Esta é a continuação da entrevista de Aleixo Belov postada em 10.11.2015, que pode ser conferida aqui.

B.B.: Mas Aleixo, acabou por que?

Aleixo Belov: Aquele rio que eu tomei banho com o pessoal não consegui mais localizar. Depois descobri porquê. Bali passou de trezentos mil para três milhões de habitantes em pouco tempo, saturando e poluindo tudo.

O rio de água cristalina passou  a ser de água barrenta, cinzenta com uma espuma asquerosa, por cima. Por essa razão eu não o estava encontrando mais. Um cenário horrível. O rio simplesmente virou esgoto.

Ninguém mais tomava banho nu – nem no porto, nem em lugar algum – e não se dava mais a mão para você segurar meia hora. Por fim, todas as portas se trancavam porque a ilha estava cheia de ladrões…

Se você descobrir um lugar que é um paraíso, não conte prá ninguém… Para não acontecer o mesmo que aconteceu com Bali!

B.B.: E a travessia do Oceano Índico? Como foi feita?

Aleixo Belov: Eu resolvi que ia mesmo. Decidi que não esperaria a passagem da estação dos ciclones e atravessaria o oceano…

Ou você tem estrela ou não adianta viver. Para que?

Você tem que ter estrela. Eu vou atravessar sim e chegando lá em Cape Town vou ligar para os amigos. Pronto. Decidido peguei meu barco e saí sozinho de Bali…

Quatro dias depois bateu um temporal tão forte que o barco não conseguia avançar de jeito nenhum. Evidente que eu não queria andar para trás porque seria uma vergonha. Não conseguir avançar contra aquele temporal mesmo reduzindo as velas, lutando dia e noite foi um desespero. Até que aquela idéia de telefonar para os meus amigos, me abandonou completamente.

Fiquei foi “lenhado”, porque dentro de mim moravam duas pessoas:

Um – que era cuidadoso, avaliava tudo, só agia quando tinha certeza e um outro, que só faltava  voar… Achava que podia tudo, não tinha medo de nada. Era aquele negócio, aquela energia…

Foi esse – que não tinha medo de nada – que me empurrou para sair na estação dos ciclones. Quatro dias depois, quando o “pau comeu”, o filho da puta me abandonou e chegou o outro.

Eu fiquei “lenhado”[gentil expressão do dialeto baiano que significa fod#@*…]. Mas fiz toda a força que tinha que fazer para não sucumbir. Peguei um ciclone mas, não peguei num lugar forte não. Ele passou distante e senti só uma “rebordozazinha”. Não naufraguei, não aconteceu nada, sofri “como o quê” mas, não parei. Não voltei. Continuei seguindo – com um medo retado – mas botando o barco para andar. E “vamo que vamo”.

O trecho por onde passava o maior número de ciclones durou cerca de dez dias. Nesse trecho, botei o barco para andar rápido dia e noite… Sem diminuir a velocidade: Pan, pan, pan….

Levei cinquenta e nove dias de Bali para Cape Town, seis mil milhas bem suadas.

DSC_1573

Veleiro Fraternidade na Baía de Todos os Santos em Salvador – Bahia

Cheguei em Cape Town com uma energia, uma coisa, um carisma. Liguei para todos os meus amigos no Brasil. Agora vem a parte boa. Apareceu uma mulher linda – uma verdadeira deusa – chamada Barbara. Descobri que ela tinha um caso com um cara de lá – um motoqueiro – que era comandante de barco também. Com tudo aquilo que cheguei, tendo atravessado a estação de ciclones, cinquenta e nove dias sem ver um ser humano, sem pisar em terra, minha energia sucumbiu a Barbara. Não podia ser diferente.

Rapaz, passei noites maravilhosas com ela. Eu não lembro a idade que ela tinha. Era jovem mas, não era adolescente. Tinha os seios de virgem. Me lembro que ela me convidou para sair. Fomos jantar. Quando terminou, ela disse:

“Se você quiser, você pode dormir aqui na minha casa desde que você se comporte bem”.

Respondi na hora: “Mas é claro. É comigo mesmo”.

Nos deitamos: ela de “calçolinha” e eu de cueca. Veja a cena: os dois deitados, bem comportados. De repente, quase pega fogo nos lençóis. Rapaz, foi uma trepada daquelas… Ave-Maria. E não foi uma só não. Naquele tempo…

Foi muito bom, ter atravessado o Índico nessa estação. Ter conseguido levar essa energia com garra até o fim. Em Cape Town fiquei amante de Barbara por um tempo. Amei assim, até dizer chega… Depois partir rumo ao Brasil, meu destino…

B.B.: E o que fez depois que chegou?

Aleixo Belov: Tinha projetado naquela época a carreira naval da Corema, que era para fazer tudo debaixo d’água com vigas pré-moldadas  e emendadas. Fazer concreto submerso emendando as vigas debaixo d’água com estacas. Tinha feito o projeto o pessoal fez a parte em seco e não tinha quem fizesse a parte dentro d’água. Eu tinha idealizado o processo.

_R0C7062 por Nilton Souza

Obras da Belov

Já foi obra da Belov Engenharia. Eu tinha saído da Mendes Júnior e estava desempregado. Fundei a Belov Engenharia e fiz a carreira naval da Corema que ficou uma maravilha.

Publiquei um livro, “Uma Viagem em Solitário” contando as aventuras da primeira volta ao mundo. Já ia dar a segunda mas, uma coisa conspirou contra mim. Eu tinha ganho um bom dinheiro e não tinha patrimônio. Resolvi fazer uma casa no Horto Florestal em Salvador. Isso me fez adiar a viagem por mais seis anos. Construí uma casa de três pavimentos. Ficou porreta. Depois, fui dar a segunda volta ao mundo. Ainda teve a terceira, já com os filhos do segundo casamento crescidos.

4a-volta-ao-mundo-aleixo-belov_2

Primeiro livro

Mais tarde fui dar a quarta volta ao mundo onde levei comigo jovens brasileiros. Treinei vinte e seis jovens, gente do Brasil todo. Eu tinha preferência a pessoas desconhecidas. Queria dar esse presente aos jovens, não aos conhecidos.

 

Nessa viagem, curti muito pouco o mar pois passei muito mais tempo treinando a rapaziada e evitando que eles sofressem um acidente, alguma coisa. Posso afirmar que treinei vinte e seis jovens – garotos e garotas -, dei a volta ao mundo com eles e ninguém se acidentou. Não se perdeu nem uma unha!

A viagem foi pelo Caribe. Atravessei o Panamá, passei pelo Oceano Pacifico todo, norte da Australia, Papua, Nova Guinea – naqueles arrecifes – cheguei em Bali com eles novamente.

Foram quatro equipes de jovens divididas para dar a volta ao mundo. Depois fui para Sri Lanka, India onde me juntei a um rally pois ia passar pela costa da Somália, que estava infestada por piratas.

Os piratas chegaram a pegar outros barcos que estavam próximos da gente mas não nos apanharam. Estive em Omã, no Yemen, onde o “pau tá comendo” agora e naquele tempo estava cheio de buracos nos edifícios da cidade. O governo disse que não era para tapar os buracos. Para ninguém se esquecer da “revolução”.

A “revolução” lá foi muito simples. O governo tinha uma grande oposição e um dia, disse que ia dividir o poder com a oposição.

O presidente do Yemen chamou todo mundo da oposição para uma reunião num teatro onde ele ia discutir as coisas e apaziguar tudo. Claro que o presidente não foi. Mandou os tanques. Matou todos os opositores.

É assim que se faz “política” no Yemen. Naquela região do planeta onde o sangue ferve, mesmo à meia noite, quando o tempo está bem frio.

Na hora de passar em frente à Somália no barco foram apenas eu, um marinheiro que participou da construção do barco e uma moça que embarcou em Bali. Taís. Era baiana  mas estava na Austrália. Disse que nunca tinha andado de barco. Já tinha dado apenas um passeiozinho e não entendia nada de mar.

DSC_1472

Veleiro Fraternidade singrando os mares

Nós três atravessamos a costa da Somália, nos arriscamos a ser apanhados pelos piratas. Imagina se eu enchesse o barco de alunos? Saí com doze alunos, depois diminuí para dez. Nesse trecho era eu e mais dois apenas. Atravessamos, deu certo.

Subimos o Mar Vermelho, estivemos no Sudão novamente, visitamos o deserto, todas aquelas coisas maravilhosas por lá. Depois fomos para o Egito. Paramos em Port Said, Suez, Ismailia e em outros portos. Uma corrupção só. Todo porto queria  arrancar nosso dinheiro. O Egito era uma coisa horrível nesse ascpecto. Apesar das pirâmides, do deserto… Quiseram me vender uma Coca-Cola, no deserto, por vinte dólares! Uma Coca! Não comprei.

Disse ao comerciante-ladrão:”Essa Coca Cola vai ser sua”.

De lá fomos para o sul da Turquia, para Fenich e lá entrei nos Dardanellos e coisa e fui parar em Istambul Lá visitei o Grande Bazar mais uma vez pois já conhecia. Me adiantei, entrei no mar Negro e subi até o norte. Cheguei a Odessa na Ucrania, o lugar onde tinha nascido.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Enfrentando as tempestades

Levei alunos para a Ucrania. Fui muito bem recebido, inclusive porque tinha contactado a Embaixada Russa no Brasil, me recomendaram e tal, ajudaram em tudo. Peguei oito horas de trem até Karkov e uma hora e meia de ônibus cheguei em Merefa onde eu nasci e moravam meus parentes. Visitei meus parentes todos. Era uma festa cada dia. Levei uma aluna para filmar e fotografar eu com os parentes todos. Depois os parentes vieram visitar o barco.

Na volta não parei em Istambul de novo porque queriam me cobrar 350 euros só para fazer a saída do país. Na subida, eu passei só na Turquia apesar de passar por tantas ilhas gregas porque quando muda de país é tanta documentação, muitos pagamentos que tem que apresentar. É complicado. Na volta só passei pelas ilhas gregas. Em Lesbos, nas ilhas das lésbicas, visitei várias praias de nudismo, andei pelado naquelas águas geladas, horrível comparadas com o Brasil, com a Bahia. Brasil é muito grande. Aqui a água é morninha, uma maravilha.

De lá fui para Creta de novo. Andei por dentro das ilhas gregas e fui me embora. Parei em Siracusa na Italia, depois parei na Espanha. Ai completei com nova tripulação que passou nas Canárias e ai para o Brasil terminei a quarta volta.

Treinei 26 pessoas. Eu curti menos porque fiquei o tempo todo preocupado com as pessoas. Eu não fui dar aula de como velejar, isso aí aprende na Bahia. Eu fui ensinar a andar pelo mar. Como fazer isso, como fazer aquilo. Foi bom porque eu queria fazer isso.

Dar esse presente à juventude brasileira mas eu curti muito menos do que as viagens solitárias pois eram eu e o mar. Um amor, um namoro sem testemunhas.

Sozinho você fica com os instintos à flor da pele.

Você presta atenção à tudo, a qualquer movimento, a qualquer mudança, sempre preocupado com tudo. Você tem que estar atento para os sinais, que a natureza dará para que você possa se antecipar aos elementos, aos problemas.

IMG_1951 por Nilton Souza

O Fraternidade e sua tripulação

Então na viagem com os alunos essa coisa ficou enfraquecida mas foi bom porque eu queria fazer isso. Aconteceu uma coisa inesperada, porque a Marinha reconheceu esse meu esforço e o meu projeto educacional e essa idéia foi parar na Presidencia da Republica e eu ganhei duas medalhas e o título Cavaleiro do Merito Naval. Nunca esperei isso. Aceitei. Não sou orgulhoso. Tanto as medalhas quanto os diplomas.

B.B: Como foi a viagem à Antartica?

Aleixo Belov: Fiquei aqui trabalhando um pouco e por último fui à Antártica. Eu não disse que ia para a Antártica. Disse que ia para o sul. Primeiro porque eu estava trabalhando muito, nem ajeitei o barco. Saí para a Antartica assim como quem não quer ir muito longe… O barco era o Fraternidade.

Já tinha dado a volta ao mundo com os alunos. Já estava com um barco grande, de setenta pés (21,5 m) mas não preparei muita coisa. Eu tinha muita dúvida sobre esse ano: se ia, se não ia, se ia, se não ia… até que um amigo meu disse:

“Você está esperando ter um enfarte para ir?”

Ai, me “retei” e fui. Foi esse amigo quem decidiu por mim.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Rumo à Antártica em 2014

Aí peguei uma pequena tripulação aqui em Salvador para ir descendo. Na realidade a viagem para a Antartica seria a partir de Ushuaia no sul da Argentina. As pessoas que iam comigo para a Antartica iam embarcar em Ushuaia. Fomos.

Veja o que aconteceu: as velas que usei na quarta volta ao mundo estavam queimadas pelo sol e eu não tinha percebido. Achei que ainda estavam boas. Quando cheguei em Ilha Bela as velas tinham começado a se desmanchar. Olha, foi muito bom isso ter acontecido nesse trecho. Se isso não tivesse acontecido – e as velas estavam meio estragadas  – elas podiam “abrir o bico” lá no sul onde o “pau come”. Felizmente para nós abriram o bico ainda por aqui.

Deu tempo para consertar pois ao chegar a Ilha Bela, procurei ver onde podiam fazer novas velas rapidamente. A empresa North Safe podia fazer na Argentina mas estavam com muita encomenda. Surgiu então a North Safe de Cape Town. Podiam fazer rapidamente e eu preferia pois lá tem muito vento. Se você tiver que encomendar mastro, vela etc. faça num lugar que tem vento. Então fiz a encomenda e quando cheguei no Uruguai elas já estavam me aguardando. Fiz a troca e desci para o sul da Argentina.

CREDITO DAS FOTOGRAFIAS: LEONARDO PAPINIleopapini@gmail.com (11) 99625-0027 vivo (11) 7862-8583 nextel

Aleixo e os compatriotas da Base da Ucrânia na Antartica

No caminho peguei uns tempinhos duros. Enfrentamos uns ventinhos e umas ondas que quando passavam pelo barco estremecia tudo. Parecia que a onda não estava aceitando a intromissão do barco. Ele dificultava a propagação da onda. O barco resistia. Era bom. Então, fomos em frente.

Atravessei e cheguei na Terra do Fogo. Dali dobrei à direita e entrei para Ushuaia pelo Canal de Beagle, onde Darwin fez as suas viagens. Lá desembarquei uma parte da tripulação, que foi substituída por outra, que incluía meu filho Alexei. De lá saímos, eu e mais nove. Fomos para a Antartica, passando pelo famoso Cabo Horn. Não o vimos na ida, só na volta.

                                                   Paisagens da Antartica

Antigamente para ir à Antartica em barco de madeira, velas de algodão era preciso um tipo de homem que hoje não existe mais.

Já não se fazem mais homens como antigamente.

Eles não tinham previsão de tempo. O tempo que viesse tinha que ser enfrentado. Resistiam e sobreviviam ou sucumbiam. Agora, não se viaja mais assim. Lá mesmo em Ushuaia tinha trinta a quarenta barcos enormes, levando turistas para a Antartica. As pessoas pensam que ir para a Antartica é como ir para o fim do mundo. Não é assim não. Tem que dominar certos conhecimentos.

Mas, você tem que esperar a janela de bom tempo. Esperar passar o temporal. Quando ele está passando, você sai, atravessa e chega na Antartica. Uma vez lá, se navega por dentro dos canais, entre as geleiras. Portanto, não tem onda. Tem vento, gelo, iceberg.

O barco amassou bastante batendo em gelos menores. Iceberg não morde ninguém. Anda devagar – pois não tem comandante – e vai guiado pelas forças da natureza, vento e correnteza. Ele se desloca mas, o barco é muito mais rápido para contornar. Fazer isso e aquilo… agora o gelo – os pequenos – tem lugar que está tão coalhado que tem que sair empurrando “a zorra toda” para poder passar.

O pior mesmo foi a travessia do canal de Drake que é justamente considerada a zona mais tempestuosa do mundo. O Pacífico Norte,  quero ir talvez no ano que vem se tiver saúde e disposição Talvez vá para o Alasca pois naquela região também o pau come bastante.

A entrevista com Aleixo Belov finaliza no próximo post

  1. As fotos desse post foram feitas por Leonardo Pappini, Nilton Souza, Hélio Viana e Juracy Villas Boas.

Beto Benjamin (B.B.): Lamento informar mas, a entrevista que gravamos em janeiro passado “foi pro brejo”. O arquivo no iPhone foi corrompido (parece que a moda pegou no Brasil) e não consegui recuperá-lo. Vamos gravar nova entrevista e você passa ser o primeiro entrevistado do Nunca se Sabe a gravar duas vezes… Parabéns!

Aleixo Belov: É a vida, né? Fazer o quê? Rapaz, cada hora é uma hora. Agora, fique sabendo que cada vez que conto uma história, conto diferente. Nunca uma pessoa conta a mesma história duas vezes. Depende de tanta coisa… Do estado de espírito; tem dia que conta a história de um jeito, outros, de outro. Tem hora que você está animado, outras, desanimado e por aí afora… Já que temos que fazer tudo de novo, vamos começar logo então?

Como tudo começou! O presente que inspirou o gosto pelo mar!

B.B:  É verdade que um óculos de mergulho que você ganhou lhe fez se interessar pelo mar?

Aleixo Belov: Aprendi a nadar muito tarde, só aos treze anos porque meu pai não tinha dinheiro. Era imigrante aqui no Brasil e não era sócio de clube nenhum. Ia aprender a nadar aonde?

Aos dezesseis anos ganhei um óculos de presente de um amigo que ia para o Itamaraty e não podia levar tudo o que tinha. Era um óculos de mergulho. Eu nem sabia para que servia aquilo mas, esse presente, mudou o meu destino.

Veja só, naquele tempo não tinha televisão – nem em preto e branco – que dirá Discovery Channel! Hoje as crianças podem ver o pessoal mergulhando na televisão a cores e até em 3 D… Naquela época ninguém mergulhava. Ninguém conhecia os equipamentos de mergulho. Ninguém sabia o que era um óculos de mergulho.

Pois bem, um dia peguei o óculos e entrei no mar. Inicialmente no raso, com água nos joelhos. Depois andei mais um pouquinho, mais outro pouquinho e, de repente, terminei me apaixonando pelo mar. Veja só o que aconteceu em seguida:

Arriando a vela do Três Marias

Dei uma volta ao mundo sozinho. Duas, três, quatro. Fui à Antártica e à Groenlândia.

Estudei engenharia e misturei o mar com a profissão. Entendendo bem do mar, acabei como engenheiro me especializando em obras marítimas.Foi tudo muito natural. Isso me ajudou muito a viver. Porque fui vivendo, trabalhando, curtindo, navegando e mergulhando. Tudo no mar. Não é pouco.

Hoje na minha empresa – a Belov Engenharia – trabalham mais de trezentos mergulhadores na Bacia de Campos no Rio de Janeiro.

Isso foi o resultado de um óculos de mergulho!

Claro, existiam outras possibilidades. Fiz vestibular para o ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Graças a Deus não passei, apesar de classificado em sexto lugar no vestibular da Escola de Engenharia na UFBa. Teria sido engenheiro eletrônico e certamente ficado longe do mar. Tá vendo?

Estudei para o vestibular junto com um colega que foi aprovado no ITA mas, aqui na UFBa ficou em décimo lugar. Acho que o destino me colocou no lugar certo. Estudei na Escola Politécnica e me tornei engenheiro civil. O conhecimento adquirido na engenharia ajudou muito a construir os barcos, a entender a natureza das coisas. Foi muito melhor pois me aproximei mais ainda do mar, me tornei mergulhador, navegador e estou no mar até hoje. Não saí mais.

Na vida, acontecem coisas inesperadas. Nunca esperei ganhar um presente desses. Sem esse óculos de mergulho, não teria ido pro mar mergulhar. Poderia ter tomado outro rumo e feito diferente. Se alguém tivesse me dado um cavalo, eu poderia ter me tornado  um vaqueiro. Compreende?

Cuidado com o que lhe dão de presente. Um perigo! Pode mudar sua vida, sem a menor dúvida…

B.B.: Como sua família veio parar no Brasil e como você iniciou a carreira de professor?

Aleixo Belov: Meu pai Dimitri era agrônomo na União Soviética. Cuidava de plantações de trigo, centeio, aquele cereais todos. A Rússia, onde ele nasceu fazia parte da União Soviética. Um belo dia, ele estudou Agronomia e foi trabalhar na Ucrânia – que tinha as melhores terras para agricultura do planeta –  onde conheceu minha mãe, que era ucraniana,  e se casou.

Nasci na Ucrânia – filho de russo com ucraniana – mas fui criado na Bahia. Lá, mesmo naquele tempo da Segunda Guerra Mundial, as plantações eram todas mecanizadas. Como hoje é, a plantação de soja no Brasil. Ninguém planta mais soja, milho, trigo em grande escala, que não seja mecanizada.

Nasci na época da ocupação alemã na Grande Guerra, quando meu pai resolveu ir embora da Ucrânia. Ele tinha opções: podia ir para os Estados Unidos, para o Brasil ou para outros países. Disseram a ele que o Brasil tinha uma grande extensão territorial e que ia precisar de agrônomos. Então ele decidiu vir para o Brasil. Fez bem, eu penso.

Eu não gostaria de ter ido para os Estados Unidos porque a minha filosofia de vida não se casa muito com a filosofia daquele país.

Embora cada pessoa é uma pessoa, uma coisa é um país capitalista, os donos das fábricas de armas etc. Outra coisa é o povo de lá, que gosta de futebol americano e quer ser feliz como qualquer outro povo. Não tenho nada contra o povo americano, muito pelo contrário. Tenho alguns grandes amigos de lá, mas eu vim para o Brasil.

Ouço algumas pessoas dizerem que o Brasil agora está numa situação tão difícil, que se pudessem ia morar fora. Que a situação econômica e política etc. está ruim, enfim todas essas dificuldades que estamos passando. Ainda hoje alguém falou comigo que se tivesse grana teria ido morar nos Estados Unidos. Gozado… Eu podia ter morado em qualquer lugar do mundo, pois minha profissão de engenheiro me permite e ainda falo cinco idiomas. Podia ter me mudado. Mas, não.

Nunca saí da Bahia. Só moro aqui. Gosto demais daqui. Foi aqui que finquei as minhas raízes. Não são tão profundas porque foram rompidas várias vezes com as viagens que fiz. Mas, são minhas raízes…

Então, meu quando meu pai chegou ao Brasil constatou que a agronomia daqui era quase toda na base da “enxada”. Portanto, aquela experiência que ele tinha de agronomia mecanizada não foi bem aproveitada. Ele até que tentou trabalhar na agronomia aqui mas não funcionou. Migrou para a matemática e foi ser professor.

Quando fui convidado para ensinar na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, eu já tinha sido professor de matemática por mais de oito anos. Dei aulas particulares para os filhos de Norberto Odebrecht; do vice-governador da Bahia naquela época, Carybé, nosso grande pintor e para João Amado, filho de  nosso grande escritor Jorge Amado.

Meu pai foi quem começou a dar aula para esse pessoal e ficou muito conhecido na cidade. Em seguida me introduziu. Virei professor de matemática também. Quando fui ensinar na Escola de Engenharia, eu tinha dez anos de experiência como engenheiro. Já tinha uma certa vivência. Juntei a minha experiência de professor de matemática com a de engenheiro. Foi fácil para mim.

Ensinei na Escola de Engenharia por apenas quatro semestres e tive o “azar” de ter certos alunos como Beto Benjamin… [risos]. Nesse período fui professor homenageado da turma de formandos por duas vezes. No quarto semestre já não dei aula bem porque assumi a responsabilidade de construir as plataformas para a Petrobras. Deixei de ser professor por certas circunstâncias da vida.

Nessa obra trabalhava tanto, até o instante em que eu não conseguia mais me aguentar em pé.

Fui promovido a superintendente de produção e a obra era de tal complexidade que não havia tempo suficiente para resolver tudo. Por isso pedi demissão da Universidade para me dedicar exclusivamente às plataformas. Não havia como conciliar as duas coisas. Apesar de adorar dar aula.

Hoje, fora da escola, dou aula para os meus operários na Belov. Na minha empresa, atualmente com mais de mil funcionários, a maioria das pessoas entra como servente e sai como encarregado, mestre de obras, soldador profissional. Logo, minha empresa é uma escola. Meus bons encarregados me ajudam a enfrentar um mercado difícil que é o da Engenharia. São pessoas que “fiz” dentro da empresa. Muitos trabalham comigo há dez, vinte, trinta anos. Estou trabalhando com a “prata da casa”. Ensinar para mim não foi difícil. Foi até fácil. Pelo simples fato de que eu gostava de ensinar.

Quando você faz o que gosta, tudo fica mais fácil.

A idéia da volta ao mundo

B.B.: De onde surgiu o desejo de dar a primeira volta ao mundo?

Expedição Moana

A expedição inspiradora

Aleixo Belov: Ele surgiu por etapas. Primeiro me tornei mergulhador. Para pescar e ver as maravilhas no fundo do mar. Era apaixonado pelo mar. Depois, li um livro chamado “Expedição Moana” de Bernardo Gorski. Ele conta a história de quatro amigos que viajaram num barco à vela por todos os oceanos ou quase todos. Falavam muito do Mar Vermelho onde as águas são cristalinas. Claro, lá é deserto para todo lado, não chove, logo não tem como sujar a água.

Esses amigos fizeram essa viagem e mergulharam em muitos locais. Ficou guardado na minha cabeça que velejar era uma maneira fácil de viajar porque no barco tem hotel, tem cozinha, tem tudo, além do meio de transporte. Então como eu já era mergulhador resolvi que o negócio era viajar de barco, como o pessoal da expedição Moana fez.

Uma vez fui mergulhar em Porto Seguro que já foi um lugar belíssimo. Não era essa cidade de mil hotéis de hoje. Quando fui pela primeira vez, só tinha uma pousadinha com três quartos. Não tinha festa, não tinha hotel nenhum.

E eu lá nos arrecifes de fora mergulhando, apreciando a beleza do fundo do mar, no Arquipélago de Abrolhos. Adorei o fundo do mar…

Era uma coisa extraordinária, inesquecível mesmo. Aqueles corais lindos, maravilhosos, cheios de peixes, tartarugas, de tudo… Fiquei dezesseis dias mergulhando, até quebrar todas as minhas espingardas e entortar todos os meus arpões. Só voltei para Salvador quando todo o meu equipamento de mergulho tinha sido destruído. Foi ali que eu vi como aquilo era bonito. Eram os corais, os peixes etc. Então, disse para mim mesmo:

“O mundo deve ser todo bonito assim. Eu quero conhecer o mundo!”

Mergulhando em Abrolhos - BA

Mergulhando em Abrolhos – BA

Foi ali que deu aquele “estalo”, como o do padre Antonio Vieira que escreveu na areia. Foi lá que eu disse: “vou dar a volta ao mundo”.

B.B: E o que aconteceu no seu retorno para Salvador?

Aleixo Belov: Assim que voltei, fui na Ribeira olhar os barquinhos. Encontrei uns poucos barcos, mixurucas, porque em Salvador, naquela época em 1965, quando eu tinha vinte e dois anos, quase não existia veleiro. Tinha saveiro mas veleiro não. De repente, encontrei uma escuna sendo reformada por Lev Smarcevscki na beira da praia da Ribeira. Lev – como eu – era um artista, filho de russo, arquiteto, pintor, escultor etc. era o dono da escuna. Que coincidência, não é? Me aproximei e perguntei:

– “Esse barco está fazendo o quê aqui?”
Responderam: “Estão reformando. Preparando para dar a volta ao mundo.”
Pensei: ” O quê?” Parece brincadeira né! Na hora eu falei: “Rapaz, eu também quero participar desse negócio”.
A resposta foi: “Então venha trabalhar com a gente.”
Fui.

Lev Smarcevscki discutindo com um mestre a construção de uma escuna

Me deram uma lata de tinta e um pincel e lá fui eu pintar os parafusos do barco. Era um barco de madeira. Lev era um grande artista, um sonhador. Estava preparando aquele barco para sair dentro de um ano. Pensei logo em trancar o curso de engenharia para me dedicar integralmente à reforma do barco mas, por sorte, meu pai interferiu. Ele disse: “Olha, você pode viajar mas, trancar matrícula não. Continue estudando…”

Até o barco ficar pronto se passaram quatro anos. Se eu tivesse trancado tinha me ferrado. Deu tempo para me formar e, ainda trabalhar dois anos como engenheiro. Assim pude juntar um bom dinheiro. Pronto, ia viajar com dinheiro no bolso.

Chegou o dia da viagem.

O barco chamado Santa Cruz saiu de Salvador mas, a viagem de volta ao mundo acabou em Porto Rico no Caribe. Só durou quatro meses…

Fui o responsável pela navegação do Santa Cruz pois tinha estudado navegação astronômica e recebido a carta de navegador.

B.B.: Por que o Santa Cruz interrompeu a viagem?

Aleixo Belov: Durante a viagem, o barco apresentou algumas dificuldades. “Fazia muita água”. Era um barco de madeira com velas de algodão costuradas à mão por marinheiros de Cajaíba e Camamu. As velas eram boas. Os costureiros eram excelentes mas não dá para comparar com a tecnologia de hoje onde as velas são desenhadas no computador e costuradas com máquinas especiais e fios de resistência extraordinárias.

A viagem acabou em Porto Rico e de lá peguei outro barco para a Europa. Depois voltei para Salvador e continuei a trabalhar como engenheiro.

O francês e a travessia Brasil-África

B.B.:  Como foi a história do navegador francês que apareceu em Salvador querendo companhia para a travessia Salvador-Cidade do Cabo?

Livro de Pierre Chassin

Livro de Pierre Chassin

Aleixo Belov: Por uma dessas coincidências da vida soube que tinha um francês indo de Salvador para Cape Town na Africa do Sul. Ele viajava sozinho, estava com pressa de chegar para participar de uma regata que começaria em Cape Town. Procurava uma pessoa para ir com ele.

Não deu outra! Tirei férias e fui correndo me apresentar. Eu já tinha decidido que ia dar a volta ao mundo. Tentei, mas com quatro meses a viagem acabou e eu regressei sem dar a volta ao mundo. Com o francês Pierre Chassin – era o nome dele -, eu sabia que não ia dar a volta ao mundo mas, sim aprender muito durante a viagem. Ela duraria trinta e três dias. Saímos e posso dizer que em cinco dias eu aprendi – mais ou menos – como manobrar o barco dele.

Já possuía alguma experiência tendo navegado no Santa Cruz e em outros barcos ali por perto de Salvador. Essa travessia com o francês foi muito boa para mim porque depois de cinco dias de viagem eu não chamava o francês para me ajudar em nada. Quando ele estava dormindo, eu manobrava o barco sozinho. Descobri que eu podia fazer isso sozinho.

Me lembro que só para manobrar o barco no Santa Cruz teve tanta discórdia, tanta dificuldade – muita gente empilhada -. Eram oito pessoas a bordo, uma complicação retada. Na travessia eu pensei que era muito mais fácil fazer a manobra sozinho do que administrar as intrigas e egos de tanta gente.

 Decidi que ia dar a volta ao mundo mas, sozinho.

Uma coisa me marcou nessa viagem com o francês. Fui com ele fazer as compras de mantimentos para o barco e, na última hora, ele me deu uma declaração para assinar, onde estava escrito que ele não seria responsável por mim em caso de acidente. Se eu caísse no mar e morresse ele não seria responsável. Pediu para que eu assinasse e pôs no Correio para o irmão dele na França.

Aquilo me deixou extremamente encucado. Minha mulher na época, da Graça, disse: “Você vai viajar com esse cara e se ele for maluco, esquizofrênico ou paranóico?”. Respondi: “Quando uma pessoa quer ir, a pessoa vai. O abacaxi que der, se descasca no caminho”. Assim mesmo! E fui…No final a viagem foi muito boa mas, ficava o tempo todo pensando na carta.

Na saída caiu um temporal em Salvador mas, o francês não queria saber… Não quis adiar a saída porque ele tinha que chegar em Cape Town a tempo de participar de uma regata de volta ao mundo.

Logo na partida surgiram aquelas nuvens negras e entrou uma rajada de vento que rasgou a vela. A vela grande dele tinha sido danificada antes de chegar a Salvador. Tinha rasgado na parte inferior. Consertou no Rio de Janeiro. Com o vento forte que soprou, rasgou no mesmo lugar porém de tal sorte que “dando rizos” ou seja reduzindo a vela, ela continuava funcionando. E assim fomos…

Rapaz, eu enjoei na saída nesse barco pequeno do francês. A última vez que tinha navegado foi na escuna Santa Cruz.  Ali eu não enjoei porque o movimento da escuna de vinte e quatro metros era completamente diferente. O barco do francês era de regata. Nervoso o bicho pulava parecendo um cabrito. Era uma casquinha de fibra de vidro e um convés de compensado.

Levei três dias no mar  completamente enjoado que não aguentava ficar em pé. Ele  tinha um cachorro chamado Be Good  – que com seu sotaque francês ele chamava de “Bi-gudi – na tradução Seja Bonzinho. Era um cão policial que queria me morder o tempo inteiro.  Nos primeiros três dias de viagem não consegui fazer absolutamente nada a bordo. Enjoado.

No terceiro dia, Pierre fez um chá e me deu uma xícara para beber. Olhei para dentro e vi que tinha dois fios de pelo de cachorro. Disse para mim mesmo: “Puta que que pariu! O que faço agora?” Tirei os pelos de dentro da xícara e tomei o bendito chá. Melhorei do enjoo. No quinto dia tomamos um banho de água salgada . No barco tinha pouca água doce. Nos enxugamos e fomos adiante.

À medida que íamos navegando eu ia pegando a prática. Ficando mais esperto. Não sentia mais enjoo, não tinha mais nada. No nono dia eu tomei mais um banho e o francês nada. A partir daí, ninguém tomou banho até o final da viagem. Fazia um frio de lascar.

Pegamos cada tempestade no caminho. De repente um dia, bateu um temporal e as conservas começaram a cair e a rolar pelo chão do barco. Eu só olhando para o teto. As madeiras do teto eram de compensado. O barco jogava prá um lado e pro outro. Daí a pouco, começou a cair pedaços de madeira no chão. Pensei, pronto que esse barco vai se desmanchar todo mas, graças a Deus, não aconteceu. A experiência adquirida lidando com os temporais foram fundamentais para mim.

B.B.: Você sentiu medo?

Tempestade se aproximando

Aleixo Belov: Medo? O tempo todo. O medo era uma coisa latente que não saía. Só tinha medo… Com esse temporal a cruzeta desceu, saiu do lugar. Vou explicar sobre a cruzeta para aqueles que não conhecem: Tem o mastro e dele descem os cabos de aço. Para o mastro não entortar existem umas pecas transversais, chamada cruzeta. Então o cabo passa ali. A cruzeta é articulada e desceu. O cabo frouxou e a consequência é que o mastro podia cair.

O francês olhou para mim e disse: “Suba no mastro e amarre a cruzeta lá em cima.” Nessa hora, me lembrei da carta. Pensei na hora, se eu cair no mar  esse filho da puta não virá me buscar. Pensei ainda se estivesse fazendo uma manobra em cima do barco e escapulisse esse cara ia me deixar morrer…

Subi no mastro e fiz o serviço.

No decorrer dessa travessia, eu me comparava com o francês o tempo todo. Ele já era um navegador solitário. Ele só pegou um tripulante porque tinha pressa. Para velejar mais rápido na travessia precisavam duas pessoas. Senão, toda vez que anoitecesse, teria que reduzir o pano para dormir, pois o barco dele era franzino, muito rápido, muito leve.

Ele usava um óculos de “fundo de garrafa”, um grau retado. Eu enxergava muito melhor que ele. Ele fazia uma média de cinco manobras por dia. Barco de regata é assim mesmo. Toda hora tem que manobrar. Põe vela mais leve, depois uma maior, uma menor com o tecido mais grosso. Rapaz, o francês anotava tudo no seu diário de bordo.

Toda hora tinha que abrir escotilha e puxar um saco de vela que pesa muito. Eu puxava muito mais rápido que ele. Eu tinha muito mais “braço” que o francês. Resumindo, ele era franzino, careca, enxergava pouco mas, conhecia muito de navegação. Isso era verdade. Conhecia demais. Fora citado como navegador solitário em dois livros. Me mostrou os livros.

Pierre Chassin era paraquedista, mercenário, filho de um general da Força Aérea francesa. Lutou na Indochina, Vietnã, quando o Vietnã era colônia francesa e em muitos outros lugares pelo mundo. Ele ficou assim, meio doido e, quando esteve na Africa no Congo lutou como mercenário na guerra pelos minérios. Ele não era uma pessoa comum.

Teve um outro episódio que vou contar. Com o temporal, o cárter do barco ficou encharcado. Apesar da descarga possuir um dispositivo para evitar entrar água no cárter, o temporal tinha sido muito grande e não foi suficiente para proteger o equipamento. Íamos precisar virar o motor para carregar bateria, portanto tinha que remover um bujão embaixo do cárter, retirar o óleo com a agua e recolocar óleo novo. Rapaz, o Pierre se esforçou todo num lugar superapertado e não conseguiu fazer o serviço. Disse para ele: você tentou e não conseguiu. Dê licença. Fui lá e fiz. Consegui. Imagine a minha moral. Aí eu decidi mesmo: Vou ser navegador solitário!

Fiquei puto da vida quando o Pierre me mandou subir no mastro e fazer o serviço da cruzeta. Não esquecia da carta. Então quando ele dormia eu era navegador solitário. Quando eu ia dormir era ele, navegador experiente. Eu estava ali, naquela travessia, treinando para ser navegador solitário e estava felicíssimo.

A dúvida era: se eu caísse no mar será que ele voltaria para me buscar? Disse para mim mesmo. “E se ele caísse no mar eu voltaria para buscá-lo?” Era a minha chance de ser navegador solitário. “Tá rebocado, se eu volto para buscar esse filho da puta! Me fez assinar aquela carta. Ele vai se foder, se cair dentro d’água.” Eu estava começando a odiá-lo pelas coisas que ele fazia.

Finalmente chegamos em Cape Town. Os dois. A travessia havia sido bem sucedida. Então, subitamente, todo aquele ódio desapareceu por completo e eu senti uma afeição muito grande por ele. Foi quem me deu a chance de ter vivido aqueles momentos de incerteza, de luta, de competição e de afirmação.

Hoje lembro do Pierre Chassin com muito carinho. Foi uma pessoa importante na minha vida.
Na viagem de Porto Seguro resolvi um que dia daria a volta ao mundo.
Na travessia com ele,  resolvi que queria ser navegador solitário.

Depois que dei a volta ao mundo, me perguntaram: por que  fui sozinho? Por dois motivos: primeiro, achei mais fácil manobrar o barco sozinho do que administrar as intrigas; segundo, se eu podia subir uma montanha muito mais alta por que ficar subindo morrinhos, entendeu?

Voltei para Salvador e fiz tempos depois minha primeira viagem de volta ao mundo em solitário. Mas não foi apenas isso. Nessa primeira viagem de volta ao mundo eu tinha pouquíssimo dinheiro. Tinha acabado de construir o barco e não sobrou quase nada de dinheiro.Tinha quase dez mil dólares. Naquele tempo o dólar valia muito mais entretanto, era pouco para dar a volta ao mundo. Por isso eu não arriscava o barco de jeito nenhum. Só parava em porto que tinha carta náutica. Não entrava em riachinhos etc. Era para preservar o sonho. Preservava isso. Por isso, fui, fui, fui…

Visitando Bali – Indonésia 

                                                                    Vistas de Bali

Quando cheguei a Bali na Indonésia, o Oceano Índico estava em plena estação de ciclones. Eram as piores estações para a navegação. Lá eu soube de um ciclone que passou na ilha de Madagascar e arrancou todas as bananeiras da Ilha. Não sobrou nada.

A carta de ventos – pilot chart – indicava passagem desses ciclones todos. Foi muito bom chegar a Bali. Achei um lugar maravilhoso. Mas naquela ocasião eu tinha duas opções: atravessava na estação dos ciclones ou teria que esperar seis meses por lá. Tinha ainda uma terceira: pegar outro rumo.

Como eu queria concluir logo a volta ao mundo, começou a nascer dentro de mim e, de modo muito forte, aquela vontade de ir. Havia outros barcos, outros veleiros na região. Comecei a conversar com eles explicando meu plano e vontade de atravessar o Índico, rapidinho. Imagine que de Bali para Cape Town são seis mil milhas de distância.

Pensei bem, se atravessar o Índico, praticamente, cheguei em casa. Estou no Atlantico. É só gritar de lá: “Ô pessoal, tô chegando…”

Essa idéia foi crescendo na minha cabeça, foi crescendo… Quando falei com os amigos dos outros barcos o que eu estava prestes a fazer, eles me trouxeram suas cartas náuticas mostrando as passagens dos ciclones. Não pestanejei, abri a minha gaveta e mostrei que tinha a mesma carta náutica que eles e que estava ciente dos riscos que iria correr. Mas a idéia era uma só: seguir em frente agora, travessar e telefonar para os amigos…

B.B.: Quais suas impressões sobre Bali nesta e nas outras viagens? Qual o efeito do tempo e dos homens naquele paraíso?

A volta ao mundo no Três Marias

A volta ao mundo no Três Marias

Aleixo Belov: Vamos falar de Bali. Me falaram muito sobre Bali antes da viagem. Disseram que era um paraíso. Naquele tempo tinha muita gente indo pra lá. Eu também fui. Nessa primeira viagem a Bali, só vi artistas, pintores, escultores. Gente maravilhosa.

Meu barco – o Três Marias – foi todo esculpido por dentro pelos artistas que viviam em Bali. Uma das atrações de lá eram as turistas do mundo inteiro, inclusive para fazer sexo. Era assim: à noite, a gente chegava no bar, encontrava aquele pessoal todo por ali. Se sentava para conversar e ninguém ia dormir sozinho…

No outro dia, já se sentava com outras pessoas e não se falava do dia de ontem. Ninguém dizia: você me “deu” ontem, vai me “dar” hoje também. Não tinha nada disso. Eu sei que em vinte e cinco dias eu arrumei umas cinco ou seis namoradas. Eu que vinha de uma abstinência terrível. Bom, nem posso reclamar pois também consegui na Austrália antes de chegar a Bali.

Naquela época eu era bonito e forte. Tinha uma energia, um carisma. Estava dando a volta ao mundo sozinho. Isso me credenciava perante as mulheres, os homens, todo mundo. Eu trazia comigo uma aura, como se fosse uma nuvem me acompanhando. Quando a pessoa se aproximava, entrava nessa nuvem e parecia que você tinha o domínio sobre ela.

Quando fui a Bali  na primeira vez, ninguém trancava a porta de casa. Não tinha ladrão, prostituta, droga. Não tinha nada disso. Era um paraíso só cheio de artistas do mundo inteiro. Você segurava a mão de uma balinesa e ela não puxava não. Ficava ali tranquila, parada com a mão presa durante meia hora. A mão dela era ela. Ela era ela e você era você! Um estrangeiro. Elas não queriam nada com os estrangeiros. Você não conquistava uma nativa.  Essas meninas todas que eu disse que a gente transava em Bali eram as turistas: francesas, americanas, alemãs, européias. Não eram as nativas…

Cinco anos depois em Bali, já tinha um motoqueiro em cada esquina perguntando se você quer haxixe ou uma menina para transar!

Dez anos depois em Bali, eu não reconheci mais o rio que tomei banho pelado na primeira viagem. Lá, naquele tempo os homens tomavam banho pelado. Me lembro muito bem. Cheguei por volta de cinco horas da tarde, os caras trabalhando no porto, terminavam o expediente, tiravam a roupa e pulavam no mar para tomar banho.

Olha só as peças de xadrez de Bali!

Nunca tinha visto homem ficar nu no meio da sociedade. Já tinha visto mulher. Mas homem foi a primeira vez. Pois lá os homens ficavam nus, tomavam banho e depois vestiam a roupa e iam pra casa na maior paz e harmonia, parecendo os índios aqui no Brasil.

As moças trabalhavam na plantação de arroz e depois tomavam banho na vala de irrigação, de calcinha. Às vezes algumas chegavam para lavar roupa. As mulheres, às vezes, usavam uma toalha, mas pra não molhá-la, elas a levantavam um pouco e se alguém prestasse atenção, via o filme todo… Era uma maravilha.

Anos depois, Bali ficou tão famosa na Indonésia – que tem treze mil ilhas – que sua população que era de quinhentos mil habitantes cresceu para três milhões! Hoje já são mais de quatro milhões. O pessoal das outras ilhas foram para lá. Invadiram Bali que não tinha infraestrutura para suportar toda aquela invasão.

Começaram a roubar tudo e a se prostituir. Rapaz, na última vez que estive em Bali enquanto eu estava na marina, roubaram uma motocicleta. Perguntei se tinha seguro. A resposta foi que não se segura mais nada em Bali, pois o seguro custa quase o preço de uma motocicleta!

Para mim Bali acabou!

A entrevista com Aleixo Belov – Parte 2 – continua num próximo post

  1. As fotografias deste post foram feitas por Aleixo Belov, Nilton Souza, Leonardo Pappini e copiadas da internet.

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

O poeta e o poema acima me foram apresentados por Joana Benjamin, uma de minhas queridas filhas!

Beto Benjamin

Manoel de Barros, poeta mato-grossense nasceu em 1916 e viveu 97 anos. Dele se diz que era o Guimarães Rosa da poesia ou, que Guimarães Rosa era o Manoel de Barros da prosa. Escreveu muito. Foram vários livros e colecionou mais de uma dezena de prêmios. Foi um poeta brasileiro do século XX, da geração de 45 mas, sua poesia se situa nas cercanias das vanguardas européias e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Recebeu dois prêmios Jabutis. Nos meios literários é o mais aclamado poeta brasileiro da contemporaneidade. Seu livro mais conhecido é o “Livro sobre Nada”. Dele dizia a crítica Berta Waldman: “a eleição da pobreza, dos objetos que não tem valor de troca, dos homens desligados da produção (loucos, andarilhos, vagabundos, idiotas de estrada), formam um conjunto residual que é a sobra da sociedade capitalista; o que ela põe de lado, o poeta incorpora, trocando os sinais”.

Você acredita que esse engenheiro baiano, nascido na Ucrânia, construiu um barco com 11 m de comprimento – o Três Marias – , no quintal de sua casa em Salvador e se lançou ao mar, em 16 de março de 1980, numa aventura que durou quatorze meses, percorreu 26 mil milhas náuticas e visitou dezessete portos, sozinho?

Pois bem, Aleixo Belov foi o primeiro velejador brasileiro a completar uma volta ao mundo em solitário, num barco à vela, numa época em que não existia o GPS (Sistema de Posicionamento Global) para navegação. Ele se valeu da navegação astronômica, usando o sextante, se orientando de dia pelo sol e à noite pelos astros. Como se vê não era uma aventura para qualquer um…

Navegar é preciso!

Sua primeira volta ao mundo precisou de muito planejamento, organização, experiência mas, sobretudo coragem. Ele mesmo conta que a viagem foi cheia de emoções e muitos riscos. Ao regressar a Salvador 14 meses depois, Aleixo recebeu um Diploma da Marinha brasileira e escreveu A Volta ao Mundo em Solitário, seu primeiro livro, contando com detalhes essa aventura pelos mares do mundo.

Tendo apreciado a viagem de barco por tantos portos e mares e, se saído muito bem dessa primeira expedição, Aleixo ainda deu mais duas voltas ao mundo em solitário: uma em 1986 e outra em 2000 que ele descreve nos seus livros. E não parou quieto.

Em 2010 surpreendeu novamente, realizando um novo sonho: construiu outro barco, desta vez de aço – o veleiro-escola Fraternidade -, bem maior que o primeiro e, lá se foi para mais uma volta ao mundo, desta vez levando a bordo jovens brasileiros, selecionados num concurso nacional, para ensinar-lhes a arte da navegação e o gosto pelo mar.

Rota da primeira volta ao mundo

Rota da primeira volta ao mundo

Aleixo partiu para sua primeira viagem como engenheiro e velejador. Voltou escritor. Foram ao todo seis livros, até agora, narrando suas aventuras, reflexões, encontros, visitas e sobretudo seu diálogo interior, na busca de entender o sentido da vida e seus limites.

Sua última façanha foi em 2013 quando, zarpando mais uma vez de sua amada Salvador, fez uma viagem de cinco meses à Antártida – a bordo do Fraternidade – acompanhado por nove tripulantes. Uma aventura e tanto, com travessias perigosas e paisagens incríveis daquele mundo gelado, misterioso, belo e pouco conhecido.

Esta é sua história e de suas viagens mas, antes de embarcarmos, gostaria de contar como o conheci. Falar sobre sua personalidade e sua maneira de ver e de levar a vida. Contar como nos tornamos amigos e mostrar sua importância na minha formação como jovem engenheiro.

O “professor” de portos

ALEIXO 32

Aleixo em 1980 ao partir para a primeira volta ao mundo

Nos conhecemos no início de 1976, numa sala de aula do curso de engenharia civil, da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. Era meu último semestre e ele, o professor de Portos.

Olha só a figura do professor!!

No primeiro dia de aula chegou de calça jeans desbotada, camisa quadriculada, sapatos mocassins, bolsa enorme e surrada a tiracolo, corpo atlético, pele bem branca – denunciando sua origem estrangeira – certamente curtida pelo sol da Bahia. Era a antítese de um professor!

Para completar o personagem, tinha longos cabelos louros, barba grande, olhos azuis e perscrutadores, falava de maneira mansa e cadenciada, com um inconfundível sotaque baiano…

“Pelo arriar das malas, chegou mostrando quem era. Lembrava mesmo um homem do mar. Passava a impressão de estar sempre contemplando um horizonte invisível e distante.”

Foi o que pensei com meus botões, ao me levantar para receber o mestre Aleixo Belov!

Sem que eu me desse conta, estava nascendo ali – de forma despretensiosa e por acaso – uma amizade que resistiu ao tempo, aos ventos, às viagens, às “brigas”, aos percalços da vida e que está prestes a completar quarenta anos.

Tampouco eu conseguiria imaginar que trinta e três anos depois desse encontro, eu serviria ao estado da Bahia como Secretário Extraordinário da Indústria Naval e Portuária! Nesse cargo, caberia a mim lidar com os mesmos portos que estudei, quando fui aluno do Aleixo. Foi mais uma dessas surpresas que a vida nos reserva!

Já no primeiro dia de aula, ele foi logo avisando:

“Na minha matéria, assiste a aula quem quer. Não faço chamada e nem questão da presença de ninguém. E tem mais: não reprovo no fim do curso.

Quem reprova é a vida, quando vocês saírem daqui para enfrentar o mundo!”…

Não deu outra: as aulas de portos eram sempre as mais disputadas e frequentadas. Ninguém faltava. A matéria era atraente, a didática cativante e ele – com sua maneira singular – sempre trazia questões portuárias interessantes para discutir.

Sim! É a mesma fotografada por Nilton Souza, que publiquei em postagem anterior.

Sim! É a mesma plataforma fotografada por Nilton Souza, que publiquei em postagem anterior.

O curso terminou com uma uma aula prática, no canteiro de obras do Consórcio franco-brasileiro Mendes Júnior-Campenon Bernard, na Baía de Aratu, no Recôncavo Baiano, onde Aleixo comandava a construção de plataformas de concreto para a Petrobras.

Lá chegamos de barco e Aleixo nos deu uma verdadeira aula sobre o empreendimento! Me lembro da nossa surpresa – como estudantes – ao constatar a existência de uma grande e complexa obra de engenharia bem perto, quase no nosso nariz, que pouca gente da Bahia conhecia.

O destino ainda tinha reservado mais uma para mim: um dia – não tão distante daquela visita – eu trabalharia ali também, na qualidade de colega do então ilustre mestre de portos, Aleixo Belov!

Curso concluído, me formei. Aleixo seguiu sua vida, como professor e gerente de construção das plataformas e eu, a minha, de engenheiro recém-formado, buscando um lugar ao sol.

O projeto das Plataformas

As plataformas de concreto eram construídas num canteiro de obras na Bahia, rebocadas e instaladas no litoral do nordeste brasileiro e se destinavam à perfuração e produção de petróleo num projeto pioneiro e tecnologicamente muito avançado para o Brasil daquela época, meados dos anos setenta.

Eu de boné branco, Aleixo e Guilherme Hippie – num de seus exóticos trajes baianos na saída do Fraternidade em 2010.

Um colega de turma que trabalhava no projeto, levou meu currículo para Guilherme Azevedo, o “engenheiro hippie” que me contratou como seu assistente. Ele ganhou esse apelido pelos exuberantes trajes baianos que costumava e continua a usar. Veja na fotografia ao lado.

Reza a lenda que Guilherme, um dia, teve uma reunião com Dr. Norberto Odebrecht, fundador da Organização que leva seu sobrenome, conhecida por todos e onde mais tarde eu viria a trabalhar. Guilherme entrou na sala com uma vistosa bata colorida e seu inseparável tamanco fazendo toc, toc, toc, toc… Eis que dr. Norberto ao levantar os olhos e ver aquela cena teria dito: “Mas, Guilherme, você veio de tamanco?” Prontamente, sem perder a viagem nem o rebolado, Guilherme respondeu: “Desculpe dr. Norberto. O senhor não gostou dos meus tamancos? Espere um pouco!” Saiu da sala, retirou os tamancos e voltou. ” Pronto dr. Norberto. Problema resolvido. Vamos em frente?” e fez a reunião descalço… Coisas assim, só na Bahia!

Graças a essa contratação, voltei ao convívio com meu ex-professor e dessa vez como aprendiz, pois o trabalho da engenharia, era apoiar a construção das plataformas. Na obra, meus líderes eram Guilherme e Aleixo. Uma dupla do barulho pois eram amigos de longas datas.

A obra era uma verdadeira escola, pela quantidade de disciplinas envolvidas, pelas características de projeto estrangeiro com profissionais de vários países e pelos aspectos de engenharia que tinham que ser considerados. Rodava dia e noite, sem parar, com quase três mil operários no pico da construção. Era um senhor desafio.

Aleixo era um leão para trabalhar. Seu estilo singular. Sua liderança impressionante.

Comandava três mil peões na obra e  uma equipe de mais de duas dezenas de engenheiros e técnicos, brasileiros e estrangeiros de várias nacionalidades. Uma verdadeira Babel…

E olha que lá era apenas uma torre!

Eu, aprendiz de… Engenheiro

O Aleixo era dono de uma maneira irreverente, franca e direta de se relacionar com as pessoas. Do peão ao diretor geral do Consórcio, ele não “dava mole” e nem “deixava por menos”. Suas “diretas” surpreendiam e desconcertavam sem a menor cerimônia. Era uma verdadeira metralhadora-giratória. Gostava de testar e confrontar as pessoas o tempo inteiro! Fui testemunha – e “vítima” – incontáveis vezes, da sua então famosa “dialética”… Era seu jeito de ser. Quem quisesse enfrentá-lo, que se preparasse. O bicho não brincava em serviço.

Foi assim nessa luta que fui aprendendo e crescendo. O trabalho no canteiro não era sala de aula. Era muito diferente. O convívio intenso. Os desafios permanentes. Levei um tempo para me adaptar. Trabalhando no apoio, era “brindado” com frequência por seus questionamentos, demandas, gozações ou “chamadas”.

O velejador 35 anos depois da primeira volta ao mundo

O velejador 35 anos depois da primeira volta ao mundo

Quase sempre eu saí das “brigas”, menor do que entrei… [risos]

Apesar de tudo, eu não desistia.

No dia-a-dia, o Aleixo e suas “tiradas”, me deixavam pensativo e ao mesmo tempo admirado. Naquele ambiente, ninguém agia ou falava como ele. Paulatinamente, meu estranhamento e reação, foram cedendo lugar à admiração e respeito, que foram se ampliando com a convivência e o passar do tempo.

Os embates foram incontáveis contudo, fomos capazes de criar as condições para conversar também sobre: a vida, o ser, escolhas, viagens, ideologias, educação, cultura, filosofias, livros, escritores, poetas, desafios, casamentos, divórcios, famílias, filhos, sonhos, erros, acertos, riqueza, pobreza, problemas políticos e sociais do Brasil e de outros países etc. A conversa rolava sobre tudo e sobre todos. A amizade foi se forjando e se firmando, quem sabe, nessas discussões sem fim…

Agora, que pela primeira vez estou escrevendo sobre esses tempos – parte importante da minha história de vida – confesso que carrego no meu coração, uma eterna gratidão à dupla: Guilherme-Aleixo. Esse post, também representa um reconhecimento e uma homenagem a eles.

Do Guilherme, posso dizer, entre outras coisas, que herdei um jeito baiano de olhar para as pessoas, as situações e os problemas, achando que sempre se encontra uma solução.

Com Aleixo, aprendi a não ter medo. Nem do desconhecido! Parece pretensão e talvez fosse mesmo, pois dentro de mais algum tempo, seria eu a me jogar – não num mar de água, nem pilotando um barco – mas, no mar da vida, comandando os meus próprios sonhos.

O episódio de meu “batismo” no mar

Vou contar um episódio, ocorrido durante a viagem da Bahia ao Ceará, para a instalação de uma das plataformas. Depois de dez dias de viagem, bateu uma saudade da minha namorada na época e, resolvi pedir a Aleixo, para ir à terra, telefonar, pois naquele tempo, não havia celular e nem telefone a bordo. A plataforma estava instalada a alguns quilômetros do litoral.

O Aleixo disse: “muito bem, você quer ir em terra? Vá. Tem um helicóptero saindo da plataforma daqui a pouco. Você pega uma carona e vai até o posto telefônico em Guamaré. Faz sua ligação e volta amanhã, cedinho, no barco dos marinheiros que vem para cá.

Veja que coisa boa: carona de helicóptero na ida e, passeio de barco, na volta. Tudo de graça!”

E riu. Nem desconfiei que estava entrando numa fria.

Entrei no helicóptero feliz da vida e fui telefonar. A viagem foi rápida e tranquila. Saltei num campo de futebol em Guamaré e fui imediatamente para o posto telefônico. Liguei para Salvador e, para minha tristeza a namorada não estava. Me ferrei. Viagem perdida!

O posto fechou. “Botei a viola no saco”, conformado. Comi uma moqueca com os colegas de trabalho que ficavam na vila, dormi um pouco até ser acordado pelos marinheiros, por volta das três horas da manhã. Era hora de pegar o barco de volta para a plataforma.

Ali começou a minha “tragédia”. O barco era pequeno e aquele mar imenso e batido. Parecia uma casca de noz, balançando sem parar, de um lado para outro. O vento soprava forte. Não estava de brincadeira. E eu ali no meio daquela zorra…

Logo me dei conta do “passeio” que Aleixo se referia. Não demorou muito comecei a passar mal, para diversão dos pescadores que riam, ao ver um “marinheiro de primeira viagem”. Fiquei branco, amarelo e vomitei tudo o que podia e, o que não podia. Com o tempo, o enjoo só piorava. À medida que íamos avançando, mar adentro, o barco balançava ainda mais. Os marinheiros me indicaram um beliche para deitar e foi o que fiz.  Eu deitado e o mundo girando em minha volta. Juro que desejei ter forças para me jogar no mar e, acabar com aquele sofrimento! Não tive.

Depois de mais de oito horas de enjoo e sofrimento, finalmente avistei a plataforma. A esperança de chegar foi restabelecida. Demorou mas, chegamos. Ao ser içado para bordo, adivinhe quem estava me esperando, com um sorriso maroto na cara? O “filho-da-puta” do Aleixo Belov, que me saudou:

“Viu seu moleque? Você agora foi “batizado”. Fez sua primeira viagem de barco. Entrou para o rol dos homens do mar!!!”

Aquele era o meu “amigo” Aleixo Belov e naquele dia fui batizado mesmo! Fim da história!

A volta ao mundo, a chegada e a revelação de um segredo

o Três Maria singrando os mares

o Três Maria singrando os mares

Enquanto trabalhava nas plataformas, construía seu barco. Depois de construído o Três Marias, muito planejamento e preparação, chegou o grande dia da partida de Aleixo para a primeira volta ao mundo. Era 16 de março de 1980.

Me lembro como se fosse hoje. Ele marcou a saída para as oito horas da manhã. Cedo para um domingo. Cheguei atrasado mas, ainda a tempo, de dar um adeus de longe. Ele não notou, pois já estava envolvido com as manobras, para levar o barco para fora do cais. Olhei e pensei:

Lá se foi o meu amigo, em busca de realizar o seu sonho…

Fiquei ali no cais do porto, contemplando com tristeza sua partida e me lembrando das nossas conversas, durante os anos de convivência. Lembrando, também, que quando indaguei por que ele queria fazer uma viagem ao redor do mundo em solitário, respondeu:

Viver não é preciso!

“Quero ir conhecer os meus limites. Não sei se volto vivo. Se voltar, você saberá…”

Acrescentou, que quando estava sozinho no mar, era invadido por um sentimento de harmonia, paz e tranquilidade, que não tinha em terra. Dizia, que as pessoas interferiam, atrapalhavam, criavam muitos ruídos e embotavam o raciocínio. Preferia a solidão, pois assim, se reencontrava com suas questões mais fundamentais.

Aleixo Belov se foi! Nós ficamos! A vida continuou. Ele ao mar e nós em terra…

O tempo foi passando. Recebi notícias esparsas durante sua viagem. Eventualmente aparecia alguma reportagem no jornal A Tarde. Até que, quatorze meses depois, veio o dia da chegada. A cena continua viva na minha memória, assim como a da partida. São coisas marcantes e dão a impressão que aconteceram ontem.

1) Dimitri Belov, o pai de Aleixo 2) O abraço do amigo e o segredo revelado 3) O abraço do povo baiano

Eu estava lá na chegada, como muitos amigos, familiares dele e curiosos, para assistir o espetáculo. Na Bahia, o que não vira festa não tem a menor importância. Banda da Marinha perfilada, tocando o Cisne Branco no mesmo cais de onde ele saiu quatorze meses atrás, no II Distrito Naval defronte o Elevador Lacerda em Salvador. Era festa! Uma grande festa. Como só os baianos sabem fazer.

Lá estavam Guilherme, Osmar Macedo – inventor do trio elétrico – Petronio, Goes, Grilo, Diro, familiares, alunos, colegas etc. Aleixo nem bem atracou o barco, deu um grito de vitória e um salto para terra. Abraçou os amigos, um por um. Foi aquela alegria.

Quando chegou a minha vez, além do abraço, me confidenciou algo que guardo comigo até hoje:

“Escute bem meu camarada: Naquele canteiro de obras das plataformas, você – apesar de jovem e inexperiente – era o único que tinha a ousadia e a coragem de me enfrentar.

Toda vez que lhe dava uma porrada, você titubeava, caía mas se levantava. Reagia. Voltava para a briga… Lá no meu íntimo, eu me alegrava, pois sabia o que estava fazendo. Ficava feliz por lhe ver lutar, resistir, enfrentar.

Eu era um adversário mais forte e poderoso porém, você não se acovardava. Lutava.

Eu não podia lhe dizer isso naquela época. Esperei e guardei esse segredo o tempo todo. Agora que voltei, estou lhe revelando… É seu!”

Esse diálogo, de pé-de-ouvido, mostrado na foto acima, ocorreu logo após eu receber o abraço do meu amigo Aleixo Belov na chegada da sua primeira volta a o mundo.

Agora que vocês sabem quem é Aleixo Belov, vamos  aguardar o próximo post com sua entrevista.

Beto Benjamin

Notas:

  1. As fotografias deste post foram feitas por Nilton Souza, Leonardo Pappini e por mim mesmo.
  2. Sextante: instrumento de navegação inventado em 1757 por Campbell, um oficial da marinha inglesa e aperfeiçoado 20 anos depois por Godfrey, um vidraceiro americano da Filadélfia],

Próximo post: A entrevista com Aleixo Belov – O navegador solitário

O Diretor chinês Zhang Yang dá um banho de humanismo com o filme O Ciclo da Vida, conduzindo-nos de forma didática e magistral pelos meandros tragicômicos de um grupo de velhos, que – desejando ou não – acaba abandonado numa Casa de Repouso para viver o tempo que ainda lhes resta de vida.

A partir de um enredo simples – a participação de um grupo de idosos num concurso de esquetes em um programa de televisão numa cidade distante – Zhang nos faz percorrer um labirinto de sentimentos e reflexões à medida que vemos desenrolar os fatos, as questões, os dramas e as dores, as dificuldades do dia-a-dia, as cumplicidades entre os amigos e os problemas individuais.

Impossível – com o desenrolar da narrativa – não olhar para dentro de si mesmo, estendendo esse olhar aos familiares e amigos próximos,  nos questionarmos sobre como estamos lidando com a inexorável chegada da velhice. Tema ainda tabu para muita gente.

Há quem ache o filme muito “americanizado”, se comparado com filmes anteriores do Diretor. Há, inclusive, insinuações de que ele fez esse filme para “ganhar dinheiro” pois ali tudo é “muito previsível e pouco chinês”. Bom, opinião é direito de cada um. Fica, então, a seu critério avaliar a película como original, autoral ou pasteurizada…

Os atores – todos em idades bem avançadas – dão um show de interpretação. Quem sabe, até, porque estivessem interpretando a si próprios. Volta e meia, somos surpreendidos por cenas e interpretações de extrema beleza, simplicidade e, sobretudo, emoção.

Grande Zhang! A China agora no cinema ainda vai dar muito o que falar! Dirigiu anteriormente os seguintes filmes: Spicy Love Soup, Banhos, Abandono do Sucesso, Flores do Amanhã, A Caminho de Casa e Caravana da Amizade.

Gostei e me emocionei. Só falta vocês…

Abaixo, o trailer do filme.

Beto Benjamin

Ouçam o que este jovem cantor havaiano literalmente peso pesado mas, de voz suave foi capaz de fazer com dois clássicos da música americana, gravados por cantores famosos no mundo inteiro. O cantor e compositor Israel Kamakawiwo’ole tocava um instrumento musical chamado ukulele, com quatro cordas e formato de violão

Enquanto viveu usou sua música para defender os direitos dos nativos e a independência do Havaí, hoje parte dos Estados Unidos. Devido à obesidade mórbida chegou a pesar 343 kg e teve uma vida muito curta. Morreu em 1997 aos 38 anos e deixou canções inesquecíveis.

Fazendo um contraponto e aproveitando a canção What a Wonderful World, incluí um vídeo do famoso trompetista e cantor americano Louis Armstrong com seu vozeirão rascante e profundo, simpatia e sorrisos inigualáveis, numa interpretação impressionante. De tirar o fôlego. Confiram vocês!

Beto Benjamin