Vera Gertel é uma de minhas colegas há muitos anos, na turma de alongamento com o Jean-Marie, na Sauer Danças, no Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Discreta, tranquila mas sempre presente, é uma das “queridinhas” do nosso mestre.
Sempre escutei do Jean: “Olha essa menina aí na sua frente, veja como ela está fazendo… olha que beleza de movimento, que perfeição!…” Por isso mesmo sempre prestei a atenção nessa “menina”. Detalhe: Vera tem 79 anos! Esbanja vitalidade e “joie de vivre“! Um exemplo para todos nós…
Não podia imaginar a vida interessante que ela teve como grande atriz, militante e jornalista. Muito menos que tivesse escrito um livro, quase uma auto-biografia: “Um gosto amargo de bala“. Relato de suas memórias que repassa o Brasil político, artístico, cultural e principalmente episódios da esquerda brasileira de 1930 a 1970 com os principais personagens que compunham o mundo em que ela vivia. Surpreendente, não é?
Filha de pais comunistas, deveria ter sido chamada de Anéli – homenagem da mãe à frente política Aliança Libertadora Nacional (ANL). Pode? Por sorte, o pai, temendo complicações futuras, a registrou como Vera Gertel. Nem por isso deixou de ser uma ativa militante do Partido Comunista Brasileiro, durante muito tempo.
Formou no final da década de 50, com os atores e camaradas Oduvaldo Vianna Filho – que seria também seu marido (1936-1974) – e Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) o Teatro Paulista do Estudante que em seguida viria a se juntar ao Teatro Arena.
Aos 20 anos de idade, com Oduvaldo Vianna teve seu único filho batizado de Vinícius, homenagem ao poeta e amigo. Casou-se mais duas vezes: com o compositor Carlos Lyra e com o jornalista Jânio de Freitas.
No teatro, tanto em São Paulo quanto no Rio, teve papéis de destaque e muito reconhecimento de público e da crítica. Na peça “Eles Não Usam Black-tie” teve sua interpretação elogiadíssima pelo então temido crítico Paulo Francis. Outro momento importante foi em 1968, quando sua atuação na peça “O Jardim das Cerejeiras” obteve o reconhecimento e aplauso de outro crítico de renome, Yan Michalski.
Vera conheceu, contracenou e conviveu com figuras importantes do cenário artístico brasileiro como: Augusto Boal, Chico de Assis, Zé Renato, Araci Balabanian, Miriam Mehler, Eugênio Kusnet, Leila Abramo, Milton Gonçalves, Flavio Migliaccio, Henrique Cesar, Celeste Lima, Nelson Xavier, Riva Nimitz, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Vinícius de Moraes, Nara Leão, entre tantos. Muitos deles, personagens marcantes de seu livro de memórias.
Um belo dia perguntei se ela não queria dar uma entrevista para o NuncaseSabe. Topou na hora e no meio de uma tremenda barulheira, com entrada e saída de gente da Sauer Danças, Vera se permitiu deslizar suavemente impressões sobre a vida e o tempo, sem poupar opiniões.
A seguir, a entrevista de Vera Gertel.
Beto Benjamin (B.B.): Vera, por que você faz alongamento com o Jean-Marie?
Vera Gertel: Esse trabalho me torna ativa, ágil na minha idade. A medida que eu envelheço, quero me sentir com saúde. Esse trabalho tem muito a ver com saúde. Eu tenho bursite mas, não me incomoda tanto. Apenas na hora do exercício porque eu tenho que forçar os ombros, mas à medida que eu ganho musculatura a bursite me incomoda muito menos. Nessa aula, o que muita gente não sabe é que ela dá musculatura, nos alongando. A idade traz alguns problemas evidentemente. A aula do Jean-Marie, que é muito cuidadosa e que frequento há mais de doze anos, combate isso.
B.B.: Como descobriu o Jean-Marie?
Vera: Foi uma recomendação. Eu fazia musculação mas não gostava. Aquela repetição dez, vinte, cem vezes. Aquilo me matava de tédio! Não é o caso nas aulas de Jean-Marie. No máximo ele repete um movimento três, quatro vezes. Logo está pulando para outro, mais duas, mais três, mais quatro vezes. O movimento muda o tempo todo e isso não nos deixa cair no tédio. A aula dele é como a vida: cheia de acontecimentos inesperados.
B.B.: Você disse que tem que idade?
Vera: Eu não disse, mas já que perguntou, tenho 79 anos.
B.B.: É notável lhe ver com essa disposição. É um grande estímulo para todos nós!
Vera: A vida sedentária não é normal. Não é para os animais e não é para o ser humano. Tem que mexer o físico. Seja como for. Tem que estar em movimento.
B.B.: Que significado você daria para o tempo?
Vera: Agora que estou aposentada, a minha vida nunca foi tão boa! Não penso que seja digno ter que trabalhar para viver, para sobreviver, para comer. Embora seja uma obrigação. Nunca achei que o trabalho dignifique o homem. O ócio dignifica mais. É mais criativo. O trabalho é sempre por “encomenda”. A maioria das pessoas é empregada, faz trabalho sob “encomenda”.
B.B.: O livro que você escreveu “Um gosto amargo de bala“. Qual o gosto dele hoje? 
Vera: O livro é um desabafo. Pela vida difícil que um país como o Brasil oferece para as pessoas. O brasileiro não merecia o país que tem, os governos que tem, as ditaduras que tem. O Brasil tem um povo muito trabalhador e obediente. Esse povo merecia um país melhor. Não gosto de viver num lugar onde a maioria do povo vive na pobreza. Em que as oportunidades não são as mesmas. Um país onde existe uma elite – da qual eu faço parte como classe média – que tem oportunidade de estudar, de crescer na vida, enquanto convivemos com gente que não tem as mesmas oportunidades. Que nasce pobre e vai morrer pobre por falta delas…
B.B.: Compare o Brasil de hoje com o da sua juventude?
Vera: A maior parte de minha juventude vivi os governos democráticos, como o de Juscelino Kubitscheck e de Jango Goulart. A partir daí, o golpe militar cortou o sonho de nossa juventude. O Brasil estava se descobrindo no final da década de 50. Estava descobrindo uma personalidade e uma identidade próprias. Foram os anos em que apareceram o Cinema-Novo, a Bossa Nova, o Teatro Novo brasileiro com peças nacionais, os museus de arte… Tudo isso nasceu nessa época e acho que esse movimento de busca de uma identidade foi cortado a partir de 64 com o golpe militar. Nenhum país merece uma ditadura. A democracia, que nunca é perfeita em lugar nenhum, é melhor. Não se inventou nada melhor, até hoje – que a democracia – para os povos viverem. Você ainda pode votar. Escolher seus políticos. Mesmo que escolha mal, pode ver que errou depois e, corrigir. Pode se manifestar. Numa ditadura não tem nada disso. A ditadura militar cortou o meu sonho de juventude que era um sonho artístico…
B.B.: O Brasil se desencontrou?
Vera: Só vou pensar que o Brasil se encontrou verdadeiramente quando o povo deixar de ser pobre e miserável. Quando se tiver mais justiça social. Quando não tivermos mais uma elite extremamente poderosa, que manda no país, enquanto noventa e nove por cento do povo está “ferrado”. Aí ele se encontrou. Para mim, é uma busca. Não se pode desistir dessa procura.
B.B.: Que lembranças tem do tempo como atriz?
Vera Gertel em diversas passagens como atriz (Fotos arquivo Vera Gertel)
Vera: Fui atriz, mais ou menos, por acaso. Gostei muito dessa época. O teatro para mim tinha um objetivo. Era um teatro que fazia as pessoas pensarem. O teatro lançava ideias para a plateia. Fazia a plateia pensar. Era um teatro mais criativo. Pensar é criar.
B.B.: Está escrito no seu livro que você nasceu de pai e mãe comunistas. Parece ter sido uma carga pesada para você. Foi?

Vera: É uma carga pesada. Porém pesa ainda mais, se você discordar de pai e mãe… (risos). Não foi o meu caso! Eu entendia e aceitava perfeitamente aquilo. Agora é um peso porque a coisa mais importante para um comunista é a justiça social. Não é propriamente o que está perto dele. É um sonho, um ideal que ele tenta alcançar.
Pesou o fato, por exemplo, de meus pais acharem que a antiga União Soviética era um paraíso, quando na verdade, não era. Isso pesou não apenas para mim. Para eles também. Descobriram que não era bem isso. Foi uma desilusão. Era uma utopia que continua sendo até hoje. Aquele sonho marxista de uma igualdade social, foi desvirtuado, não aconteceu. O que houve na verdade, foi uma ditadura e infelizmente por causa de Stálin que era uma personalidade doentia, sanguinária. Muita gente morreu na antiga União Soviética.
B.B.: Como criou seu filho?
Vera: Criei meu filho com liberdade de pensamento. Por exemplo, ele é filho de santo, gosta de candomblé. Sem nenhum preconceito. Mais livre politicamente. Ele pode pensar por ele mesmo. Aprendi uma lição.
B.B.: No livro você faz relatos de viagens à Europa. Que impressões ficaram?
Vera: Me espantei pelo fato de países capitalistas como França, Inglaterra etc. terem uma igualdade social maior do que os países socialistas que visitei. Nos países socialistas se tinha uma elite menor mas era uma elite burocrática que pertencia ao partido. Partido único, o que para mim já era um erro. O resto do povo, mesmo que não passasse fome, que tivesse onde morar, cuidados médicos, educação etc. ainda assim, era muito pobre.
Fiquei espantada com Praga, capital da Checoslováquia. O país era muito industrializado até a Segunda Guerra Mundial. Foi ocupada pelos nazistas e quando visitei o país muito após a guerra vi que não era tão industrializado assim. Não tinha os principais produtos de consumo para vender. Isso me espantou muito. Tudo era muito pobre! Na verdade o que aconteceu foi que as indústrias checas foram desviadas e utilizadas para fabricar o armamento pesado que a União Soviética precisava. As indústrias não estavam sendo utilizadas para o progresso do próprio país. Claro, existiam produtos para vender no comércio mas faltava muita coisa. Isso penso ser um erro da economia socialista, a carência das coisas. O Estado escolhe o que será ou não produzido!
B. B.: Veja só a guinada que a China deu para resolver esse problema!
Vera: Sem dúvida. Imagina a população da China reclamando dos bens que necessita. Que não queria andar a vida toda de bicicleta… Então na China de hoje temos é um capitalismo de Estado.
B.B.: O ambiente cultural do Brasil de hoje é muito diferente do seu tempo?
Vera: Entrou na moda – aliás, é um negócio altamente rentável – chamado entretenimento, que se confunde com cultura. Não é cultura. Ele está dominando. O teatro brasileiro está sendo dominado por um tipo de musical cópia da Broadway. Acho que tem lugar para tudo mas, esse teatro está matando…
Essa lei Rouanet tinha que ser aperfeiçoada. Quando se busca patrocínio para um espetáculo só consegue se for para montar um musical que seja rentável. Você não consegue patrocínio se montar uma peça cultural, montar um Chekhov, Strindberg porque não se sabe se será rentável ou não. A cultura não tem a obrigação de ser rentável. Certas atividades culturais deveriam ser patrocinadas pelo Estado. Talvez não integralmente mas, pelo menos uma parte.
Na minha época de teatro a gente vivia de bilheteria mas, vivia também de prêmios, ou seja, as melhores peças ganhavam vários prêmios. Tinha o Prêmio Saci, que era privado. Tinha o Prêmio dos Críticos do Estado, que era do estado. Tinha prêmio da Prefeitura que era do município. Esse dinheiro servia para a produção do espetáculo que por sua vez, vivia de bilheteria. O problema era que tínhamos nove sessões por semana. Uma única folga que era na segunda feira. Uma verdadeira pauleira. De terça a domingo, como duas sessões na quinta e tinha público. Lotava nos fins de semana.
B.B.: Você morou também em São Paulo. Como compara com o Rio?
Vera: Completamente diferente. O Rio é uma cidade mais criativa, mais solta, mais democrática. Até porque no Rio a gente mora entre as favelas. A gente está mais em contato com a realidade do povo brasileiro. Está na nossa cara. São Paulo não tem isso. As favelas estão na periferia. O paulista não vê a miséria, não vê a pobreza.
Mas, não é só isso. Eu estranhei muito quando vim para o Rio. O paulista, de certa forma é mais eficiente porém menos criativo. Eu acho. O paulista é mais enquadrado na ordem pública. O carioca é mais baiano… (risos). Mais solto. Não tem tanta obrigação assim de te servir quando você pede uma coisa. Ele vai te servir mas, no tempo e na vontade dele. Tem isso. De certa forma isso é bom. Também acho que o carioca trabalha mais que o paulista e ganha menos. Sempre foi assim…
B.B.: Sobre o que você falaria se tivesse que escrever outro livro?
Vera: Eu tenho o bicho do jornalismo. Para mim fazer ficção deve ser muito difícil. Talvez eu escolhesse outro enfoque. Não sei. Alguma coisa que tivesse a ver com o real, com o que acontece.. Eu gostaria mesmo era que o brasileiro lesse mais. A leitura é tão libertadora. Se as pessoas tivessem o hábito de ler, elas descobririam o tanto de lazer que a literatura traz. Ela oferece muito mais do que o cinema, a televisão, o teatro mas, muito mais. Você viaja na leitura. Vive mundos completamente diferentes do seu. A leitura se estende demais. Ela se amplia. Pode-se ler a qualquer hora do dia ou da noite. Em qualquer lugar. Pode fazer o que você quiser. Ela se expande e traz muito mais conhecimento. O conhecimento também é libertador…
A cantora Andrea Ferrer retorna ao NuncaseSabe com uma composição de sua autoria em parceria com Luca Maciel intitulada Pertinho, num clipe gravado num parque de diversões em Salvador.
No policrômico vídeo criado por Pico Garcez, Andrea desliza sua voz suave num painel de noturnas cores e efeitos luminosos, cantando amores, revelando sua alma poética num caminhar sem fim!
Andrea fará shows com Misael da Hora ao piano no Rio de Janeiro, dias 17 de setembro e 8 de outubro de 2017, às 21:00 h no Beco das Garrafas – Little Club – Rua Duvivier, 37 – Copacabana.
Ouça o último álbum de Andrea Ferrer:
Confiram o clipe e vejam mais sobre o trabalho da artista no site: https://www.facebook.com/andreaferreroficial/?fref=ts
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A pesada aeronave teve sua velocidade reduzida após perder um dos motores. O outro rateava enlouquecidamente pois fora atingido. A fuselagem estava irreconhecível, toda esburacada pelos tiros recebidos. Com isso, o B-17 foi ficando para trás da formação protetora dos demais bombardeiros, que tendo sobrevivido aos ataques, iniciavam a difícil viagem de regresso às suas bases na Inglaterra.
Os caças amigos tiveram que regressar mais cedo devido à sua limitada autonomia de vôo, bem como aos fortes ventos contrários, que enfrentariam no retorno à Inglaterra, o que aumentava o consumo do combustível dos caças. Era a meteorologia que, além de não ajudar, contribuía para deixá-los sem cobertura aérea, à mercê dos inimigos.
Não havia muito o que fazer. Aos poucos observaram os demais bombardeiros desaparecerem no horizonte, abandonando-os à própria sorte. O The Pub se arrastava literalmente pelos céus do norte da Alemanha mas, não estava sozinho. Tinha como parceiro de infortúnio a companhia de outro B-17, também severamente danificado, vítima das baterias alemãs.
O solitário par relutava em entregar os pontos e teimava em voar juntos – como se merecessem a propriedade daquele pedaço de céu inimigo na Alemanha. Viam claramente o sonho de chegar à costa inglesa – mesmo que aos pedaços – se desvanecer, pelas circunstâncias e pelo acaso.
Estavam condenados e os caças alemães, que pairavam no alto como verdadeiros abutres metálicos, apreciando aquela cena se aproximaram rapidamente do par de bombardeiros – como uma matilha faminta prestes a estraçalhar sua presa – para completar o serviço. Era a vingança dos alemães pelo golpe mortal que acabavam de sofrer.
Olho por olho, dente por dente…
Somente a habilidade, sangue-frio e o instinto de sobrevivência do piloto Charlie ainda conseguiam manter seu B-17 bastante avariado sacolejando no ar (viram a foto no alto?), numa desesperada tentativa de fuga do inferno que foi o ataque à fábrica de caças em Bremen.
Confirmando o mau presságio, o avião que lhe fazia companhia logo teve sua trajetória interrompida pelos tiros certeiros das baterias antiaéreas combinados com os dos caças alemães Focke-Wulf 190 que o acossavam sem piedade. De repente, ele desapareceu explodindo dentro de uma nuvem, não dando tempo para os tripulantes saltarem…
Certo de que estava no lugar e na hora errados, o piloto Charlie Brown não hesitou diante dos aviões inimigos que se aproximavam. Tomou uma decisão radical para enfrentar o primeiro ataque vindo de dois dos oito caças, que pairavam acima do seu avião disputando a honra de abatê-lo.
Charlie fez uma manobra solerte, corajosa e arriscada com seu avião. Mudou bruscamente a direção do bombardeiro usando toda a potência dos motores que ainda tinha. Virou seu avião e mirou os dois aviões inimigos de frente, invertendo as posições – nem que fosse por um breve instante – de caça e de caçador. Me perdoem o infame trocadilho numa hora dessas…
Vocês podem imaginar essa cena e a surpresa dos pilotos alemães diante de tanta audácia e desaforo?
Pegos de surpresa com o tamanho do atrevimento do piloto americano, um dos caças alemães disparou o quanto pode suas metralhadoras atingindo a fuselagem mas, sem conseguir nocautear o infeliz bombardeiro, pois a manobra repentina feita por Charlie reduziu a área a ser alvejada. Funcionou. Escaparam da primeira investida alemã. Foi um golpe de sorte e destemor.
Àquela altura do jogo, ponto para os americanos…
Animados pela proeza e valentia do seu comandante, com a extraordinária e primorosa manobra, os artilheiros americanos que não estavam feridos ou mortos, tiveram a sua vez. Dispararam suas metralhadoras com vontade contra o segundo caça, pondo-o fora de combate. Mais um ponto para os americanos…
A tripulação queria mostrar claramente aos alemães que ia vender caro suas vidas.
Um terceiro caça mirou o nariz do B-17 e disparou acertando parte da estrutura do avião. Como não dispôs de muito tempo para atirar devido as “loucas” manobras do piloto americano foi pego em cheio pelo artilheiro que se localizava no nariz avariado do bombardeiro. Pronto. Se livraram de mais um. A briga estava começando a ficar menos desigual para ânimo dos americanos.
Aí aconteceu o pior. Os tiros dos caças alemães acertaram os controles de mais um motor – o terceiro, que funcionava congelado à meia potência – e o desditoso B-17 àquela altura contava com apenas dois motores. “Não tinha jeito. Era o fim mesmo, estávamos perto do desastre completo”, pensavam os tripulantes no meio da batalha aérea.
Para tornar a situação ainda mais dramática, o que se sucedeu foi simplesmente tenebroso para a tripulação do avião: apenas três das onze metralhadoras do B-17 estavam funcionando. As demais estavam fora de combate, congeladas por um problema que ocorreu devido a um erro no óleo de lubrificação antes de partirem para o ataque. Claro, a verdadeira razão só viria a ser descoberta mais tarde. Naquele momento, para o The Pub, era mesmo The End… Uma briga desigual, desgraçadamente perdida nos céus invernais da Alemanha.
Um problema dessa magnitude com as metralhadoras era algo impensável a essa altura do campeonato. Só restava mesmo entregar as almas a Deus…
Os alemães por sua vez queriam dar o troco e varrer de seus céus o que ficou para trás dos atacantes. Se aproveitaram da fragilidade da situação dos americanos e atacaram o B-17 e sua tripulação destemida com tudo o que dispunham.
No comando da aeronave americana Charlie se defendia com todas as forças que tinha, respondendo às investidas dos caças inimigos com manobras radicais de zigue-zague, súbitas mudanças de altitude e direção. As tentativas de defesa e as manobras evasivas foram surtindo efeito a cada ataque dos caças alemães, diminuindo a ferocidade e minimizando a efetividade de suas investidas. Evidente que os pilotos alemães estavam completamente perplexos e admirados com as piruetas malucas do piloto do B-17 lutando desesperadamente pela sobrevivência.
Estavam numa guerra mas sabiam reconhecer a bravura, mesmo a de um inimigo.
O avião semi-destruído resistia mas o mesmo não se podia dizer de sua tripulação de dez combatentes. Ecky, um dos artilheiros, foi morto no seu posto crivado de balas que continuavam chovendo em grande quantidade atingindo o corpo do avião e a tripulação. Cinco outros tripulantes foram feridos, alguns com gravidade.
O bombardeiro, violentamente atacado, voava por pura teimosia e instinto do piloto. Um dos projéteis que atingiram a cabine, ricocheteou na estrutura e, foi se alojar na omoplata esquerda do Charlie, destruindo antes todo o sistema de oxigênio que os tripulantes usavam para respirar.
Tá ansioso como eu fiquei e gostaria de ver o fim da agonia dos tripulantes do B-17? Espere só para ver o que aconteceu …
Como se não bastasse tudo o que tinha acontecido até agora, ao fazer mais uma de suas manobras violentas para vender caro sua destruição, o bombardeiro com os controles e sistema de comunicação quase que totalmente destroçados, mergulhou em direção à terra despencando velozmente em espiral baixando de 30 mil pés para 22, 20, 18 mil… e foi descendo 16 mil pés, 14, 12. Ao atingir 10 mil pés o B-17 embicou de cabeça em linha reta…
Caiam vertiginosamente para se despedaçar no gelado solo alemão… Agora seria mesmo o fim…
Foi quando o imprevisível mais uma vez ocorreu. Com a entrada de oxigênio no avião devida à baixa altitude Charlie, que havia desmaiado com o mergulho da aeronave, recuperou a consciência a tempo de acionar o que ainda restava dos flaps (parte móvel nas asas para aumentar a sustentação da aeronave) interrompendo lenta e gradativamente a tragédia anunciada, quando o avião estava a menos de um quilômetro de se espatifar no solo! Não é uma história fantástica?
Pois é, acredite se quiser. O piloto americano conseguiu evitar que o avião se espatifasse no solo matando todos os sobreviventes. Recuperou, com muito esforço, um pouco de altitude e seguiu voando “aos trancos e barrancos” pouco acima da copa das árvores dos campos alemães… Parecia cena de cinema… Quase todos a bordo recuperaram a consciência e voltaram à vida… Não tinham morrido mas, o terrível pesadelo ainda não havia acabado!
Eis que na linha do horizonte, atrás do bombardeiro surge um pontinho negro que vai se se aproximando velozmente. A tripulação ao perceber o que era, não quis acreditar no que via. Esfregaram os olhos pensando que era uma miragem. Não era!
Os corações bateram mais acelerados: o pontinho negro era um Messerschmidt JV 109, o temido caça alemão cuja fábrica tinham acabado de bombardear. “A ficha” demorou a cair. Sonharam que estavam livres dos pesadelos mas, eles não os abandonavam. Vinham em sua direção na forma de um caça JV 209. Com o sistema de comunicação destruído, os tripulantes não puderam nem comunicar ao seu piloto a ameaça fatal que se aproximava.
Certamente depois de tudo o que passaram, não eram merecedores de um castigo daqueles… Concorda? Claro que sim!
O que ninguém sabia é que quem estava no comando do caça alemão era Franz Stigler, um ás da força aérea alemã. Participara da batalha sobre Bremen. Estava num aeródromo próximo reabastecendo e rearmando seu caça, quando viu a queda livre do B-17 e seu surpreendente movimento de recuperação.
Também não acreditava no que estava vendo. Ao ver o bombardeiro americano salvar-se do choque com o solo, decidiu ir atrás. Decolou velozmente com seu caça com a intenção de dar o tiro de misericórdia no marrento B-17.
Franz Stigler, um dos maiores ases da Luftwaffe, tinha participado de mais de 500 missões de combate aéreo ao longo da Segunda Guerra Mundial e seria um dos 1.200 pilotos de caça da Alemanha sobreviventes dos 28 mil pilotos que combateram. Era um craque da aviação alemã. Tinha sido instrutor de pilotos, lutado na África e na Itália e derrubado 29 aviões nos combates. Com 30 seria agraciado com a Cruz de Cavaleiro da Luftwaffe.
Já sei! Você pensou que eu fosse lhe contar toda a história, não foi? Pois pode “tirar o cavalinho da chuva”! Você achou mesmo que eu faria um “spoiler” do livro e lhe contaria tudo, assim sem mais nem menos e, ainda, de graça? Errou feio.
Você também deve estar achando que a história acaba com a chegada de Franz Stigler e seu JV 109 armado até os dentes para dar o tiro de misericórdia no B-17! E pronto!
Não! A história começa exatamente aí!
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Por tudo isso, recomendo adquirir “O Amigo Alemão” (se clicar no nome do livro vai direto para um site de vendas e saiba que não recebo nenhuma comissão) escrito por Adam Makos e Larry Alexander.
Esse livro levou oito anos para ser escrito – tamanha a pesquisa que os autores fizeram. Foi publicado recentemente no Brasil pela editora Geração, traduzido do original inglês “A Higher Call“.
Boa leitura e curtam o amigo alemão. Eu não só curti, como tirei o chapéu…
Beto Benjamin
Se você não gosta de histórias de guerras, aconselho a parar por aqui e esperar pelo próximo post do NuncaseSabe, pois o que vem a seguir é um relato da minha perplexidade e admiração por um surpreendente e improvável “encontro”, se me permitem a licença poética, para contar o ocorrido num combate aéreo nos céus da Alemanha devastada, em meio a Segunda Grande Guerra. Esse fato ficou vergonhosamente ocultado da História tanto pelos americanos quanto pelos alemães durante décadas. Você descobrirá porquê.
A guerra, pelo menos eu penso, é um dos mais notáveis – senão o mais – atos de estupidez do Homem na face da Terra. Tem sido companheira inseparável da trajetória da humanidade, desde o princípio de sua existência até os dias de hoje. Devido a isso, é inacreditável que durante uma batalha, possa ocorrer um gesto de humanidade, contradizendo toda a lógica imoral, perversa e desprovida de sentido de uma guerra. Qualquer que seja ela…
Que o diga John Lennon com sua bela, pacífica e inesquecível canção “Imagine” !
Quem diria que o cenário da mais devastadora das guerras até hoje – NuncaseSabe o dia de amanhã! – seria o palco de um estranho episódio entre dois pilotos de aviões de combate, onde um gesto de cavalheirismo, grandeza e compaixão de um deles pudesse ocorrer e mudar o destino do outro e de outras pessoas!
Pois foi exatamente isso que aconteceu, naquela gélida manhã de 20 de dezembro de 1943, um cinzento dia de inverno na Europa conflagrada pelo loucura e ambição de Adolf Hitler; de uma parte considerável do povo alemão; e da ajuda dada pelas condições humilhantes e estapafúrdias impostas à Alemanha no tratado de Versalhes pelas potências vencedoras, quando do final da Primeira Guerra Mundial.
Essa história começa na Inglaterra, onde estava sediado um dos Grupos de Bombardeiros da Força Aérea Americana, que tinha a missão de por em prática, o plano idealizado por Churchill: atacar a Alemanha dia e noite, não dando sossego aos nazistas. Durante a noite atacavam os britânicos e durante o dia, os americanos, num revezamento implacável, destruidor e eficaz.
Naquele dia, o comando conjunto aliado decidiu fazer um ataque maciço contra uma importante fábrica de aviões caças, que se situava nos arredores da cidade de Bremen, no norte da Alemanha. Para realizar o ataque partiriam da Inglaterra 475 aviões bombardeiros B-17 mais conhecidos como Fortalezas Voadoras e B-24, transportando cada um três toneladas de mortíferas bombas. O alvo não podia ser mais significativo: precisavam atingir a espinha dorsal do poderio bélico alemão.

Tripulação do The Pub
Posso até imaginar o que pensavam e sentiam, antes de partir para mais uma batalha, aqueles jovens americanos que deixaram suas vidas e seu país para trás e foram enfrentar, em terras estrangeiras e distantes, um inimigo poderoso e sua moderna máquina de guerra.
A Alemanha, com sua “guerra-relâmpago”, tinha invadido a partir de setembro de 1939 vários países, ocupando quase toda a Europa em poucos meses de guerra. Apenas Inglaterra e União Soviética resistiam, a duras penas, às ambições de domínio e expansionismo dos alemães. Os pilotos americanos e suas tripulações sabiam que estavam servindo à mais perigosa das armas, a força aérea, e que dificilmente sairiam com vida daquela guerra.
O medo de morrer era real. Companhia inseparável de todos eles.
Tinham na memória a tragédia recém-acontecida com companheiros, quando em 14 de outubro daquele ano, dia conhecido como Quinta-Feira Negra, a Força Aérea Americana perdeu 60 aviões bombardeiros – 600 homens – em um único ataque, sobre a cidade de Schweinfurt também na Alemanha. Não dava para esquecer tamanha desgraça. Principalmente porque antes de partirem para o ataque a Bremen, foram alertados de que a defesa antiaérea daquela cidade era composta pelos artilheiros de elite do exército alemão.
Um mau sinal para os americanos.
Para protegê-los durante a missão contavam com a escolta de centenas de caças P-30 Lightining, P-47 Thunderbolt e os novos P-51 Mustangs que os acompanhariam tanto na ida à Alemanha, quanto na volta para a Inglaterra. Numa batalha aérea os caças devem manter os inimigos longe da formação de aviões bombardeiros, dando condições para que estes sigam até o alvo e atinjam seus objetivos, despejando as bombas que transportam.

Formação de B-17s
Parece até que eu estava lá naquele dia… Os bombardeiros decolaram um por um da base envolta em névoa às 7:30 da manhã. Subiram em espiral nos céus da Inglaterra para compor a formação de ataque. Representavam uma força aérea poderosa que o inimigo haveria de temer. Vindo também de outras bases espalhadas por toda Inglaterra, o céu de repente ficou coalhado pelos 475 bombardeiros voando juntos de um horizonte a outro, para onde quer que se olhasse. Essa visão reforçou a confiança dos pilotos americanos e suas tripulações de que iam aplicar um golpe mortal no inimigo. Eles que se preparassem.
No comando de um bombardeiro B-17 estava o jovem piloto Charlie Brown, de apenas 21 anos, que com mais nove homens completavam a tripulação da aeronave carinhosamente chamada por eles de The Pub.
Além do piloto, co-piloto e navegador, os demais tripulantes eram artilheiros bem treinados com suas pesadas e mortais metralhadoras, distribuídos em pontos estratégicos da fuselagem do avião. Precisavam se defender dos ataques dos caças inimigos.
Era um verdadeiro jogo de vida e morte.
Voavam a 9 mil metros de altitude. A viagem de três horas e meia até próximo de Bremen transcorreu sem sobressaltos para os bombardeiros americanos. Mas eles sabiam que estavam sendo vigiados pelos radares inimigos desde a partida da Inglaterra e certamente seriam atacados a qualquer momento, numa reação dos alemães para impedir que cumprissem sua missão.
E foi exatamente isso o que aconteceu. Quando estavam a 48 quilômetros, ou seja, a dez minutos do alvo, começou a batalha. Os radares alemães acompanharam a invasão de seu espaço aéreo, monitorando a formação dos bombardeiros, seus caças protetores, velocidade, altitude, rumo e deram início às “boas vindas” aos americanos. Era uma combinação de fogo das baterias antiaéreas com a entrada em ação das centenas de caças alemães da temida Luftwaffe.
O inferno nos céus estava apenas começando…
A visão do piloto americano no comando do The Pub era que o céu em toda a sua volta estava “vibrando”, ponteado com súbitos, incontáveis e gigantescos clarões multi-coloridos. Verdadeiras bolas de fogo. Explosões ensurdecedoras encheram os céus de Bremen com suas nuvens pretas de fumaça oleosa oriundas dos canhões da artilharia alemã em terra. Eram as baterias anti-aéreas alvejando os bombardeiros americanos.
O B-17 pilotado por Charlie Brown balançou atingido por uma grande explosão bem no nariz do avião. Os controles do avião afrouxaram das mãos do piloto por um instante, enquanto ele via outro bombardeiro amigo ser atingido à sua frente. O avião se recuperou do golpe mas, com o enorme buraco aberto no nariz, a gélida ventania fez a temperatura dentro da aeronave cair repentinamente para 24 graus abaixo de zero!
Um dos quatro motores foi atingido. Começou a soltar fumaça e então foi desligado pelo piloto para evitar que explodisse. O B-17 ainda contava com outros três motores. Apesar da barragem de fogo dos alemães e do avião danificado não abandonaram a missão. Seguiram em frente.
Mais adiante, quando estavam a apenas um minuto do lançamento das bombas, um projétil alemão vindo de terra atravessou a asa sem explodir, deixando outro buraco enorme na aeronave. Pra sorte deles, não tinha atingido o depósito de combustíveis. Embora severamente avariados, não desistiram da luta. Queriam chegar a Bremen a qualquer custo.
Outro clarão, outra explosão e outro motor começou a “enlouquecer” acelerando sem controle. Um dos tripulantes gritou pelo rádio de bordo: “A asa vai rachar!”. Não rachou. No meio de toda essa confusão e explosões que não cessavam, o piloto lutava desesperadamente pra manter o controle do avião e não abandonar o rumo. Do lado de fora o inferno só piorava. Pipocavam novos projéteis ao redor do bombardeiro…
Sabiam que não escapariam com vida.
Debaixo do implacável fogo anti-aéreo e sem ter sido ainda alcançados pelos caças inimigos, tinham conseguido chegar à fábrica de aviões alemães em Bremen. Isso por si só já seria um feito memorável. Agora era hora de estabilizar o avião e lançar as bombas. Foi o que fizeram, com muito esforço.
O bombardeador do The Pub, Andy, abriu a porta do compartimento e soltou as doze bombas de 226 quilos cada sobre a fábrica de caças alemã. A missão estava cumprida. O avião, aliviado repentinamente de três toneladas de peso, se elevou subitamente e o artilheiro que ficava sob a fuselagem observou as bombas explodindo lá embaixo.
Bombas lançadas, missão cumprida! Agora começava a etapa mais difícil: voltar para casa com o avião em frangalhos. Logo o comandante percebeu que seria missão quase impossível…
CONTINUA no próximo post…
Beto Benjamin
Aleixo Belov parte de Salvador – Bahia no veleiro-escola Fraternidade para o Alasca
Parece que essa doença não tem remédio mesmo! Depois de quatro voltas ao mundo – três em solitário – e duas viagens à Antártica o baiano-ucraniano Aleixo Belov, 73 anos, está de novo de volta ao mar. Dessa vez o veleiro-escola Fraternidade leva seu timoneiro e tripulação para o Alasca, no Hemisfério Norte.
Depois, só Deus sabe para onde vão! Partiram de Salvador num ensolarado sábado, 3 de dezembro de 2016, em direção a Natal. De lá seguiram para Granada, Panamá – atravessaram o canal – Galápagos e por aí vai.
Uma das novidades dessa nova aventura é a presença de Leonardo Papini, um fotógrafo e cineasta profissional que, com a ajuda de um drone, vai documentando a viagem e nos deliciando com as imagens.
Para quem gosta de aventura e do mar, não existe prato melhor. Aliás, existe: embarcar no Fraternidade e viver a experiência. Como não cabem todos que desejariam se arriscar, vamos “velejando” daqui de terra mesmo, apreciando os videos enviados – de tempos em tempos – por meu amigo Aleixo Belov, entrevistado do Nuncasesabe tempos atrás.
Para curtir os video-trechos , basta clicar no Playlist do video acima e selecionar um por um.
Boa viagem!
Ah esses baianos!… Não são de Marte nem de Morte. São de Vida e Festa. Muita festa. Vai ser festeiro assim longe… Também dá para entender. Com a herança africana que receberam poderia ser diferente? Parece que festejam desde o dia que estreiam (se não sabia, fique sabendo: baiano não nasce, estreia…) até o dia que morrem! E morrem? Às vezes fico com a impressão que não. Que dançam desde sempre e eternamente…
Tem suas dúvidas? Então vejam só o que pode acontecer em Salvador numa segunda quinta-feira do mês de janeiro de todos os anos! Quero dizer, desde que a Bahia é Bahia! Estou falando da procissão e lavagem do Senhor do Bonfim que se realiza desde 1773. Começa na frente da Igreja da Conceição da Praia e percorre cerca de oito quilômetros da Cidade Baixa até chegar à colina onde foi erguida uma das igrejas mais famosas de Salvador.
Pela quantidade de promessas e pedidos que recebe, o Santo realmente é forte e não tem descanso. Do alto da colina contempla toda a cidade com suas centenárias igrejas, candomblés, fiéis, yaôs e orixás. Como não são poucos, o trabalho do santo deve ser bem grande! Vigiar tudo isso, só pra ele mesmo. Senhor do Bonfim para os católicos ou Oxalá no sincretismo religioso.
Pois nesse dia, as pessoas vão chegando bem cedinho e se reunindo em torno da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, na Cidade Baixa. Todos vestidos de branco. Oriundos de muitas partes da cidade, vêm sozinhos, com seus companheiros(as), familiares, amigos, conhecidos, ou em grupos. Dezenas, centenas por que não dizer milhares deles. Não tô brincando não!

Com a alegria estampada nos rostos, estas pessoas não vêm em silêncio. O som percussivo dos atabaques, tambores, timbales, agogôs, pandeiros e tantos instrumentos ressoam pelas ladeiras e ruas da velha São Salvador. Vão gradativamente tomando conta daquele espaço festivo criando o clima de festa popular! Inebriante e contagiante! Se escuta de tudo. Todos os ritmos são bem-vindos e tem o direito sagrado de se manifestarem…
E se manifestam, produzindo uma verdadeira colcha de retalhos musicais, quase uma salada sonora de frutas tropicalistas…
No átrio da Igreja da Conceição tem início um encontro ecumênico reunindo todo o sincretismo religioso com manifestações dos seus líderes. Sempre pregando pela união, solidariedade e paz. Pela vida.
Às nove horas de relógio (é assim que o baiano fala, nos deixando uma leve desconfiança que eles mesmos descobriram outro modo de marcar hora que não seja o velho e bendito relógio, ora pois), o cortejo – com as baianas à frente – inicia a caminhada festiva de cerca de 9 quilômetros até a colina onde se ergue a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Na caminhada tem de tudo: do sagrado ao profano.
A sensação é de que a Bahia inteira tá na rua.

Devo dizer que políticos de todos os naipes e partidos se apresentam sem falta. Geralmente acompanhados com seus cordões de puxa-sacos, recebem aplausos e/ou vaias, dependendo de sua cotação no mercado naquela data. Ninguém passa incólume ou despercebido. Todos levam a sua cota, seja lá do que for…
E não é só de branco que se veste no Bonfim. O povão com sua fé se veste de tudo e qualquer coisa. “Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiar…” já avisava o ilustre baiano tropicalista Gil. Vem a pé, de bicicleta, de carro… Antigamente vinham de jegue, mulas, cavalos e em carroças ricamente ornamentadas. Já houve época que tinha até trio elétrico! Imagine isso numa procissão religiosa!
“Dai-nos a Graça Divina, da Justiça e da Concórdia!” diz o hino do Senhor do Bonfim… A procissão é uma verdadeira geléia geral. Coisa de baiano mesmo!
Durante a longa e vibrante caminhada, o samba de roda e todos os ritmos comem solto. Grupos afros, afoxés, charangas de todos os tipos, tamanho e composições arrastam literalmente suas pequenas multidões até a famosa Colina Sagrada que abriga a Igreja do Bonfim. Claro que tudo isso regado a muita cerveja, bebida principal das chamadas Festas de Largo.
Quando o cortejo finalmente alcança o Bonfim, são feitas as preces, as “baianas” fazem a lavagem das escadarias da Igreja num ato cheio de africanos significados. Todos então partem para receberem o famoso “banho de cheiro” dos potes das baianas.
“Sapeca aí uma água santa na minha cabeça, ô Baiana! pra afugentar o mau-olhado.”
Muitos amarram nas grades que circundam a frente da igreja as indefectíveis fitinhas do Senhor do Bonfim, fazendo os pedidos para si, parentes e amigos. A parte sagrada se encerra com a bênção solene do padre da paróquia.
É a partir daí que o couro come, com os sambas de roda e todos os outros ritmos baianos tocados nas conhecidas “barracas”. São centenas delas, servindo acarajés, abarás, “passarinha” (baço de boi assado!), caruru, vatapá, sarapatel, feijoada e outras coisas não tão leves assim… É a maneira baiana de celebrar a vida e agradecer a Deus – perdão! Quis dizer ao Senhor do Bonfim. A festa vai noite adentro. Quem não veio pra procissão pode vir depois…
Andrea, o olhar do olhar

Se você chegou até aqui, viu a procissão pelos olhos e lentes de Andrea Fiamenghi. Nascida em São Paulo – como dizem por aqui, “a maior cidade do nordeste” – , criada na Bahia desde os quatro anos, acompanha a procissão do Bomfim desde 2002 quando se iniciou na fotografia.
Teve como mestres Mário Cravo Neto, Walter Firmo, Marcelo Reis, Manuel Gomes Teixeira e na primeira vez que fotografou a procissão se empolgou tanto que acabaram os filmes (é, naquele tempo ainda tinha filme!) antes da festa acabar. Sobre ela, diz Andrea:
“Vejo na procissão gente com muita fé, muito emocionada, algumas pessoas fazendo um verdadeiro esforço físico para caminhar tanto e chegar. E elas conseguem. Isso é algo que aparece com clareza durante todo o percurso. Uma manifestação popular imperdível.
Cada ano tento fazer uma abordagem única, para me concentrar naquilo… Este ano por exemplo escolhi as diferenças das vestimentas, que necessariamente, não tem nada a ver com a festa.
Também Andrea trabalhou na Fundação Pierre Verger! Como se sabe Pierre é o mais baiano dos franceses. E claro um dos seus gurus e inspiradores. Dele se diz que conseguia pegar as pessoas de uma forma muito poética e ele nunca se deixava pegar pelo personagem.
Recorda Andrea sobre Verger: “Ele chega, cria uma intimidade com o personagem e consegue capturar quase que a alma das pessoas. Eu não o conheci mas era como se conhecesse pela influência que tem em meu trabalho.”
“Pela fotografia você conhece qual o tipo de fotógrafo. Ela revela. Deixa as impressões digitais e, como dizia Mario Cravo Júnior – hoje com 93 anos – toda obra representa um pouco de você.”
Sobre Mário Cravo Neto – artista baiano falecido – Andrea diz que ele fez muitos trabalhos nessas festas de Largo da Bahia. “Você quer fotografar? Vá ler filosofia, geografia, história e depois apareça aqui. Bote sua alma naquilo que você está fazendo. Escolha um tema simples e vá fundo nele”. Dizia Neto para a jovem fotógrafa.
“O Bonfim é o único dia que a gente não pode contar com nossa mãe para nada – diziam minhas filhas. Eu simplesmente não posso deixar de ir e cada ano é diferente. A festa tem mudado muito mas continua a procissão do Bonfim.”
Bem, depois de uma procissão dessas que só acontece na Bahia e ainda tendo recebido a distinção de sermos conduzidos por ela – através do seu olhar – só nos resta mirar o alto e agradecer ao Senhor do Bomfim e a Oxalá por tanta Beleza e Fé. Ainda mais sendo hoje o Dia Internacional da Mulher. Este post é também uma homenagem às Mulheres.
Andrea querida, continue fotografando o Bomfim. Obrigado. Axé Baba. Fui!
Se quiserem conhecer mais sobre Andrea Fiamenghi e seu trabalho:
http://www.andreafiamenghi.com.br
http://www.facebook.com/andreafiamenghifotografia
Nunca se Sabe