1. DIVAGAÇÕES DE UM SER HUMANO SOBRE A BUSCA DA LEVEZA PERDIDA…
Proust que me perdoe mas, nesse caso, não creio que seja o tempo… pelo menos agora! Se trata mesmo da leveza. Aquilo que nos sensibiliza, transforma e conduz a se integrar e fazer parte da Natureza!
Pensando no que escreveria no fim do ano passado para celebrar quatro anos do NuncaseSabe, nem pestanejei: resolvi que falaria sobre as coisas que me aconteceram em 2018 e que me foram preciosas, não importando as razões, nem a ordem (puxa vida, logo ela, que junto com os trocadilhos me perseguem de modo implacável desde a infância…)! Ninguém merece!
Pronto. Achei o fio da meada. Vai ficar fácil então contar algumas histórias. Na verdade, devo reconhecer que a inspiração (o fio dessa meada), adveio da beleza, do astral e da leveza de um certo casamento, que compareci em novembro passado, numa praia deserta de Trancoso, na Bahia… Vocês conhecem Trancoso?
Ah, a Bahia, sempre ela… Me levando e trazendo… Parece coisa de Orixá mesmo…
Me faz lembrar uma brincadeira de infância que gostava muito: iô-iô. Pois sempre que penso na Bahia, me remeto a um iô-iô quase mágico, que me diverte, controla e faz levar a vida, pois cada vez que estico a linha – me distanciando das origens – o movimento de volta é certo, preciso, como a arte de navegar, diriam o poeta Fernando Pessoa e meu amigo velejador Aleixo Belov. Não estou em boas companhias?
Então, pendurado nesse fio invisível – tecido quiçá alhures – em território sagrado dos Deuses e da Natureza quero acreditar, que protegido e desconhecido por nós mortais, tenho a sensação que sigo meu próprio rumo (destino), acreditando piamente que tenho um… Será?
Adoramos dar nomes para aquilo que ignoramos, pensando que talvez assim o pesado véu da escuridão, não caia tão inteiro sobre nossas descobertas(!!!) e pasmas cabeças… Não é verdade?
Vale contar uma história: me lembro muito bem (como é bom ter memória), da primeira vez que tomei a decisão de “ir embora” da Bahia, para longe, para as terras do sem-fim… Eram terras vermelhas de um sertão distante – desconhecidas por mim – deste imenso Brasil…
Nem posso dizer que comecei com o pé direito pois a decisão de partir, buscar novo caminho, não tinha sido daquelas tomadas com tranquilidade. Foi assim, uma “migração” profissional quase forçada, há cerca de quarenta anos, cujos motivos agora não vem ao caso… Fui.
Daí logo ao chegar às terras sertanejas, não deu outra. Fui logo acometido por um banzo, uma saudade, um sentimento forte de ovelha desgarrada, acompanhado de uma certa estranheza e não pertencimento. Uma verdadeira angústia. Um negócio muito estranho de sentir.
Junte tudo isso – como fez o destino – e rapidamente tomei consciência do iô-iô a que me referia quando era criança e já estava fazendo sem querer o movimento de volta – o refluxo -, em tempo recorde.
Nos companheiros que lá deixei, ficou uma enorme perplexidade no ar… Uma pergunta do tipo “por que será que ele não se “adaptou” aqui? Nosso empreendimento (uma das maiores hidrelétricas em construção no Brasil, na fronteira de Goiás com Minas Gerais) é tão grandioso e bonito e esse engenheiro baiano metido a besta, (que usa umas batas coloridas) vai embora assim, do nada? Como se tivesse recebido um chamado dos Orixás lá deles… Sei não! Esse pessoal da Bahia é muito esquisito!”… Foi essa surpreendente e inexplicável impressão, que deixei pelas bandas da cidade de Itumbiara, Goiás em pleno “planalto central do país”, fazendo coro – sem saber – com o que já prenunciava Caetano Veloso, “apontando seu nariz contra os chapadões” em sua “Tropicália“. Coisas de baianos mesmo!
Pois bem, o retorno inexorável à Bahia, me trouxe uma sensação indescritível de enorme alívio. Algo assim como “aqui é o meu lugar”… Essa beira de cais, beira de mangue, beira de mar, podia até ser algo – sem eira nem beira – mas, era um sentimento real. Eu pertencia aqui… E pertencia pelas beiras… Sim, movimento suave, circular, de contorno, quase espiral… O meu sentir e, quem sabe o meu devir, pertenciam à Bahia… Concluí então: deve ser mesmo coisa de Orixá! Se não entende, pelo menos respeite!
Aí lembrei da música “Quem vem pra beira do mar” de Dorival Caymmi e tudo se encaixou. A explicação estava perfeita. Aceitei. Simples de dar dó! Vejam vocês se não é verdade:
“Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar, ai
Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar”
Portanto, ao me dar conta do movimentado iô-iô que passou a ser a minha vida, relaxei. “Sabia” que a cada avanço, corresponderia um retorno, não importando a distância nem o tempo da passada… Coisas de engenheiro.
Nessa espiral – agora caymmica – fui praticando esse experimentar, com passadas de raio móvel cada vez mais longo, somadas com espaços de tempo cada vez mais dilatados… Dá para entender ou, estou viajando legal na maionese?
Tem sido assim desde que me reconheço nesse movimento quase pendular, desde os anos 70, quando cheguei a Salvador para o pré-vestibular… Olha, é um tal de “vou ali mas, volto já”, não declarado por absolutamente desnecessário.
Assim, fui explorando, tateando, comparecendo, vivendo – levando, trazendo, atravessando – , conhecendo partes desse Brasil e do resto do mundo… referências estendidas, levadas por uma imensa curiosidade trazida desde a infância, de buscar o novo, o desconhecido e nele, de uma certa forma se inserir, ficar um tempo, mesmo que não permanentemente… Olha que andei por um bocado de lugares e países… cheguei a viver mesmo em alguns… estava aprendendo o significado da pedagogia da presença e não sabia!
Aí aprendi outra coisa. A impermanência da travessia, que os budistas tanto falam talvez com um outro sentido… Vi que na verdade, quando gostamos de alguém ou de algum lugar, os carregamos dentro de nós, sem precisar estar lá. Sacou?
Moro no Rio de Janeiro há muitos anos mas, sinto que a Bahia reside em mim, desde sempre e eternamente… Coisa de Orixá não é mesmo?
2. CENAS DE UM CASAMENTO
Mas, tudo isso que escrevi acima era apenas uma introdução. Só queria mesmo era falar do casamento de Joana e Frank. Ela uma baiana legítima nascida na cidade do Salvador e minha filha mais velha. Ele, um americano também autêntico. Moram na Califórnia há algum tempo. Planejaram tudo à distância e nos mínimos detalhes. O resultado foi maravilhoso para quem lá esteve. Coisa bonita mesmo de saber e ver, pois não é algo tão comum assim. Além do próprio casamento a impressão é que ao invés de receber, os noivos quiseram dar um presente para os presentes (não avisei que os malditos trocadilhos me perseguem?).
Conseguiram, pois boa parte dos convidados, nem o Brasil conhecia. Imagine um casamento numa praia paradisíaca, em Trancoso na Bahia! Teimaram que queriam e fizeram acontecer. Não teve quem não se deslumbrasse com aquele cenário alto astral de paraíso perdido no meio dos trópicos! Céu e mar azuis. Dia ensolarado, belíssimo de verão. Parecia mesmo coisa de sonho e cinema! Sorte deles e nossa.
Claro que o casamento nada teve de convencional. Não tinha padre, nem vela, nem juiz de paz. O casal convidou um amigo para fazer “a celebração” e contar um pouco das histórias de vida dos noivos e sobretudo de seu encontro que resultou naquele casamento. O Leo Paranaguá, um paulista amigo dos noivos, nos encantou com suas palavras bonitas, metáforas, visões do significado do Amor e de quando duas pessoas embarcam nessa viagem…
A Natureza de Trancoso fez o resto, inclusive e principalmente Yemanjá, já que pediram licença para usar seus domínios. A “celebração” ocorreu literalmente à beira mar, com direito a lambidas das águas exatamente na área do casamento, na areia da praia. Assim foi feito.
Como num passe de mágica, apesar da maré enchente, a deusa das águas – claro, sempre presente ainda mais na Bahia – se conteve e deixou para invadir com suas águas transparentes o espaço que a ela pertence, logo após o encerramento da “celebração”. Coisas de Orixás mesmo…
Claro que como pai da noiva, me emocionei! Era minha segunda filha casando. Ainda tem mais uma, a caçula, que não é brincadeira. Aí será outro casamento, outro papo, outra emoção. Haja coração!
Tentar explicar o encanto daquele momento é missão que jamais me arriscaria. Mas, como aquela magia envolveu a todos que lá estavam, vou deixar por conta das imagens do fotógrafo Bruno Stuckert (http://www.bstuckert.com/) de Brasília, que foi um verdadeiro artista em registrar as cenas do casamento. Confiram vocês mesmos:
São ou não são cenas de um casamento para Bergman nenhum botar defeito?
Nem preciso contar que a festa rolou até altas madrugadas, numa noite de lua cheia, para completar o encanto de Jô & Frank em Trancoso. Quem lá esteve jamais esquecerá!
O post não acabou. Continua na parte 2, que será postado nos próximos dias, contando a exibição do filme Olhos Negros com Marcello Mastroianni e, as aulas livres de filosofia no Rio de Janeiro, de um outro baiano retado, Auterives Maciel Júnior, encerrando o balanço de 2018 e dando as boas vindas a 2019, que tá começando.
Beto Benjamin
Árvore
Uma árvore, outra árvore
Cada uma de pé e ereta.
O vento e o ar
Dizem de sua distância.
Mas abaixo da capa da terra
Suas raízes se estendem
E em profundezas que não se veem
As raízes das árvores se entrelaçam
Ai Qing, 1940
Ai Qing, é o poeta libertário chinês, e pai de Ai Weiwei. Quem leu o post anterior sabe. Quem não leu também não precisa ler. A vida segue sua rota incólume sem se importar com o tamanho da nossa ignorância ou pouco se lixando para ela.
Embora ainda não o conheça pessoalmente, tiro o meu chapéu para o Marcello Dantas, curador de “Raiz“, e que teve a sabedoria de, ao buscar o Weiwei, perceber a dimensão humana do artista. Missão difícil para qualquer curador que se preze.
Sacou desde cedo que lidar com o chinês era uma caixinha de surpresas, pois demonstrou logo de saída que, mais importante que a arte, Weiwei queria era falar e mostrar a vida. Nem tanto sobre a dele, já bastante badalada e conhecida, mas a dos anônimos, dos sofredores, dos itinerantes, dos imigrantes, dos fugitivos, das minorias, dos esquecidos, dos problemáticos, dos sem perspectivas, das vítimas dos podres poderes dos homens e dos poderosos de plantão do mundo.
Por isso mesmo, dos que mereciam e merecem um minuto que seja da atenção do mundo. Da sua, da minha, de todos…
Para benefício de nós brasileiros, e dos paulistanos em especial, o Marcello conseguiu compreender a complexidade do artista, a quem convidou para expor no Brasil. A singularidade da história é que, mais que uma mostra dos trabalhos realizados anteriormente pelo Weiwei, o que houve foi uma verdadeira interação do artista com o Brasil e suas dimensões continentais, seus problemas para se firmar como nação, as angústias de um país com um potencial monumental e uma sociedade desigual, injusta e imoral, como a que temos até agora.
Ao visitar a mostra, ficou claro, pelo menos para mim, a ambição do curador Marcello Dantas de tentar que o Weiwei fizesse uma leitura antropofágica (o nome saiu tão feio que fiquei com a sensação de ter acabado de o inventar como um generoso Frankenstein), do Brasil, e que dessa interação pudesse ser apresentada ao público a visão de um artista, agora não mais apenas chinês, mas, um pensador do mundo, sobre a perspectiva da arte em um país carente de todas as coisas, principalmente de valores!
Sem querer me perder nesse preâmbulo – agora já mais longo do que o desejado -, não pretendo explicar a arte de Weiwei, muito menos as peças expostas no Ibirapuera, na exposição “Raiz“. Arte não se explica, se sente. Ou não (sai pra lá Caetano…).
Fui conferir e gostei muito do que vi. Eu me senti quase como um assistente do artista em algumas delas. Como se eu tivesse participado de sua construção! Muita ousadia não?
Diante da foto gigante de seu rosto oriental, paciente, transgressor, instigante e desafiador, não hesitei um minuto sequer. Ergui garbosamente meu dedo médio e procurei o ângulo certo. Fiz como Weiwei: desafiei o seu poder. Saiu a foto acima.
Curtam agora algumas das obras fotografadas por mim mesmo na Oca do Ibirapuera, em São Paulo, neste final de novembro de 2018:
Taifeng – Obra em bambu e seda – 2015
O Taifeng foi a primeira obra da exposição com que me deparei, e me impressionou pela leveza, suavidade de sua forma, – Flutuando pendurado pelo teto, dava mesmo a impressão de um anjo – desses criados por um Deus chinês ou não – pairando sobre nossas cabeças e mentes embasbacadas com a aparição.
Esse trabalho foi inspirado nas pipas de Weifang, na província de Shandong na China que também visitei em 2010.
Como está explicado no livro “Raíz Weiwei” – escrito especialmente para a exibição -, “essas criaturas mitológicas refletem a imaginação das pessoas do passado e a linguagem que usavam para comunicar ideias maiores que nossa capacidade de entendimento“. Sacou?
Conjunto de obras: Cofre de Lua (2008), Reto (2008-2012), He Xie (2011), Vasos empilhados com motivo de refugiados (2017), Uvas (2014)
Dificilmente alguém passará incólume por essa exposição. Quase impossível não mergulhar no mundo multi-dimensional, onírico e reflexivo do artista. Muito menos deixar de sentir que cada obra daquelas tem uma história – muitas simples, muitas engraçadas, muitas complexas, muitas tristes – que retrata um drama, seja pessoal, seja de uma comuna ou da humanidade. Alguns deles ainda presentes nas telas de nossas televisões, computadores e iPhones. Pode-se gostar ou não gostar do que se está vendo. Difícil é passar impune ao percorrer os oito mil metros quadrados da exposição.
Escutei de uma pessoa muito querida: “Não gostei”… Respondi: “Entendo o seu incômodo. Talvez você estivesse esperando algo mais antisséptico e não “merthiolarte”… Brinquei… Ardeu, não foi? É dos antigos. Não adianta soprar. Arde mesmo. Depois passa…”

Lei da Viagem (Protótipo B) – 2016

Sementes de Girassol – 2010
Terra de Raízes – 2018
Pois eu gostei, muito! Valeu a viagem Weiwei! Me fez refletir sobre a humanidade, a desumanidade, a unanimidade, a vaidade, a simplicidade, a verdade, a falta dela, o trabalho, a falta dele, a dignidade humana, os valores e os tempos que vivemos com todas as contradições. Me indignei…
Para onde caminha essa humanidade, eu não sei. Sei apenas que o meu caminhar se tornou mais solidário, e, menos solitário, depois de ver a(s) “Raíz(es)” – de Ai Weiwei, e de rever as minhas. Respeito-as cada dia cada vez mais!
Esse post não tem a pretensão de substituir a exposição “Raiz“. Ao contrário, ele pretende ser apenas um estímulo para quem quiser se arriscar ou arriscar suas raízes, visitando a exibição em São Paulo.
Mais informações:
https://parqueibirapuera.org/ai-weiwei-faz-exposicao-na-oca-do-parque-ibirapuera/
Beto Benjamin
Atrevido, ousado, destemido, engajado, abusado, polêmico, retado, artista visual, escultor, pintor, designer arquitetônico, dissidente, cabra macho-da peste, chinês!
Seu gesto de desafio exibido na foto acima é marca registrada em todo o mundo. Onde chega e se depara com estrutura de poder, Ai Wewei levanta o dedo em protesto, de forma clara, ostensiva, ofensiva e desafiadora… Atitude corajosa, mesmo para um artista, num país como a China.
Nenhum lugar escapou dele até aqui. Nem a sagrada Praça da Paz Celestial (esses chineses gostam mesmo de metáforas não é?) em Pequim, onde num mausoléu repousa (será que “repousa” mesmo depois dos milhões de compatriotas que seu regime perseguiu e matou?!) o corpo de Mao Tsé-tung – “o grande timoneiro da China”.
Pois é, mesmo na presença do Mao embalsamado (juro para vocês que sou eternamente perseguido por esses infames trocadilhos. Deve ser carma!) – et pour cause – Ai Weiwei ligou o agora célebre no mundo inteiro: “Foda-se!“.
Esse chinês filho do poeta Ai Qing que caiu em desgraça também durante o maoísmo, decidiu usar sua arte para denunciar desrespeitos aos direitos humanos, injustiças, mal-feitos ou escândalos que governos, partidos, grupos políticos, econômicos, organizações, instituições e mesmo empresas praticam pelo mundo direta ou indiretamente.
Enfrenta o poder e o dinheiro – quando não ambos – ao longo de sua trajetória engajada, pagando bom preço pelo atrevimento. Com sua arte revolucionária vai abrindo caminho para as causas que defende, por onde quer que passe servindo de exemplo para outros – chineses ou não – que precisam de um empurrão para despertar suas consciências e agir.
Novidade? Está passando pelo Brasil de agora… Coincidência? Não é a toa. Chega em boa hora!
Huãnying! (Bem-vindo em mandarim). Escutei isso em 2010 quando aterrissei em Pequim e depois Shanghai. Não tem Huãnying para Weiwei na China!

Não é fake: eu em Paz Celestial
Filho de peixe, Weiwei é!
Quando nasceu, seu pai Ai Qing – considerado hoje um dos maiores poetas modernistas chineses – estava atrás das grades, graças à revolução cultural de Mao Tsé-tung que virou o país de cabeça para baixo. Ai Qing – ironia do destino – já tinha sido preso e torturado anteriormente pelo outro regime: o Kuomintang de Chiang Kai-shek, – generalíssimo conservador – que depois seria derrotado por Mao durante a guerra civil chinesa, fugiria para Taiwan e criaria a China Nacionalista, até pouco tempo atrás reconhecida pelas potências internacionais como a “verdadeira China”. Pródiga em ironias, a História!…
Além de expor seus trabalhos no Brasil numa escala nunca antes realizada, Weiwei na verdade está resgatando um laço importante com o país que seu pai estabeleceu ao receber na China os escritores Jorge Amado e sua esposa Zélia Gattai junto com o grande poeta chileno Pablo Neruda e a esposa Matilde Urrutia.
Essa visita à China aconteceu nos anos 50 e Ai Qing era uma espécie de embaixador cultural para os visitantes estrangeiros. Claro, antes de cair em desgraça com o regime de Mao. Foi humilhado em praça pública, escolas e várias vezes obrigado “a reconhecer e se retratar pelos crimes cometidos”. Teve ainda seus livros de poesia proibidos na China por muito tempo. Em 1980 foi condecorado pelo presidente francês François Miterrand, com o título de Comandante da Ordem das Artes e das Letras.
Com esse DNA, Ai Weiwei também amargou os rigores da ditadura do proletariado da República Popular da China quando no ano de 2011 e sob o pretexto de “crimes de evasão fiscal” foi sequestrado ao desembarcar no aeroporto de Pequim e mantido em cárcere privado pela polícia política do governo por mais de três meses. O clamor da mídia internacional ajudou a libertá-lo.
A verdadeira razão de sua prisão entretanto foi que ele decidiu investigar, por conta própria, as consequências para os estudantes, de um terremoto ocorrido na província de Sichuan, e acabou revelando o que ficou conhecido como o escândalo das “tofudreg schools“, ou seja escolas que foram construídas com materiais conhecidamente inadequados, muita corrupção e resultou na morte de milhares de crianças. Essa a verdadeira razão de sua prisão! Teve seu ateliê de 1 milhão de euros, completamente destruído pela polícia política chinesa.
Ele não se acovardou nem parou aí. Fez e faz uma incessante campanha nas redes sociais contra a falta de liberdade de expressão e o constante desrespeito aos direitos humanos por parte das autoridades chinesas. Ou seja, o caboclo chinês Weiwei parece não se amedrontar apesar das ameaças e do que já sofreu nas mãos do aparato repressor compatriota. Insistente, continua bradando aos quatro cantos do mundo:
“O Estado como ideologia, em que princípios como liberdade de expressão e direitos humanos são ignorados, é algo vergonhoso!”
Diz ainda ao se referir ao capitalismo de estado praticado pelo governo chinês em busca de progresso a qualquer custo:
“Impossível que a China venha a dominar o mundo desse jeito!”

Artistas costumam ser quase sempre os primeiros alvos dos regimes extremistas, sejam de direita ou de esquerda. Tendo crescido – sofrendo na pele e na família – todo tipo de injustiças e punições, entende-se muito bem a origem e a força de Ai Weiwei ao denunciar o poder.
Um dos seus trabalhos mais conhecidos no mundo foi participar da equipe de arquitetos suíços que concebeu o “Ninho de Pássaro“, Estádio Nacional de Pequim, com capacidade para 80 mil pessoas, construído para abrigar os Jogos Olímpicos de Verão de 2008. Foi palco das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos transmitidos pela televisão para todo o planeta.
Visitei o Ninho de Pássaro em 2010 quando estive em Pequim. Simplesmente monumental! Fiquei mesmo embasbacado! Duplamente porque também sou engenheiro civil. Esse projeto é uma obra de arte que impressiona pela originalidade, grandiosidade, imponência e beleza plástica. Mais uma ironia do destino: estava admirando o Weiwei sem saber…
O Partido Comunista e o governo chinês tentaram por diversas maneiras calar sua boca! Não conseguiram. Pelo contrário. Ela está cada vez mais escancarada…
Em São Paulo, Weiwei realiza este mês a maior exposição de sua carreira. São 70 obras de arte pesando 500 toneladas espalhadas em oito mil metros quadrados no Ibirapuera, sob a curadoria de seu amigo Marcello Dantas. Weiwei esteve no Brasil cinco vezes no último ano. Para essa última viagem trouxe, à tiracolo, seu filho Ai Lao, de 8 anos.
A exposição “Ai Weiwei Raiz” denuncia a indiferença da sociedade às tragédias sociais. Veja a seguir algumas de suas obras expostas em São Paulo e em outras partes do mundo:
Weiwei visitou outros estados brasileiros e passou um bom tempo em Trancoso na Bahia, convivendo com a região e as pessoas, preparando parte de sua exposição no Brasil. Selecionou árvores mortas para a exposição. Chegou a medir e reproduzir um pé de pequi de grandes dimensões com sua equipe de artistas chineses. Usou silicone e outros materiais. Ficou realmente impressionado com a árvore de mais de mil anos de idade e de algumas centenas de toneladas de peso.
Pessoa de hábitos simples, gosta de se misturar com o povo nos países que visita. Disse que o Brasil se distingue de outros países por sua natureza exuberante. O artista já havia participado da Bienal de 2010 no Brasil com uma enorme obra com as cabeças de doze animais representando o zodíaco chinês.
Produziu o documentário “Never Sorry” sobre a tragédia dos estudantes chineses que morreram no terremoto de Sichuan. Veja você mesmo:
Produziu e dirigiu, entre outros, o filme “Human Flow: Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Ir“. Passou um ano acompanhando crises de refugiados em 23 países incluindo França, Grécia, Alemanha, Iraque, Afeganistão, México, Turquia, Bangladesh e Quênia.
Retrata e revela com grande intensidade o sofrimento e as causas que levam milhões de pessoas a abandonarem seus países de origem como a guerra, a pobreza, a miséria, a perseguição política, refletindo sobre as dificuldades e motivações encontradas por essas pessoas em busca de uma vida melhor. Veja o trailer abaixo:
Participou também de um animado bate-papo no programa “Conversa com Bial” na Tv Globo. Confira abaixo:
https://globoplay.globo.com/v/7098786/
Se desejar conhecer suas obras espalhadas por museus do mundo inteiro, visite seu site oficial:
Finalizando, esse post é um tributo à arte e coragem de Ai Weiwei. Estou com ele e não abro. Vou visitar a exposição em São Paulo no Ibirapuera e se puder, assino embaixo do “Foda-se!” E você?
Beto Benjamin
Olha só o que o Dalí aprontou na California, Estados Unidos na década de 40! Excêntrico, bizarro e surreal são adjetivos que mal chegam perto para definir a figura que foi o pintor catalão!
Eu não sabia que Salvador Dalí tinha morado por dez anos em Monterey, uma pacata e friorenta cidade situada numa bela baía do norte da California, ao sul de San Francisco, também muito conhecida por seu famoso Aquário.
Pois bem, estava de passagem pela cidade neste verão, em direção a Carmel-by-the-sea, quando me deparei com uma exposição permanente – de um colecionador particular ucraniano-americano Dmitry Piterman – exibindo obras do Dalí. Seu nome: Dali 17.
Vistas de Monterey, California
Dmitry (que pode ser visto no vídeo abaixo na abertura da mostra), se tornou um controvertido empresário internacional de futebol, colecionador de arte e bem sucedido corretor imobiliário. Foi atleta na universidade de Berkeley e faltou pouco para ter participado da Olimpíada de 92 em Barcelona representando os Estados Unidos no salto tríplice. Mas, isso é história real. A nossa aqui é surreal…
Exatamente por não ser dali, não podia perder o trocadilho nem uma visita daquelas…
Paguei os 16 dólares do ingresso sênior (pois é, o tempo também revela suas vantagens. Antes tarde do que nunca…) da exposição, entrei e me preparei espiritualmente para enfrentar o surreal.
Vídeo da abertura da exposição com a presença do Dmitry Piterman
Trata-se de uma exposição permanente denominada Dali 17 contendo 570 obras de arte notáveis que incluíam gravuras, litografias, técnicas mistas e esculturas raras do espanhol que foi pioneiro e um dos mais celebrados artistas surrealistas do século vinte. Os americanos não perderiam a chance de batizar a exposição com esse nome pois os trabalhos remetem ao tempo onde o pintor viveu e trabalhou na 17 Mile Drive em Monterey.
Essa também foi a primeira exposição permanente de Salvador Dalí na costa oeste americana e a maior coleção privada sobre ele em exibição nos Estados Unidos. Anteriormente, essa mostra foi exibida apenas na Espanha e na Bélgica.
Algumas das obras exibidas no Museu de Monterey
Dalí e sua esposa Gala foram hóspedes do Hotel Del Monte naquela cidade nos anos 1941 e 1942 quando a Marinha americana tomou conta do hotel após o ataque japonês a Pearl Harbor na Segunda Guerra Mundial, forçando o casal a se mudar para um lugarejo próximo chamado Pebble Beach (onde hoje mora Dmitry, o colecionador) e permaneceram até 1948.

Hotel del Monte, Monterey, CA
Passei um bom par de horas apreciando as obras do pintor catalão que alucinou o mundo com seus trabalhos irreverentes, bizarros, oníricos e frutos de uma imaginação que parecia não conhecer limites.
Boa parte das pinturas exibidas nessa mostra eram baseadas em trechos da Bíblia.
UMA NOITE SURREAL NUMA FLORESTA ENCANTADA
Depois de apreciar seus belos trabalhos, me deparei com a descrição de um baile – na verdade uma festa de arromba – que o espanhol aprontou naquelas bandas dos Estados Unidos surpreendendo a tudo e a todos. O pretexto que ele arrumou foi arrecadar fundos para artistas que fugiam de Hitler – e sua guerra na Europa – e, precisavam de ajuda para recomeçar a vida num país estranho.
Me chamaram logo a atenção os enfeites que Dalí bolou, para compor o teto do salão de bailes do Hotel del Monte. Centenas de sacos de aniagem, muitos deles com a bandeira do Brasil bem estampada, utilizados para exportar o nosso café. Produto naquela época famoso e desejado pelo mundo inteiro.
Sua alucinada mente criou uma espécie de caverna dentro do salão de baile, com os sacos de aniagem cheios de jornal e colocados um ao lado do outro. Era o teto da “caverna de onde saímos”…
Maluquice da melhor qualidade!
A mesa do banquete era enorme e continha, além dos convidados, diversos manequins – como se fossem comensais – com as cabeças trocadas por cabeças de animais e outras bizarrices, todos participando da mesa. Todos os presentes usavam um tipo de fantasia…
Sua mulher Gala muito à vontade e sem medo, acariciava e alimentava em seu colo, um filhote de felino, de verdade. Olha que o bichano não era dos menores e muito menos comportado. Um dos pratos oferecidos no banquete continha rãs! Claro, vivas! Confiram no vídeo acima…
Dizem que desse famoso baile participaram além das autoridades americanas convidadas, imprensa e pessoas ligadas à Arte na região, celebridades americanas da época como Walt Disney, o comediante Bob Hope, o artista Andy Warhol e a socialite Gloria Vanderbilt.
Evidentemente que produção do convescote custou tanto, que tudo terminou com um grande prejuízo financeiro mas, Dalí não tava nem aí para isso. Ele queria mesmo era sacudir e chocar a comunidade americana. Isso foi mole para ele…
Esse Dalí não tava de brincadeira mesmo!
Respeitando seus bigodes, fico aqui – com os meus – a imaginar (como dizem nossos colonizadores lusitanos), o que ele diria, se vivo fosse, sobre a realidade brasileira:
Surreal, não?
Beto Benjamin
Vejam as boas surpresas que a vida nos apresenta!
Há algumas semanas, ia passando por acaso, por uma dessas indefectíveis lojas da Apple (que design bonito para uma loja de hardware não é?) na Union Square, cidade de San Francisco, num dia desse verão americano (um frio do cacete, de acordo com nossos padrões tropicais!), quando escutei o som de música e uma voz imponente – aparentemente ao vivo – vindo do andar de cima.
Não dava para deixar de conferir: abandonei rapidamente o piso inferior deixando a Apple e seus nerds (funcionários e clientes, evidentemente). Dei de cara com um belíssimo show, num salão descolado, com cenário digno de um filme tipo Blade Runner! A diva cantante era a Anja Kotar. Que visual e voz!
Ridley Scott que me perdoe a lembrança mas a Apple caprichou nesse espaço e na proposta. Receber num espaço despojado e imponente, talentos que circulam no mundo musical americano! E quer saber? De graça! É um presente para os frequentadores e mordedores (ou mordidos) da Apple! NuncaseSabe!
Vejam a seguir o vídeo da Anja Kotar que nasceu em Liubliana na Eslovênia. Compositora, cantora e estilista! Aos 21 anos de idade. Musa do pop americano nos últimos tempos!
Mandando ver com seu repertório rebelde e sensível, sem dúvida surpreendente para alguém tão jovem, a guria (como dizem os gaúchos), aos 15 anos emigrou com toda a sua família para San José na California, onde passou sua adolescência. Buscava seguir sua vocação musical e teve o apoio da família para uma decisão tão importante.
Estudou música clássica no seu país de origem e se destacou num concurso nacional na televisão chamado Slovenia X Faktor tendo sido escolhida a melhor cantora. Debutou como compositora e cantora pop no cenário americano com o álbum NOMAD, realizado com o apoio de “crowdfunding”. Aperfeiçoou seus dotes musicais no prestigioso Berklee College of Music e revelou um gosto especial para a moda com destaque para vestuário e jóias. É proprietária de uma loja online.
Acompanhada de apenas uma guitarra, pude testemunhar suas qualidades como cantora-compositora-estilista nessa performance na loja da Apple. Enquanto desfilava sua potente e bela voz pelo ambiente, um projetor mostrava seus modelitos num telão valorizado pela qualidade da projeção. Impossível não se deslumbrar e ficar fã!
Suas músicas nesse primeiro álbum NOMAD falam das dificuldades da vida de imigrante e adolescente nos Estados Unidos mostrando toda a rebeldia e inconformidade natural desses tempos. A garota promete e certamente merece atenção de quem gosta de pop music.
Curtam as fotos e o pequeno “snippett” (não conhece?!) dessa performance que tive a sorte de assistir:
Gostaram? Eu também!
Beto Benjamin
Confira mais dessa promissora artista em seus canais oficiais:
Site Oficial: www.anjakotar.com
Instagram: @anja.kotar
Spotify com seu novo álbum NOMAD (2017):
Vejam no que pode dar uma conversa!
Comentei dia desses com meu amigo e poeta Érico Braga, que havia escrito um poema sobre a gravidade e, que o próximo seria sobre o espelho, já que a sala onde o primeiro se inspirou contém espelhos. Muitos espelhos…
Fui logo “vendo” imagens partidas e outras lembranças de coisas – nem tão justamente repartidas – pela vida: o eu, o nós, as idas e vindas, os amores, o final da partida (ah! a Croácia!) e a partida final (o xadrez do Bergman com a Morte)… Risos… Haja imagens, partidas ou não!
Foi exatamente com um riso – meio que zombeteiro, meio que de menino travesso – pronto para aprontar mais uma estripulia (poética, diga-se de passagem) que Érico me olhou e “enxergou” os meus espelhos…
Sacanamente – como era de se esperar e do seu feitio – me mandou essa pérola que vai abaixo, com dedicatória e tudo. Disse também que:
“este não é o seu poema do espelho, tampouco o meu poema do seu espelho, ou, ainda, sobre o espelho meu, espelho meu, tem alguém mais poeta do que eu.”
E ainda arrematou:
“Fiquei a remoer-me com aquilo que te escrevi sobre os lugares comuns dos espelhos partidos (e a música beijo partido e os retratos rasgados ao meio) e fiquei a pensar se ainda é possível fazer poemas sobre o tema e como fazê-los.”
Portanto, tenham cuidado quando comentarem alguma coisa com um amigo. Redobrem-nos, se esse amigo for poeta… Se além de amigo e poeta, for também sacana, não tem jeito! Relaxe e vá se olhar no espelho! Foi o que fiz!
ANTIPOÉTICA SOBRE ESPELHOS E EIDÉTICAS
Ninguém está quando estamos sozinhos
e a imagem, aquela, que me percebeu,
soube não a ausência do meu próprio eu,
senão, porém, a presença cínica do espelho
repartido por um ridículo
passe-partout que já se perdeu
[que mão – menor que a do destino –
teria tido a audácia de ferir, sem nem tocá-las,
a minha própria imagem
e semelhançazinha?!…]
Tivesse existido – eu – a assistir ou assistido a ou em ou por ou a ter
aquela sala, diante de um vidro
de argentado níquel,
adivinhando o porquê de um peão otário
ter colocado a fita frágil
só para impressionar um moço
de modo inútil e, daí, fictício;
e porque, eu sei, tem tudo a ver comigo
mesmo, não tendo estado, havido,
em, ou aquela sala, ou em momento algum,
em minha própria vida, sequestrada desde o início;
insisti-me (como agora me insisto),
em ver-me em dois, e só porque
dois é melhor que zero,
(embora deste mais se me adivinhe);
assim, agora, dividido, posso dividir o zero fráctil
pelo infinito – e esta matemática vindicta
muito se me admira e conforta, como deveria,
o Ser que, se, quase, não se suporta,
quer e sempre quer – e repetido –
o querer.
Pudesse eu ser Poeta (como a bilionada de singularíssimos
que se auto-confortam em roda
e se aventuram ao mínimo, acariciando-se ao máximo),
dividir-me-ia em fraturas-metáforas e figuras e versos
de coisas íntimas;
porém, a minha engenharia é metafísica
e muito mais propícia e esperta do que qualquer
poética
do escrever.
Pudesse ter testado a fenomenologia
intrínseca de me ver na sala do espelho
em pelo e recortado pela crepe
anódina e ilegítima, teria sido, eu, o poeta
que este mundo havia parido,
só para o embevecer;
mas, como lá não estive, e nunca estarei,
não sou-o, e nem o se Rei,
assim, como qual – e o tal-, não tenho sido,
nem inteiro,
tampouco, repartido…
Minhas faces têm frente e verso, como toda vulgaridade
da matéria-e-espírito – qual se fosse jornalística-e-
literária –, mas, ainda assim, não cabem
em um reflexo de lados, ambos,
mefistofélicos,
pois que por demais
arbitrários
Nunca existiu, por cá, conflito, pois sempre fui o fraco
que deixava assumir
o destemido,
e este simpatético princípio garantiu-me
feitos e afetos
sem nunca ter-me vendido
(ou, mesmo, me obrigado
a qualquer fato)
Nunca houve em vida a morte, pois tudo era a serviço
(e não um jogo de cartas)
de parte a parte, e irrestrito – espécie de green card pelo qual
as linhas conduziam, sem delimitar espaços,
nem mesmo agora,
que estou a morrer
por uma imagem
que – eu sei – é minha
só por Ser.
Nunca houve tais divisórias (e como as queria!); e
queria muito que esta fosse
a verdade, mas a verdade é uma simplória,
plena de alfândegas e vizinhos e retalhos de geografias com
coisas não inacreditáveis
em línguas
traduzíveis…
Por isso, retorno – como um covarde – a essa “tracejada” infame
e inadequada; esta linha tão trágica que jamais
repartiu a fotografia
da minha mágoa,
mas fosse ela, própria,
que a desenhasse
de fragmento a pixel
sem levantar o lápis
num só rabisco abstrato.
Retorno, solícito, e jamais humilde,
para o fanquisque do carrasco
essa linha pontilhada
no cangote do novilho – rastro de teclado
fazendo meu desenho retrato
com uma faca de lacre
que não o ferisse,
mas o fechasse…
ante o discurso de uma página
de vidro,
faço-me saber que posso, talvez, também,
rachá-la, agora mesmo, fácil,
sem desespero ou com o álibi dos desesperados,
– mas geneticamente grato
pela imagem emprestada -,
bastando, para isso,
tanto em texto quanto em sílica,
só atirar, pra frente, um ponto
ou inventar,
pra sempre,
um traço –
Morro Azul (Paulo de Frontin – RJ), 06_07_2018
Nunca se Sabe