras da Ceplac [órgão criado pelo governo federal para cuidar da recuperação da lavoura cacaueira com sede em Itabuna-Bahia] na Amazonia e passei mais de quinze anos fora da Bahia.

Um belo dia em 1979 já de volta à Bahia estava numa churrascaria na Pituba em Salvador – pouco antes de Glauber Rocha morrer – e eis que chega João Ubaldo com sua nova esposa. Sentamos juntos e começamos a bater papo. Lá pelas tantas ele perguntou:

“Você continua comunista?”
Respondi: “Não só continuo como fundei o Partido Comunista em Itabuna!”
Ele riu muito… Eu disse: “Pois é, continuo!”

Depois disso morei em Brasília até 1985 quando retornei para Salvador. Minha mulher morreu nesse ano. Enquanto eu morava em Brasília ele estava fazendo a versão para o inglês de Viva o Povo Brasileiro. Ele mesmo escreveu a versão. O jornal O Globo tinha dado a ele de presente um computador potente para a época, com editor de texto e tudo. Daqueles que escrevia com letras grandes e resolução horrorosa. Ele trabalhava diariamente na Biblioteca em Itaparica de 5 às 9 horas da manhã. Depois ia para o Bar do Negão na Praça da Igreja e ficávamos bebendo até a hora do almoço.

No veraneio de 1986 após a morte de minha mulher foi que ele fez a primeira crônica me chamando de Zeca mesmo. Aproveitou minhas viagens para a Amazônia. Escreveu que fui comprar um cadarço, sumi e reapareci tempos depois em Rondônia. Houve uma história verdadeira, parecida com isso, mas se passou em Ilhéus.

Eu realmente saí um dia para comprar um cadarço e só reapareci dois dias depois. Foi um escândalo na cidade!

Ele aproveitou o ocorrido e introduziu a Amazônia como pano de fundo.

Batendo papo

Batendo papo no quintal

A história de Zecamunista foi nos anos noventa e tantos, dois mil, por aí assim… Nem lembro direito quando escreveu a primeira crônica falando de Zecamunista. Ele era cronista d’O Globo desde 1986. Mandou fazer uma “charge” minha montado num camelo. Aproveitou o pessoal do jornal que desenhava e botou um camelo devido a minha origem libanesa. Ainda não tinha usado a alcunha de Zecamunista. Ele era também amigo de dois irmãos meus: Luciano que já morreu que ele chamava de Kibe Frito e Sérgio Harfush. Neste ele nunca botou apelido.  Depois ele sumiu por um bom tempo. Foi quando assumiu a Academia Brasileira de Letras.

B.B.: Teve um história sua com ele sobre um blazer?

Zecamunista: Teve sim. Lembro que em 1986 ele foi com Jorge Amado para os Estados Unidos representar o Brasil na abertura da Assembléia da ONU.

Chegou para mim em Itaparica e disse: “O que é que eu faço, Zeca? Eu não tenho paletó! Como é que eu vou para a ONU?”
Respondi: “Calma João, eu tenho dois blazers.
– Mando buscar em Salvador e você testa os dois.
– Não lhe dou um terno porque com essa sua barriga não vai caber mas, num blazer tudo bem.”
Foi com meu blazer para Nova Iorque. Aí falou a seguinte frase com aquela voz retumbante e gargalhou:

“Zeca, você não vai aparecer na ONU mas, seu blazer vai! Vai ficar famoso!”

Depois surgiu o nome dele como candidato à Academia Brasileira de Letras lançado por Jorge Amado. Era o padrinho dele na Academia. Um padrinho forte para a porra!

B.B.: E a história do carro com alto-falante que você mandou botar na sede da Coelba [distribuidora de energia elétrica no estado da Bahia] em Itabuna?

Zecamunista: Eu tinha me mudado para Itabuna. Deixei meus filhos com minha mãe em Salvador e fui para assumir a agência da Coelba por indicação do Sindicato dos Eletricitários do Estado da Bahia. Entretanto, o Waldir PIres, nosso governador na época, botou minha indicação na mesa e nunca dava o despacho final. Com isso o pessoal ligado a Antonio Carlos Magalhães (ACM) continuava ocupando os cargos no segundo e terceiro escalões. O governador não se mexia. Acionei o Partido Comunista Brasileiro ao qual eu era afiliado na época. Fui a Brasília procurar o deputado federal João Santana. Não adiantou. Não moveu uma palha.

Aí decidi botar um carro com alto-falante na rua com o jingle da campanha do Waldir Pires que era “A Bahia vai mudar”…. Botei mesmo!

Botei o carro na porta da Coelba em Itabuna. A maior parte da Diretoria da Coelba em Salvador era do PC do B, gente com quem nunca me dei muito bem. Mandaram me chamar em Salvador: “Zeca, pelo amor de Deus, tira esse carro de lá!”  Perguntei: “Tirar por que? Que mudança de governo é essa? Já se passaram seis meses e vocês ainda estão deixando um cara desses lá! Sempre foram contra nós!” Ouvi em troca: “Quinta feira ele sai”. Liguei para o Diretório e voltei para Itabuna. Efetivamente na quinta feira tiraram o representante do grupo de ACM e o carro de som saiu… Indicaram provisoriamente um primo da mulher de Waldir Pires que era funcionário da Coelba. Menos mal…

Tudo bem. Fiquei tranquilo. Voltei pra Salvador meio ressabiado com o Governador: Não por ele não ter indicado o meu nome; muito mais porque foi preciso toda essa pressão para retirar um representante do grupo de ACM! Foi Fernando “Cuma”, prefeito de Itabuna quem falou para o Waldir Pires:

“Eu não quero esse comunista aqui na Coelba”.

Ficou definido que eu não iria. Foi o prefeito quem escolheu todas as pessoas para ocupar os cargos estaduais em Itabuna, por incrível que pareça no Governo Waldir Pires! Ninguém mais do que ele! Aí você já viu para onde iria esse governo que terminou tragicamente… Uma tristeza…

Rapaz, fiz campanha para Waldir Pires, fiz miséria… Tirei dinheiro do meu bolso e comprei carro para a campanha em Itabuna. Comprei uma caminhonete que nunca voltou para mim. Comprei e doei ao partido para trabalhar por Waldir Pires achando que íamos derrotar ACM. Uma vitória histórica e depois foi aquela loucura… Waldir entrou naquela canoa furada de vice do Ulysses Guimarães… Pode?

B.B.: Como foram os dois episódios em que João Ubaldo perdeu o humor e fez cara feia?

Fumando no hospital. Pode?

Fumando no hospital. Pode?

Zecamunista: No último aniversario dele em 2014 ele estava insuportável. Irreconhecível. Intolerante com todo mundo. Um dia, dei-lhe um esporro mas, dei-lhe mesmo. Eu estava em casa e por volta das cinco horas da tarde ele ligou: “Vá para o Bar do Espanha porque estou indo para lá agora tomar um whisky.” Ele voltou a beber whisky. Fazia anos que não bebia. Tomava sempre um chopp lá no Rio de Janeiro com a turma que ele tinha no Tio Sam. Nesse dia, fomos para o Bar do Espanha. Tava cheio de gente. Ai chega um sobrinho meu filho de Sergio, com um amigo. Rapaz, João estava encostado na parede e eu perto. Não tinha mais nenhum banco na mesa. O camarada chegou, abraçou João Ubaldo e disse: “Serginho, bata uma foto aqui”… Pronto foi o suficiente. O João fechou a cara e virou de costas para a câmera. Serginho “pá”: bateu. Quando viu o resultado disse: “Deleta essa foto”…

Aí João se mancou. Caiu a ficha. Viu a cagada que tinha feito. Ficou chateado mas, a merda “tava” feita.

A outra demonstração de intolerância foi com um grupo de japoneses. Eu estava com ele debaixo daquele oitizeiro lá na Praça da Quitanda, sentado no Bar do Negão antes do almoço. De vez em quando eu ia lá no Espanha e pegava whisky para ele. Não vende whisky no Negão. Só cerveja e cachaça. No tempo que ele era pobre, era Old Eight. Depois não, assentou o rabo na grana e aí era whisky de boa qualidade. Quando voltei, olhei para ele e perguntei: “O que houve?” Ele disse: “Estou sentindo que aquela tropa de japoneses, está tirando fotos e vai se aproximar.” Daqui a pouco tornou a falar: “Estão vindo para cá!” Aí fechou a cara de novo. Eu falei: “Joao, agora queira ou não queira você é conhecido nacional e internacionalmente. Pare com isso e receba bem o pessoal.” Dessa vez felizmente ele aceitou. Aí uma japonesa se aproximou e trouxe um livro dele para autografar. Ele autografou, mas com a cara fechada. O pessoal foi embora. Aí eu disse para ele: “Você está cansado! Que porra é essa rapaz?” Ele retrucou: “Eu não tenho mais paciência…” Eu respondi na lata:

“Então não venha para praça pública. Fique em casa e beba lá.” Mas, tudo isso era passageiro. Ele não era assim…

B.B.: É verdade que ele dizia que ia morrer aos 73 anos?

Um dia em Itaparica debaixo das mangueiras onde a gente se reunia todas as noites e fazia também umas outras coisas, estávamos batendo papo e ele falou: “Eu não vou passar de 73″… Eu disse: “Rapaz, que conversa maluca é essa? Ficou louco?”. “Vou morrer com a mesma idade de meu pai e de meu avô!!!”. “Rapaz, que negócio é esse? Está agora dando uma de adivinho, pitonisa? Que porra é essa?” Ele estava realmente com algumas crises de falta de ar por causa do cigarro. “Zeca, eu não consigo largar essa miséria… Larguei a bebida!” Eu ri muito… “Largou a bebida!!! Hum”…. “Mas o cigarro eu não consigo.” Cigarro é difícil. Cigarro é cruel. Ele estava num nervoso danado e repetiu isso duas vezes em duas noites diferentes. Que conversa mais esquisita rapaz… Maluca. Ele estava assim…

Ele botou na cabeça que ia morrer com a mesma idade que morreram o pai e o avô dele: 73 anos. E morreu!

Tanto que quando no dia 18 de julho, às 6 horas da manhã o telefone tocou em casa atendi falando: “Não me diga que é que o que estou pensando?” Ela disse: “É pior”. “É mesmo? Como foi que aconteceu?” Berenice me disse que ele teve um edema e puff… Lá se foi meu melhor amigo… Liguei para Sérgio meu irmão e perguntei se ele queria ir pro Rio comigo. Pegamos o avião e fomos juntos para o Rio. João Ubaldo foi enterrado no dia seguinte pois estavam aguardando a outra filha dele com a portuguesa, que morava na Alemanha.

B.B.: Ele curtia muito os amigos? Gostava de estar com vocês?

Com a filha de Zeca, Tati

Com a filha de Zeca, Tati

Zecamunista: Gostava sim. Adorava… Ave-Maria! Curtia muito estar e falar com os amigos… A gente ficava mais de duas, três horas no Skype conversando maluquice. Teve um dia que eu disse: “Rapaz, parece até que nós estamos namorando”… Toda vez que ele viajava ligava via Skype. Comprou uma câmera para o computador: Dizia:  “Olha como eu estou bonito aqui na Alemanha!”. Eu respondia: “Rapaz, cuidado com esse negócio de câmera. Diga a sua mulher Berenice que ela está aparecendo aí atrás…”
Berenice nem ligou… Uma mulher extraordinária. Só ela para aguentar o João Ubaldo e suas presepadas.

Eles se conheceram no Rio Grande do Norte. Foi uma paixão à primeira vista. Fulminante. Ela era casada com Henfil e me disse:

“Zeca, quando eu conheci este homem, me apaixonei por ele e ele por mim.”

“Berenice, para aguentar este homem trinta anos só você mesmo! Também ela administrava tudo. João não assinava um cheque. Era ela quem fazia tudo. Ele não pagava uma conta, nem sabia quanto tinha no banco. Não sabia porra nenhuma!

Ele queria voltar para Itaparica. Não voltou depois que os filhos cresceram, porque Berenice tinha o consultório dela no Rio. Era psicóloga e gostava da profissão. Então ela disse: “Para Itaparica eu não volto mais. Vai ficar no Rio aqui comigo.” Ele estava louco querendo morar novamente em Itaparica.

Da turma do Rio tinha um amigo dele que era uma grande figura: Capitão Schutz. Um gaúcho, piloto de avião, ex-comandante da Varig. O pai era alemão. Gente boa pra porra! João me falava sobre essa turma pelo Skype. Um dia ele me convidou para vir ao Rio conhecer os amigos dele. João dizia: “Zeca, eles pensam que você não existe”…  Então peguei o avião e fui pro Rio para conhecer a turma dele. Foi o maior sucesso. Estavam curiosos para conhecer o Zecamunista, criado pelo amigo deles. Fui várias vezes ao Rio ficar com ele e com os amigos. Saía daqui sexta feira e voltava na segunda. Toda a turma dele gostava de mim. Tinha um restaurante junto ao Tio Sam e quando as pessoas sabiam que eu estava lá, vinham para conhecer o personagem. Perguntavam: “quem é Zecamunista aqui?” Os amigos apontavam: “É esse aqui”. Fiquei um personagem famoso também naquelas bandas…

B.B.:  Zeca devo dizer que eu apreciava muito as crônicas que João Ubaldo escrevia aos domingos n’O Globo. Me lembro bem que no meio daqueles editoriais pesados sobre a situação política, econômica e social do Brasil estava a crônica dele. Aquela coisa leve, hilária e gostosa de ler. Muita gozação utilizando personagens da Ilha de Itaparica e apresentando a Humanidade de uma maneira caricata e gozadora, que só ele era capaz de fazer…

Com Berenice

Com Berenice

Zecamunista: De vez em quando ele escrevia umas coisas e se metia em cada enrascada! Eu dizia: “Tá dando uma de cientista  político?” Porque ele estava “metendo o pau” no  Lula.  Era impressionante, vou te contar. Quem teve a sorte de conhecer João Ubaldo como eu conheci? Só andava sorrindo. Achava graça de tudo e era um grande gozador. O mau humor dele era uma coisa passageira, de minutos.  Naquela época não tinha dinheiro coitado, ganhava o certinho com as crônicas d’O Globo. Dos livros ele dizia que não recebia dinheiro nenhum. As viagens eram patrocinadas. Os alemães patrocinaram várias viagens à Alemanha assim como os franceses. Geralmente as editoras dos livros dele também patrocinavam as viagens. Depois ele ganhou o prêmio Jabuti. Passou a ganhar bem e recebeu um prêmio de cem mil reais. Dizia: “Tô rico, tô rico”… Posteriormente ganhou o Prêmio da Língua Portuguesa. Parece que foram cem mil euros. Falava: “Estou rico prá porra”. Já morando no Rio de Janeiro.

“Zeca, nunca mais fui na Academia. O jeton está ótimo: mil reais!” “Rapaz, você tá enjeitando mil reais de jeton para não fazer nada?”. “Zeca, não tenho saco para ir para a Academia”. Isso foi em meados dos anos 90. Ele foi para o Rio, morou no apartamento que era de Caetano Veloso e depois o comprou com o dinheiro que os editores lhe adiantaram.

B.B.: Como foi a história de você vestir o fardão da Academia Brasileira de Letras de João Ubaldo? 

Zecamunista: Um dia chegamos na casa dele já cheios de whisky, eu e ele. Ele mostrou o fardão da Academia. Não resisti. Disse para ele: tenho que vestir esse fardão. Vesti e minha namorada fez uma foto. Cheguei em Itabuna e mostrei a fotografia para os todos os meus amigos. Só que eu tinha um amigo que era um grande sacana. Você deve ter conhecido: Manoel Leal. Jornalista do “A Região”. Você acredita que ele me aprontou uma?  Pegou minha foto vestido com o fardão de João Ubaldo da Academia Brasileira de Letras e publicou no jornal dele! Rapaz, que confusão. Foi um vexame… Fiquei doente ao ver a foto publicada. Liguei para o Manoel: “Olha, você roubou essa foto e publicou. Fez sacanagem comigo das grandes”. Meu consolo é que o jornal é provinciano, não sai de Itabuna. Me acalmei pensando que o assunto não ia sair dali…

Vesti o fardão de João Ubaldo que Jorge Amado deu a ele de presente.

Quando eu contei para ele o que tinha  acontecido em Itabuna com a foto do fardão ele falou:

Rapaz, você ficou maluco?

Eu não podia fazer mais nada. Tava publicado.

B.B.: E a Academia Brasileira de Letras e também a da Bahia?

Zecamunista: Ele falava que quando ia às sessões na Academia tinha a Nélida Piñon que era muito amiga. Ele dizia que quando queria contar as maluquices dele na Academia, contava para ela e davam muita risada.

Quando João morreu, no velório foi lida pelo vice-presidente uma nota da Academia Brasileira de Letras que achei fraquíssima. Para mim, a Academia não demonstrou o reconhecimento da dimensão que ele tinha para a cultura brasileira. E sabe por que? João era muito ausente na Academia…

Para ele ser reconhecido e entrar na Academia de Letras da Bahia demorou um tempão! Foi só em 2012. Pode um negócio desses? Ele guardou uma mágoa muito grande disso. Entrou na Academia Brasileira de Letras em 1994 e na Bahia somente em 2012… Êta Bahia…

                                           O beijo do amigo

O beijo do amigo

B.B.: Você sente muita saudade dele?

Zecamunista: Sem dúvida. Deixou muita saudade. Esse ano eu estava olhando as fotos dos últimos veraneios em Itaparica. Me bateu uma saudade da porra dele!

Nesse verão fui para Itaparica apenas para ver Berenice. Fomos tomar cerveja no Bar do Negão.

Posso concluir dizendo que Itaparica perdeu 90% da graça para mim.
Agora que meu amigo João Ubaldo se foi, não tem mais ninguém para bater papo…

Na qualidade de frequentador, de uns anos para cá, do Boulevard na ilha de Itaparica – bem como assíduo penetra das festas de aniversário do saudoso João Ubaldo Ribeiro – decidi me aventurar a garimpar a falta que ele faz aos seus amigos que sempre estão pela ilha, e olhem só a terceira parte do que registrei.
Devo dizer que fiquei impressionado de início,e depois profundamente tocado com o carinho, a admiração e a amizade que os entrevistados devotam a João Ubaldo. Não me surpreendeu entretanto, pois tratam-se de relações construídas há muitas décadas, que foram nutridas com os encontros de sempre que eles souberam cultivar, demonstrando que nem a distância nem o tempo são capazes de apagar – sequer de diminuir – amizades verdadeiras e desinteressadas como essas.
A todos eles e ao nosso João Ubaldo, meu respeito, admiração e reverência.

Beto Benjamin.

                                                  Parte da extensa obra do escritor.

 

B.B.: Sergio, como foi que você conheceu João Ubaldo?

Sérgio Harfush: Eu conheci João Ubaldo na década de 50. Eu tinha meus 14/15 anos e foi aqui em Itaparica. Ele estudava Direito e começou a namorar com aquela que se tornou a primeira esposa dele, a Beatriz Moreira Caldas, filha do desembargador e nossa amiga. Junta Itaparica com Salvador pronto: aí surgiu a amizade. Foi assim que começamos…

Ele se identificava muito, porque era mais velho que ele, com meu irmão Zeca, que se tornou posteriormente no famoso personagem Zecamunista. Meu irmão era um homem de grande conhecimento intelectual. Discutia muito com João Ubaldo – no bom sentido é claro! Quando João queria escrever sobre um assunto polêmico logo citava Zecamunista, como uma figura polêmica e era comum ele ir lá pra casa no fim de semana, dia de sexta feira para conversar.

Ficávamos bebendo whisky e conversando até cinco, seis horas da manhã. Nós, ele e Bilú que era sua namorada na época. A gente também saía muito pra pescar de noite. Pesca de arrasto e do camarão. Depois íamos lá pra nossa casa e minha mãe fritava os camarões. Varávamos a noite indo até de madrugada comendo, bebendo e conversando.

João, sempre contando histórias!…

B.B: Você frequenta a ilha desde quando?

João Ubaldo e Berenice

João Ubaldo e Berenice

Desde que nasci. Estamos aqui na quinta geração frequentando a ilha: meus avós, meus pais, nós, meus filhos e meus netos. Então desde menino nós nos “dávamos” [ B.B. – modo baiano de dizer que se relacionavam] com João Ubaldo. Ele também morou em Portugal mas, por pouco tempo. Quando voltou de lá no início de 83 veio morar  em Itaparica. Morou aqui muito tempo e como estava na ilha, a gente se encontrava ainda mais, incrementando a amizade porque o verão propiciava os nossos encontros ali, debaixo do oitizeiro na praça. Era ali que a gente também se reunia.

Ubaldo sempre teve um papo fabuloso, inteligentíssimo, com histórias e personagens que ele criava. Não tinha como não ficar muito envolvido pela conversa dele. Ficava até de madrugada papeando.

Um fato que me marcou muito foi o último jantar que ele participou fora de casa, antes de morrer. Foi comigo no Rio de Janeiro. Ele morava pertinho de minha filha Janaína. Quando cheguei de Salvador, ela disse: “Olha, chamei o João Ubaldo e Félix – outro casal amigo – para virem jantar aqui hoje à noite”. Eu não tinha pedido para ela fazer nada. À noite ele veio, bebeu whisky, bateu papo… Isso foi no dia 17 de julho. Quando deu meia noite, apesar dele morar a uma quadra do apartamento de minha filha, eu disse: “João, espere aí que Serginho, meu filho, vai te levar.” Foi meu último contato pessoal com ele. Morreu no dia seguinte aos 73 anos de idade.

O importante é que foi uma amizade que durou mais de 55 anos.

Assim, com altos e baixos. Também na vida dele, no seu mundo, Ubaldo era muito bem humorado. Era um papo maravilhoso mas, ele tinha, ultimamente, suas fases de baixo astral porque lutava contra a bebida e o cigarro. Não era uma luta fácil. Nós tentávamos ajudar.

Tem outra história interessantíssima: Ubaldo uma vez foi entrevistado pela Veja nas Páginas Amarelas exatamente por sua luta contra a dependência do álcool. Ele era muito sincero, nunca negou essa dependência e foi uma entrevista que poucos teriam a coragem de dar.

Ele parou de beber e as pessoas simplesmente não acreditavam!

Bar do Espanha

Bar do Espanha

Ele andava com um copo de guaraná na mão e as pessoas pensavam que era whisky. Não era. Sou testemunha disso. Posso dizer que Ubaldo durante o verão 70 por cento das vezes ia almoçar em minha casa em Itaparica. Sentava lá. Muitas vezes eu nem estava em casa. Ele pedia uma garrafa de água e ficava bebendo.

É uma história interessante porque ele fez tratamento contra o alcoolismo. Se internou dois meses numa clínica. Eu perguntei como foi que ele parou de beber de uma hora para outra? Contou que um dia tinha bebido muito… Então ele contou que nesse dia fez uma farra e Berenice se aborreceu pois sabia que ele não podia beber. Foi dormir e acordou no meio da noite se sentindo mal. Não teve coragem de acordar a Berenice. Ele sempre foi muito dependente dela, que foi a sua terceira esposa. A realidade é essa. Ele viveu com ela por mais de 30 anos até morrer.

Foi pro banheiro, se sentou e disse: “Vou morrer! Não tenho dúvida nenhuma que vou morrer!” Aí se lembrou de Nossa Senhora (ele era devoto de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro) e pediu:

“Minha Nossa Senhora, se eu não morrer hoje, garanto que vou parar de beber álcool!”.

Não morreu e cumpriu a promessa. Ficou de seis a sete anos sem “triscar” em álcool!

Porém continuou fumando muito. Depois de uns 7 anos voltou a beber cerveja. Ultimamente ele bebia whisky lá no Tio Sam. Ele bebia mas numa escala bem menor que antigamente. Bebia aos sábados e domingos com os amigos. O horário dele era de onze e meia às duas horas da tarde. Almoçava, lia as notícias e ia pra casa.

O médico foi muito claro com ele: tinha que parar de fumar e beber. Infelizmente não é fácil para uma pessoa abandonar determinados vícios. João Ubaldo não tinha vontade de sacrificar os prazeres: bebida e o papo com os amigos. Ele teria feito 74 anos no dia 3 de janeiro de 2015.

B. B.: Sérgio, como é que você compara os amigos dele do Rio com os amigos daqui?

Veja eu me dou bem com aquela turma dele lá do Rio, do Tio Sam. Ele gostava em especial de 5 ou 6 amigos mas, posso afirmar que ele se identificava muito mais com o pessoal da ilha. Com os nativos, que fizeram parte da sua infância e que foram parceiros das peladas no Boulevard. Ele gostava de jogar bola. Resumindo, ele se identificava mais com as pessoas que sempre foram muito próximas a ele aqui da ilha, principalmente Jacob Branco e Toinho Sabacu. 

João Ubaldo – foto revista Muito no. 100

Outro que passou a ser um dos seus maiores amigos foi Zecamunista, meu irmão. Também Luciano Kibe Frito – que você não conheceu – foi outro grande amigo dele. Amigo de farra, de bebida, de todos os momentos. Então, além de se identificar mais com o pessoal da ilha – principalmente os nativos – era deles que saía a inspiração para criar as principais personagens de suas crônicas e de muitos romances.

São pessoas que existiram. Algumas vivas ainda; outras mortas. O famoso Caboclo Capiroba era o Zé de Honorina; Gugu que está vivo. Curiosamente dois grandes personagens que serviram de inspiração para João morreram em dias subsequentes. Tem o grande Cuiuba amigo do João e colega de escola primária que inventou a frase que considero a mais filosófica do mundo de todos os tempos. Pra mim não existe frase mais importante e Ubaldo a citava em muitas de suas crônicas:

“pior seria se pior fosse…” 

Era assim: quando João Ubaldo contava um problema para Cuiuba, ele respondia: “Cumpadre, pior seria se pior fosse…” Pra mim a frase é histórica e lapidar.

Eu não sei exatamente ao pé da letra. Talvez Jacob saiba mas contava-se que Cuiuba um dia chegou na escola primária – era muito inteligente, falante e preparado – e disse para a professora:

“Esse Ubaldo aí não é certo da cabeça não! Tem problema de idéia! Ele tem um parafuso a menos… Se prepare Professora que ele vai lhe dar problemas.” 

Ubaldo fez muito por Itaparica. Por exemplo, eu acho uma injustiça, vou ressaltar a grande baluarte que é Dalva Tavares da Biblioteca. Uma verdadeira heroína ao levar a Biblioteca do jeito que leva e de ter feito as homenagens que prestou a João Ubaldo em itaparica. Acho que Ubaldo foi muito mal reconhecido pelo governo baiano, pelo governo municipal. Ele tornou a ilha de itaparica reconhecida mundialmente. Noventa por cento por causa dele e se você ainda não leu – recomendo que leia – um livro maravilhoso que é coletânea de crônicas que ele publicou em jornais. De vez em quando as editoras publicavam um livro de crônicas: “A Arte e a Ciência de Roubar Galinhas”. É um livro de crônicas apenas sobre itaparica. Só com os personagens de Itaparica. Personagens mortas mas alguns ainda vivos como nós e outros.

Jacob Branco: Tem mais dois livros ainda como esse, que são: “Sempre aos Domingos” e “Você Me Mata Mãe Gentil” . Esse último ele dedicou a vocês, aos Harfurshes.

Sergio Harfush: Teve uma coisa muito significativa para nós. Na véspera de lançar um livro ele me ligou. Me ligava sempre. Era o temperamento dele. Era uma pessoa reservada com essas coisas, porém espontânea nas homenagens e disse: “Sergio, amanhã estou lançando o livro que eu dediquei a vocês”. Isso na véspera. “Você me mata mãe gentil” para os Harfushes, no plural. Disse que nome próprio também existe plural. “Faça o favor de ir”. Era uma pessoa muito simples. Não diferenciava posição social, financeira, ou credo muito pelo contrário. Até preferia estar com o pessoal mais simples.

Barco de Xepa que ganhou motor de popa - presente do João

Barco de Xepa que ganhou motor de popa de João

Respondendo à sua pergunta, no Rio o grupo dele era mais condensado, menor de pessoas “intelectualmente”. Vamos entender, botar entre aspas o que é esse intelectualmente: pessoas de um nível de criação muito próxima do dele. Ubaldo se dava muito com os nativos daqui da ilha: Xepa, o caseiro da casa dele era um cara que ele adorava. Ano passado – tem uma história no livro, João conta – Xepa chorou bastante porque Ubaldo disse: “Vou lhe dar um motor de popa”. Porque Xepa pesca. Olha, ele não acreditou: “Não acredito que ninguém vai me dar um motor de popa”. Quando chegou no ano passado ele chegou do Rio e disse : “Peraí que eu tenho um negócio para você”. Quando Ubaldo deu aquele presente a Xepa, um motor de popa zero quilômetro ele não queria acreditar. Abriu o presente, pensando que era um motor recuperado e quando viu o motor novo caiu no choro copiosamente. Ubaldo conta isso nesse livro que você recebeu. Tem até um detalhe que Xepa retrucou que João não botou por escrito – não escreveu crônica – que ia dar o presente. A reação de João foi na hora :

“Porra “seu” sacana, então você vai me pagar o motor de popa! Vai pagar uma prestação de 20 centavos por mês!”

Xepa disse: “Ah bom! Se é assim eu topo. Pois, vou morrer e não pago!”

 João caiu na gargalhada…

João Ubaldo era assim. Pegava tudo nos mínimos detalhes. Me lembro uma vez que eu estava com ele, debaixo da mangueira da casa dele, batendo papo. Ele viu o cágado andando devagarzinho, atravessando o quintal assim com toda a calma e disse:

“Esse cágado tá parecendo o Rubinho Barrichello!…”

Batizou o cágado de Rubinho Barrichello, na hora. No domingo seguinte, escreveu uma crônica sobre o cágado comparando-o a Rubinho Barrichello na Fórmula 1…

Jacob Branco: Estive com a Berenice batendo papo na semana passada. Onde é que tem a mesa cativa do Ubaldo? É no Flor do Leblon ou no Tio Sam? No Tio Sam não é? Eu propus a Berenice ir ao Tio Sam pois tenho uma foto publicada no jornal: eu ao lado do ataúde com o corpo do João Ubaldo. Ela concordou. Vou de paletó preto – ele criou o personagem de Jacob Branco de paletó e eu incorporei -, camisa branca e gravata vermelha homenageando o Vasco da Gama que deveria ter voltado para a primeira divisão. Infelizmente isso não aconteceu. Disse a Berenice:

“Vou sentar na mesa que ninguém senta”.

Jacob e Sérgio no Santa Luzia

Jacob, Sérgio e o cachorro no Santa Luzia

Sergio Harfush: No Tio Sam? É na cadeira que reservaram para ele lá com uma placa: Cadeira de João Ubaldo. Na última vez que eu fui, a turma muito chegada a mim, disse: “Você vai se sentar na cadeira de João Ubaldo”.

Jacob Branco:  Por acaso, como eu sou desconhecido, vou levar foto com a aeguinte dedicatória:

“Obrigado por reconhecerem o valor que tinha o meu amigo João Ubaldo Ribeiro”.

Vou levar uma crônica minha falando dele. Quando disserem: “Levante-se por favor”! Eu responderei “Queira sentar-se aqui e aí entrego tudo pra eles.” Não vai ser legal?

A segunda conversa que tivemos foi sobre o desejo de Berenice de trazer os restos mortais de João Ubaldo para o cemitério daqui. Isso depois do segundo ano da morte dele. Conversei com Dalva. Vamos tentar depositar os restos mortais na Igreja da Piedade onde estão os restos mortais do avô e da avó de João Ubaldo em Itaparica. Naquela igrejinha ali, aquela capela em forma triangular. Vamos começar a falar sobre isso.

Sergio Harfush: Agora devo dizer que me deu muito orgulho foi ser convidado para falar em nome dos amigos dele no seu aniversário de 70 anos. Ele era amigo até do meu neto de 10 anos de idade que adorava ele. Evidente que tinha também seus momentos de maus modos. Também por causa da pressão alta. Teve sua vida limitada apesar de não obedecer aos médicos. Ele sabia que tinha limitações. Confessadamente falo, sem o menor constrangimento:

Não foi muita surpresa o que aconteceu para quem conhecia a vida de Ubaldo na intimidade, porque realmente como ele mesmo dizia: enfiou o pé na jaca!

A parte final das entrevistas será com Zecamunista no próximo post. Até lá.

Eu era menino ainda quando o via passar, de terno escuro amarrotado, caminhando à toa pelas ruas da cidade do interior onde vivi: Itabuna – Bahia. Carregava sempre uma flor – na mão ou na lapela – e cumprimentava cada mulher que cruzava bradando um inconfundível “Mãe! Mãe! Mãe!”. Recitava poemas e oferecia a flor… Não assustava ninguém, apesar do inusitado da cena nas ruas de uma cidade do interior. Para as mulheres que passavam, deveria ser algo surpreendente. Para nós meninos, era apenas mais um louco na cidade.

Quando cresci e comecei a entender melhor as coisas, descobri que não era louco. Era poeta: Firmino Rocha. Seu poema abaixo, não esqueci nunca mais. Carrego-o comigo até hoje mais no coração do que na cabeça e, ainda me emociono ao lembrar de Firmino declamando-o com sua voz rouca, levando poesia pelas ruas da cidade, silenciando todos os outros barulhos.

Esse poema está inscrito numa placa de bronze exposta na sede da ONU em Nova Iorque e representa um protesto contra a guerra! Todas elas! Viva Firmino!

Beto Benjamin

 

Deram um Fuzil ao Menino

Firmino Rocha

Adeus luares de Maio.
Adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência,
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.

Agora é o tambor da morte
rufando nos campos negros.
Agora são os pés violentos
ferindo a terra bendita.

A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números,
o verso ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus.
DERAM UM FUZIL AO MENINO

Mas, o que é isto? Vocês conheciam a Ná Ozzetti?
Olha o show que ela dá com sua firme e belíssima voz, acompanhada pelo piano excepcional de André Mehmari. A canção se chama “Pérolas aos Poucos” mas, de pouco não tem nada mesmo. Não é?

Beto Benjamin

Na qualidade de frequentador, de uns anos para cá, do Boulevard na ilha de Itaparica – bem como assíduo penetra das festas de aniversário do saudoso João Ubaldo Ribeiro – decidi me aventurar a garimpar a falta que ele faz aos seus amigos que sempre estão pela ilha, e olhem só a segunda parte do que registrei.
Devo dizer que fiquei impressionado de início e depois profundamente tocado com o carinho, a admiração e a amizade que os entrevistados devotam a João Ubaldo. Não me surpreendeu entretanto, pois tratam-se de relações construídas há muitas décadas, que foram nutridas com os encontros de sempre que eles souberam cultivar, demonstrando que nem a distância nem o tempo são capazes de apagar – sequer de diminuir – amizades verdadeiras e desinteressadas como essas.

A todos eles e ao nosso João Ubaldo, meu respeito, admiração e reverência.

Beto Benjamin.

Parte da extensa obra de João Ubaldo.

Paisagens da ilha de Itaparica.

B.B. (Beto Benjamin): Sérgio. E você? Tem alguma história para contar?

Sérgio Harfush: Escute essa: Tem uma história do João Ubaldo que Toinho Sabacu não vai gostar muito não (Toinho ali em frente, olha de banda do outro lado da mesa), mas é uma daquelas que mais repercussão teve: João Ubaldo fez uma crônica sobre isso. Foi quando a Secretaria de Saúde veio realizar  na população masculina de Itaparica o famoso exame de próstata. Vieram três médicos para fazer o exame e Toinho soube que haveria esse campanha na ilha. João Ubaldo disse que ele botou paletó e gravata e foi fazer o primeiro exame. Saiu o resultado dizendo que estava tudo bem e ele não acreditando muito, pediu para ser examinado pelo segundo médico. Também desconfiando da opinião do segundo médico, partiu imediatamente para o terceiro…

João finalizou a crônica acrescentando que naquela campanha de saúde, quantos médicos tivessem, tantas dedadas Toinho ia tomar. Seria a próstata mais bem cuidada da ilha e do Brasil!…

O patrício Sérgio Harfush e sua elegância

Sérgio Harfush

A última do João Ubaldo foi com a Seleção Brasileira. Ele escreveu no jornal A Tarde: “Meu amigo Toinho Sabacu, de Itaparica ficou tão contrariado com o 7 a 1 da Alemanha no Brasil mas, tão contrariado que dobrou a dose de remédio de pressão e ficou trancado dentro de casa por três dias, sem botar a cara na rua.”

Toinho Sabacu: Rapaz, eu aqui na ilha tranquilo e o cara lá no jornal fazendo sacanagem comigo. Ainda disse: “Toinho, você já leu ‘A Tarde’ de hoje?”. “Não!” “Vá lá, leia. Pegue lá para você ver”. É brincadeira?!

Jacob Branco: Queria ver o João Ubaldo fora do sério? Oferecesse um celular ou bagunçasse o seu jornal. Ele “virava na porra”, véio…

Toinho Sabacu: Olha, sinto muita falta dele mesmo entendeu? Mas muita mesma… Esse janeiro não foi como os anteriores.

Foi um janeiro mais triste para mim principalmente porque me privou de ter a presença de um amigo que eu gosto, gostava e continuo gostando, onde ele estiver.

B.B.: João Ubaldo gostava daquelas festas de aniversário, abertas ao povo, na Biblioteca Pública aqui na ilha de Itaparica?

Toinho Sabacu: Ele gostava. Gostava porque era promovida por Dalva, a bibliotecária que fazia as  festas com muito amor e tinha grande amizade a ele. O povo participava. Aquele povão – que ele gostava – sempre ia. A festa era bonita. Ele saía de lá alegre, contente, satisfeito. Por último, na festa desse ano fizeram uma homenagem a ele: inauguraram um busto de João Ubaldo. A festa foi muito bonita…

A conversa foi interrompida pela súbita chegada de meu amigo Fred Carvalho, copo de whisky na mão e na animação que lhe é peculiar… Amigo de longas datas, que não vejo há algum tempo… Foi entrando logo no papo quando soube que a conversa era sobre João Ubaldo Ribeiro e contou que uma certa vez o Roberto Irineu Marinho estava na casa de Newton Lins, na Gamboa, sul da Bahia e convidaram João Ubaldo, que só tomava whisky Old Eight, para visitá-los.

Chegando lá não deu outra, João Ubaldo foi logo pedindo seu Old Eight em dose dupla. Casa de bacana sabe como é, né? Ninguém passa recibo. Olha, que mágica o Newton Lins fez aquele dia para arrumar o whisky eu não sei, mas, num instante trouxeram o Old Eight em dose dupla para a alegria do João.

Livro de Antologia.

Livro de Antologia.

Jacob Branco: Também esse ano lançaram o livro “Viva o Povo Brasileiro e João Ubaldo Ribeiro – Antologia” sobre os amigos de João Ubaldo…. [B.B.: veja foto ao lado]

Toinho Sabacu: É. Teve o lançamento do livro sim. Tem um depoimento meu nesse livro.

B.B: E sobre o Rio de Janeiro? O que João Ubaldo falava de lá?

Toinho Sabacu: Ele dizia que não saía muito. Só saía para o Tio Sam no Leblon, onde tem mesa reservada até hoje. Reunia-se com os amigos e dali para casa. Não gostava muito de sair, não. Aqui mesmo em Itaparica, antigamente a gente andava na praia, pescava siri, mas com o tempo ele foi saturando, cansando. Já nem mais ia à praia. Mal vinha aqui no mercado. Eu chamava: – “João, vamos dar uma esticada na Marina?” Ele respondia: – “Não tô a fim de andar não, Toinho. Quero voltar para casa…” Ele já sentia muito cansaço.

Famoso Tio Sam do Leblon

Famoso Tio Sam do Leblon

Jacob Branco: Tinha uma barraca de bebidas e eu me lembro que quando ele chegava para nos visitar, pegava o jornal e dizia: “o meu jornal é donzelo!” Não queria que ninguém pegasse o jornal dele. Que ninguém lesse primeiro que ele. Eu dizia: “o seu está aqui guardado. Ninguém pegou nele não.” “Guarde aí que eu vou na Fonte da Bica e volto”, e tomava o seu cafezinho. Todo dia de manhã cedo ele estava aqui. Na barraca a gente batia papo. Ele fumava um cigarrinho, eu também. Era um papo tão gostoso que era difícil se desligar dele. Também não demorava muito, não: Logo Ia pra casa.

Uma vez ele viajou. Voltou e me encontrou no mesmo lugar, na barraca de bebidas. Eu já não fumava mais. Ele tomou o cafezinho, meteu a mão no bolso e pegou o cigarro. Eu disse: – “Rapaz, pelo amor de Deus largue esse vicio para lá”. Ele respondeu: – “Vou fazer sua vontade. Não vou fumar mais. Só vou fumar esse aqui…” Viajou para retornar só no ano seguinte.

Essa é que foi bacana:
Eu disse:
– “Graças a Deus, João, que nós deixamos de fumar.”
Ele respondeu:
– “Você! Eu não sou o homem que você é não, rapaz.”.
Eu ficava muito no pé dele sobre o cigarro.
Eu dizia: – “Amigo, deixe de fumar.”
“Esse cigarro ainda vai destruir você.”
– “É Toinho, essa miséria desse cigarro não tem como eu deixar de fumar mas, seu amigo vai lhe prometer o seguinte: Para o ano, quando eu voltar aqui, você me cobra. Não venho mais com cigarro.”
– “Olha lá rapaz! Não faça promessas que você não possa cumprir. Você tá falando aí, na vista de todo mundo. Vou te cobrar. Você sabe que eu cobro!”
– “Fique tranquilo, estou lhe prometendo que não vou mais fumar”.

E foi embora…

Jacob Branco na ilha

Ano seguinte fui para o aeroporto com Beto buscar ele e Berenice. Em seguida apanhamos a lancha ali no Yacht Club e viemos para Itaparica. Viemos conversando na popa da lancha. No caminho, se esqueceu completamente da promessa feita no ano passado. Meteu a mão no bolso e tirou a carteira de cigarro. Eu só olhando e ele lá, “desligadão”. Tirou o cigarro e botou na boca. Quando pegou o isqueiro e ia acender, olhou para mim e disse:

– “Amigo, falhei com você. Não foi?”
Eu disse:
– “Nem sei do que você está falando!”
Ele respondeu:
– “Você sabe sim. Mas, vou lhe prometer. Não vou perder a moral total com você, não.”
Apagou o cigarro, jogou na lixeira. Pegou a carteira de cigarro e me entregou.
– “Tome. Faça o que você quiser com esse cigarro que seu amigo não vai mais fumar…”
Amassei a carteira de cigarro, cheguei na lixeira da lancha e joguei no balde. Repetiu:
– “Seu amigo não vai mais fumar a partir de hoje.”
Não fumou aqui em Itaparica. O período todo ele não fumou. Mas não fumou mesmo. Quando voltou para o Rio teve a recaída.

Ele teve um principio de piripaque aqui e foi internado no hospital. Arritmia. Passou uns dez dias no hospital. Fui lá com Beto visitar. Encontrei o Antonio Carlos Magalhães que estava de saída. João Ubaldo bateu papo, conversou comigo e disse: “Toinho meu irmão, passei um momento retado. Vi a catraca nos olhos… Vi a catraca perto… Toinho, você tem medo da morte?”.
Eu disse:
“Olha, João, medo da morte eu não tenho não. Quem tem medo da morte são as pessoas abastadas. Que tem bens materiais e fica naquela pressão, com receio de perder tudo. Perder aquele “bem bom”! Eu sou um “lenhado”. Se eu morrer, não tenho nada a perder. Agora, eu tenho medo é da catraca!”

A catraca é aquele momento que você passa de um estágio para o outro. Da vida para a morte. Eu ainda não vi ninguém morrer bonitinho. Aquela passagem ali. Mas, da morte eu não tenho medo. É da catraca. Na hora do cara sair dessa para outra. Aí é bronca. Ele disse: “Sabe que você está cheio de razão? Morrer é natural. Ninguém vai ficar… Todo mundo vai morrer.”

B.B.: E os livros deles, os personagens, vocês comentavam? Ele falava sobre os livros?

Toinho Sabacu: Não falava não. Ele escrevia… Em alguns livros ele botava um personagem ou outro… Ele me deu um presente. Mandou do Rio toda a coleção. Ainda botou um bilhete dentro da caixa. Aquele painel que tem ali na Ilha foi preparado por mim:

 “Meu amigo Toinho: segue esse presente para você mas não é obrigado a ler essa porra toda não.”

Sobrado onde foi escrito Viva o Povo Brasileiro

Sobrado onde foi escrito Viva o Povo Brasileiro

Jacob Branco: No que se refere à parte literária, ele dizia que eu era o maior leitor dele aqui da ilha. Não cheguei a ler todos os livros. Em janeiro de 1983 eu estava passando no Largo da Quitanda quando ele me chamou e pediu que subisse para o primeiro andar. Me apresentou uns calhamaços datilografados naquele papel rascunho. Disse: “Leia aí meu novo livro!” Falou com aquele vozeirão inconfundível. Olhei umas páginas e perguntei: “João, qual é o título?” “Jacózinho, meu filho, ainda está sem título…”

Naquele momento ele dava o primeiro passo de um futuro best-seller: “Viva o Povo Brasileiro”. Eu me arrepio de ter sido o primeiro leitor do livro. Me emociono. Fui o primeiro leitor de “Viva o Povo Brasileiro”, porra!

E a perda em si! A morte é insubstituível quando se trata de João Ubaldo Ribeiro. É muito forte e recente também. Acho que perde todo mundo: Itaparica, o povo, a cultura, a Bahia, o Brasil, o mundo. Porque ele me confessou: “Jacob, eu praticamente vivo do exterior.” Como ele disse várias vezes: “Vampeta – o jogador de futebol – ganha numa partida mais do que eu ganho com um livro a vida inteira…” Palavras dele. E ali naquele canto hoje estou chorando de tristeza mas, chorava de prazer. Lacrimejava de ouvir as coisas que ele contava. A mais recente foi aqui. A última foto dele eu fiz ali. Ele sentado, de bermuda e havaianas brancas.

Certo dia, em meio à nossa galera, olhou para mim e disse: “Jacózinho não costumo dizer ‘dessa água não beberei’ mas vou lhe confessar: não pretendo voltar aos Estados Unidos”.

Ao retornar de Los Angeles em meados de 2006, no check-in no aeroporto foi confundido pela segurança americana com um terrorista:

“Devido à minha estatura, cor e certamente por causa do atentado do 11 de setembro me confundiram com algum membro do talibã! Pensaram que eu era um terrorista!… Já imaginou? Me encostaram numa parede, fazendo gestos…. Me apalparam todo… Até nos bagos meteram os dedos… Pode um negócio desses?”

 B.B.: Vocês se encontram para falar sobre João Ubaldo? 

Os amigos Sergio e Jacob passeando em Itaparica
Os amigos Sergio e Jacob passeando em Itaparica

Jacob Branco: Conversamos mais com o pessoal de fora da ilha pois tem uns caras aqui que não gostavam dele não. Essa é que é a verdade. Porque o João conversava comigo. Isso está na internet. Ele já falou isso para mim pessoalmente várias vezes. Quando ele começou a escrever no jornal O Globo – principalmente -, e na  Folha de São Paulo que era reproduzida pela Tribuna da Bahia e posteriormente pelo jornal  A Tarde, dizia que o pessoal do Globo se queixava de que ele só ficava falando de Itaparica e ninguém sabe que porra é, nem onde fica. Aí o cara ia dizer que Itaparica é uma ilha que fica no centro na Baia de Todos os Santos. É uma estância hidromineral. Foi a terra onde eu nasci e daí começou a ter maior interesse em Itaparica.

A ponto de eu dizer a ele que o Bar do Espanha hoje está para Itaparica, por causa dele, assim como o Bar Vesúvio em Ilhéus está para Jorge Amado. Essa é que e a realidade.

O Espanha e seu Bar

O Espanha e seu Bar

Chegam aqui várias pessoas – você por exemplo, prazer honroso  em conhecê-lo e bater esse papo – procurando saber quem é fulano, quem é sicrano, quem são os personagens de João Ubaldo Ribeiro. Então nossa terra foi mais difundida, foi mais divulgada. Também sou itaparicano e amo muito a minha terra. Infelizmente não há um sucessor para levar em frente essas coisas. Por exemplo, esse assalto que houve recentemente aqui na casa do ex-governador. Aqui em Itaparica, tem assaltos que levam vinte, trinta anos, não descobrem nada.

Agora só porque era a casa de uma figura importante em menos de vinte quatro horas, veio delegado, polícia, helicóptero, prendeu todo mundo. Esse caso teria sido uma crônica de João Ubaldo, com certeza. Ele não teria perdido a chance de fazer uma grande gozação com o ocorrido.

B.B: O que João Ubaldo mais gostava de fazer, além de bater papo com vocês quando estava em Itaparica?

Jacob Branco: Tomar birita. Era um bom biriteiro. Sempre foi. Agora tudo está no livro. Eu li o livro em oitenta e três aqui também quando nós voltamos a nos ver. Ele morou muito tempo nos Estados Unidos, morou no Rio. Foi um dia que nos expulsaram de três botecos. Já tarde da noite, uma hora da manhã quando voltávamos para casa. Na rua da Glória que era a casa do avô dele. Que foi meu professor e diretor aqui no Ginasio. Ele me abraçou e disse:

Porra Jacozinho, no Rio de Janeiro na Hipopótamos, eu tenho mesa cativa e não pago porra nenhuma. Aqui na nossa terra nos expulsam de três botecos. E dava risada prá caralho!

 

 As entrevistas continuam no próximo post. Até lá!