Nesses tempos bicudos de Covid-19 com tantas “deaths, lives, fake news”, desgovernos e outros quejandos, me dediquei a criar – para não pirar – uma rotina de resistência dentro de casa, como todo mundo. Uma delas foi concluir esse post sobre o Caminho de Santiago percorrido por Pedro Gordilho, contendo a segunda parte da longa e divertida conversa que tivemos em Salvador. Coisa que estava devendo aos leitores há muito tempo. Pronto. Está aí. Aproveitem.

Beto Benjamin: De onde vinha sua disposição para caminhar todos os dias durante trinta dias seguidos. Não parece coisa de maluco?

Pedro Gordilho: Rapaz, vou te contar: teve uma ocasião durante a caminhada que peguei um resfriado forte. Durou três dias. Apesar disso tive forças para caminhar. Acordava, acredite se quiser, com aquela alegria e disposição para seguir em frente.

Não tenho noção de onde se originavam essa disposição nem a vontade que pintaram no meu corpo e na minha cabeça para explicar aquela vibração e ânimo para caminhar. Mesmo doente e naquelas circunstâncias em terras desconhecidas…

Era tudo novo. Talvez parte da explicação venha da liberdade sentida verdadeiramente pela primeira vez na vida, de estar naquela aventura – única e exclusivamente – por mim. Me dei esse presente. Afinal, estava fazendo o que queria, falando com qualquer um, sem ter que dar explicações para ninguém. Era minha livre escolha. Sem amarras… Solto na buraqueira… Tá bem?

Queria muito fazer o Caminho de Santiago! Fiz!

Olhando para trás, sempre me senti “preso” na vida. Muita coisa embolada. Dedicado sobremaneira ao trabalho e à família. Carreguei coisas demais e arrastei tantas outras; o volume só aumentava, na medida que a vida se desdobrava. Fazemos isso sem sentir e vamos nos limitando como consequência.

Na hora de viajar dando início à minha aventura, até meu cardiologista se achou no direito de perguntar se eu estava realmente preparado! Pitaco de tudo que é lado. Pode?
Meu dentista foi pelo mesmo caminho: “Pedro, sou atleta e não me sinto capacitado para encarar o que você vai fazer. Tem certeza que vai?”
Até meu sogro resolveu me sacanear: “Menino, fazer isso para quê? Não vai aguentar o rojão”.

Pois fui. Caminhei novecentos quilômetros e voltei muito melhor do que saí! (risos)

O primeiro dia foi o mais difícil. Certamente porque era o primeiro. Foi difícil pelo desconhecimento, pouco preparo, ansiedade e a dificuldade da caminhada. Cruzei trinta quilômetros nos Pirineus sendo cinco de subida. É muito!

E mais mil e quinhentos metros de descida. Foi mole não! Comparando com o que estava acostumado na Bahia: a Cachoeira da Fumaça na Chapada Diamantina, tem uma subida de “apenas” trezentos metros! Tinha sido minha maior “subida”!

Naquele início de peregrinação enfrentei neve, gelo, frio. Tive dor nos pés e nas articulações; apareceu dor em cada lugar que nunca imaginei. Teve uma hora que falei para o Luiz, meu parceiro de aventura:

“Tá difícil! Não sei se consigo continuar”. Dito isso,  forcei a barra. Caminhei e cheguei “quase morto” no meu destino da primeira etapa: Roncesvalles. Literalmente quase morto mesmo. A mochila que carregava nas costas pesava oito quilos e meio. No albergue ainda levei uma hora em pé, na fila, para me registrar! Foi dureza.

Meu corpo doía dos pés à cabeça!

 

Cenas do Caminho de Santiago de Compostela

Pensei: “Deus do céu! O que é que eu tô fazendo aqui?”. Tomei um banho. Relaxei. Descansei um pouco e – para minha surpresa – duas horas depois estava “inteiraço”! Pronto para o jantar. Saí do albergue para a vila como se nada tivesse acontecido. Parecia que não tinha andado trinta quilômetros com uma mochila nas costas.

Acabou a dor. Não tinha mais nada. Passou tudo. Tomei vinho e comi o menu do peregrino. Vi muita gente alegre, conversando, contando suas histórias, compartilhando experiências. Gente entrando e saindo daquele lugar o tempo todo. Afinal, era a Espanha. Que vengan los toros…

Soube que muitos peregrinos pulam essa etapa que fiz no primeiro dia, exatamente pela dificuldade que é a transposição dos Pirineus. Eles não sabem o que estão  perdendo pois foi um dos dias mais emocionantes de toda a caminhada. Não apenas pelos primeiros passos dados como peregrino como pela beleza da paisagem e sobretudo experiência vivida e sentida. Em todos os sentidos…

Para mim quem se põe no caminho, atravessa o primeiro portal: o do desconhecimento…

Beto Benjamin: O que lhe motivou a fazer essa aventura?

Pedro Gordilho: Nunca me fiz essa pergunta. O que motivou foi viver uma aventura que não tinha me permitido até então. Só isso. Não teve nada de mirabolante. Simples assim.

Reconheço que fazer o Caminho de Santiago me transformou em outra pessoa!

Beto Benjamin: Ouvindo sua história veja quanta coisa não nos permitimos na vida! Pela primeira vez em quarenta anos você fez algo do gênero! Imagine o quanto nos privamos por ignorância, por medo ou qualquer motivo. Quantas possibilidades perdemos? Quantos encontros não existirão? Quantas dimensões e experiências na vida jamais conheceremos por causa das amarras que criamos?

Pedro Gordilho: De acordo. São responsabilidades que assumimos e temos que dar conta. Nos comprometemos. Normalmente, começava a caminhada por volta de sete e meia. Havia dias que caminhava vinte quilômetros. São quatro horas para chegar ao destino. Muitas vezes, era um vilarejo de somente cinquenta pessoas.

Ficava ali batendo papo ou, às vezes, era um lugarejo chato. Não tinha nada interessante. Pô, parei aqui quando podia ter caminhado mais um pouco. Chegado em outro lugar. Em compensação passamos por vilas e áreas belíssimas. Dava vontade de ficar mais um dia. Não ficava. Era um dia em cada lugar mas, vejo que podia ter me permitido estender um pouco mais. Porém eu tinha uma meta: o dia de retornar ao Brasil. Passagem comprada. Poderia ter mudado sim mas, foi tudo muito bom. Reclamar do quê?

Beto Benjamin: Como foi a preparação para essa caminhada ?

Pedro Gordilho: Não sou um atleta. Nunca fui. Tomar a decisão de viver uma aventura dessa, não foi fácil. Comecei a me preparar de verdade apenas dois meses antes. Meu amigo Luiz caminha todos os dias. Faça chuva ou faça sol . Percorre quinze quilômetros.  Uma verdadeira máquina de andar. Viciado em caminhar. Eu não…

Ele me disse que precisávamos começar a treinar. No primeiro mês caminhávamos uma vez por semana. Saindo do Campo Grande passando pelo Jardim dos Namorados até Itapuã em Salvador e voltando. Vinte quilômetros sob o sol. Fazíamos isso em quatro horas, uma vez por semana.

No segundo e último mês da preparação, aumentamos para duas vezes por semana, com mochila como peso. Pode imaginar a cena? Duas figuras estranhas caminhando com mochila na paisagem da orla de Salvador? O barato é que na volta fazíamos um “pit stop” no Yacht Clube, que ninguém é de ferro e tomávamos aquela cervejinha gelada e o banho de mar. Uma beleza…

Recuperava tudo. Foi aí que comecei a perceber que todas as dores que sentia, passavam, depois que descansava. O corpo se recompõe de modo e velocidade impressionantes. As dores crônicas nas articulações sumiam. No último dia da caminhada-treino, percorri quarenta e dois quilômetros sem precisar ir ao médico. Nada. Nenhum problema para resolver. Zero dor.

Falando de dinheiro a viagem você pode montar com o orçamento que quiser. Tem lugar para todos os preços. O verdadeiro Peregrino é aquele que come o menu do Peregrino oferecido em todas as cidades: primeiro prato, segundo, sobremesa, vinho, água e pão. Custa apenas dez euros.

Se quiser, come-se apenas isso. Não tem mais vontade de comer nada porque é muita comida. Vinho Malbec por apenas 5 Euros. Dorme-se num albergue. Cama e  banho. Não tem roupa de cama. Leve o seu saquinho de dormir porque o colchão não tem plástico. Então você não vai ficar naquele contato. Tem albergues particulares um pouquinho mais caro. Tem os das prefeituras que não são tão limpos. A viagem pode ser muito barata. Eu revezei acomodações. Fui experimentando…

Beto Benjamin: Como foi que escolheu o percurso da caminhada? Como e por que São Tiago criou esse caminho?

Pedro Gordilho: Dizem que na época que ele viveu, e fez essa peregrinação com os apóstolos de Jesus criou-se a marca do Caminho de Santiago: uma vieira. Os peregrinos para provar que a fizeram, passavam por Santiago de Compostela iam até Finisterra que era o final da terra na costa da Espanha, pegavam a vieira e traziam de volta, como prova. Fui até lá tá, comprovando que fiz o caminho de Santiago.

Eu também trouxe a vieira!

Cenas do Caminho de Santiago de Compostela

Houve muitos momentos emocionantes na viagem. Os olhos se enchiam de lágrimas diante de tanta beleza que estávamos vendo. Dava para sentir o quão pequeno você é nesse mundo. impressionante mesmo.

Vou contar uma situação que me emocionou muito bem no final da viagem. Foi no último dia quando já estávamos voltando. Luiz e eu estávamos juntos há trinta e um dias longe de casa, longe de tudo. Mais que natural desejar voltar para o aconchego de sua casa, rever sua família e os amigos.

Aí ocorreu uma coisa surpreendente. Luiz foi para a França se encontrar com sua mulher. Fizemos juntos o voo de Santiago até Madrid. Saltamos do avião. Ele ia pegar uma conexão para a França e eu pegaria ali mesmo o voo de volta para o Brasil. Fomos caminhando pelo aeroporto sabendo que teríamos algumas horas horas de espera.

O tempo foi passando mas a hora foi chegando. Caminhamos na direção do portão e de repente nos deparamos com uma bifurcação. Era a hora da verdade:

Ali tínhamos que nos separar.

Um iria para um canto e o outro para o outro. A emoção nos atingiu em cheio. Dominou tudo. Olhamos um para o outro e começamos a chorar. Desabamos no choro. Dois homens crescidos chorando que nem criança.

Beto Benjamin: Pedro, Essas emoções na verdade eram um resgate da essência de vocês e que foi se perdendo pela vida, se distanciando de emoções que nos distinguem como seres humanos!

Pedro Gordilho: Concordo totalmente. Emoção como aquela parece que vai ficando algo distante, impossível. No dia que acontece “a ficha cai” e você se depara com um tremendo estranhamento. Que está acontecendo comigo? As lágrimas escorriam. Puta que o pariu!

O que é isso companheiro?

Uma viagem assim é como um casamento. Você se separa da sua família e, querendo ou não, fica trinta e um dias com uma pessoa só. Passando vinte quatro horas por dia com ela. Seu companheiro, amigo de conversar, de rir, contar piada e, na hora de uma separação repentina olha o que acontece. Como é que não sente?

As lágrimas escorriam de meu rosto e eu me perguntando Que porra é essa? Por que estou chorando como uma criança?

Evidente que já estava emotivo, no último dia, pelo fato de estar retornando. Abandonando tudo aquilo que estava vivenciando Aquele momento foi muito forte, Cheio de significados para mim e, certamente também para o meu companheiro de peregrinação Luiz.

Cenas do caminho de Santiago de Compostela

Beto Benjamin: Falando de viagens e histórias posso pedir licença para contar uma Pedro? Em 1992, quase trinta anos atrás, fiz uma viagem a Cingapura, como executivo da Odebrecht. Estávamos construindo uma plataforma de produção de petróleo e gás para a Petrobras. Era a atual P-XVIII em consórcio com uma empresa local. Fernando Barbosa era o líder da nossa equipe de brasileiros residentes em Cingapura.

Encontrei o Fernando muito estressado, lidando com um parceiro novo e um cliente que sempre jogava duro: a Petrobras. Resolvi chamar o Fernando para dar uma relaxada e fomos para Bangcoc na Tailândia passar o fim de semana. Cidade interessante, movimentada, cheia de gente, carros e “tuk-tuk” (riquixá motorizado) pelas ruas. Aquela bagunça o oposto da “pasteurizada” Cingapura.

Estávamos andando pelas ruas de Bangcoc quando nos deparamos com uma universidade budista, cheia de monges com aquelas roupas de cor laranja, típica deles. A porta estava aberta, entramos e pedimos para falar com algum monge. Afinal vínhamos de muito longe. Queríamos bater-papo. Saber como era a vida de um monge budista e ali estava a oportunidade.

Não contávamos com o fato de que a maioria dos monges que ali estavam, não falava uma palavra de inglês. Nos levaram para uma sala e disseram para aguardar.  Ficamos sentados no chão, sobre um tapete, por muito tempo e nada acontecia. Não aparecia monge nenhum. Olhamos um para a cara do outro e fomos ficando inquietos, nervosos, chateados com o “chá de espera…””

Quando íamos levantando para ir embora, apareceu um monge com aqueles óculos redondos à la John Lennon. Silenciosamente entrou e ao invés de falar, se sentou e ficou nos mirando com aquele ar de paciência budista, distanciamento esotérico e olhos miudinhos mas, bem vivos…

Começamos a nos sentir os maiores babacas. Poxa, entramos numa “furada”. Esse desejo de entrar aqui e conversar com um monge foi uma “roubada”. Lá pelas tantas e já completamente agoniado quando ia me virando pro Fernando para dizer: “vamos embora que esse cara não vai falar porra nenhuma. Só vai ficar olhando aqui para gente…”
Nesse momento o monge disse umas palavras que jamais vou esquecer. Falou em inglês com aquela “vozinha” abençoada e pausada:

“Vocês ocidentais são muito apressados…”

“Puta que o pariu!” Pensei. Olhava para o Fernando e o Fernando olhava para mim. Ambos com vontade de dar um pau naquele monge. Saímos da Bahia para escutar essa lorota aqui, no outro lado do mundo…

O monge sem se abalar, arrematou: “Vocês gostam de fazer tudo apressadamente.”

“A grande viagem não é que a gente faz para fora. É a que a gente faz para dentro.”

Pronto. Recado dado. Curto e delicado. Disse tudo o que precisávamos ouvir naquele momento. Caímos na real. Nada mais precisava ser dito. Pelo menos para nós. Nos despedimos do monge e abraçamos seu ensinamento para o resto da vida.

Você Pedro, está nos contando a “sua grande viagem”. Na verdade, você – sabendo ou não  – estava fazendo as duas: suas pernas te conduzindo na caminhada real e suas emoções no outro caminho, interior, resgatando sensações e valores que está nos contando.

Revela parte de sua essência que, como você mesmo disse, não estava tendo acesso há muito tempo. Com isso está nos permitindo desfrutar paisagens e passagens tão importantes e belas, quanto as outras do mundo exterior…

Continua no próximo post

1. Como conheci o Pedro

Tinha nome de apóstolo, de santo, braço direito do Chefe, pedra ou rochedo (Petrus em latim, vindo do grego Pétros ou do aramaico Cephas), vá lá. Ainda não existia Google mas, imagino que dona Maria Sanches e “Seu” José Geraldo – seus pais – devem ter feito essa pesquisa, antes de decidir por esse nome: Pedro mesmo, em bom português! A bem da verdade e de acordo com a Bíblia, seu nome deveria ter sido Simão, pois era esse o nome do caboclo que Jesus Cristo batizou de Pedro… Complicada essa história de nome, né?

Pedro, não o apóstolo – o Gordilho – se apresentou para uma entrevista, um dia, assim do nada, no canteiro de obras de uma construtora na cidade do Salvador, Bahia. Disse que era candidato a estagiário (ou estacionário, nome sacana e jocoso que todos que ali trabalhavam, designavam os que ainda eram estudantes de Engenharia e, buscavam ganhar um pouco de experiência prática nas empresas). O candidato era o moço da foto acima…

Ele se recorda – mais que eu – das bobagens e lorotas que escutou, de mim claro, durante a curiosa “entrevista”, caminhando pelo canteiro de São Joaquim. Afinal estávamos na Bahia, no princípio dos anos oitenta do século passado, evidentemente.

Como bons baianos (mesmo os  que vieram de fora trabalhar na empresa) respeitávamos todos os santos, sem exceção. Lá ninguém é maluco de brincar com eles.

Ainda mais ocupando um pedaço de terra à margem daquela calma e linda Baía de Todos-os-Santos, encantos e axés… Foi assim que transcorreu a entrevista.

Eu era o Gerente de Contrato, responsável pela construção de plataformas para produção de Petróleo, do grupo Odebrecht, tendo como cliente a Petrobras. Como terminou a história entre a Odebrecht e a Petrobras todos sabem e, não vem ao caso. Lugar de lavar roupa suja não é aqui.

Ao final da “entrevista-andante” (Carlinhos Brown só tempos depois inventaria o “camarote-andante” no carnaval), Pedro Gordilho estava aprovado e contratado como estacionário! A conferir.

Ingressou na empresa naquela “honorífica” função e, foi logo mostrando quem era. O famoso “arriar das malas”, que a vida vai nos ensinando a conhecer sobre as pessoas! Agitado, irrequieto, inteligente, criativo, gozador, já foi “avisando” que não ia ficar muito tempo.

Pedro queria aprender alguma coisa da atividade de construção e montagem de plataformas mas, o que desejava mesmo era “ser patrão de si próprio”. Metido mesmo! Se achava! Claro que tinha suas razões. Tanto atrevimento num jovem só não era algo comum. Tomei nota e o mantive sempre à vista, acompanhando de perto seus passos e seu desenvolvimento no canteiro de obras.

Não deu outra. Era um inventor nato. Foi logo bolando um “andaime suspenso” (esse o Brown desconhece) para colocar no topo da plataforma em construção e facilitar a atividade de soldagem. A “sacada” era que o andaime que ele criou podia ser montado ao nível do chão, preso nos tubos que constituíam as “pernas” da plataforma, ao serem giradas para a posição vertical, já estavam prontos para serem utilizados na soldagem seguinte. Economizava tempo e dinheiro para o projeto. Entenderam? Também não precisa entender, pois vocês não vão construir plataformas para a Petrobras.

Levamos a sério a invenção e a empresa pediu ao INPI a patente do andaime criado pelo Pedro Gordilho. Afinal eram dois atrevidos: ele e nós! Nisso combinávamos bem. Patente não devia ser coisa apenas para estrangeiros e, achávamos que merecíamos respeito! E lá fomos nós lutar contra a burocracia brasileira…

O jovem Pedro certamente ganhou o respeito de todos e não foi mais tratado como “estacionário”! Naquela plêiade de engenheiros e técnicos, vindos de várias regiões do Brasil e, na atividade que desempenhávamos, essa “reconhecimento” valia muito. Pedro soube valorizar.

Graduou-se em engenharia mecânica pela Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia e um dia “pediu as contas”. Foi embora. Disse que tinha chegado a hora. Ia enfrentar o desconhecido. Virou gente grande. Montou sua própria empresa: a Rótula Metalúrgica (https://www.rotulametalurgica.com.br/). Foi correr atrás de seu sonho:

tornar-se patrão de si mesmo.

Só muito mais tarde, descobriria que não era bem assim: que sem querer e sem carteira assinada, era “empregado” do governo que lhe cobrava impostos, aconteça o que acontecer! Mas, isso aí é outra história. Coisa para outro post.

Sabedor que Pedro Gordilho resolveu fazer o caminho de Santiago, fui logo avisando que, na volta, teria que dar uma entrevista para o NuncaseSabe. Aceitou de bate-pronto.

Aqui está a conversa que tive com ele, regado a bons quitutes baianos que Ana, sua esposa nos ofereceu, acompanhados de cerveja bem gelada num início de noite, no aconchegante apartamento deles no Campo Grande, em Salvador com uma vista espetacular da Baía de Todos-os-Santos e da ilha de Itaparica.

2. O caminho de Santiago

Beto Benjamin: De onde vem essa sua devoção por São Tiago? Com tantos santos e orixás aqui na Bahia, vai escolher logo um espanhol? Que negócio é esse?

Pedro Gordilho: Calma aí Benjamin. Quem disse que eu tenho devoção por São Tiago? Tenho não… Sou devoto de mim mesmo… Apesar do meu nome, não sou devoto de santo nenhum… Essa experiência – percorrer o caminho de Santiago – que resolvi viver na minha vida, foi um parêntese; um tempo que me dei de presente, pois nunca tinha feito algo parecido. Seria a primeira vez.

Beto Benjamin: Há quanto tempo você é empresário?

Pedro Gordilho: Minha vida toda foi pura labuta. Minha empresa, a Rótula Metalúrgica tem trina anos. Eu, quarenta anos exercendo a engenharia. Resolvi me presentear e soltar um pouco as amarras que me prendiam… Aquelas que a gente pensa que existem. Na verdade elas não são reais mas, as criamos e nos prendemos como se fossem. Inventamos um nó na vida. Tudo saído daqui, de nossa cabeça. Cada dia que passa, descubro que as coisas não são bem assim.

Beto Benjamin: Por que o Caminho de Santiago e não outra coisa?

Pedro Gordilho: Há cerca de dez anos, conheci Luiz Seixas, pai do namorado da minha filha, que viria a se tornar meu melhor amigo. Atualmente, não namoram mais. Entretanto, ficou uma amizade muito bonita. Luiz já fez esse caminho duas vezes. Eu não conseguia entender essa “viagem” dele. Fazer uma vez, eu até entendia mas, duas? Era demais para minha cabeça.

Na primeira vez que ele relatou a viagem, retruquei: “Você é maluco!” Ele respondeu: “Não dá para explicar, descrever o que a gente vive.” O motivo para fazer uma caminhada daquelas eu não conseguia entender. Era descrente de coisas que não são concretas, cartesianas. Meu mundo sempre foi assim, muito diferente desse outro.

De um certo tempo para cá, comecei a olhar a vida de outro modo. Não sei a razão mas, comecei a olhar para dentro de mim. A prestar atenção ao que se passava no meu interior. Era um busca de autoconhecimento. Psicanálise. Minha vida começou a mudar. Foi aí, que despertei e comecei a enxergar “as amarras que nos prendem”. Aquelas que criamos e nos limitam.

Depois dessa experiência vivida vejo com muito mais clareza. Não conseguia imaginar que um dia, andaria novecentos quilômetros. Foi a distância que andei, nessa primeira vez que fiz o caminho de Santiago.

O que me motivou, foi a empolgação que meu amigo Luiz transmitiu. Fomos juntos inclusive. Era sua terceira vez.

Eu estava numa etapa da vida que permitia fazer isso. Arrisquei um monte de coisas e fui. Ana me apoiou. Não é fácil deixar a família, sair do conforto de sua casa para um lugar distante, diferente. Dormir em albergues, em quartos com até cinquenta pessoas, muitas roncando, fazendo todo tipo de barulho. Dormir em beliches com zero conforto. No outro dia e todos os outros dias, acordar cedo e encarar um caminho que não se sabe direito qual é.

Você diz para si próprio: “Porra, quero andar hoje vinte quilômetros”. Mas tem trinta e dois para fazer. “Será que consigo?”

Muitas vezes, não acreditava que conseguiria. Entretanto, todos os dias acordava com mais disposição e alegria no coração para caminhar. Seguir em frente.

Uma coisa é sair caminhando pela orla de Salvador, sabendo onde vai chegar e voltar. Outra, é caminhar sem saber aonde vai chegar, nem o que vai encontrar pelo caminho. São duas situações bem distintas.

Fiz um levantamento – coisa de engenheiro – foram dois milhões de passos aproximadamente caminhados nesses dias. Fui presenteado, a cada quilômetro, com paisagens belíssimas, clima extraordinário e pessoas de todo o mundo, que  se encontram pelo caminho. Enfim, uma troca experiências que abre o coração.

As pessoas que você encontra pelo caminho, te contam coisas íntimas, segredos. Impressionante. Parece um irmão ou alguém que já conhecia há muito tempo. Não dá para descrever. Fiz mais de duas mil fotos imaginando mostrar às pessoas que amo, o que eu via e vivia mas, não dá para descrever fotos ou sentimentos… e o engraçado é que nem a imagem consegue transmitir. Você coloca a foto na televisão ou no computador e não é a mesma coisa…

Lá, ao vivo, você usa todos os sentidos: a visão, o tato, o olfato, o seu paladar tirando uma fruta do pé e comendo no meio do caminho; a audição conversando com as pessoas. O som das pedras que você está pisando. Não dá para descrever e é muito estranho uma pessoa como eu, tão descrente dessas coisas intangíveis falando como estou aqui. Jamais daria valor a coisas tão pequenas…Foi uma experiência belíssima. Se sente uma força que lhe motiva a caminhar todos os dias.

Cenas do caminho de Santiago de Compostela

Continua no próximo post.

Finalizando o post anterior:

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Família Benjamin: O patriarca avô Elias, avó Santa e os primeiros seis de seus nove filhos! Tio Valdimiro é o segundo a partir da esquerda

O banho no rio

Ao chegar das viagens de negócios, tio Valdimiro se aboletava em um dos muitos quartos daquela casa grande dos meus avós, à beira do Rio Cachoeira. Tirava os trajes de “cavalhadeiro” (chapéu, casaco de couro, botas com esporas etc.), colocava um calção e arrastava a meninada para o fabuloso banho no rio, que corria no fundo da casa e cortava toda a cidade. Seu séquito era constituído por muitos primos…

Na maior confusão, cada um querendo segurar sua mão, lá ia ele com aquele cortejo de sobrinhos pequenos, magros como gravetos.

Pulávamos de alegria, como cabritos, até chegar à beira do rio. Claro, nenhum de nós sabia nadar. Vão tomando nota de quanta coisa não sabíamos, naquela época! Éramos crianças, se esqueceram?

Entrávamos no rio e nos esbaldávamos, nadando nas costas do tio, como filhotes de macaco, pendurados em seu pescoço. Ele atendia a todos. Ninguém ficava sem nadar. Era uma grande confusão e gritaria, como é próprio dos meninos…

Me lembro bem… Ele nos carregava um por um, nadando até uma pedra no meio do rio. Deixava um por lá e, vinha buscar o próximo, até completar a turma. Como o rio não tinha correnteza naquele lugar, ficávamos quietinhos, na pedra, aguardando a nossa vez. Para nós, aquilo era o máximo…

Quando terminava o banho no rio, voltávamos com os olhos vermelhos, de tanto mergulhar na água e, sempre com as mãos de “velho”. Era como chamávamos as mãos engelhadas.

Na verdade, como não conhecíamos bem o nosso idioma (éramos crianças, lembram?), chamávamos de mãos “engiadas”, vocábulo que escutávamos dos nossos pais, que tampouco conheciam bem a língua portuguesa (isso também, só descobriríamos mais tarde!).

A charrete de carneiros

Mas, as traquinagens não se limitavam ao banho de rio. Tinha também as corridas com parelhas de carneiro! Essa tenho que explicar: o tio trazia, de vez em quando, junto com seus cavalos, um bando de ovelhas, carneiros e cabras. Era para vender para o abate na cidade. Uma vez mais, só descobriríamos isso depois.

Para nós, elas eram os “cavalos” que puxavam nossas charretes… Sim, montávamos com os carneiros uma espécie de miniatura de carro de boi e saíamos pelas ruas das redondezas e quem quisesse que saísse debaixo, senão corria o risco de atropelo.

Era uma algazarra enorme nesses passeios deliciosos. Ouvíamos muitos xingamentos dos transeuntes mas, não estávamos nem aí. Nos divertíamos à valer pilotando nossa charrete. Imperdível mesmo.

Gostávamos da velocidade que os carneiros desembestados imprimiam à charrete. Só veria algo “comparável” às nossas bigas e peripécias pelas ruas do bairro depois, quando crescesse:

as corridas do Ben-Hur no filme do Cecil B. de Mille e na Fórmula 1, quando o meu herói passou a ser o Ayrton Senna!

Dinalva, a namorada

Ah! Tio Valdimiro tinha uma namorada. Se chamava Dinalva. Ah Dinalva… Com seus dezessete anos, era belíssima. Seus cabelos eram pretos e longos.

De todos os primos do pedaço, sei que ela gostava mais de mim.

Achava que além de gostar de meu tio, ela era “apaixonada” por mim (só iria descobrir que o apaixonado era eu, quando me explicaram o significado de Eros. Muito tempo depois. Eu já não era mais criança!). Me lembro, que além de muito bonita, usava calça! Não era comum uma mulher, naquela época, usar calças. Tudo isso junto atraiu a minha atenção.

Meu tio e ela faziam uma brincadeira conosco: eles se separavam e cada um dizia o que ia fazer; então os primos escolhiam com quem iriam e corriam para o escolhido. Não dava outra: eu sempre ficava sozinho, nos braços dela, claro!

Aquelas cenas tinham um certo despertar erótico precoce, reconheço. Eu ainda não sabia. Descobriria muito tempo depois, quando crescesse. Algo me movia na sua direção e não queria saber das brincadeiras do tio, como os outros primos.

Corria, me pendurava em seu pescoço (dela, evidentemente) e me deixava envolver pelo seu cheiro, perfume, carinho, abraços e beijos.

Seu cheiro e aquelas cenas ficaram gravadas para sempre em mim…

Dinalva então me levava para o parque de diversões – como se eu precisasse de outro parque para me divertir! Enquanto os outros primos (bobos!) se “picavam” com o tio para o banho no rio ou montar cavalos! Vejam se eu ia perder uma coisa dessas?
Ainda hoje, na hora de dormir, às vezes, as cenas com Dinalva me vêm na memória. Nessa hora, volto a ser criança…

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A taca de cabo prata

De vez em quando, também montava cavalo com o meu tio. Ele deixava eu segurar a taca e, até batia no cavalo, fingindo que eu era o “cavalhadeiro”! Esses anos de infância, não sei precisar quanto durou no tempo cronológico. No meu “relógio”, durava uma eternidade. Não acabava nunca.

Não sabia que o tempo era uma dimensão da vida. Também não sabia o que era o tempo e muito menos o que era a vida!…

Então essa infância transcorria assim. Com o tempo sempre marcado a partir das chegadas de tio Valdimiro em casa na cidade.

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Cenas de Tio Valdimiro em fotos corroídas pelo tempo!

O crime

Então veio o dia do crime. Meu tio acompanhado de alguns amigos foi para uma casa de tolerância num bairro da cidade. Era muito comum naquela época de muita repressão sexual que os homens adultos frequentassem os puteiros da cidade. Não era apenas em Itabuna. Era a pratica em todo o país!

Soubemos depois por testemunhas como se deu o crime. Lau e meu tio, além de outros companheiros se reuniram nesse puteiro e ficaram bebendo até tarde da noite. Lau tinha planejado tudo e atraído meu tio para uma cilada.

Lá pelas tantas restaram só o meu tio e ele. Lau entâo se despediu e “foi embora”. Na verdade, se escondeu de tocaia atrás de uma porta na descida do sobrado onde eles estavam.

Meu tio desceu e quando passou por ele alguém apagou a luz. Nessa hora Lau disparou vários tiros de pistola Parabellum. Mortalmente ferido e empunhando sua pistola (embora sem forças pois um dos tiros tinha atingindo exatamente o braço esquerdo) tio Valdimiro ainda teve forças para se arrastar para um bar defronte e caiu no chão dizendo: “Chamem minha mãe. Diga a ela que quem me matou foi Lau. Não sei porque ele fez isso…” E tombou morto.

A cena com seu corpo sendo velado na casa da minha avó Santa, eu descrevi no início do post anterior. Ela nunca saiu de minha memória…

Lau, o assassino, tinha recursos. Fugiu e a polícia só conseguiu capturá-lo, anos depois. Foi julgado em júri popular (por este e outros crimes) e condenado a dezoito anos de prisão, tendo cumprido apenas seis. Libertado, casou-se com a advogada (filha de um rábula famoso em Itabuna) que o livrou da cadeia. Bela dupla!

A família nunca mais foi a mesma após o assassinato de tio Valdimiro! Logo em seguida, um dos cunhados dele abandonou a mulher com sete filhos e sumiu. Foi embora para São Paulo. A família perdeu um líder e um provedor.

Os anos se passaram… Um dia, quando eu já tinha uns quinze anos de idade, andando na principal avenida da cidade, a Cinquentenário, em Itabuna, minha mãe e eu, demos de cara com o assassino, que tinha saído há pouco tempo da prisão. Minha mãe gritou para ele ouvir:

Roberto, esse homem aí na frente, foi quem matou seu tio!”

À pouca distância, olhei para aquele homem moreno e alto. Olhar crispado. Estava olhando para o rosto de um facínora, um assassino, um matador. O homem que tirou a vida do meu tio.

Ele me olhou e baixou a vista. Eu sustentei o olhar mas, não senti nada. Nem raiva, nem pena, nem desejo de vingança! Era como se estivesse olhando para uma sombra…

Sem dizer nada, segui em frente!

Beto Benjamin

 

Se queres paz, prepara-te para a guerra! (provérbio latino) 

Aquela imagem do corpo estendido dentro de um caixão de madeira maciça, marrom com um tampo de vidro e alças douradas jamais sairiam da minha cabeça! E ele estava lá dentro, imóvel, morto… Era meu tio. Chamava-se Valdimiro Mello Benjamin e era “cavalhadeiro“. Sabe o que é isso?

Na verdade ele era muito mais. Eu só não sabia. Era criança. Tinha sete anos. Criança nunca sabe de nada. Só sente, brinca e vive cada momento, sem se preocupar com mais nada. Enquanto é criança. Falo assim, porque somente muito tempo depois, descobriria que além de tio, ele era meu herói. Criança não sabe o que é isso…

Herói de criança é a vida.

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Parabellum, a arma alemã que matou meu tio!

Tio Valdimiro tinha apenas vinte e quatro anos. Fora assassinado a tiros de pistola Parabellum na noite anterior.

Foi um crime encomendado e bem planejado. Ladislau Pereira de Azevedo – o Lau – filho de uma conhecida família da cidade (para Nelson Rodrigues nenhum botar defeito) e “amigo do meu tio”, foi o pistoleiro de aluguel, contratado por Manoel dos Santos – um rival de negócios na comercialização de animais – para executar o serviço. O mandante do crime  só se saberia anos depois, quando o assassino foi finalmente preso, julgado e condenado por vários crimes, além desse.

Também não sabia o que era assassinato e, muito menos, o que era Parabellum. O latim – que aprenderia no ano seguinte como coroinha (carregaria essa palavra como apelido, graças à gozação dos amigos) – seria para ajudar os frades capuchinhos nas celebrações das missas (nessa época as missas eram todas em latim, no mundo inteiro! Uma maluquice só, pois ninguém entendia bulhufas do que estava sendo dito), na Igreja Católica no bairro da Conceição, para onde minha família se mudaria.

Era o ano de 1959 e a cidade, Itabuna. Parecia um daqueles povoados do velho oeste americano em pleno no sul da Bahia, que eu veria nos filmes quando crescesse. Naquela época do cacau, era uma das mais violentas do país. O transporte de cacau das fazendas para o porto de Ilhéus era feito por animais. Itabuna era um grande entroncamento desse comércio. Uma cidade muito movimentada e contava com pistoleiros de aluguel. Se matava por inveja, dinheiro, rixas, brigas, intrigas, por muito pouco ou pelo simples prazer de matar… um verdadeiro faroeste!

Na noite do crime, me lembro de ter sido acordado na madrugada com os gritos de desespero e choro da minha mãe, dona Diná. Quando perguntei o que aconteceu, ela respondeu: “Mataram o seu tio Dute“! Era assim que minha mãe, carinhosamente chamava o irmão.

Dia seguinte já no velório, olhando ali parado, aquele caixão apoiado em cavaletes, quase na altura do meu tamanho, na casa de minha avó Maria, só vinha a lembrança do meu tio chegando na rua em que morávamos, montado num cavalo bonito, esquipando. Chegava em casa, mais uma vez com a “tropa” de cavalos, no bairro da Mangabinha. Era uma festa.

Era o próprio caubói brasileiro. Sul-baiano claro. Trajava sempre um  belo casaco de couro marrom, botas com esporas e taca de prata na mão esquerda. Sorriso no rosto com um dente de ouro aparecendo.

Era canhoto e exímio  pistoleiro. Muito respeitado na pontaria. Também só fui saber depois…

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Tio Valdimiro e seu cavalo

Tio Valdimiro era valente, me contaram meus tios e tias. Não tinha medo de nada. Só de alma. Era! Tinha medo de alma mesmo. A única coisa que respeitava. Vaidoso, só vestia roupas de linho, quando estava na cidade. Possuía ternos de várias tonalidades, sempre de linho. Tinha uma coleção de botas e seu animal era todo paramentado com enfeites de primeira. Fazia questão de ostentar os arreios e a sela de qualidade.

Circulava a cavalo por Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais fazendo negócios com os fazendeiros. Quando chegava, nunca estava sozinho. Negociava cavalos (comprava e vendia) e era um jovem inteligente. Muito esperto. Tinha sorte também e um tino extraordinário para negócios. Pernoitava nas fazendas. Os fazendeiros, que o abrigavam nesses percursos, eram seus clientes e admiravam seu jeito cativante de levar a vida e fazer negócios. Era trabalhador e bom de negócios. Gostavam muito dele.

Levava semanas e até meses para voltar em casa em Itabuna, cavalgando por aí. Mas vinha sempre. Chegava a Itabuna com um bando de cavalos e companheiros, que levantavam poeira na rua. Todos os sobrinhos que estavam em casa – e éramos muitos – corriam para recebê-lo, saudando-o em grande algazarra. Éramos muitos os familiares que moravam na mesma casa. Coisa de árabe mesmo.

Já revelei em post anterior minha origem, que muito me orgulha também sem saber o porquê. Até hoje nem o Líbano visitei! Pode uma bobeada dessas? Será corrigida em breve. Deve dar, no mínimo mais um post no NuncaseSabe!

Adorávamos quando ele vinha. Sabíamos que ia ser diversão na certa e nossos pais não conseguiriam nos impedir de brincar com ele e fazer altas peripécias. Ele era tio e líder na família. Todos, inclusive os irmãos e cunhados lhe deviam reverência. Pelo menos era essa a leitura que eu fazia. Lembre-se: eu era criança, bem me lembro!

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Tio Valdimiro

Quando ele chegava em casa, minha avó Santa (tem nome melhor para designar uma avó? O nome verdadeiro era Maria) sempre aprontava aquele almoço para ele e seu bando. Sim, era um bando mesmo. Trazia consigo homens desconhecidos e alguns bem mal encarados. Para nós aquilo não importava. Era ele, que importava. Comiam fazendo muito barulho e confusão. Falavam alto. Não eram educados. Isso também eu só descobriria depois…

Comiam pedaços de frango com a mão, rasgando-os com a boca, como os bárbaros que eu veria anos depois nos filmes de Hollywood. Iguaizinhos. Posso relembrar a cena como se fosse hoje. Falavam alto, com a boca cheia de comida, gargalhavam e bebiam cachaça. Isso eu já sabia o que era. Afinal, já tinha sete anos!

Vocês devem estar mais que curiosos, querendo saber o final dessa história, não é? E como se deu esse crime! Pois é. Eu também! Levei sessenta anos para contar. Estou contando agora…

Continua no próximo post

PS.: As fotos  desse post foram fornecidas por minha querida tia Geny que mora em Salvador

Completando a trilogia de Em Busca da Leveza Perdida, falando de coisas que me foram significativas no ano passado, apresento um breve resumo de uma das aulas de Filosofia, cujo tema foi extraído da obra fenomenal do Marcel Proust Em Busca do Tempo Perdido.

4. O CURSO LIVRE DE FILOSOFIA DO AUTERIVES MACIEL JÚNIOR NO RIO DE JANEIRO

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Auterives Maciel Júnior

Falando primeiro do professor: Auterives – nome para filósofo grego nenhum botar defeito. Acontece que ele é baiano, de Vitória da Conquista. Vive no Rio de Janeiro, onde ensina Filosofia! Herdou o nome do pai, batizado por sua avó portuguesa Sibéria (outro nome interessante para uma mulher!), que se inspirou no francês “haut-river“. Quando se diz que baiano não nasce, estréia, não é brincadeira…

Ele começou a vida profissional como cineasta e depois se dedicou ao estudo da Filosofia. Graduou-se pela UERJ e doutorou-se em Teoria Psicanalítica pela UFRJ. Atualmente, é professor na PUC – Rio de Janeiro, na pós-graduação da Universidade Veiga de Almeida no Rio e, ministra cursos livres de Filosofia na Casa do Saber e adjacências… Foi nas adjacências que o conheci e, fiquei fã.

Auterives – segundo seus alunos e ele próprio – é um entusiasta da Filosofia. Fala com conhecimento, convicção, vibração e convencimento. Não é pouco para ensinar Filosofia a neófitos como eu. Com seu jeito baiano, parece possuir o dom de “destrinchar” os temas filosóficos e uma capacidade extraordinária de tornar simples as explicações sobre os filósofos e suas – na maioria das vezes – complexas obras.

Foi assim que funcionou para mim. Ele consegue falar de Filosofia com uma tal simplicidade que a prosa escorre fluida. Engraçada até. Dá mesmo a impressão de reduzir a filosofia e seus conceitos, aos produtos que se vendem nas feiras-livres (os conhecidos horti-fruti) que apreciamos: abacaxi, manga, banana, laranja, tangerina, mamão, abacate, melancia, jaca, etc. Não ria não… Estou falando sério!

A brincadeira faz sentido, pois os filósofos, para mim,  se parecem com as frutas… Existe uma infinidade deles e delas, cada um com seu jeito, formato, cheiro, cor e gosto. Assim como as frutas, se pode escolher um ou mais filósofos para simpatizar, estudar, aprender, ensinar, divertir, refletir ou infernizar nossa razão e nossa vida. Bem ao gosto do freguês. Pode escolher à vontade…

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Horti-frutis filosóficos

Sei que comparar Filosofia – quase uma religião – com “horti-fruti” é blasfêmia talvez digna de punição, em alguns lugares do mundo! Sorte a minha, que não sou o Salman Rushdie autor dos Versos Satânicos, nem moro perto dos aiatolás do Irã e muito menos vejo os talibãs do Afeganistão! Cruz Credo!

Sou, como o Auterives, apenas um baiano de  boa cepa (creio eu), neto de libanês (meu avô Elias Abdon Benjamin era cristão maronita) e confesso que fico mais à vontade numa feira livre. Tem filósofo que é indigesto… Não é mesmo? Auterives que o diga!

Portanto Aristóteles, Sócrates, Platão e companhia, que me perdoem a maldita comparação mas, foi o que senti quando vi o mestre exibir sua catilogência (uma mistura de categoria, lógica e inteligência), discorrendo sobre alguns deles. Parecia mesmo um capoeirista dos bons, desmistificando os – terríveis e às vezes, difíceis de compreender – conceitos filosóficos.

Senti grande alegria nas aulas e nas “viagens filosóficas” que fizemos. Acompanhadas por uma sensação de conhecimento, entendimento e uma certa elevação, ao compreender os filósofos, suas criações, seus problemas e seus dilemas.

Muitas vezes nas aulas, tínhamos a impressão, de encontrar por acaso Sócrates passeando com Aristóteles, Platão, Spinoza, Schopenhauer, Kant, Deleuze e Nietsche, dentre outros Então, queríamos falar:

“Ei caras! Tão indo prá onde? Sentem aí. Vamos conversar um pouco! Como é mesmo aquela sua ideia sobre…”

Viu? Pois é. Adquirimos coragem, intimidade, algum conhecimento, atrevimento e um certo respeito…

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Marcel Proust

A aula que escolhi para comentar, como exemplo, nem é sobre um filósofo. É sobre um escritor: o Marcel Proust, autor por quem tenho uma enorme admiração decorrente de sua incrível viagem pela Arte (no caso as letras) e, sobretudo por sua aptidão para escrever longos parágrafos, narrando seu olhar e seu sentir. Um espirro, por exemplo! Não exagero. É isso mesmo.

A obra em questão é Em Busca do Tempo Perdido. A visão de nosso filósofo, é que Proust queria tratar do aprendizado de um homem de letras ao escrevê-la. Com que exuberância e qualidade o fez!
O conjunto que constitui essa obra, em sete volumes, foi escrito entre 1908/1909 e 1922 e publicado entre 1913 e 1927! O Proust não estava para brincadeira!

Segundo Proust, aprender significa interpretar signos. Por sua vez, o signo para Proust é o objeto de um encontro. Como podemos então definir signos? No próprio encontro. Sacou?

O signo não é a pessoa encontrada. É o que rolou no encontro…

Imagino a cara do Proust, ao ver o esforço de nós mortais, em seguir seus passos e, buscar entender seus escritos sobre os sentimentos, a arte de viver e recordar, tão impregnados de colossal memória, ilimitada descrição, infinitos detalhes e descomunal constatação.

Dá vontade mesmo de ser Proust – nem que seja por um instante – e tão inspirado quanto ele, poder descrever um por-do-sol, o nascer de uma lua, o olhar e o sorriso de uma mulher ou, ainda, os vislumbres que nossos sentidos eventualmente tem…

                                                Mestre Auterives e seus blue-caps!

Auterives chama a atenção para o fato de que é preciso, diminuir as “defesas narcísicas” de cada um de nós, para que o encontro aconteça e se desenrole com os elementos do acaso. Assim desprovido de agenda, de “script”. Tarefa não muito simples, né?

Você gostaria de ter encontros à la Proust? Posso dizer que tive a sorte de ter alguns, no ano passado. É surpreendente a qualidade da conversa, os assuntos conversados, os “insights” e os significados do que rola… Pode até influenciar ou modificar sua vida! Sem exagero. Experimente fazer encontros assim. Veja o que acontece e – se sobreviver – conte depois!

Vou logo alertando que, para o encontro acontecer, é preciso correr o risco de experimentar. Como tanta coisa na vida. Arriscar experimentar! Coisa que as crianças tiram de letra e, nós adultos, tropeçamos nas próprias pernas. Encontros assim, não podem acontecer apenas na imaginação ou no pensamento!

Experimentação é a atitude daqueles, que estão sempre interpretando algo e, sabendo que sempre há “algo” lhe escapando. Só é possível alcançar esse “algo” através de uma abertura. Só sabe que se está experimentando algo, quando você se torna um aprendiz.

Simplificando, quando você “sabe tudo”, você não aprende “porra nenhuma (os filosóficos termos que vocês acabam de ler são meus e não do Auterives). Não existe aprendizado, quando há certezas. O aprendizado se esconde nos “problemas”. Viu?

Ainda segundo nosso querido Proust, existe quatro tipos de signos:

Mundanos: Neste signo, as pessoas estão na “perda do tempo”: indo para festas fazer “caras e bocas”, por exemplo… Os signos mundanos portanto, são vazios. Porém, aprendemos algo com eles, quando entramos em contato, com o vazio de nossas vidas.

Amorosos: São signos “mentirosos” (olha o tamanho da encrenca que o Proust está comprando!) Quem se apaixona tenta, sem sucesso, entrar no mundo do outro. Parece que sempre há “um segredo”, no mundo do outro. Claro, esse mundo já foi habitado por outras pessoas, outros amores. Segredo esse, impossível de conhecer…

Daí decorrem os ciúmes, desconfianças, sofrimentos, angústias, etc. Um quer dominar o mundo do outro, mas, quanto mais se esforça, mais se sente excluído. Quando você ama, sofre e é movido por uma fantasia impossível de se concretizar. Entretanto, mesmo com o fracasso de uma relação amorosa, pode-se se sair com um aprendizado.

Sensíveis: Para Proust, existem as memórias voluntária e involuntária. Segundo ele, a inteligência não seria suficiente, para abordar a memória do próprio passado. Só o disparo por algum elemento (os sentidos), poderia acessar essa memória involuntária. Daí a clássica e indefectível associação da “madeleine“, quando ao mergulhá-la numa xícara de chá e prová-la, Proust tem acesso a toda a sua infância, passada de acordo com seu livro, na cidade fictícia de Combray.

Da Arte: Signo superior ao amor. Não confunda que ao fazer Arte, não vamos amar mais. Aqui o significado, é fazer Arte, para poder amar de uma maneira “artística” e, através dela poder re-significar as relações amorosas. Tá claro? Essas relações passam a ser cuidadas esteticamente. A Arte dá ao ser humano, a possibilidade de alegrias maiores que as mundanas, as sensíveis e as amorosas.

Resumindo então, aprender é estar aberto a experimentos, ao acaso; ao não previsto; enfim aos problemas. Criar problemas não é criar obstáculos. É trazer soluções. Criar problemas e solucioná-los é aprender, buscar entender. Só se aprende, experimentando.

Proust se encontrou na literatura. Virou escritor escrevendo, experimentando.

Cada ser humano tem uma essência e uma diferença extremamente singular. Essa essência só consegue se expressar, através da criação. Não é que seja inata. Na verdade, é quando você cria coisa, para além de sua certeza. Aí surge seu estilo e, assim, você se torna singular.

Quem? Você mesmo!

Essa singularidade só aparece quando você se expressa. É difícil expressar singularidade no amor. Ao contrário, as pessoas querem se fundir. Mas, quando aquele que ama, escreve um poema para sua amada, está se expressando e mostrando sua singularidade. Tá bem assim?

Proust em sua obra, escreve sobre a arte, amor, homossexualidade e sobretudo sobre a passagem e o significado do tempo e do olhar.

Como diz Caetano Veloso:

mora na Filosofia… prá que rimar, amor e dor!

Gostou do Auterives, do Proust e da Filosofia?

Até o próximo.

Beto Benjamin

ps.: Este post só foi possível graças às anotações fidedignas de nossa colega Rachael Botelho.

3. A EXIBIÇÃO DO FILME “OLHOS NEGROS” (OCI CIORNIE) E O DEBATE

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Prosseguindo a busca iniciada no post anterior, onde me propus a relatar assuntos que me foram importantes em 2018, apresento um evento que participei no Rio de Janeiro, que me pareceu singular: a exibição do filme Olhos Negros, seguida de um debate.

Olha só o cartaz convidando para a exibição do filme: “Olhos Negros” e Outros Olhares! Não tá belíssimo? Vocês também não gostariam de ver uns olhos negros como aqueles do cartaz? Eu fui e vi!

Tudo aconteceu de forma pouco convencional, pois o lugar da exibição não era um cinema comum e o debate que se seguiu, muito menos, reunindo um escritor, um psicanalista, um poeta e os presentes à sessão.

Para começo de conversa, o “cinema” era ao ar livre na Sauer Danças, uma Academia no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.

Ir ao cinema é sempre um grande programa mas, estar num cinema ao ar livre é outro negócio. Bem melhor. Muito mais agradável – desde que o tempo esteja bom, claro – e relaxante pois, literalmente o céu é o limite. Foi o nosso caso naquela noite de primavera no Rio de Janeiro.

A produção caprichou! Distribuídas pelo pátio da Academia, as cadeiras e poltronas nos permitiram assistir uma sessão de primeiríssima, sem sentir falta de ar condicionado. Nem a pipoca faltou… O filme: “Olhos Negros”, uma produção ítalo-soviética-americana (sim, ainda existia União Soviética!), tendo Marcello Mastroianni como astro principal.

A película, baseada em contos de Anton Tchekhov, descrevia um casamento falido entre um pobretão (Romano, interpretado por Mastroianni) e Elisa (interpretada por Silvana Mangano) uma aristocrata riquíssima, que o sustenta, cada um vivendo em seu mundo e aquela aparência de faz de conta que está tudo bem. Não estava…

O personagem vivido por Mastroianni – no meio daquela mediocridade toda – entediado, busca aventuras fora do casamento, talvez para compensar parte daquela vida vazia, desprovida de sentido. Flerta com todas as mulheres que aparecem na sua frente. Um verdadeiro don Juan. Papel que Mastroianni dá uma aula de interpretação conquistando, a Palma de Ouro de Cannes, como melhor ator, em 1987.

Um dia, Romano com a desculpa de buscar cura para uma doença imaginária, se refugia numa estação de águas e conhece a tímida Anna (interpretada por Yelena Safonova), uma jovem russa, pela qual se apaixona, sem se dar conta direito. Ambos são casados. Ela, não suportando aquele amor improvável, o abandona e volta à Russia deixando uma carta em russo explicando seu gesto. Ele, por sua vez, ao se ver abandonado volta “à vidinha em família”. Não acaba aí…

Ao conseguir traduzir a carta deixada por Anna, a paixão entre os dois fala mais alto e ele arranja um pretexto bobo para ir até os confins da Rússia à procura de sua amada… Assim se desenvolve o filme, com paisagens belíssimas da Rússia Soviética, além de cenas impagáveis de fino humor retratando satiricamente a burocracia da Rússia czarista, mescladas com belas canções do folclore russo.

Sob a batuta do renomado diretor Nikita Mikhalkov, contou ainda, com as participações de Silvana Mangano e Yelena Safonova entre outros atores. A  trilha sonora foi de Francis Lai. O título do filme é de uma popularíssima canção folclórica russa, Ocie Ciornie, que significa Olhos Negros. Vejam algumas cenas do filme abaixo, com um Mastroianni impecável!

Vejam só os prêmios e indicações em festivais especializados que esse filme conquistou:

  • ganhou o troféu do Festival de Cannes, de melhor ator, para o Mastroianni em 1987 e também à Palma de Ouro;
  • indicado para o Oscar de 1988 de melhor ator;
  • indicado para o BAFTA no Reino Unido como melhor filme em língua não inglesa em 1989; 
  • venceu na categoria de melhor ator (Mastroianni) e melhor atriz (Yelena Safonova) o prêmio David di Donatello em 1988, na Italia.
  • indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro, pelo Globo de Ouro, em 1988, nos EUA.
  • indicado ao prêmio César em 1988 na França, como melhor filme estrangeiro.

Com interpretação magistral do Mastroianni, “Olhos Negros” tem cenas inesquecíveis e impagáveis como essa abaixo, que dispensa comentários, Pela beleza do cenário, dos figurinos e sobretudo do significado do gesto de um cavalheiro diante de uma dama.

Na minha vida presenciei e, até já passei por algumas situações similares, onde um homem tem a oportunidade de demonstrar sua sensibilidade perante uma mulher, uma musa, um amor ou uma paixão; mas com a simplicidade e beleza dessa cena, não tinha visto. Confiram no vídeo abaixo, se não é verdade!

Claro que o debate foi muito mais rico que o resumo que apresento aqui apenas para dar a vocês um “gostinho” do que foi na realidade. Vejamos um sumário das opiniões dos convidados, o psicanalista Carlos Mario Alvarez, o poeta Érico Braga e o escritor Juva Batella e no final, ainda me arrisco a dar o meu palpite.

1. OPINIÃO DO PSICANALISTA CARLOS MARIO ALVAREZ

Em “Olhos Negros”, vemos mais uma vez o amor romantizando o humano. O tal ente dito “amor” se re-apresenta desde a perspectiva de um bom bufão (Romano ou Don Marcello Mastroianni) que mirou os olhos de uma mulher (Anna)  e que por estes olhos, de alguma forma, foi também mirado.

A partir deste encontro – miríade de miríades refratárias e refratantes – desta quase anedota à dois, com e por ela, fez as mais prósperas e impossíveis apostas: viver a paixão mesmo com tantas barreiras, tantas improbabilidades, tamanha fenda, acidente geográfico abissal. Pois o amor existe pleno ou ele é, virtualmente projetado? Ou as duas coisas?

Bem, meus caros, o amor é evanescente, é safado, é sagaz, é manco, é e pode ser equivocante. O amor é chama e chamado, que queima e arde, até incinerar os amantes. Eis o que vemos se desdobrar em “Olhos Negros”: um belíssimo, chiquérrimo e capcioso conto de amor e desencontro que revela o quão bobos, inconsequentes e ainda sim, belos, podem ser os olhos dos apaixonados. 

2. OPINIÃ0 DO POETA ERICO BRAGA

Como não poderia deixar de ser – noblesse oblige –  o comentário do poeta veio em forma de poesia:

A entrega é o finito
Sem angústia ou euforia
Mas o divino senso de ironia
De serem deuses por um dia
E seus cordeiros imolados
Pela paz e pela orgia
Sem uma gota de pecado

A entrega não é dar-se, ceder, fartar-se
Ou um brinde à fantasia

A entrega é toda a espera consumida
No ato

A entrega é todo o universo
No laço

A entrega não é alma ou corpo
Mas o quarto

Quando a mulher se entrega,
É ela
O homem,
Só seu palhaço

3. OPINIÃO DO ESCRITOR JUVA BATELLA

Quase tudo em Olhos Negros é vidro. O filme, estruturado em narrativas de Tchekhov, funciona em torno de uma história que o protagonista, Romano, conta de si mesmo. E esta história — retrospectiva e toda ela endereçada a um companheiro de conversa e viagem, a quem Romano conta a sua vida de negócios e amores —, se a princípio nos parece digna e forte, ao final se espatifa, qual o pedaço de vidro que o nosso herói carrega às costas por quase todo o filme.

Drummond escreveu no seu “Poema de sete faces”: “Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Vai tu, Romano. És cigano, um homem já nascido sem um mapa, e por isso vagas pelos corações das mulheres e pela Rússia. Com os homens não tem conversa. No conto de Tchekhov, “A senhora com o cachorrinho”, nosso herói chama-se Gurov: “Na companhia dos homens, ele se entediava, ficava pouco à vontade (…), mas, quando se encontrava entre mulheres, sentia-se livre e sabia o que falar com elas e como se portar…” 

Romano é um sedutor, sim, mas antes de tudo seduz a si mesmo, sendo seduzido por sua própria beleza, por seu charme e pela fragilidade com que se expõe às mulheres. Uma vez apaixonado, desdenha do universo do bon vivant que ele sempre foi, e olha desiludido para o frívolo mundo à volta. “Que mentalidade horrível, que personagens!”, escreve o russo sobre o seu Gurov. “A jogatina de carteado, a glutonaria, a bebedeira, o falatório constante sempre sobre os mesmos negócios desnecessários e as conversas inúteis” (p. 18).

Só lhe interessa a bela Anna, possuidora dos olhos negros. Mas um homem em quem a transparência e a complexidade não são excludentes não poderia apaixonar-se por uma mulher simples e sólida. Anna é atormentada por si mesma, e seu coração também é de vidro. É confusa e odeia-se. Tem a certeza de que não merece o amor de Romano. Nas palavras de Tchekhov: “… e ela (…) sempre lhe pedia que confessasse que não a respeitava, não a amava nem um pouco, e só via nela uma mulher vulgar” (p. 15).

A complexidade de Romano tem a transparência do vidro. Sua mulher, Elisa, sabe disso, e finge acreditar que aquela carta em Russo não significa um amor adúltero. Ela sabe, e vê, como se diante de um vidro de carne e osso, que seu marido está perdido, uma vez que um vivo casamento já não tem, carreira nunca teve, e dinheiro não terá. Quando empreende um novo negócio, a venda aos russos de um vidro especial, nosso herói fracassa. A garantia que Romano oferece aos seus parceiros comerciais, prometendo a inquebrantalidade absurda do seu produto, é também vidro partido — bem como a garantia que dá à Anna de que ele voltará, desfeito o casamento com Elisa, para o seu beijo, já não mais adúltero. Romano possui toda a covardia do mundo para não honrar sua palavra, e esta promessa de amor, claro, também se espatifa.

O que não se espatifa neste filme é a estrutura impecável da narrativa, que tem a lógica dos grandes contos clássicos: o seu desfecho, que emerge com graça e simplicidade, mas com grande impacto. A graça? — Está aqui: o espectador se dá conta, findo o filme, de que todas as pistas que o levaram ao significado daquele desfecho estavam sempre ali, diante de seus olhos. Não viu, não porque não quis ver; não viu porque estava seduzido pela história. Isto basta para que um grande conto e um grande filme se tornem inesquecíveis aos olhos e ao coração.

4. MINHA OPINIÃO

Esse filme me causou uma impressão fortíssima por sua beleza, personagens e cenários, quando o assisti em 1988, no Rio de Janeiro. Ficou em mim uma interpretação um tanto não usual da “amargura” e suposta “covardia” do personagem Romano, quando diante de tudo, fraquejou e não foi atrás – como prometera – da mulher amada, objeto de sua paixão.

A covardia do Romano o levou ao dificílimo caminho de amar uma mulher à distância, sem efetivamente a tê-la. Ele se “condenou” a pagar um tributo eterno e demonstrar aquele amor, repetindo – diariamente – para os viajantes que se apresentassem, a sua história de paixão!

Mais que julgar os personagens do filme, claramente pintados pelas cores dramaticamente amargas e satíricas do Tchekhov, me deliciei com a beleza dos figurinos, paisagens, situações hilárias, cenas de profunda beleza estética e musical. Uma que não esqueço é a cena de Romano acompanhado de um grupo de ciganos cantando uma canção russa de ninar chamada Nanna Ninna. De uma beleza fenomenal.

Deixo a covardia de Romano para quem quiser atirar a primeira pedra em assuntos de amor e paixão! Lembro que a diferença entre o vidro e o diamante, reside apenas em uma dose extraordinária de temperatura e pressão e, poeticamente, finalizo perguntando quem diante do amor ou da paixão, nunca foi vidro ou fez o papel de palhaço, alguma vez na vida? Não é mesmo?

Finalmente e encerrando a trilogia de Em busca da leveza perdida, o próximo post será sobre uma aula do curso livre de filosofia dado pelo prof. Auterives Maciel Filho, no Rio de Janeiro, para um grupo fechado. Dotado de um didática peculiar para o ensino da Filosofia, o mestre baiano é figura bem conhecida no meio acadêmico da Filosofia no Rio de Janeiro.

Até lá então!

Beto Benjamin