
Olhe só a beleza da composição pictórica dessa capa de álbum, com ilustração de Francisco Freitas.
“Dentro de mim cabe o mundo” é o show que a cantora e compositora carioca Monique Kessous batizou para apresentar seu último CD – o terceiro, que leva o mesmo nome – e está rodando o Brasil.
Fui assistí-la em Ipanema e me encantei! Carioca, bela e com um lindo sorriso faz um show divertido – às vezes engraçado, principalmente quando conversa com o público.
No show pude apreciar sua vivacidade, as composições diversificadas, sua ligação com o Aqui e Agora, a atualidade das canções que apresenta.

O Mundo Não Cabe Nela? Foto: Mariana Lemos
Descomplicada e multi-instrumentista, a artista diverte o público numa sessão onde não se nota o tempo passar. Ao contrário: “poxa, já está acabando?” é a pergunta que se faz! E ainda bota o público literalmente na roda… Os músicos que a acompanham não deixam por menos!
Ao chegar em casa não pude deixar de mergulhar em sua discografia e escrever este post em sua homenagem.
Encontrei muitas pérolas no caminho, e trago algumas para vocês: Aqui tem é uma delas… Abre o novo CD e você pode ouví-la no Spotify abaixo…
Olha só o que a Monique faz na companhia do impagável Ney Matogrosso, em letra com parceria de Chico César!
Quer aprender a cantar com ela?
Cante junto ao Lyric Video abaixo:
E que tal essa balada, Volte para Mim?
Confira abaixo as pérolas que Monique compôs para seu mais recente álbum :
Acompanhe o dia a dia da Artista em seu Instagram Oficial:
https://www.instagram.com/moniquekessous/
ou visite seu site:
https://www.moniquekessous.com.br
Bon Voyage,
Beto Benjamin
Somos alguns, poucos-muitos
salão amplo – luzes e espelhos
corpos em movimento – olhares descomprometidos
juntos – diferentes razões, mesmo propósito.
Mestre e método – com eles
nunca perguntamos direito para onde…
Vamos!
Com algum esforço 
obedeço
– logo eu, a desobediência em Pessoa!
Objeto mas, ainda assim, sigo o comando:
ergo vagarosamente – um braço:
O do abraço!
Sei que desafio tua força de atração;
temeroso – espero reação
teimoso, penso:
quanto custará
rebelde movimento?
o braço erguido
demasiado pesar
como notícia de morte inesperada!
O resto do corpo – grudado ao chão…
desgastado, de escuras tábuas…
sofridas por infinitas passadas de descalços lúdicos pés
Olho de soslaio, vejo o corpo inerte
contemplo a mão estendida
que consigo arrasta
prolongado pulso-braço-ombro…
quase tudo!
Com suave deslocamento, tento o indizível…
juntos – arroubo e atrevimento
blasfemo e arredio
busco quem sabe…
Deus!
Sem pestanejar, executo mestras ordens:
sim sinhô!
Nossos corpos
de tanto se erguerem
relutando
cansam, balbuciam, estremecem!
ensaiam
ondulantes movimentos – se sucedem!
serpentes mágicas
dançam!
bailarinos invisíveis de piano-melodias
divagam! Devagar, com pesar, impressão e esmero
braços erguidos, avançam esculpindo o ar…
Não re-sis-tem!
Sombras e luzes
primitivos gestuais
lembranças kármicas,
de escuras e invernais cavernas
coletiva – abissal procura,
ofegantes transpiram
em preto e branco…
Se tu me queres rastejando,
Sibilinamente replico…
Abatidos prostrados membros,
acusando o golpe
retrocedem…
Mãos escancaradas se apoiam no chão-tablado!
Corpos se elevam – estranhos impulsos te provocam – in-sis-tem!
Submissos cérebros, transmissores sinápticos de ordens e da vontade.
Formas, espaços-tempos, ventres, umbigos, seios: inspiram, suspiram
quase piram…
Nesse instante vida vibra, lateja, aquece, sofre, sua
esdrúxula apoteose de belos troncos nus – feitos para uns
formas nem tão perfeitas – feitas para outros
entre si diálogos-mudos, murmuram incompreensíveis filosofias estoicas.
Parecem contemplar Platão
que surtado do fundo de sua caverna,
cospe seu discurso-ódio pelo
Artista-Poeta!
De repente não se sabe donde,
ecoa a gargalhada
sinistro som, solfejo puro, ópera inacabada.
Atrasado, já perdoado e interrompendo tudo – chega um Hiato…
que entra direto,
na dança incontida – descontrolado!
Me carregam, indesejado – no meio do nada.
Flutuo sem peso – nem massa…
Arquejo…
me vejo – me ergo todo por completo
meneio, apenas a cabeça…
e tateio os quatro cantos
das paredes mentirosas deste mundo
não deixo barato!
Atento a tudo
nada vejo,
a tudo escuto
Dou-me conta enfim:
não é corpo meu que ali está!
Surpreso levanto atônitos olhos.
Não era mesmo!
Quem se atrevia?
Perplexo e admirado, de susto tomado reconheci: uma alma,
juro que não sabia!
Impressionado com surpreendente inversão
vi que o erguer do braço fisicamente
não correspondia…
era pura ilusão:
“Corpo, metáfora do tempo…”
entendo o que dizes
potestade das forças naturais…
magneto invisível e ultrajante
que tudo aprisiona e limita…
Amor? não poderás ser, jamais!
Rio
e ciente de teus poderes, estou!
Mas, se desejas mesmo demolir meu esforço
– eloquente e assombrada criatura –
por que sussurras bajuladora, ao meu ouvido:
“Deixe que Eu faço tudo
meu poder é real e invisível
bobo, não percebes?
larga teu peso solto
deixa
que eu resolvo”
Ao redor, busco as pessoas
donde surgiu infame fala?
silêncio…
sem resposta,
só me resta
viajar fundo
para dentro, de mim!
Contudo, num golpe rápido, devolvo e brado:

“Recuso tua proposta vã.
vai-te daqui…
ninguém te quer…”
Lembro bem oh! Majestade
não faz tanto tempo assim…
há apenas alguns anos-luz viajando tranquilo por esse universo infinito…
percorrendo o belo cosmos, embalado por tua universal constante,
lá pela altura de Andrômeda, dei de cara com uma estrela errante…
Era uma Supernova
estava irreconhecível.
Quase chorou!
Que cena! já pensou?
queixou-se amargamente de ti e da tua cúmplice ação
de estrela de primeira grandeza, graças à tua torpeza,
foi reduzida a estrela-anã!
Ora preciosa Rainha,
sei que zelas muito por tuas amizades:
portanto, fiques atenta para o que a teu respeito pensa
Isaac Newton, nosso matemático e teu cupincha…
Tu que tanto lhe deves o nome e a fama,
saibas que ele já decidiu rever seus cálculos, modificar tua equação.
Comovido com o drama da recém-nascida estrela – a Supernova,
quer arrancar de vez tua máscara vilã!
Indeciso ainda, não sabe quem cai primeiro:
se ele mesmo, tua constante ou a maçã!
Sei que ignoras solenemente meus impulsos!
Sei que sarcasticamente não dás a mínima,
para minhas tentativas de enfrentando, te abolir.
Já que impotente nesta luta sou
quero te propor um pacto, outro mister:
Manténs as estrelas no céu
para que não caiam de uma só vez
sobre minha atormentada cabeça…
e, por favor, insistas com a lua,
para que permaneça lá em cima, bem distante
assim, na Terra os poetas não precisam morrer mais!
Por fim, um último pedido:
contenhas com tua força bruta
os astros nas suas respectivas órbitas:
ordem, ordem no universo!
compreendes, Majestade?
não é pouco o que tens a fazer…
e se não atenderes meus pedidos
me vingarei duplamente pois
enfrentarás sozinha
a ira de Aguirres deuses
e de baianos Orixás!”
…………………………………………………………………………………………………………………………….
Aqui de volta ao mundo-chão, a matéria-corpo refuga, recusa, tergiversa,
corre atrás
do pensamento
se esgueira – balança
chove, sopra, vento e eu!
Me amarra – me prende
nessa cota-plano-zero rasteira – vil
tua companhia sedutora – opressora
me mantém imóvel – orbitando
o buraco negro do meu umbigo!
Assim me dou por satisfeito…

Aprisionado, meu corpo se nega
maldito destino aceitar
Minha alma em protesto aberto e solto
desafiando e zombando de ti Gravidade,
voa…
Beto Benjamin
Dedicado aos colegas de Alongamento da turma de Jean-Marie Dubrul na Sauer Danças – RJ
Mayra Andrade! Você já conhecia essa menina?
Nascida em Cuba, seu padrasto era um diplomata do Cabo Verde e desde cedo se empolgou pela música. Cresceu no Senegal, Angola, Alemanha e no Cabo Verde onde estreou em 2002. Não parou mais… Apaixonada pela música brasileira (adora Caetano Veloso!) dá um show de bola cantando nossas músicas sem sotaque, cheia de força e com um charme especial que a vida lhe deu! Atualmente vive em Paris e seu repertório inclui canções em português, francês, inglês, espanhol e crioulo (língua nativa do seu querido país Cabo Verde)!
Para quem não se lembra, Cabo Verde é um arquipélago com dez ilhas, ex-colônia portuguesa situada a 570 km da costa Ocidental da África e na música notabilizou-se por ser o país de Cesária Évora, a maior cantora cabo-verdiana cuja fama é reconhecida mundialmente. Apesar de se situar mais acima do Brasil, Cabo Verde na verdade parece – de sua distância africana – contemplar eternamente o nordeste brasileiro. Precisa dizer mais alguma coisa?
Falam que Mayra é a nova Cesária Évora. Vai chegando de mansinho, como quem não quer nada e pá! Rosto muito expressivo e forte, sua presença é marcante e sua figura se impõe na hora. Quando canta então não sobra para mais ninguém. Veja só o dueto que ela faz com um cantor francês no vídeo abaixo!
Como o seu país, o trabalho musical de Mayra já é um arquipélago de idiomas e ritmos!
Viajando e vivendo entre tantos oceanos, senhora do World Music e de tantos outros ritmos musicais, Mayra Andrade já gravou quatro CD´s: “Navega”,”Stória, Stória”, “Studio 105” e “Lovelly Difficult”. Ganhou prêmios importantes em vários festivais e concursos mundo afora… Ela não é brincadeira! Por isso separei para nosso deleite, três vídeos mostrando uma infinitésima parte de seu já oceânico trabalho musical.
Confira o show que Mayra dá nesse dueto com o cantor Benjamin Biolay! Ela cantando em legítimo português do Brasil (sem sotaque) e ele, em francês! Olha só a música que ela escolheu! Para Chico nenhum botar defeito!…
Escolhi ainda outra canção, “Dispidida”, do compositor cabo-verdiano já falecido Orlando Pantera onde Mayra canta em crioulo (sua língua natal) acompanhada de músicos de sua terra Jon Luz, Sérgio Figueira e Jair Pina. Aprecie a beleza de ritmos e acompanhamentos!
Esse vídeo faz parte de um documentário sobre Mayra intitulado Kontinuasom.
E para finalizar o post, veja só a interpretação que ela dá à belíssima composição nordestina “Lamento Sertanejo” de Gilberto Gil, com os acompanhamentos dos craques Hamilton de Holanda e Yamandu Costa. Dispensa comentários, não é?
De arrepiar!
Salve, Salve, Mayra de Andrade e viva o Cabo Verde!
Beto Benjamin
Notas:
- Quem tiver interesse em conhecer melhor seu trabalho clique em:
www.mayra-andrade.com - Confira o último álbum de Mayra, de 2013, Lovely Difficult
Em tempos de Carnaval e em especial do Carnaval de Salvador, que participo há décadas (quem não conhece não faz ideia da festa que é!), escolhi uma música do cantor e compositor Saulo Fernandes, lançada em 2013 chamada Raiz de Todo Bem, para representar meu sentimento de estar todos os anos no Carnaval dessa cidade africana e ao mesmo tempo prestar uma homenagem à terra onde nasci, a Bahia.
A primeira vez que escutei essa música foi na voz do menino Mika, nosso querido vizinho do Boulevard das temporadas de verão na ilha de Itaparica. Nas serenatas na porta de casa, ele sempre aparecia e cantava Raiz de Todo Bem, com seu jeito de moleque e uma harmonia incrível para sua idade… Marcou. Gravei na memória. Sua cadência e ritmo de reggae surpreendentes ecoavam como um hino. Pelo menos para mim, Mika a tornou inesquecível… África iô iô…
Essa canção também me fez recordar que parte de meus ancestrais veio para cá tangido pela fé. Vieram de terras distantes do Oriente Médio diretamente para a Bahia, outro lugar de muita luz, encantamento e fé. Me fez lembrar ainda, das caravanas de camelos de desertos imensos e longínquos, dos relatos de meu avô árabe quando era criança. Pois é com essa origem – de um lugar também misterioso, povoado de sonhos e surpresas – que me vejo, trazido a esta África, quiçá por uma combinação improvável de eventos históricos, que haja alinhamento de planetas para explicar! Assim, aqui nasci…
Logo eu – poeira das estrelas – fiel e único depositário da minha própria existência! Já que fui escolhido pela loteria do universo para nascer e se tornar (estrear diriam Caetano e Gil com as bençãos de Betânia e Gal) parte dessa baianidade nagô, saúdo o Benin e, dispenso qualquer tentativa de explicação – esotérica ou não – para o GPS do meu nascimento. Simplesmente aceitei!
A fé, o santo, os escravos, o caboclo, o candomblé!
África sou eu!
A pipoca dos trios, a maniçoba, o Boca do Inferno, Jorge Amado, os mestres Bimba e Pastinha, a saída do Ilê no Curuzu, o Olodum e seus tambores, o Araketu, o som arrasador do trio dos Novos Baianos, a guitarra impetuosa de Pepeu e Baby, a menina que ainda dança; o trio Armandinho, Dodô e Osmar com Vavá Furquim fazendo o som e eu de contra-regra; o trio de Daniella Mercury, Luiz Caldas e seu fricote, Moraes Moreira, o desfile das “bonecas” e o encontro dos trios no alvorecer das quartas -feiras de cinzas na Praça Castro Alves, o trio Tapajós, o bloco do Jacu, os Internacionais, a banda Eva, Ricardo Chaves, Saulo Fernandes, Ivete San Gallo, o Asa de Águia, o Camaleão, a Timbalada, o arrastão e os Zárabes de Brown, o Chiclete com Banana, Bell Marques, os Filhos de Gandhi, os Apaches do Tororó, os bailes do Bahiano de Tênis, o acarajé e o abará, o sarapatel, a moqueca de camarão de Dadá, o vatapá, o xinxin de galinha, a carne do sol, o caruru de Cosme, Damião e Doum, o filé do Juarez, as festas de largo, as baianas e a lavagem do Bomfim, a procissão de Odoyá, as festas imperdíveis de Licia Fábio, o terreiro do Gantois, a bata que aprendi a usar com Guilherme Hippie, a gangue de Aratu, os ensaios de Carlinhos Brown no Candyall Gheto Square e no Museu do Ritmo, os atabaques… enfim, a Bahia! A fé no Senhor do Bonfim… Oxalá!
Tudo isso era apenas para apresentar a música de Saulo, com os negros versos de Somos a Bahia declamados por Aloisio Menezes, na introdução do vídeo abaixo!
Digam se não dá vontade também de gritar:
Baiano sou eu!
Somos nós!
Beto Benjamin
Raiz de Todo Bem
Salvador, Bahia
Território africano
Baiano sou eu, é você, somos nós
Uma voz, um tambor
Oxente
‘Cê num’ tá vendo que a gente é nordeste?
Cabra da peste
Sai daí batucador
Quem foi seu mestre?
Capoeira
Se plante
Lá vem rasteira
Pé de ladeira
Preciso da fé no Senhor do Bonfim
Pra mim, pra você, pra mim
Um chinelo de couro, uma bata
Uma benção, mais cinquenta centavos de som
Aumenta o som!
Africa Iô iô
Salvador, meu amor
A raiz de todo bem, de tanta fé
Do canto Candomblé
África Iô iô
Salvador, meu amor
A raiz de todo bem, de tanta fé
Do canto Candomblé
Como sempre faço desde a criação do NuncaseSabe, quando chega dezembro é hora de uma reflexão sobre os posts publicados, bem como sempre surge uma certa curiosidade sobre aqueles que virão… Uma espécie de balanço para “tomar pé” do que aconteceu e sobretudo do que ainda está para acontecer… Posts são uma espécie de “filhos metafóricos” que se põem no mundo. É curioso e interessante acompanhar suas trajetórias no tempo e no espaço. Coisa de pai e filho, entende?… Embora tenha afirmado que, no caso do NuncaseSabe, “esses filhos pródigos” não me pertencem! Uma vez postados, se tornam independentes, criaturas da vida e do mundo (dos leitores é claro!)…
Fica para mim uma espécie de sentimento, numa comparação – quase blasfema – com a maneira que viemos ao mundo: os posts se assemelham a filhos na hora do parto… No momento em que são publicados – como filhos saltitantes dos ventres de suas mães – respiram tomando o impulso inicial da vida e, literalmente berrando, nascem. Adquirem seu próprio momentum. Assumem sua existência. Não precisam ser amamentados, nem cuidados… Se estabelecem por conta própria. Nem lhe dão mais satisfação (com o perdão do trocadilho…)
Seguem caminhos difíceis de prever e, revelam uma certa vocação para chamar a atenção dos outros. Pretensiosos, os posts, sem querer, parecem nos olhar do alto, solertes e, “fazerem promessas” quando estreiam: seus pontos riscam o ar com percursos mirabolantes – muitas vezes impossíveis – traçando no espaço retas, curvas, círculos, parábolas, hipérboles, elipses e, até superfícies de revolução. Inimagináveis. Ambiciosos sugerem, simulam, dissimulam, surpreendem, atraem, registram e confirmam suas efêmeras existências, na leitura que os leitores eventualmente fazem. Depois se aquietam. Cumpriram seus papéis.
Tendo sido morador do Alto das Pombas, vizinho da Dadá e de Dick Ogburn, no tempo de estudante universitário em Salvador, não poderia deixar de reconhecer que esse comportamento vaidoso dos posts remete literalmente às pombas, se não me falha a memória, do poema de Raimundo Correia, lido na adolescência:

As Pombas
Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada…
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…
Metáfora parnasiana do porto seguro de um lar qualquer? Se arrisca a um palpite ou a uma interpretação? O eterno retorno às origens – das pombas – mas, não dos sonhos? Sacou? Os posts – pombas sem asas – como elas, teimam no seu existir, a ir e vir… Firmes, impassíveis, assentados como rochas no mar oceano permanecem perenes e silentes no formato em preto e branco e, às vezes, até mesmo a cores… Sempre ali… No NuncaseSabe, ora pombas!
Embora tenha prometido que esse site não seria objeto do umbigo, não deixa de ser surpreendente que ao refletir sobre os posts, seja acometido por uma sensação que desconhecia existir. Não tinha noção de que escrever para o NuncaseSabe poderia trazer uma inesperada revelação: me vejo, em cada post publicado sobre os Outros e, vejo os Outros em cada coisa que escrevo, ou seja em mim… “É que Narciso acha feio o que não é espelho…” Chama o Caetano Veloso ai!… Ou não!
Por conseguinte, tenho dúvidas se estou sendo fiel à minha promessa. Parece não importar. Como se isso fosse parte do aprendizado. Do existir. Vejo agora – mais claro que antes – que quando escrevemos sobre os Outros, estamos falando e revelando, também e inconscientemente, algo sobre nós. Querendo ou não… Talvez seja da condição humana. Consciente ou não. Não vejo mal nisso, nem sinto algum incômodo. Ao contrário.
Para mim esses posts aparentam registros de cenas… Narrativas… Constatação e viagem – psicanalítica ou não – quiçá, sobre facetas dos nossos incontáveis eus. Conhecidos ou não. Vislumbres de certas emoções, flashes de memórias (guardadas, deletadas ou esquecidas), verdadeiros sonhos, filigranas imponderáveis de nossas angústias, anseios, medos, desejos e de tudo o mais que nos reside e acompanha, nessa grande aventura do viver. Sobrevivem no texto, na linguagem, na descrição, no palavreado. Enfim, existem certamente sem noção no post nosso (“de cada dia, dia após dia…”) ou do Outro! Quem sabe?
Nesse espaço do NuncaseSabe continuo cada vez mais, buscando a leveza, a suavidade, a beleza, a sonoridade, a sutileza, o alvorecer das palavras já que – aprendiz de feiticeiro – aqui uso a linguagem como instrumento da comunicação. O encontro e o reencontro. Porém além do palavreado tenho buscado nos posts o visual, o lúdico, o musical e sobretudo permitir que sentimentos aflorem, se desdobrem e revelem por si só seus vigores e originalidades (quando existirem genuinamente).
Sigo solitário as estrelas do céu. Como andarilho sem destino e sem pressa – quase senhor do meu tempo – , à procura do extraordinário. Cada vez mais convicto, de que ele está próximo, nos arredores, na nossa frente. Diante dos olhos, que nem sempre veem. Está invariavelmente no comum, no trivial, na simplicidade, naqueles e naquilo que nos cercam.
Nas minhas andanças – literárias ou não – constato que buscar não significa necessariamente caminhar longe. Na maioria das vezes basta o olhar. Aqui mais uma vez recorro ao mestre Jean-Marie Dubrul. Além de ter tomado emprestado o nome de batismo do site de suas repetidas declarações – ao acompanhar o movimento dos seus alunos – nas aulas de alongamento, quando ele dizia: “Calma. Devagar. Não se trata de esforço. Isso aqui não é terapia. Não ultrapasse seus limites… Nunca se sabe!” Pois bem, mais adiante ele completava, alertando que o olhar precede tudo. “Basta seguir o olhar. Ele vem primeiro”... O movimento começa pelo olhar.
Aplicando sua máxima tenho me deparado com pessoas, coisas e fatos extraordinários. Graças ao olhar, que faz ver e distinguir. Captar enfim. O olhar, de acordo com o Jean-Marie, é questão de escolha. Fiz a minha! E não me arrependi.
Enfim vou procurar o sonho nos posts de 2018. Os meus e de quem for encontrando no caminho… Já será um bom começo. Sem eles e sem a curiosidade ainda estaríamos nas cavernas… Transeunte do mundo vou continuar celebrando a vida e trazendo para cá aqueles que a festejam… O vasto mundo e suas celebrações infinitas. Independem de nacionalidades, cor, raça ou credo. O sonho faz parte da humanidade, que com o tempo vai passando mas suas celebrações vão ficando. Vou continuar dispondo de tempo para esse projeto, faiscando e garimpando aqui e alhures pessoas e acontecimentos, verdadeiras pedras preciosas para conhecimento e satisfação do espírito. Sonho, essa coisa inquieta que nos move…
Por último, como escrevo este post da Bahia, mais precisamente de Salvador, quero registrar que aqui a luminosidade radiante é de outra natureza. De outro mundo. É para valer… O céu é de um azul celestial. Talvez mesmo coisa de Senhor do Bonfim e dos Orixás! Que eles nos protejam e que levemos a luz – e o amor – que cada um de nós traz consigo, para diminuir, nem que seja por um infinitésimo, a escuridão que ainda reina por aí!
Feliz Ano Novo!
Axé Baba!
Beto Benjamin
p.s.: Foto de capa do post – Praia de Imbassaí – Bahia por Frank Wooten
As demais são da ilha de Itaparica: o por-do-sol e o nascer da lua
Daniella Firpo cantava na Bahia desde meados dos anos 90 e era figurinha carimbada nas noites de Salvador onde “mandava ver” seu repertório de músicas pop, arrastando sempre uma galera que curtia aquele ritmo.
Filha de família de cantores, desde o avô Oscar Costa, que também era médico, passando pelo pai Renato Firpo, engenheiro de quem adotou o sobrenome artístico, a mãe Ana Maria, professora de violão e ainda a irmã Andrea Ferrer (cantora que já foi post aqui no NuncaseSabe). Que família, não é?
Pudera! Com uma herança dessas e tendo nascido em Salvador, podia dar outra coisa? Não, né? Se tornou cantora. Toca violão e é dona de bela voz somada a uma notável sensibilidade musical. Mas a história não para aqui…
Ela começa na Bahia – onde nasceu e cresceu – e se transporta para a Europa, onde em 2006 foi representar o Brasil na Itália no Festival Buskers em Ferrara, um dos mais importantes e disputados eventos de música de rua da Europa, que reúne todos os anos no verão cantores e bandas do mundo inteiro. Confira e, quem sabe, se programe para ver: http://www.ferrarabuskers.com/en/
Além de encantar o público daquela cidade do norte da Itália, Daniella conquistou um arquiteto italiano natural de Ferrara, com quem se casou. Foi morar na Itália em 2009 e desde então se apresenta em várias cidades daquele país acompanhada por músicos locais.
No mês passado, foi uma das dez finalistas do Parodi – um disputado concurso musical italiano de “world music” (lembram-se de Paul Simon com o Olodum em The Rythm of the Saints, Michael Jackson, Jimmy Cliff e tantos outros? Isso é world music.) -realizado na cidade de Cagliari na Sardenha. Participou do Parodi com uma composição de sua autoria em parceria com Roberto Grignolio chamada Destino que foi agraciada com o Prêmio Bianca D’Aponte Internazionale 2017.
Essa canção faz parte de seu último CD intitulado “Vento di Bahia e Nebbia” com canções em português e italiano lançado recentemente pelo selo romano AlfaMusic. No Brasil, já havia lançado dois CDs: Pela Beira e Espiral.
Mais um fato interessante: como uma verdadeira premonição do que viria a acontecer bem mais tarde, ela já havia morado antes na Itália, onde aprendeu o italiano e cursou História da Arte em Florença, uma cidade-museu, verdadeiro escândalo de obras de arte a céu aberto. Ah Florença!…
Com o domínio da língua italiana e muito à vontade na cidade de Ferrara onde vive, Daniella logo começou a compor canções misturando os idiomas, os ritmos e o romantismo linguagem também comum aos italianos.
Suas canções desde que lá chegou, se transformaram numa verdadeira ponte de ressonância entre os dois países – e continentes – mitigando um pouco a saudade da terra natal e incorporando novidades musicais e afetivas da nova terra que tão bem a acolheu. Segundo Daniella “esse CD foi um processo de aprendizado, vivenciado pela beleza da dualidade de viver e pertencer a dois mundos tão distintos e ao mesmo tempo tão extraordinários”.
Ouça Vento di Bahia e Nebbia:
Essa original e interessante combinação musical pode ser vista e ouvida no vídeo abaixo. Mas, primeiro tenha calma! Relaxe. Se sente num lugar aconchegante. Esqueça todas as maluquices do mundo atual e curta o vídeo de Daniella Firpo. Depois diga se sua canção e voz não são bacanas mesmo!
Beto Benjamin
Se quiser saber mais sobre Daniella Firpo:
http://daniellafirpo.wixsite.com/daniellafirpo
https://www.facebook.com/daniellafirpo.artistpage/
Nunca se Sabe