Com a chegada de 2017, o NuncaseSabe completa dois anos de existência. Uma boa oportunidade para refletir sobre a publicação de quase quarenta posts, visualizados e lidos por brasileiros e estrangeiros em cinquenta e seis países do mundo. Pela número de visualizações os cinco países que mais acessaram o blog nesses dois anos foram: Brasil, Portugal, Estados Unidos, Inglaterra e Itália.
A experiência de escrever um post é simplesmente extraordinária. Pelo menos tem sido assim comigo. Não é difícil escrever um post mas, nem sempre se saberá como ele vai se desenvolver e menos ainda como ficará após concluído. O escrever parece ser meio assim como viver: a vida e as palavras, com suas belezas ou a ausência delas, os fatos, os acontecimentos, as ações e reações, as surpresas e eventos completamente fora do seu controle. Entretanto, podem impactar a sua vida produzindo alterações, desvios, nuances, mudanças de rumo e de atitudes, escolhas, imposições, aceitações e recusas, moldando para sempre a nossa existência.

Syilvie Guillem
Portanto, posso afirmar quase com segurança que escrever se assemelha, de uma certa forma, a viver. As letras e as palavras parecem ter seus próprios caminhos. Como se fosse uma imitação da vida real. Elas vão lenta mas, inexoravelmente se insinuando e tomando literalmente a direção de sua escrita. Carregam seus pensamentos e parágrafos para lugares impensados e ponto final. Ou seja, você não é mais dono de nada. Aliás nunca foi. Parece mesmo um paradoxo: embora o texto tenha sido criado por você, não lhe pertence! E por fim você ainda pode acabar se tornando passageiro de sua própria escrita, quando pensava que era o condutor… Sacou? Coisas do escrever… ia dizendo coisas da vida… Não é?
Me lembro de ter avisado aos navegantes na Apresentação de dois anos atrás que queria compartilhar descobertas de coisas, lugares e pessoas. Que tinha tempo e que queria celebrar a vida mas que não ia fazer uma viagem em torno do meu umbigo. Sorte de vocês! Essas promessas continuam válidas e permanecem dois anos depois. Nesse tempo, posso dizer que escrever dá trabalho, pois as palavras requerem um certo cuidado no seu manuseio e – como se rebeldes fossem – não aceitam sairem feias na foto. Ninguém aceita!
Escrever então fica às vezes parecido com o exercício de falar a mesma coisa repetidamente, até que os erros sejam consertados; as palavras, as frases sejam devidamente polidas e fiquem claramente formuladas e expressadas para que seu sentido possa ser entendido e compreendido com facilidade. Não é assim caro Proust?
Você até descobre ou pensa que tem um determinado estilo de escrever, como se isso fosse parte de uma certa elegância. Uma espécie de clube que alguns frequentam… Reconheço então que nesses posts publicados tentei encontrar uma maneira de escrever, com humor mas, tendo o cuidado e respeitando às idéias e pensamentos dos outros. Nesses dois anos foram publicadas algumas entrevistas: Jean-Marie Dubrul, os amigos de João Ubaldo Ribeiro, Nilton Souza, Aleixo Belov. As entrevistas eram longas e foram divididas em partes o que dificultou um pouco a leitura mas por se tratar de Pessoas singulares e extraordinárias, para mim, naquilo que são e fazem, achei que valeu a pena.
Estou aprendendo também que escrever na época da internet e das redes sociais requer um certo pragmatismo e velocidade pois o pressuposto é que o produto da escrita “envelhece” imediatamente após ser publicado. Não é assim mestre Peter de Albuquerque? Isso requer uma postura para se adaptar a esses meios de comunicação onde as prioridades são rapidez e certa leveza na publicação. Requer esforço notadamente para principiantes, como eu.
É mais um aprendizado onde se pode sempre ser surpreendido com o inesperado das visualizações do post que acabou de publicar. Este, uma vez publicado, é como uma cria que se vai, caminhando por seus próprios pés e sem controle algum. Você pode no máximo, e apenas galhardamente, segui-lo e se divertir com os caminhos por ele percorridos…
Me vi também nesse período muitas vezes tentado a escrever sobre o Brasil e o buraco negro que conseguimos criar e nele se alojar, espalhando desesperança e descrédito em nossa capacidade de sobreviver e fazer um país melhor e menos indecente. Resisti.
Também me vi diversas vezes tentado a escrever sobre os homens e – como dizia o mano Caetano – seus podres poderes, espalhando o horror num planeta sem fronteiras chegando mesmo a duvidar que fazemos parte de uma “civilização”. Que civilização? Resisti.
Com o passar do tempo, descobri que havia dentro de mim algo intuitivo que me impedia de publicar no NuncaseSabe coisas sobre o lado negro da Força, seja ela no Brasil ou no resto do mundo. Aos poucos fui percebendo que esse espaço que criei é para o Sonho e não para o Horror. É para Alegria e não para a Tristeza. É para a Celebração e não para a Decepção. É para a Luz e não para a Escuridão.
Confesso que fui resistindo sem saber. Agora resisto sabendo… É muito melhor. É um ato consciente da vontade e portanto de escolha. Escolhi o lado menos obscuro da Força. Nada contra quem pense e faça diferente.
Finalmente espero me adaptar melhor em 2017, à necessidade de mais postagens com talvez menos conteúdo, sem perder a qualidade do texto, das imagens, nem as pretensões do blog. A tentativa, então, será de buscar captar o espírito das coisas e das pessoas de forma mais leve, ligeira e com graça, trazendo ao leitor algo que ele ainda não saiba e que possa se divertir com as leituras, os textos, as entrevistas e as opiniões trazidas por este aprendiz de escriba.
Meu desejo é que seja interessante esse futuro do presente para todos nós. Então que venham 2017, 2018, 2019, …
Axé
Beto Benjamin
Se o vento levou mesmo, eu não sei e nunca vou saber…
Só sei que os psicanalistas Carlos Mario Alvarez e Aluisio Pereira de Menezes levaram. Um monte de gente para assistir e discutir – sob o ponto de vista da Psicanálise – trechos do famoso épico americano lançado em 1939 E o vento levou…
Com marcações de teatro e música, o evento buscou fugir da “mesmice” que geralmente constitui os habituais seminários de Psicanálise. Conseguiu!
O encontro Psicanálise & Cinema foi promovido pela dupla Alvarez & Menezes que, num auditório no Leblon no Rio de Janeiro apresentou trechos do filme com intervenções, interpretações e debates sobre significados e mensagens para um grupo de pessoas que foi conferir as manhas, artimanhas, dramas, tragédias, receios, meneios, tateios e outros rodeios de Scarlett O’Hara – protagonista da película de Hollywood – que mais faturou no mundo. Foram mais de 4 bilhões de dólares a preços de hoje. É muito dinheiro para pouco vento…
Segundo Alvarez, “Promovi este evento porque acredito e sonho com ideias que nos transformem. Me sinto à vontade para aglutinar pessoas que tenham desejos como o meu. Busco o exercício da Psicanálise com toda a incerteza e contraditoriedade que ela porta. E o Vento Levou traz na figura da personagem Scarlett O’Hara o emblema de um feminino em construção, com seus paradoxos, incongruências e inconsistências, além de um arquétipo que insiste em não desistir.”
O filme possui cenas impagáveis interpretadas por seus principais atores: Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), Rhett Butler (Clark Gable), Ashley Wilkes (Leslie Howard), Melanie Hamilton (Olivia de Havilland) e a negra Mammy (Hattie McDaniel).
O drama épico, baseado no romance de Margareth Mitchell, carrega alguns fatos pitorescos:
- Foram entrevistadas pelo produtor David Selznick mais de 1.400 mulheres para o papel de Scarlett O’Hara. A escolhida foi Vivian Leigh;
- As filmagens esperaram dois anos para começar. O produtor não abria mão de ter o canastrão Clark Gable no papel de Rhett Butler;
- Foram necessários três diretores para que o filme fosse concluído;
- Recebeu treze indicações para o Oscar e levou dez, inclusive de “melhor filme”;
- A exibição dura quase quatro horas e sua estréia foi em Atlanta, Georgia, em 15 de dezembro de 1939;
- A atriz Hattie McDaniel que interpreta Mammy não pôde assistir ao lançamento por ser negra. Foi ainda, com esse filme, a primeira atriz negra americana a conquistar um Oscar;
- Ocupa até hoje o quarto lugar na lista de “Os Melhores Filmes dos Estados Unidos” do American Film Institute (AFI).
O filme se passa no século XIX e retrata da perspectiva sulista – escravagista – tanto o período que antecede e atravessa a guerra civil americana, como também o posterior. Conhecida como Guerra da Secessão, o conflito se deu entre os estados do sul (Confederados) e os estados do norte (União), durando de 1861 a 1865 e terminando com a vitória dos nortistas e a abolição da escravatura.
Mostra ainda toda a riqueza, pompa e sutileza da vida dos barões nas “plantations” de algodão da época que viviam da exploração da mão de obra escrava nas plantações e claro, não queriam abrir mão daquele “status quo” – razão da guerra civil – que custou a vida de 600 mil pessoas.
Na sessão promovida pela Psicanálise & Cinema, Alvarez & Menezes deram interpretações psico-analíticas de algumas cenas dos personagens, das suas relações e conflitos conduzindo com vivacidade os debates com os presentes, estimulando as suas manifestações. Alguns participantes deram mostras, com suas intervenções, de que também eles concordavam que o que rolava por trás daqueles dramas era mais coisas do que simplesmente o vento…
Dentre as várias sacadas sobre o filme e seus personagens destaca-se a pulsão pela vida, num eterno recomeçar, mostrando que a sobrevivência é uma força monumental para a Humanidade seguir existindo, a despeito dos obstáculos, das dificuldades, das lutas, das vitórias e das derrotas. O filme deixa muito claro que é possível, sempre, recomeçar…
Essa parece ser a mais significativa de todas as mensagens – conscientes e inconscientes – do filme. Mesmo quando tudo está perdido! Para isso basta sonhar, acreditar e enfim recomeçar. Já que o vento levou, resta como diz o popular ditado “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”… Isso a Scarlett O’Hara faz com grandiosidade…
Cenas do Seminário Psicanálise & Cinema
O evento teve também a curiosa e surpreendente participação da jovem atriz Isadora Ruppert de 17 anos, que vestida com trajes de época fez o papel de uma Scarlett O’Hara do Leblon – recitando falas escritas por Carlos Mario Alvarez.
Teve ainda a participação do músico das ruas do Leblon Christian del Rio que tocou violão no intervalo.
A cena final – para delírio de todos, psicanalistas ou não – é freudiana, literalmente. Nela, Scarlett, prostrada, ouve a voz de Gerald O’Hara, seu pai morto… O pai (ou a mãe), sempre ele (ou ela)!… Puro Édipo… Quer mais Freud do que isso? Deixa o vento levar…
Concluindo – depois de tudo que vi e ouvi no original evento -, dou a minha interpretação parodiando a já célebre frase:
não foi o vento, estúpido. Foi o olhar!…
Beto Benjamin
Nota: Fotos por Alexandre Resende
Na língua tupi Boipeba significa “cobra-chata”, denominação indígena para a tartaruga marinha da região! Confesso que não vi nenhuma – tartaruga ou cobra-chata – mas, sei que vivem e passeiam por ali. Afinal, é a praia delas e os invasores somos nós!
Tirando isso, quando se fala em viajar para a ilha de Boipeba, lembro-me logo do ditado baiano: “Só vai lá quem tem negócio!” Expressão que significa “é um pqp para chegar“. Não é para você desistir do passeio porém, a expressão de fato representa a realidade para os viajantes – amadores ou profissionais – curiosos, aventureiros ou simples buscadores de novidades (des)conhecidas!…

Localização
Dependendo de onde você vem a viagem pode levar algum tempo. Vejamos: nem fica tão longe de Salvador. No entanto, a travessia da capital baiana até Bom Despacho, na ilha de Itaparica é um verdadeiro “perrengue” por causa de um ferry-boat obsoleto. Ninguém merece isso mas, a travessia de navio economiza mais de 100 km para quem sai da capital pois não precisa dar a volta no Recôncavo Baiano! Também outro lugar bom para se perder! Mas isso daria outro post!
Com sorte, a travessia via ferry pode levar uma hora. A nossa levou uma hora e vinte minutos. Daí, de carro mais uma hora e meia para chegar a Valença. Deixa-se o carro num dos “estacionamentos improvisados” e apanha-se a “lancha rápida” para Boipeba. Pronto, ainda não chegou mas está quase lá. A viagem marítima – agradabilíssima por sinal – nos rios que parecem um mar sem fim, leva cerca de uma hora.
Ainda bem, pois essa compreensível “dificuldade” para chegar, parece que foi obra dos Avatares e Orixás de Boipeba. Eles se juntaram e teceram, com o tempo, uma invisível teia de proteção em torno da ilha, para aranha nenhuma botar defeito. Com cobras-chata ou não!
Evidentemente estou me referindo à sua natureza exuberante, abundante, belíssima, escancaradamente selvagem. De emocionar. Não estou exagerando não! Lá, conheci gente que foi passar um fim de semana e não saiu mais… A bela ilha não só atrai. Encanta e enfeitiça… Quer mais?
É mesmo. Boipeba não está para brincadeira. Se resolver se aventurar, aconselho deixar seus demônios – conhecidos ou não – lá fora, no continente, do outro lado da ilha. Por dois motivos: não vai precisar deles e pode resgatá-los no regresso. Se voltar!… É um aviso aos navegantes!
Nesse lugar, deveras fascinante é impossível passar incólume! Melhor então mergulhar logo no “clima”, se atirar de verdade no mar que lhe banha um dos flancos e percorrer – como se um desbravador lusitano ou holandês fora – os rios e estuários que abundam em torno da ilha. Certamente foi isso que os conquistadores fizeram. E pelo que vimos e ouvimos, não se arrependeram!.
Portanto já que está saindo da “civilização”, aproveite e se “lambuze” nesse paraíso. Tome banhos de natureza, se embrenhe pela mata, caminhe de pés descalços pelas areias brancas das incontáveis praias, curta a escuridão do céu de estrelas numa noite de lua cheia, se ilumine de luzes, cheiros e cores. Volte o mesmo, mas volte outro!
Coma e beba bastante. Frutos do mar não faltam. Muitos deles… e bem frescos. Não fique aflito com tanta beleza, nem com olhar de “gente besta”. Ninguém fica e, não se morre por isso. Pelo menos ali em Boipeba.
Como diria meu amigo Paulo Peixinho, dono da Pousada Rhydayam: “Curta a viagem, que a viagem é curta!” Afinal é apenas uma “viagem”! Não precisa de nada mais… Só sua presença. O resto acontece… Celular? Facebook?
Esquece!
Ora, chega de “lero-lero”. Boipeba dispensa muita conversa e meu amigo Guido Magalhães Júnior – advogado ilustre em Valença – já me deu todas as dicas. No seu caso, se ainda não foi, basta apreciar as fotos e verá que as palavras são desnecessárias para descrever o cenário com tanta beleza e exuberância.
Relaxe e – tal qual um pau-brasil recém-descoberto – se aventure nesse paraíso e se dissolva nessa natureza. Pegue leve e se quiser, vire árvore na floresta, cobra-chata no mar, lagarto, golfinho nadando na baía, macaco-prego, teiú, carangueijo de mangue, peixe-espada, beija-flor, curva de rio, por-do-sol, estrela no céu, acidente de percurso, estátua, qualquer coisa. Vire até paisagem! Depois, conte para seus amigos, como foi… Eles vão adorar!
Um programa imperdível é ir comer a lagosta do Guido na praia de Cueiras bem perto da Pousada Mangabeiras. O Guido, o de Boipeba não o de Valença – e suas histórias – é um personagem engraçado, indescritível e imperdível. Cuidado com a cachaça que ele oferece. Não é para amadores. Derruba rapidinho… O festival de lagostas que ele prepara, inesquecível!
Outro passeio obrigatório é pegar uma lancha e dar uma volta na ilha. Recomendo a lancha do Expedito (http://www.costadodende.com.br). Grande Expedito! Um daqueles “marinheiro-empresário”, boa-praça, nativo, tem uma simpatia que lhe conquista logo. Além de ser um cuidadoso marinheiro e comprometido com o meio ambiente, conhece tudo e toda a história de Boipeba. Sua lancha é de primeira e a viagem deliciosa. Vai-se parando nos lugares mais interessantes. Expedito sabe muito bem quais:
- Caminhar pela Praia do Moreré -uma das mais extensas da ilha – com suas areias brancas. Dar um mergulho em suas piscinas naturais (não esquecer o equipamento de snorkel) e depois comer uma bela moqueca – seja lá do que for – na Barraca existente na praia.
- Também para caminhar, outra praia deliciosa e vizinha a Moreré é Bainema.
- Em seguida vem a Praia e a Ponta dos Castelhanos na foz do Rio Cajú com suas piscinas naturais e com menos afluência que Moreré pois a turma que vem de Morro de São Paulo – ilha vizinha e mais famosa – baixa lá o tempo todo. Em Castellanos você pode tomar umas caipiroscas de cacau e outras frutas menos conhecidas.
- Depois vem mais caminhadas e banhos de mar – imperdíveis na maré baixa – nas duas coroas: Coroa Grande e Coroa Pequena. A lancha fica ancorada e você pode desfrutar durante horas os bancos de areia que a natureza foi criando ao longo do tempo.
- Um pouco mais adiante, na foz do Rio dos Patos, ficam alguns quiosques onde são preparadas pelos nativos umas caipiroscas maravilhosas.
- Outro passeio de lancha, você ainda pode saborear as famosas ostras e lambretas do barco de cimento – construído por um italiano e de propriedade de “seu” Gilmar – que fica ancorado numa parte do rio em que as três ilhas Boipeba, Tinharé e Cairu se “encontram”, defronte a ponta dos Tapuias.
Em Boipeba existem pousadas para todos os bolsos. Já fiquei em algumas mas, dessa vez ficamos nas Mangabeiras (http://www.pousadamangabeiras.com.br). Se situa no alto e fica um pouco distante da vila – 20 minutos andando – mas tem todo o conforto. Bem projetada e cuidada, é arejada, agradável e com uma excelente piscina. As paisagens da ilha descortinadas do alto da pousada são de tirar o fôlego!

Pousada das Mangabeiras
Não deixe também de subir até o mirante do Quebra-Cu! É isso mesmo, Quebra-Cu. Não precisa ficar nervoso nem se preocupar com a sonoridade do nome. Basta subir o morro. De lá, você terá verdadeiras visões desse Paraíso. Experimente!

Vista do Mirante Quebra-Cu
Fotos de Joana Benjamin, Beto Benjamin, do site Viagens Cinematográficas e do site da Pousada Mangabeiras
Mais um show de interpretação do Ricardo Darín! E não apenas dele!
A partir de um pano de fundo tenebroso – a triste história de como a ditadura argentina se livrava de seus adversários lançando-os vivos ao mar – o diretor Sebastián Borensztein consegue prender a atenção do espectador do princípio ao fim do filme, numa trama que mistura suspense, amor, sofrimento e drama.
Mesmo sem ir a fundo na questão da tortura e de como os militares argentinos pintaram com cores negras um período de sua história, a película hispano-argentina traz à lembrança e deixa seu registro sobre a estupidez e a violência sanguinária da ditadura que sob o pretexto de evitar o comunismo, desencadeou uma das mais brutais repressões na América Latina.
Certamente os adjetivos “estúpida e sanguinária” – e muitos outros infelizmente – se aplicam a todas as ditaduras sem distinção. Parece também que o mundo todo já teve sua dose delas, desgraçadamente. Algumas ainda continuam, disfarçadas ou não!
As cenas que denunciam os famigerados “voos da morte” embora breves e intercaladas em doses homeopáticas no filme Kóblic – personagem do Darín e sobrenome do capitão da Armada que pilotava os aviões encarregados da matança – revelam com clareza ao espectador a dimensão daquele horror revoltante.
O filme se passa na cidadezinha de Colonia Elena nos cafundós dos pampas argentinos, para onde fugiu tentando se esconder dos colegas militares – e talvez de sua própria consciência – o capitão Kóblic. Como afirma o próprio Darín: “não é um filme sobre a ditadura e sim sobre o atormentado peso que o ex-capitão carrega em sua alma, por ter chegado ao ponto de participar de tudo aquilo”…
Chamo a atenção para o ator Oscar Martínez. Não fora Darín o protagonista, seria certamente ofuscado por Martínez no papel do comissário Velarde – delegado de polícia de Colonia Elena.
Seu desempenho tremendamente premeditado, iracundo enfim, magistral cai com uma luva no filme, compondo com Darín talvez o principal elemento da tensão criada do princípio ao fim.
Quem teve a oportunidade de conhecer a onipotência, a truculência e a violência de que é capaz um delegado de polícia de cidade do interior “tira o chapéu” para a formidável atuação de Martínez. Não foi à toa, que com esse papel foi agraciado com o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Cinema de Málaga.
Do mesmo modo se sobressai a participação – secundária mas, não menos importante – da atriz andaluz Inma Cuesta no papel de Nancy, uma jovem explorada – literalmente em todos os sentidos – por uma figura verdadeiramente repugnante e muito bem retratada no filme.
O filme Kóblic recebeu ainda o prêmio de melhor fotografia no Festival de Málaga. Não deixe de ver e julgue você mesmo.
Abaixo o trailer:
Tendo falado do Armazém no post anterior, não poderia deixar de falar d’O Porto, cidade que deu origem ao nome de Portugal, onde vivem 230 mil pessoas, cortada pelo Rio Douro e suas pontes belíssimas – verdadeiras obras de arte da engenharia -, por onde circulam anualmente milhares de turistas do mundo inteiro.
Com seu centro histórico reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO a partir de 1996, O Porto é uma das cidades mais importantes e interessantes de Portugal.
Não pretendo fazer um tour sobre a cidade neste post mas destacar alguns monumentos, igrejas e museus que me chamaram a atenção num passeio simples e despretensioso pelas ruas d’O Porto. Eles falam por si só.
É um sem fim de construções – históricas e modernas – que atraem qualquer visitante e contam um pouco da evolução dessa vibrante cidade portuguesa, com certeza!
Confiram as fotos abaixo da Estação Ferroviária de São Bento, a Catedral da Sé, a Torre dos Clérigos, a Livraria Lello e Irmão, o Museu Nacional de Soares dos Reis, a Casa de Serralves.
Para não ficar apenas nos aspectos históricos d’O Porto, também acabo de presenciar a sexta edição de um Festival de Música que ocorre anualmente e que eles chamam de NOS em D’bandada.
É um festival onde dezenas de bandas, cantores, performistas, artistas etc. tomam as praças da cidade e enchem os espaços de música, vibração e muita alegria. Dura o dia inteiro.
Fiquei com a impressão que NOS em D’bandada não é um festival que dura apenas um dia e uma noite. É um modo de ser de uma cidade alegre, vibrante, cheia de ladeiras, subires e desceres – veja que estou falando apenas do centro histórico – formando um vai e vem alegórico e lúdico de incontáveis pessoas – nativas e turistas – que vem visitar O Porto e se deliciar com esse banquete musical, visual, auditivo, culinário e naturalmente regado a muito vinho… Vejam fotos do Festival:
O passeio noturno pelas ruas e vielas pode lhe proporcionar ainda surpresas como a súbita aparição – ao cruzar uma rua qualquer – de um conjunto de fados numa sacada de um casarão e se deliciar com belos e autênticos fados e músicos de primeira. Tudo de graça. Coisas d’O Porto.
As Igrejas – são dezenas – os museus, os monumentos, os conventos, as pontes. Sim, as pontes que atravessam o Douro devido à suas alturas possibilitam vistas belíssimas das duas margens do rio, da cidade d’O Porto e da cidade de Gaia, onde se localizam as caves dos vinhos fabricados na região do Douro.

Não dá vontade de visitar ou viver num Porto desses?
Inaugurando a galeria de Lugares Extraordinários do Nunca se Sabe, quero mostrar para vocês a minha última descoberta: O Armazém! Olhando a foto da fachada talvez não dê para desconfiar o que está por trás. Às vezes somos mesmo surpreendidos pelo que as aparências podem guardar, disfarçar e até mesmo esconder? Não é? Pois esse é exatamente o caso.
Temos que agradecer ao hotel em que estávamos hospedados na cidade do Porto em Portugal – muito bem diga-se de passagem – não dispor de mais uma noite para nos abrigar. Dispensado, não foi difícil atravessar a rua e – par hazard como bem dizem os franceses – dar de cara com o Armazém! Claro, depois de um fora daquele merecíamos algo muito melhor. E foi. Já na entrada nos conquistou. Parecia que estávamos entrando num museu de arte moderna… Foi amor à primeira vista…
O lugar, assim denominado, era outrora um velho depósito onde se armazenava ferro no século XIX que com o tempo se transformou em ruínas até que há três anos, a vontade e o bom gosto da empresária portuguesa Fernanda Gramaxo o tornou no Armazém luxury housing. Explico: um lugar romântico, fino e sofisticado para se hospedar em grande estilo sem ter que recorrer aos – muitas vezes impessoais – hotéis de muitas estrelas e ainda mais cifrões. Um achado!
Posso assegurar que é um grande programa, uma aventura e seguramente uma delícia de passeio se hospedar alguns dias em pleno centro histórico de uma cidade antiga e interessantíssima, como O Porto, sem precisar de carro e – acredite se quiser – se sentir “em casa”. Não é pouco! Faz diferença em qualquer viagem e fez bastante na nossa!
O projeto arquitetônico do Armazém transformou as antigas ruínas em instalações modernas e minimalistas, com os espaços pensados e aproveitados de maneira original e requintada – as paredes, os detalhes, as peças de decoração, os móveis, os quadros, a iluminação natural , até o poço do elevador é diferente – para serem apreciados como se apreciam obras de arte.
Exagero? Pois pois, fomos tão bem recebidos que para não correr o risco das palavras não corresponderem aos sentires proporcionados pela visão fica a cargo da “viagem visual” de cada um nas fotos deste post, as sensações do simples e as emoções do belo a que me refiro. Simplesmente nos encantou…
Para quem não sabe o Armazém fica muito bem localizado no meio do “buxixo”, no bairro da Ribeira, n’O Porto – uma das mais antigas e belas cidades de Portugal – com um acervo histórico monumental e com noites animadíssimas. Haja fados, bandas de rock e pop, além de outros ritmos próprios da Terrinha. Fundada na idade do bronze no século VIII A.C. denominada Portus Cale, O Porto viria posteriormente a designar o país que nos descobriu e colonizou.
Fernanda Gramaxo devidamente escudada por duas belas filhas – Carlota e Frederica – é quem conduz com maestria aquela pequena orquestra a quem debito o acolhimento, a finesse e a sensação de “estar em casa” de quem ali se hospeda.
A equipa – é assim que se fala equipe em Portugal – liderada por Fernanda ainda conta com Thiago um brasileiro que vive no Porto há alguns anos onde também é professor de Yoga.
Falando de comida, o pequeno almoço do Armazém– como os portugueses chamam o nosso café da manhã – pela qualidade e variedade dos produtos que são oferecidos, de pequeno não tem nada. É na verdade um delírio gastronômico matinal para quem aprecia a arte de comer bem e necessita de energia para enfrentar os subires e desceres das incontáveis ruas, vielas e escadarias da cidade. Comemos a beça!
Um fato nos chamou a atenção. A Fernanda ainda foi capaz de descolar uma reserva para jantar no DOP, restaurante do famoso e muito elogiado chef luso Rui Paula (http://ruipaula.com/web/) – aqui no Brasil abriu em 2013 um restaurante no Recife, em Pernambuco que leva o seu nome – e difícil de conseguir. Bem que tentamos. Nada. Parecia missão impossível. Não para Fernanda: Conseguiu nossa reserva e valeu o esforço pois a comida do DOP (fotos abaixo) é maravilhosa. Quanta à ela, depois dessa proeza, ficou claro que seus braços se estendem muito além do Armazém… Para alegria de seus hóspedes, não?
O Armazém abriu suas portas há pouco mais de dois meses e está sendo bastante disputado por gente do mundo inteiro. Pelo que vi escrito em vários idiomas no Livro de Registros, a Fernanda não tem que se preocupar em atrair clientes. O “boca-a-boca” se encarregará!
Agora chega de elogios! Faça assim: convide o seu amor – seja lá quem for – como diz a música, prepare as malas – sem exageros – e se planeje para passar umas férias nesse lugar romântico dessa cidade vibrante. Se come muito bem e se bebe melhor ainda. Festa e animação não faltam. Posso assegurar: não vai se arrepender!
Mais detalhes no site www.armazem.com.pt. Atenção que são apenas nove apartamentos à disposição. E como diz Fernanda, “cada quarto tece sua própria narrativa que descansa a alma e desperta os sentidos”.
E O Porto? Bom, isso é motivo para outro post ! Até.
Nota: Fotos de Beto Benjamin
Nunca se Sabe